Saudades do que já fomos (ou por que torcer para a Argentina)

Por Fabio Luis Barbosa dos Santos
Autor de Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol

Nenhum amante do futebol passou por Inglaterra e Argentina impune. Os comentaristas brasileiros no estádio terminaram o jogo inebriados. Mesmo a CazéTV, que estava à procura da maldade argentina, reconheceu a grandeza do que se viu. Para muitos brasileiros, a partida valeu mais do que terapia: reconheceu-se no vizinho aquilo que nos faltou. A inveja cedeu à admiração. O desejo de aniquilação arrisca ceder ao desejo de identificação. Será que finalmente torceremos pelos hermanos?

Provavelmente não. Mas a disposição odiosa se diluiu. 

A escolha por quem torcer envolve empatia, mas também pode ser antipatia: torcer pelo inimigo do meu inimigo. No caso de Brasil e Argentina, existe uma rivalidade no futebol. Mas também existe uma história que nos hermana. Para quem tem na irmandade latino-americana um horizonte, torcer pela Argentina é torcer por um irmão. Algo como torcer pelos jogadores do Palmeiras na seleção, mesmo que eu seja corinthiano. Somos diferentes seleções do que Bolívar chamou de Pátria Grande. Como toda identidade, esta é uma construção política. E como toda desidentidade, também é uma construção.   

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Poucos dias depois do tricampeonato no México em 1970, Vinícius de Moraes e Maria Creuza gravaram um show ao vivo em Buenos Aires. A apresentação começa com o poeta agradecendo aos argentinos pela torcida. Não há provocação ou ironia: o público aplaude e o espetáculo começa.

Em 1982, o Brasil enfrentou a Argentina na Copa. Foi uma partida tensa, que teve um pênalti não marcado contra o Brasil e a expulsão de Maradona, frustrado pela eliminação. Na primeira Copa de que me lembro, o narrador da Rede Globo enquadrou o duelo com lentes de Guerra Fria. Como no vôlei quando o Brasil enfrentava Cuba, o rival era retratado como inimigo.

Entre uma Copa e outra, o que aconteceu? Não tenho pesquisa, mas uma suspeita e uma convicção. A suspeita é que a hostilidade foi construída pelas ditaduras. Como reivindicar o nacionalismo quando a relação com os Estados Unidos é de subordinação? Para isso, é preciso criar um inimigo. A convicção é que a desunião entre países irmãos é uma construção que favorece o colonialismo, inclusive cultural. Temer o semelhante e admirar os dominadores é uma disposição afetiva que tem uma longa história, e está em alta na atualidade.

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Mas existe algo novo na maneira como se torce contra a Argentina nesta Copa. A novidade não são as lamentáveis demonstrações racistas da torcida – que, felizmente, estão sendo visibilizadas. A foto de Messi com Trump tampouco parece explicá-la — aliás, Harry Kane jogou golfe com o presidente. Na realidade, a seleção argentina se destaca pela antipolítica: não receberam Macri no Qatar, nem foram recebidos por Fernández quando voltaram campeões. Arrisco dizer que a novidade não está na Argentina, mas no Brasil. Será que por trás da hostilidade não mora uma inveja? Não haveria um descarrego odioso da frustração brasileira com sua própria Seleção?

Também no futebol somos irmãos. Assim como os brasileiros, a Argentina sofreu com a globalização, a drenagem de jogadores e a europeização do futebol. Até a virada contra a Inglaterra, os hermanos também não tinham vencido uma grande seleção europeia nos noventa minutos em mata-mata no século XXI. Mas, diferente do Brasil, a Argentina foi a principal vencedora mundial nos últimos cinquenta anos, além de ter revelado os dois maiores craques do planeta. Nas últimas quatro edições, os argentinos chegaram três vezes à final. Diferentemente dos brasileiros, a glória argentina não está no passado.

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O mundo corporativo captou o descompasso. A propaganda do Mercado Livre para a Copa no Brasil chamou-se “de volta ao país do futebol”. Glosando o filme De volta ao futuro, Ronaldo conduz uma van que viaja ao tempo em que a Seleção vencia Copas, e encontra o povo em festa. A versão portenha se chama “entrega argentina”. Ela mostra um torcedor que deseja estar com a seleção nesta Copa e decide enviar-se por Mercado Libre. A ideia se espalha, e logo se veem navios levando torcedores para encontrar a sua equipe no presente.

No caso da Coca Cola, sua propaganda relembra estatísticas para concluir que o Brasil ainda é um país do futebol: na sua linguagem, o “Brasil é essa Coca Cola toda”. A peça publicitária argentina é estrelada por Lionel Scaloni, dizendo que o futebol mudou e a Argentina não disputará essa Copa para ganhá-la — o que seria uma fala honesta na boca de Ancelotti, mas no país vizinho, causa estupor. Em seguida, o técnico esclarece: nós vamos para defendê-la. A conclusão é que “Argentina não é um sentimento. São todos.” Pelo prisma do futebol, o Brasil é uma marca. E a Argentina são os argentinos.

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Mais do que os resultados em campo, a seleção liderada por Scaloni se conectou com a população argentina. Também por essa conexão, consegue resultados memoráveis em campo. A equipe que disputa a Copa em 2026 tem um grande goleiro e Messi, o jogador que menos se movimentou entre os 618 atletas do torneio. Ainda assim, já fez tantos gols quanto Neymar nas três edições precedentes, e ainda perdeu dois pênaltis. Porém, muitos brasileiros se apegam ao Neymar imaginário, “pois é melhor achar o que poderia ter sido do que admitir a verdade”, como diz o post.

