Produzir alimentos a partir de resistências e alternativas comunitárias
A Elefante está lançando Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil, de Inara Nascimento & Rute Costa, uma publicação com o apoio do Instituto Ibirapitanga. Segue um capítulo do livro — aqui a orelha, e aqui um outro trecho já publicado em nosso blog.
Produção de Alimentos
O futuro do planeta e das espécies que o habitam depende da nossa capacidade global de cooperação para defender e fortalecer os povos indígenas e as comunidades locais, para garantir a seguridade dos territórios tradicionais face aos interesses econômicos predatórios, e para criar e promover soluções climáticas efetivas baseadas na natureza e nas comunidades que a protegem.
— Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (2021)
À medida que a crise climática se intensifica, os debates sobre o futuro da alimentação ganham relevância, aprofundando as disputas entre as diferentes abordagens que buscam transformar o modelo atual de produção de alimentos. Questões como viabilidade, lucratividade e escalabilidade se tornam centrais, uma vez que estão intimamente ligadas às relações de poder, às práticas coloniais e à hierarquização dos saberes. As soluções frequentemente propostas, porém, refletem uma visão centrada em tecnologias modernas e práticas industriais, o que exclui alternativas baseadas em conhecimentos tradicionais.
Apesar dessa marginalização, as práticas e técnicas de produção de alimentos desenvolvidas por povos e comunidades têm se mostrado essenciais como formas de resistência e alternativas viáveis ao modelo industrial. O pacote tecnológico da “revolução verde”, amplamente responsável por impactos negativos no clima, na biodiversidade e na saúde humana, contrasta fortemente com os sistemas agrícolas ancestrais, baseados em outra relação com a natureza, preservando a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, enquanto garantem a segurança alimentar e a soberania dos povos.
Desde 2015, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) tem promovido o programa de Sistemas Agrícolas de Importância Global (GIAHS), que visa a identificar e salvaguardar ecossistemas, conhecimentos e culturas relacionados a práticas agrícolas tradicionais. Relatórios como o da Global Alliance for the Future of Food (2021) evidenciam os agroecossistemas indígenas como profundamente adaptados às condições locais, destacando que não dependem de mecanização ou agroquímicos; baseiam-se em princípios como a circularidade, a baixa interferência nos ecossistemas e a eficiência no uso de recursos, e oferecem alternativas sustentáveis ao modelo industrial dominante.
No Brasil, os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SAT) foram reconhecidos como patrimônios imateriais, atendendo às demandas das próprias comunidades. Embora a relevância dos SAT seja amplamente reconhecida, sua contribuição para a superação dos desafios do atual modelo de produção de alimentos ainda não tem se refletido em políticas públicas adequadas. Faltam iniciativas que fortaleçam e protejam esses sistemas, como garantia de territórios, acesso a crédito específico e assistência técnica apropriada. A retomada da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Pnapo) em 2023 ainda não contempla plenamente as particularidades dos SAT.
A agroecologia, como ciência crítica e autorreflexiva, promoveu uma abertura epistêmica e política para as ciências indígenas e negras, valorizando seus conhecimentos tradicionais. São saberes desenvolvidos ao longo de milênios, que permitem otimizar ciclos biológicos com baixo impacto ambiental, graças a técnicas como os sistemas agroflorestais, as roças, os cultivos consorciados e as práticas de rotação e pousio. No entanto, essa relação ainda é delicada, e povos e comunidades tradicionais continuam lutando por espaço e reconhecimento no campo agroecológico e resistindo à cooptação e ao apagamento de suas histórias e contribuições.
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Ilustrações do livro: Yacunã Tuxá / Acervo Ibirapitanga










