Descrição
Este livro propõe analisar a trajetória de algumas mulheres ligadas à extrema direita a partir de suas próprias gramáticas, interrogando as formas pelas quais se articulam valores conservadores, práticas de cuidado e reivindicações de protagonismo. Ao fazê-lo, busca-se deslocar leituras simplificadoras que reduzem essas mulheres à condição de coadjuvantes, evidenciando-as como agentes que produzem sentidos, organizam redes e disputam o significado da política. Nesse percurso, a extrema direita aparece não apenas como campo ideológico, mas como espaço de elaboração de uma feminilidade específica, na qual a atuação pública se ancora em uma ética da colaboração, da autoridade moral e da centralidade da família.
— Christina Vital da Cunha & Jacqueline Moraes Teixeira, na Introdução
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Foi tentando entender mais uma parte do quebra-cabeça em que se transformou a política e a sociedade brasileiras que convidamos as pesquisadoras Christina Vital da Cunha e Jaqueline Moraes Teixeira para, juntas, analisar as lideranças femininas que apoiam a extrema direita brasileira, ou seja, aquelas que transitam nos círculos de poder mais altos e que contribuíram decisivamente para a organização das forças de extrema direita no Brasil. Embora essas mulheres tenham ganhado visibilidade, o gênero continua sendo um fator relevante na distribuição de poder. As declarações dos caciques partidários insistem em colocar as mulheres apenas como braços para o trabalho nas comunidades. Propostas como a substituição do voto individual por um modelo de “voto familiar”, embora façam parte da estratégia da extrema direita de continuar ditando a agenda midiática, também sinalizam as disputas internas discursivas e dentro dos partidos.
Como nossas sinalizam as autoras, as lideranças femininas da extrema direita recusam o confronto direto, apostam na construção de alianças e elegem como inimigo o “feminismo”, o qual, segundo elas, simboliza a ruptura, a inimizade, a agressividade. Assim, o feminismo é frequentemente retratado como uma ameaça à família heteronormativa e aos papéis tradicionais de gênero, considerados centrais para a organização da sociedade. Lideranças do movimento feminista apontam que a presença de mulheres em espaços de poder é relevante, mas não suficiente para promover igualdade de gênero. A questão central continua sendo quais direitos, políticas e relações sociais são fortalecidos por um projeto político que fortaleça os direitos das mulheres. Ao mesmo tempo, isso não implica ignorar a diversidade entre as mulheres: elas não constituem um grupo homogêneo e impulsionam projetos políticos distintos.
— Marilene de Paula, no Prefácio
SOBRE AS AUTORAS
Christina Vital da Cunha é bolsista de produtividade do CNPq, professora do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde coordena o Laboratório de Estudos Sócio-Antropológicos em Política, Arte e Religião (Lepar). É autora do livro Oração de traficante: uma etnografia (2015), coautora de livros como Religião e política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições 2014 (2017), Religião e política: uma análise da participação de parlamentares evangélicos sobre o direito de mulheres e de lgbts no Brasil (2012) e coorganizadora de coletâneas como Laicidade e democracia no Brasil (2025) e Decodificando a extrema direita (2024). É editora do periódico científico Religião & Sociedade desde 2017.
Jacqueline Moraes Teixeira é bolsista de produtividade do CNPq, professora do Departamento de Saúde e Sociedade e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). Integra a diretoria da Associação Brasileira de Antropologia e o Comitê de Políticas Públicas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). É autora de A mulher universal: corpo, gênero e pedagogia da prosperidade (2016) e A conduta universal: governo de si e políticas de gênero na Igreja Universal (prelo). Participa do comitê científico da revista Cadernos Pagu e da coletânea Antropologia hoje.