A Argentina poderia ter perdido para Cabo Verde, para o Egito, para a Suíça e para a Inglaterra. Mas as limitações do elenco foram superadas em partidas épicas. O time mais velho do torneio fez gols decisivos quando se esperava que sucumbisse ao cansaço. Quem não desejou ser argentino vendo a virada nos minutos finais perdendo por 2 a 0, como o Brasil foi incapaz de ousar? Quem não admirou o chute de Julián Álvarez contra a Suíça, quando nem Matheus Cunha nem Endrick nem Vini Junior marcaram no mata-mata? Quem não reviveu contra a Inglatera a nossa virada espetacular em 2002, na melhor partida de Ronaldinho Gaúcho nas Copas?

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Em entrevista após a partida contra o Egito, Scaloni foi perguntado se orientou Messi a mudar de posicionamento. Esclareceu que foi uma decisão dos jogadores, decisiva para a virada. Depois de perder dois pênaltis, Messi voltaria a cobrar? É uma decisão dele. Mas quem baterá no seu lugar? A equipe decidirá.

Contra a Inglaterra, Messi fez de novo — desta vez, sob orientação do treinador. Um time que termina todas as partidas melhor do que começa é porque tem um técnico que mexe bem. Messi abriu pela ponta direita, forçando a defesa inglesa a estender sua linha. O time todo entendeu, e a bola rodava no ataque pela esquerda antes de virar para a direita, onde encontrava o craque desmarcado. Com a bola nos pés (que Mbappe pouco conseguiu contra a Espanha), o que se viu foi Messi no seu melhor, mas também seus companheiros. É certo que o técnico alemão recuou a Inglaterra. Mas muitas equipes recuadas seguraram placares, como o Paraguai contra a Alemanha e a Inglaterra contra o México, com um a menos. O primeiro gol da Argentina saiu aos 40 minutos do segundo tempo: foi por pouco. O segundo, veio de um time que não se acomodou com o empate e partiu para a vitória. Os gols não foram marcados pelo técnico inglês, mas pela equipe argentina. 

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O técnico mais jovem da Copa passada, que tem por hábito olhar, perguntar e escutar, permitiu aos jogadores jogarem o seu futebol. Em Scaloni, a Argentina encontrou o seu Telê Santana. Muitos fios conectam esta equipe ao que se identifica como um futebol argentino, entre o fino toque de bola e a entrega, mas também a catimba. Fora de campo, constituiu-se um grupo em que ser humilde é parte de ser estrela. O resultado é que os torcedores argentinos se reconhecem nessa seleção, enquanto os brasileiros não se reconhecem na sua.

Se derrotados, é impensável que Scaloni mande um auxiliar dar entrevista como fez Ancelotti, como também é inconcebível Messi indo a Las Vegas disputar um campeonato de poker como fez Neymar. Pode ser que os argentinos se tornem agressivos em campo na derrota. Pode ser que chorem, mas se isso acontecer, ninguém verá nisso uma encenação. Porque o que se vê em campo é um grupo conectado entre si, com o torneio e com a sua torcida. Muito diferente da seleção brasileira.

Neste quadro, entendo que a corrente odiosa contra os argentinos revela mais sobre o Brasil do que sobre os hermanos. A rivalidade com os argentinos pode ser vista como colonialismo cultural, mas o que se vê agora é algo mais. Em um país polarizado, em que os estádios são cada vez mais reservados à torcida única, cultiva-se uma educação sentimental que faz do rival, um inimigo. A diferença é que na rivalidade o desejo é vencer, enquanto o inimigo se deseja aniquilar. À esquerda, a inimizade se embebe de identitarismo, como se torcer para a Argentina fizesse do brasileiro um racista, arriscando o cancelamento. Também não faltam teorias da conspiração, como se a Copa estivesse comprada. No conjunto, o que se vê é o antiargentinismo se encaixando em disposições afetivas cultivadas em uma esfera pública envenenada pelo bolsonarismo, também à esquerda. É uma sociedade emocionalmente regredida, incapaz de encarar as próprias frustrações e partilhar das alegrias do outro, hermano.

Há também um ranço de colonialismo cultural, de quem prefere identificar-se com a civilidade encharcada de sangue do que dar os braços aos colonizados. Se a questão for racismo, os três europeus finalistas constituíram impérios que forçaram a diáspora negra como escravizados. No século XX, como esquecer o papel da Inglaterra no apartheid? Na atualidade, a discriminação se reatualiza em políticas migratórias racistas em toda a Europa.

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“Você já viu um argentino ganhar uma guerra?”, cantaram os ingleses na arquibancada o jogo todo. Pura violência imperial disfarçada de humor. Como piada racista. Seu carniceiro imperial Gerald Templer dizia que para vencer uma guerra é preciso ganhar corações e mentes. O Estado argentino continua sem ganhar uma guerra que não seja contra o seu povo. As Malvinas continuam inglesas. Mas os argentinos conquistaram corações e mentes, além de um lugar na final, na bola. 

Torço para a Argentina porque somos países irmanados pelo passado colonial, pelas ditaduras e, agora, pela extrema direita. As desgraças deles também são nossas. E as alegrias deveriam ser.

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