De sede da Copa do Mundo ao 7-1: futebol e país frustrados
A Elefante está lançando Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, um ensaio que mistura política, sociedade e futebol às vésperas da Copa do Mundo. Segue o início da quarta parte do livro, chamada ‘Futebol frustrado’.
Lula se elegeu em um contexto de frustração, mas também de otimismo. A excitação consumista provocada pelo Plano Real nos anos 1990, quando o país foi inundado de produtos importados e o real equivalia ao dólar, ruiu assim que Fernando Henrique Cardoso garantiu um novo mandato. Quando a euforia se dissipou, a realidade se impôs: estagnação econômica, desemprego, precarização dos serviços públicos, desindustrialização, desnacionalização econômica e cultural. A integração social prometida pela democratização se frustrava nas periferias do país, atravessadas por um cotidiano de violência e desamparo descrito pelos Racionais MC’s naquela década como um “holocausto urbano”.
Entretanto, a eleição do líder do Partido dos Trabalhadores na sua quarta candidatura, em 2002, renovou o horizonte de expectativas da democracia. Reacendeu-se a crença no desenvolvimento nacional, ofuscada desde os anos 1980; a promessa de um “neodesenvolvimentismo” alimentava a perspectiva de o país conquistar um lugar entre os grandes no concerto das nações. A ideia não era mudar o jogo global, mas jogar na primeira divisão.
Durante dois mandatos, os governos petistas pareceram encontrar a quadratura do círculo, melhorando a vida de muitos sem mexer na riqueza de poucos. A alquimia de um neoliberalismo inclusivo fez das políticas públicas petistas uma referência internacional e transformou seu carismático líder em uma celebridade planetária — de acordo com Barack Obama, Lula era “o cara”, o político mais popular do mundo.
No futebol, como na economia, a proposta do ex-sindicalista não foi subverter o jogo, mas negociar maneiras de jogá-lo a seu favor. Impotente para incidir nos processos que comprometiam o futebol brasileiro na globalização e evitando mexer no vespeiro do poder do esporte no país, o petismo investiu na inserção do Brasil no circuito espetacular global, conquistando em 2007 o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014.
Naquele momento, a economia brasileira bombava, Lula tinha sido reeleito e as expectativas populares estavam em ascensão. No futebol, o país tinha as maiores estrelas globais. Porém, entre o anúncio do Brasil como país-sede, em 2007, e o início do torneio, em 2014, o espírito do tempo mudou. Para analisar essa inflexão, recuperarei a trajetória da Seleção nas Copas desse período e depois discutirei a derrota por 7 a 1 para a Alemanha e suas reverberações, sempre em diálogo com dinâmicas sociais em curso no país e no mundo.
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Foto: Ricardo Stuckert/ABr – Agência Brasil












