Silvia Federici: O corpo é a última fronteira do capital

Por Thiago Gama*
Entrevista publicada no IHU Unisinos
*Mestre e doutorando em História Comparada na UFRJ
Livros de Silvia Federici aqui na Elefante

Professora, para a senhora a acumulação primitiva nunca foi um momento único, mas uma condição permanente. Em 2026, onde a senhora vê essa mesma violência em ação?

Silvia Federici — A violência da acumulação primitiva, ou acumulação original, nós a vemos hoje em toda parte. É uma violência inscrita na economia política internacional. Os planos de desenvolvimento propostos pelas instituições internacionais — o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional — e os países que as sustentam, a comunidade europeia, os Estados Unidos, exigem um processo contínuo de inclusão, de deslocamento, de despossessão.

Exigem a imposição, em escala mundial e sobretudo aos países que um dia foram colonizados, de políticas econômicas que são, na verdade, uma nova forma de colonialismo. E essa imposição só pode se realizar com o máximo de violência.

É por isso que, em todo o mundo, vemos formas de guerra permanente. Há guerra por toda parte. A Palestina e o Líbano são, evidentemente, a situação mais visível, mas a guerra está em toda parte, a violência está em toda parte.

A maioria dos países da África, hoje, paga mais em juros sobre as suas dívidas do que investe em serviços sociais. Os programas de ajuste estrutural que foram obrigados a adotar aumentaram ainda mais essas dívidas, a ponto de existir agora um fluxo permanente de riqueza que sai da África e da América Latina, organizado por meio do sistema financeiro.

A implementação das políticas econômicas internacionais requer violência, porque a política econômica internacional é uma política de recolonização. É uma política que conduz ao deslocamento, ao cercamento de terras, à expulsão de populações inteiras, e que impõe níveis severos de empobrecimento em escala mundial. Por isso, ela só pode ser implementada por meios violentos.

Do seu ponto de vista, Gaza é o corpo do mundo. Qual o seu comentário?

Silvia Federici — Gaza é muito visível. Penso que Gaza torna tudo muito visível e que fala pela situação do que é a política econômica internacional hoje, porque é um genocídio que agora acontece à luz do dia, à vista de todos.

Esse genocídio é subscrito, sustentado por todos os governos mais poderosos do mundo — não apenas os Estados Unidos, mas também a União Europeia — e não há oposição real.

É preciso acrescentar que a destruição terrível que vemos em Gaza, e que vemos agora no Líbano, convive com outra destruição que não é tão visível. É uma destruição que também leva à morte de milhões de pessoas, que leva ao empobrecimento de milhões, e que se organiza por meio da política econômica.

Ela se organiza, por exemplo, pelos programas de ajuste estrutural impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial a dezenas de governos. Quando se toma um empréstimo do FMI, é preciso aceitar o corte de todos os serviços sociais — ou seja, nenhum recurso para a educação, nenhum recurso para a saúde, nenhum recurso para garantir as necessidades básicas.

Isso conduz inevitavelmente à morte. As pessoas ficam sem meios de se alimentar ou de cuidar de si mesmas. Não podem permanecer nas suas terras; precisam abandoná-las, porque parte do acordo é abrir as portas a toda sorte de empresas — de mineração, de petróleo, do agronegócio. Gaza é visível; há, porém, outro genocídio invisível. É isso que precisamos compreender. Escrevi um artigo, há vários anos, intitulado “A Palestina é o mundo”.

A senhora chamou o corpo de última fronteira do capital. Num momento em que as máquinas digitais mapeiam nosso cuidado e nossas emoções, o corpo ainda é uma fronteira ou já foi conquistado?

Silvia Federici — É importante compreender isso. Faço referência à obra de uma feminista muito importante, que morreu há alguns anos, Maria Mies, autora do belo livro Patriarchy and Accumulation on a World Scale.

Antes de morrer, Maria Mies escreveu muito sobre o fato de que o corpo se tornou um dos principais terrenos da acumulação capitalista hoje. Há grandes indústrias construídas sobre a conquista do corpo. E, sim, há uma luta.

Não acredito que essa luta esteja perdida. Mas, certamente, hoje o corpo está sob enorme pressão. Há uma guerra contra a reprodução, e é uma guerra com muitas frentes. Veja a questão da natalidade, da procriação: há uma guerra tremenda no terreno da procriação, que decide quem pode nascer, quem pode se reproduzir e quem não pode.

