
A autonomia zapatista chacoalha o México e inspira o mundo
Por Paulo Silva Junior
Elefante na Sala
É do sul do México, próximo da fronteira com a Guatemala, que vem um notável e bastante conhecido movimento político, social e de resistência de nosso tempo. O Exército Zapatista de Libertação Nacional, que se firmou publicamente em 1994, acaba de completar 30 anos marcando posição na disputa pelo território e na reafirmação da identidade indígena. Isso tem inspirado novos modelos de comunidade diante da repressão e da marginalização do Estado e, por consequência, nos levado a pensar sobre a construção, desafiadora e constante, de autonomias e alternativas.
O Elefante na Sala é o podcast da Editora Elefante, disponível nas plataformas de streaming (link para Spotify e Youtube) e no player cima. Você nos apoia curtindo, seguindo e avaliando nossos canais. Nesta primeira temporada, a partir de março de 2025, vamos trazer uma série de conversas com autores do nosso catálogo, com novos episódios às quintas-feiras. O primeiro programa trata de Geografia da autonomia: a experiência territorial zapatista em Chiapas, México, num papo com Fábio M. Alkmin. A transcrição está abaixo, e estará sempre aqui no nosso blog e na seção Podcast.
Fábio, para começar de forma mais didática: onde fica Chiapas? Que particularidades a gente tem ali para que o exército zapatista se estabelecesse?
Então, Chiapas é um Estado localizado no sul do México, na região da fronteira com a Guatemala. Politicamente bem marginalizado na história mexicana, é um território predominantemente indígena, do tronco maia, e esse fator acabou trazendo essa característica de um Estado marginal e pouco integrado ao restante do Estado mexicano. Para você ter uma ideia, em 2020, cerca de 36% da população de Chiapas se auto-identificava como indígena. Uma população historicamente discriminada. Em Chiapas, há muitos relatos de escravidão por dívidas, inclusive na metade do século XX, além de processos de expulsão de terras, mortes por falta de atendimento à saúde, entre muitos outros abusos. Conta-se que em São Cristóbal de las Casas, na década de 1980, um indígena não podia nem mesmo dividir a mesma calçada com um mestiço. Eles eram considerados cidadãos de segunda ou terceira classe. Além disso, é importante lembrar, e trazer essa informação, que a Revolução Mexicana não conseguiu transformar com tanto impacto a estrutura agrária de Chiapas como em outras regiões do México. Então, Chiapas chegou no final do século XX com uma grande concentração de terras na mão de uma elite mestiça. E essas desigualdades profundas, somadas a esse abandono estatal e até o avanço das políticas neoliberais — a gente está falando do final dos anos 1980, começo dos 1990 —, acabou criando um terreno fértil para a formação de movimentos sociais, entre eles o Exército Zapatista de Libertação Nacional. O Exército Zapatista ficou dez anos na clandestinidade, se organizando, e até que em 1994 ele resolveu declarar guerra ao Estado mexicano, conclamando que todos os povos indígenas no México também se levantassem contra o Estado, na busca de uma vida digna.
E antes da gente entrar na experiência zapatista em si, queria reforçar a palavra autonomia, que está no título. Como se constrói uma experiência autônoma, e o que a gente está, no fim das contas, chamando de autonomia, dentro de um pensamento hegemônico de hoje?
