Natureza e Sociedade na crise atual: o capitalismo na teia da vida

A Elefante está lançando Capitalismo na teia da vida: ecologia e acumulação de capital, de Jason W. Moore, em tradução de Humberto do Amaral. Ele é o organizador de Antropoceno ou capitaloceno, lançado em 2022. A nova publicação está em pré-venda com desconto em nosso site. Trata-se de um clássico do pensamento ecológico radical, que parte da ideia de que o capitalismo atua como uma forma de organizar a natureza. Segue o início do primeiro capítulo da parte 1, chamado Do objeto ao oikeios: a criação de ambientes na ecologia-mundo capitalista:

Por quase meio século, o Pensamento Verde se bateu com uma questão dúplice. Seria a natureza exógena às relações essenciais da história humana e, na maior parte das vezes, desempenharia ela os papéis de fonte (matérias-primas) e de sumidouro (poluição)? Ou seria a natureza uma teia da vida que abarcaria toda atividade humana e englobaria fontes e sumidouros, mas também outras coisas muito além disso? Seria a natureza, em outras palavras, um conjunto de objetos sobre os quais os humanos atuam? Ou uma teia da vida através da qual as relações humanas se desenvolvem?

A maior parte da literatura verde que surgiu desde a década de 1970 — a ecologia política, a história e a sociologia ambientais, a economia ecológica, a ecologia de sistemas e muitas outras vertentes — se desenvolveu ao responder “sim” (de uma forma ou de outra) a ambas as questões. De um lado, a maioria dos acadêmicos concorda que a humanidade é, de fato, parte da natureza. Eles rejeitam o dualismo cartesiano que insere a Sociedade (sem as naturezas) em uma caixa e a Natureza (sem os humanos) em outra. De outro lado, os vocabulários conceituais e as estruturas analíticas que governam nossas investigações empíricas continuam firmemente entrincheirados na interação entre essas duas unidades básicas e impenetráveis — Natureza e Sociedade. Esse “duplo sim” dá corpo a um verdadeiro enigma: como traduzir a filosofia materialista, dialética e holística dos humanos-na-natureza em vocabulários conceituais e em estruturas analíticas funcionais (e que funcionem)?

Desde os anos 1970, a aritmética da Natureza + Sociedade tem sido uma constante nos estudos ambientais. Ela mantém inflexões linguísticas distintas em várias ciências sociais históricas e na abordagem das duas culturas de forma geral. Cientistas do sistema terrestre falam sobre “sistemas humanos naturais acoplados” (Liuet al., 2007), ecologistas marxistas falam da “dialética natureza-sociedade” (Clark & York, 2005); os estudos culturais dão destaque a híbridos, agenciamentos e redes (Latour, 1993 [1994]; Bennett, 2005). O estabelecimento da aritmética como domínio legítimo de atividade acadêmica tem sido uma das maiores contribuições do Pensamento Verde. As ciências humanas ambientais e as ciências sociais trouxeram à luz a outra — e até então esquecida ou marginalizada — face do binário cartesiano: o mundo dos impactos ambientais. E este não é nenhum feito desprezível. “O meio ambiente” está agora firmemente estabelecido como um objeto de análise legítimo e relevante.

Gostaria de fazer duas observações sobre essa insigne conquista. Primeiro, a tarefa de apresentar a natureza como fator para o estudo da mudança global se encontra hoje, em grande medida, concluída. É cada vez mais difícil abordar os temas centrais da teoria social e da mudança social sem alguma referência às mudanças ambientais. Ainda há um desequilíbrio considerável entre as ciências sociais históricas no que diz respeito à valorização de pesquisas orientadas para o meio ambiente. Mas o projeto fundamental do Pensamento Verde, desde o tempo em que começou a reunir forças na década de 1970, tem sido bem-sucedido: a legitimidade e a relevância da pesquisa ambiental não estão mais em questão. Esse projeto sempre foi inspirado por uma sensibilidade dialética (Williams, 1972; Harvey, 1974; Walker, 1979), mas sua operacionalização se voltou para uma afirmação da primeira questão que propusemos logo de saída — meio ambiente como objeto —, e não para a natureza como teia da vida. Essa priorização — seria possível que as coisas fossem diferentes? — resultou na disjunção que encontramos atualmente: entre a humanidade-na-natureza (como proposição filosófica) e a humanidade e a natureza (como procedimento analítico). Essa disjunção permanece no âmago do impasse nos estudos ambientais de hoje: um impasse caracterizado por uma enxurrada de pesquisas empíricas e uma renitência em ir além da ideia de ambiente como objeto. A Natureza com “N” maiúsculo foi privilegiada em detrimento da teia da vida. Esse impasse pode ser entendido em termos de uma relutância generalizada em reimaginar a modernidade como produtora e produto da teia da vida.

Minha segunda observação se volta, portanto, ao exaurimento do binário cartesiano como ferramenta para o aprofundamento de nossa compreensão sobre o capitalismo, seja historicamente, seja na crise atual. Hoje, o binário lança sombras, mais do que luzes, sobre o lugar da humanidade na teia da vida. A noção de “Natureza + Sociedade” parece especialmente inadequada para o enfrentamento das crises que hoje proliferam — sobretudo aquelas ligadas às mudanças climáticas e à financeirização — e para lidar com as origens e o desenvolvimento dessas tendências de crise sob o amplo guarda-chuva da história mundial moderna.

Faz-se necessário, agora, ir além do ambiente como objeto? Poderia o projeto de elaboração de histórias ambientais dos processos sociais capturar adequadamente as múltiplas formas em que esses processos são não apenas produtores de ambientes mas também produtos deles? A ideia de que a organização social leva consigo consequências ambientais nos fez progredir bastante, mas não está claro o quão mais longe a Aritmética Verde poderá nos levar.

Mas, se a Aritmética Verde não puder nos levar aonde precisamos ir, o que poderá?

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