Como a América Latina produz, se apropria, transforma e ressignifica teorias?

Por Bernardo Ricupero
Texto da orelha de Introdução à teoria social latino-americana (org. Raphael Lana Seabra & Fabricio Pereira da Silva)

Organizar uma coletânea implica, antes de mais nada, escolhas. A primeira delas é relativa ao escopo do trabalho. No caso, trata-se de um livro sobre a “teoria social” latino-americana e não — como se costuma dizer — sobre o “pensamento” latino-americano. Ou seja, há aqui uma decisão que é tanto epistemológica quanto política, tratando-se de afirmar o estatuto não subalterno das ideias produzidas em Nossa América. Mas há também a opção de se lidar com uma teoria (ou seriam teorias?) não restrita a barreiras disciplinares, mesmo que se reconheça a importância da institucionalização das ciências sociais nas formulações intelectuais elaboradas na América Latina a partir de meados do século XX.

Em outras palavras, Introdução à teoria social latino-americana trata da relação entre ideias e um espaço e um tempo específicos, analisando como a periferia latino-americana produz, se apropria, transforma e ressignifica teorias, numa relação complexa com o centro capitalista euro-estadunidense, do final do século XVIII até aos nossos dias. Os processos de independência funcionam como fio condutor do livro e, portanto, da própria teoria social latino-americana — nem que seja como meta, até porque, desde o século XIX, se percebe como a América Latina está longe de realizar sua emancipação, que pode assumir significados variados e até contraditórios, pressionando a realidade.

Os ensaios aqui reunidos abordam a vida e a obra de dezessete escritores e escritoras, que vão dos venezuelanos Francisco de Miranda e Armando Córdova ao argentino Domingo Faustino Sarmiento e à chilena Gabriela Mistral. Entre eles, aparecem o prócer da independência, Simón Bolívar, e um autor cujo radicalismo destoa de sua época, José Martí, além do principal formulador do indianismo que tem agitado os Andes, o boliviano Fausto Reinaga, e da aristocrata argentina Victoria Ocampo. Ou seja, estão aqui nossos “clássicos”, condição do portorriquenho Eugenio María de Hostos, do mexicano José Vasconcelos, dos argentinos Manuel Ugarte e Ezequiel Martínez Estrada, do peruano José Carlos Mariátegui e do cubano Roberto Fernández Retamar.

Os organizadores têm consciência de que estão trabalhando com um “cânone”. Portanto, o que é um “clássico” não é tomado como um dado, mas como uma construção, sujeita à disputa e à modificação. Nessa referência, é decidido deliberadamente incluir um autor mais recente, o boliviano René Zavaleta Mercado, cuja reflexão sobre o conceito de abigarrado tem revelado enorme potencial heurístico. Mais importante, escolhe-se destacar autoras menos conhecidas, como a argentina Alfonsina Storni e a paraguaia Serafina Dávalos. Boa parte da graça desse cânone está nas possibilidades que traz, abrindo caminho para combinações que podem não ser óbvias, ao se destacar questões como a identidade, o subdesenvolvimento e o lugar da mulher na sociedade.

Também é preciso salientar como se mobilizou uma equipe de pesquisadores altamente qualificada, oriunda de diversos países latino-americanos e disciplinas acadêmicas, para escrever os capítulos que compõem Introdução à teoria social latino-americana. Apesar de serem brasileiros, os organizadores resolveram não incluir ensaios sobre pensadores do país, justamente na tentativa de ampliar o conhecimento dos leitores lusófonos sobre autores dos países vizinhos. Assim, o livro terá um importante papel para continuarmos refletindo sobre o (difícil) lugar do Brasil na América Latina.

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Foto: Hugo Chávez apresenta uma reconstituição da imagem de Simón Bolívar em 2012.

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