Descrição
Outra gravidez é possível é uma obra potente, honesta e brutal que chega em um momento muito oportuno para nós brasileiros, tendo em vista a profusão de informações falsas sobre esse tipo de gestação disponíveis em artigos na internet, portais de notícias e mídias sociais. Entre argumentos rasos e simplistas que buscam respostas rápidas para fenômenos extremamente complexos, Sophie Lewis faz exatamente o oposto: ela abraça o caos, convidando-nos a nadar nesse tanque mágico de líquido amniótico em que fetos e gestantes lutam para sobreviver, como os monstros da ficção científica. Hospedeiro e parasita, gestante e gestado. Nessa realidade ciborgue, não são mais apenas dois contribuintes de material genético dando origem a um embrião por meio de relações sexuais, mas sim sujeitos plurais: pais intencionais, médicos, doadores de gametas e gestantes substitutas, isso apenas para citar os potenciais participantes humanos. Há ainda a tecnologia que permite a cisão — e, por que não, a terceirização — desse processo. A autoria de uma criança é sempre coautoria, considerando que trazer um bebê ao mundo é um trabalho coletivo. […]
Apesar dos riscos e da baixa remuneração, Lewis acertadamente frisa como gestantes remuneradas não pedem que as socorram. São, acima de tudo, trabalhadoras que merecem nosso respeito, embora não o tenham de uma parcela considerável da sociedade. Para a autora, ser contra ou a favor da barriga de aluguel é irrelevante. Dessa forma, a questão é: por que devemos ser mais contra esse trabalho específico do que contra outros empregos de risco? Enquanto mulheres de classe média são encorajadas a buscar carreiras, espera-se que mulheres da classe trabalhadora aceitem qualquer emprego em troca de um salário. Qualquer emprego que o moralismo burguês julgue como digno e aceitável, que claramente não contempla ser gestante substituta. Outra gravidez é possível é sobre menos salvadoras brancas, mais ciborgues. Menos romantização da gestação, mais abraçar a violência bestial desse processo. Menos vínculo materno, mais vínculo placentário. Menos bioparentesco, mais camaradagem. Ciborgues híbridos, monstros flutuantes e dublês gestacionais são protagonistas desta obra que agora começa.
— Bruna Kern Graziuso, no Prefácio à edição brasileira
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É assombroso que permitamos que haja fetos dentro de nós. Diferentemente da maioria dos animais, centenas de milhares de seres humanos morrem todos os anos por causa de uma gravidez, transformando em piada os objetivos do milênio das Nações Unidas para deter essa carnificina. Nos Estados Unidos, quase mil pessoas morrem anualmente durante o trabalho de parto e outras 65 mil “quase morrem”. A causa disso é social, não simplesmente “natural”. As coisas são assim por razões políticas e econômicas: nós fizemos com que fossem assim. Sem dúvida, a gravidez tem seus prazeres; a natalidade é uma experiência única. Por isso, ainda que existam muitas mulheres que sofrem profundamente com a pressão para engravidar, muitas outras pessoas excluídas dessa experiência por diversas razões — sejam elas cis, transgênero ou não binárias — se sentem desoladas. Mesmo assim, e mesmo reconhecendo inteiramente essa sensação sublime que se experimenta na gestação, é surpreendente que não haja esforços mais concretos para tentar aliviar os problemas provocados pela gravidez. […]
A tendência da barriga de aluguel comercial não constitui uma transformação qualitativa no modo de reprodução biológica que atualmente destrói (como mostram as estatísticas de mortalidade antes mencionadas) a vida de tantas pessoas adultas. Na verdade, a biotecnologia capitalista não faz absolutamente nada para solucionar o problema da gravidez em si, porque esse não é um problema que pretende resolver. Ela responde exclusivamente à demanda de parentalidade genética à qual se aplica a lógica da terceirização. Embora o desenvolvimento permaneça desigual e incerto, fica claro que aquilo que o capitalismo propõe ao alienar e globalizar a gestação via barriga de aluguel é, como de costume, uma opção que envolve transferir o problema para outros lugares. O trabalho gestacional não desaparece nem se torna mais simples ao atravessar diversas barreiras regulatórias para se estabelecer em um mercado aberto. Na verdade, deixamos que as mulheres pobres façam o trabalho sujo, ali onde contratá-las é mais barato (ou mais prático).
— Sophie Lewis, na Introdução
SOBRE A AUTORA
Sophie Lewis é escritora e vive na Filadélfia, Estados Unidos, onde ministra cursos no Brooklyn Institute for Social Research. Teve ensaios publicados em periódicos como The New York Times, Harpers, Boston Review, n+1, London Review of Books e Salvage. É professora voluntária visitante no Center for Research in Feminist, Queer, and Transgender Studies da Universidade da Pensilvânia. Com mestrado pela Universidade de Oxford e pela New School for Social Research, doutorou-se pela Universidade de Manchester com a tese Cyborg Labor: Exploring Surrogacy as Gestational Work. Publicado originalmente pela Verso em 2019, Outra gravidez é possível é seu livro de estreia. Também é autora de Abolish the Family: A Manifesto for Care and Liberation (Verso, 2022) e Enemy Feminisms: TERFs, Policewomen, and Girlbosses Against Liberation (Haymarket, 2025).
