Algumas pessoas são esterilizadas; mulheres são esterilizadas; a algumas mulheres se nega o direito de se reproduzirem, e a outras se nega o aborto. É importante entender que o capitalismo não força a todos da mesma maneira.

Há também a questão da saúde. Cada vez mais se perde o acesso à saúde. É caro demais ir a um hospital, é caro demais ir a um médico; em todo o mundo, os governos cortam o investimento em saúde.

Não é por acaso que vemos um aumento dos casos de câncer. Falo de uma guerra em curso que afeta o corpo. E há, naturalmente, o desastre ecológico: cada vez mais a própria natureza, o ar e a água que bebemos estão envenenados; os alimentos que comemos são produzidos com pesticidas e fertilizantes. Tudo isso tem um efeito sobre o corpo.

O ataque à natureza e a devastação ecológica têm um impacto imediato sobre os nossos corpos. O corpo é a última fronteira: de um lado, ele se tornou um lugar de investimento, um lugar de disciplinamento; ao mesmo tempo, é também um enorme lugar de resistência.

Em todo o mundo há uma luta — uma luta para subtrair a nossa vida, o nosso corpo, ao controle da disciplina capitalista. O movimento feminista é parte da garantia de que essa fronteira não se complete. Esse é um dos principais terrenos de luta do movimento feminista.

Alguns historiadores afirmam que os cercamentos dos campos — enclosures — foram o ponto de partida do capitalismo. A senhora, porém, sustenta que foi a captura dos corpos das mulheres que deram origem ao capitalismo. Poderia explicar essa tese?

Silvia Federici — O que afirmo é que há um cercamento não apenas da terra, mas também do corpo. O processo de cercamento não é apenas o da terra — em que antes se erguiam as cercas —, mas também o cercamento do corpo.

O cercamento do corpo é o corpo tomado por um conjunto de legislações e de formas de controle que impedem as mulheres de ter autonomia em relação à procriação, em relação à sexualidade e em relação à saúde do próprio corpo.

Não controlamos, por exemplo, os alimentos que comemos. Um dos terrenos de luta dos movimentos feministas em todo o mundo é justamente a luta pela terra, pela agricultura e pela alimentação.

Soberania alimentar. Bancos de sementes. Sabemos que há uma relação direta entre a terra, o alimento, o ar, a água e o nosso corpo. O que colocamos na terra também colocamos no corpo.

O aumento do número de cânceres, de doenças, está em relação direta com esse ataque — ataque à terra, ataque ao corpo. Há, ainda, toda a luta pela procriação: poder decidir se se quer ou não ter filhos, em vez de ser forçada a se esterilizar ou a procriar contra a própria vontade.

Esses são alguns dos terrenos mais importantes, tradicionalmente, do movimento feminista — mas são também terrenos em que o movimento feminista se conecta com outros movimentos: com o movimento ecológico e com o movimento em defesa de uma agricultura alternativa.

É importante perceber — como afirmei em um dos meus livros, Além da pele — que o corpo não é autoencerrado. E não estou sozinha nisso. O capitalismo, os filósofos e teóricos capitalistas nos deram a ideia do corpo como algo fechado.

É importante ver o corpo como algo conectado, estendido — conectado com o mundo natural, conectado com outras pessoas. Aquilo que está no corpo nunca se define apenas pelo que se encontra dentro da periferia da nossa pele.

Professora, o Brasil vive um paradoxo. É um dos países que mais matam mulheres no mundo — a ponto de se cunhar o termo feminicídio. No entanto, possui uma legislação moderna, a Lei Maria da Penha, dotada de forte aparato protetivo. Mas essa lei não se mostra eficaz para estancar a epidemia de feminicídio no país. Em sua visão, por que isso acontece?

Silvia Federici — O Brasil tem uma riqueza imensa — minerais, agricultura, água. Assim se constitui uma política de exploração — e isso vale para o mundo todo, vale para os Estados Unidos, vale para a Europa —, uma política de exploração em relação à vida econômica, ao trabalho e à natureza, sem que se abandone, ao mesmo tempo, uma divisão hierárquica: brancos e negros, homens e mulheres.

