Sophie Lewis: as questões da barriga de aluguel

Estamos lançando Outra gravidez é possível: feminismo contra a família, de Sophie Lewis. Segue uma entrevista da autora no canal de youtube da Verso Books, publicada há alguns anos, quando do lançamento do livro em inglês. Traduzimos alguns trechos da conversa, que pode ser vista na íntegra no vídeo abaixo:

“Estou interessada nas questões que emergem entre as mulheres que fazem barriga de aluguel em troca de dinheiro […] O medo que muitas feministas têm da barriga de aluguel é justificável de muitas formas. A pobreza das pessoas está sendo explorada de uma maneira que vai além da exploração à qual essas mesmas pessoas estão submetidas em qualquer indústria capitalista. Mas acreditar que as pessoas que assinam conscientemente um contrato para prestar serviços gestacionais não podem tomar decisões por si mesmas, que não devem ser ouvidas quando elas mesmas dizem que esse trabalho é rentável a elas comparado ao trabalho que realizavam antes, é uma forma de bioconservadorismo que diminui a humanidade dessas mulheres, além de prejudicar o feminismo”.

“A indústria da reprodução assistida e da barriga de aluguel é uma extensão lógica de uma realidade em que crianças consideradas biogeneticamente são posses naturais de seus pais. […] Muita gente considera a barriga de aluguel como “antinatural”, mas é na barriga de aluguel que encontramos a mais virulenta expressão da biogenética como destino, da parentalidade como algo garantido e da família nuclear como algo sagrado que não pode ser subvertido em nenhuma hipótese. A indústria da barriga de aluguel é uma atividade dedicada à mais extrema expressão de parentesco baseado na propriedade biogenética”.

“De acordo com Angela Davis, o que tem sido chamado de “barriga de aluguel” não é uma nova tecnologia de reprodução, mas um fenômeno que torna mais óbvia e mais aparente a fragmentação e a estratificação da maternidade em uma colônia de povoamento pautada pela supremacia branca, como os Estados Unidos. […] As feministas lésbicas, feministas marxistas negras e feministas queer dos anos 1980 faziam afirmações do tipo “todas as crianças pertencem a todo mundo” ou, como diziam as mães solo negras, “no futuro, as crianças não pertencerão ao patriarcado, e tampouco pertencerão a nós; pertencerão apenas a si mesmas”.

 

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