Essas hierarquias precisam ser mantidas com violência. O feminicídio é resultado de duas coisas. De um lado, cada vez mais mulheres estão lutando, cada vez mais mulheres rejeitam o controle masculino sobre as suas vidas; a violência que ocorre é também uma resposta direta a essa luta.

De outro, existem políticas que exigem um aprofundamento das hierarquias, políticas que exigem que as mulheres sejam controladas — que o trabalho das mulheres, a procriação, sejam controlados —, o que instiga uma nova forma de patriarcado.

Isso é conveniente para os governos. Vemos isso na Argentina. Milei agora diz que a culpa da crise argentina é do movimento feminista — que teriam sido as mulheres a colocar o país em crise, por causa de todas essas leis que as favorecem.

É conveniente opor mulheres a homens quando as condições de vida de todos foram atacadas; é conveniente transformar as mulheres em bode expiatório. O feminicídio está aumentando no mundo inteiro.

É importante perceber que o feminicídio aumentou enormemente em toda parte — e assim se vê que não é só o Brasil, que o feminicídio é sistêmico. Há algo que tem a ver com as novas formas de desenvolvimento político e econômico, com as novas formas de vida, com as novas formas de capitalismo.

O feminicídio tem a ver com o fato de que há uma necessidade de uma nova divisão entre mulheres e homens, uma necessidade de um novo controle sobre a vida das mulheres, sobre o trabalho das mulheres. Assim, esse tipo de violência é funcional às novas formas de desenvolvimento político e econômico.

O lar já foi uma fábrica oculta de cuidado não remunerado. Hoje nosso cuidado e nosso afeto alimentam gratuitamente as máquinas de dados. Estaríamos diante de um novo cercamento?

Silvia Federici — Sim, claro. A alternativa ao trabalho não remunerado não está nessas formas de controle que, mais uma vez, individualizam as relações e isolam as pessoas. Elas obrigam a recorrer à máquina, em vez de construir uma relação mais ampla de solidariedade, uma forma mais ampla de vida comunitária.

O modo como a tecnologia entrou nas relações pessoais é uma expressão da crescente alienação em relação às outras pessoas e ao nosso próprio corpo. Sempre me surpreende que hoje as pessoas encontrem os seus parceiros por meio desses mecanismos de encontro, por meio de uma máquina.

Isso nunca acontecia, porque, quando eu era jovem, havia muitos lugares, muitas ocasiões para conhecer pessoas. Agora temos formas de vida que nos isolam, de modo que é preciso recorrer à internet para encontrar um amor, para encontrar um amigo.

O resultado é que cada vez menos passamos tempo com outras pessoas e, quando o fazemos, é sempre de maneira muito abstrata. Relações tão abstratas não produzem a forma de solidariedade que existe quando se compartilham tantas outras partes da vida.

A senhora é italiana. Giorgia Meloni representa a extrema direita na Itália. Poderia nos dizer algumas palavras sobre a política italiana sob o governo dela?

Silvia Federici — Não posso dizer muito, porque não a conheço o suficiente. Sei que é de direita e, como mulher de direita na Itália de hoje, ela apoiou toda a política de militarização e apoia Israel.

Quem deveria falar sobre isso são as pessoas que vivem lá. O que sei é que, infelizmente, temos agora esse governo de extrema direita, que investe nessa orientação e a sustenta; mas grande parte da Europa, neste momento, parece estar se deslocando para a direita.

No horizonte de uma ordem unipolar ou multipolar, a senhora vê os Estados Unidos como um país em declínio no mundo?

Silvia Federici — Todos falam em declínio. Prefiro não falar sobre o declínio dos Estados Unidos. Pode ser que exista; não sei. Mas sei que, neste momento, infelizmente, os Estados Unidos se recuperaram.

Última pergunta. O capital quer que se reproduzam trabalhadores; a senhora fala em reprodução da vida. Essa reprodução a serviço do capital pode produzir pessoas sem consciência, prontas para a guerra e para um novo nacionalismo?

Silvia Federici — Sim, claro. Ambas as coisas são verdadeiras. É evidente que querem que as mulheres produzam pessoas para o trabalho e soldados. Isso sempre foi assim, e hoje um pouco mais, porque vivemos um período em que a guerra se tornou algo permanente. Essa tem sido a tarefa atribuída às mulheres: produzir para o mercado e produzir as pessoas.

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