Bom, o conceito de autonomia está muito próximo ao conceito de autodeterminação. Então, basicamente, de maneira muito simples, a autonomia é a forma que um determinado grupo se organiza politicamente e também territorialmente para alcançar esse objetivo da autodeterminação. E como se dá essa auto-organização autônoma na prática? Basicamente, a partir da delimitação de territórios que são administrados por autogovernos. Esses autogovernos buscam a horizontalidade, a descentralização, são baseados no que a gente chama, a nossa sociedade ocidental, de democracia direta. Mas que, para os povos indígenas, é uma prática secular, uma prática histórica. Nesse contexto, as assembleias são fundamentais, é ali onde toda a comunidade possui o direito à palavra. As assembleias zapatistas são longas, às vezes demoram mais que dias, porque é naquele espaço onde, de fato, são discutidos os problemas de forma articulada e, pela criação de consensos, essas decisões são coletivamente tomadas e levadas a cabo. No caso zapatista, o que é mais interessante no movimento é que isso tomou uma proporção radical. Por conta das particularidades da guerra, da própria formação do zapatismo, das particularidades históricas de Chiapas e muitos outros fatores, os zapatistas acabaram rompendo totalmente com o Estado mexicano e decidiram exercer o autogoverno em tudo. Ou seja, educação, saúde, justiça. Nos territórios zapatistas, todas as instituições são zapatistas baseadas nessa ideia de autonomia. A gente tem muitos outros movimentos que também desenvolvem autonomia, mas muitas vezes essas autonomias acabam sendo parciais. É um grupo que faz o processo de autodefesa, ou é um grupo que tem uma espécie de justiça autônoma, um desenvolvimento na parte de uma educação autônoma e assim por diante. A questão dos zapatistas é que eles levaram isso a uma radicalidade, eles acabaram criando essas instituições totalmente autônomas. Vale lembrar que essa ideia não traz a criação de um novo Estado, uma replicação dessa ideia de Estado-nação, mas é justamente uma mudança em relação a esse paradigma, digamos. O que eles tentam fazer ali são experiências de autogoverno territorializadas. As relações que se desenvolvem ali dentro, as relações de produção, elas apontam um caminho não capitalista. A ideia, por exemplo, da propriedade da terra é uma outra forma de se organizar. Então, de maneira geral, é um pouco isso, rebeldia e resistência, no caso zapatista, se manifestam na capacidade de imaginar e efetivar esses outros modos de vida e organização, baseados na coletividade, autogestão e manutenção dos modos de vida indígena. Ou seja, autodeterminados, para a gente voltar no começo da resposta.
Você parte, no início do livro, de um panorama histórico das comunidades indígenas, na formação dos Estados da América Latina, e vai contar como as elites foram mantendo essas sociedades indígenas num certo espaço de passado, numa ideia de raízes da nação. Aí queria saber, nessa linha do tempo, como que essa relação no México vai dar no cenário dos anos 1990. O que o México está vivendo para ali, em 1994, para o movimento se estabelecer?
Historicamente, a relação dos povos indígenas com o Estado mexicano sempre foi marcada pelo racismo e pela imposição por parte do Estado de relações de exploração. Nada diferente do Brasil, diga-se de passagem. Só que, fazendo uma comparação, no México a população indígena acabou sendo demograficamente muito mais expressiva. Os processos de genocídio no Brasil foram mais intensos, digamos assim. Atualmente, enquanto no México mais de um quinto da população se autodeclara indígena, no Brasil, atualmente, esse número chega em torno de 1%. Então, nesse sentido, o México, a sua criação da identidade mexicana, não poderia desconsiderar completamente essa população. A solução dada pelo Estado mexicano nesse contexto foi colocar esses povos nos livros de história, ou seja, como raízes dessa identidade mexicana nacional. E, ao serem colocados nesse lugar cômodo do passado, eles acabaram sendo silenciados, marginalizados enquanto parte expressiva da sociedade mexicana contemporânea. Esse cenário de exclusão do poder político presente, assim como dos projetos de futuro em relação aos povos indígenas, eles não estarem nesse projeto de nação mexicana, isso acabou exacerbando a tensão entre esses povos e o Estado. No contexto dos anos 1990, isso chegou a um ponto de tensionamento muito, muito forte por conta das políticas neoliberais. Então, isso acabou agravando a situação de vulnerabilidade desses povos. Naquele momento, o México, por exemplo, estava firmando o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos e o Canadá. A perspectiva era de os povos indígenas sofrerem essas pressões econômicas ainda mais fortes. Naquele momento, por exemplo, o presidente mexicano saía em rede nacional para dizer que finalmente o México estava entrando no primeiro mundo, mas nesse primeiro mundo não havia lugar para essas populações indígenas. E aí está justamente a questão. Essas populações estavam, naquele momento, sendo expulsas dos seus territórios, estavam morrendo de doenças que o Estado poderia estar tratando, estavam morrendo de desnutrição. Esse era o contexto de Chiapas. Então, esse acúmulo de injustiças nessa região do México acabou impulsionando o surgimento dos zapatistas. O movimento cristaliza, de certa maneira, essa defesa dos direitos originários, esse controle sobre os territórios e o próprio direito desses povos maias continuarem sendo maias.
E como essas instituições autônomas vão se firmando, Fábio? Em 2007, o então subcomandante Galeano afirmou que os avanços em pontos como saúde, educação, moradia, alimentação têm como ponto de partida a recuperação dos meios de produção. Como que na prática, na vida cotidiana, essas instituições vão se firmando diante do Estado?
Então, essa afirmação do subcomandante Marcos (naquele momento ele se chamava Galeano, hoje, na verdade, já nem é sub Marcos, é o capitão Marcos) tem a ver com o amplo processo de recuperação de terras por parte dos indígenas em Chiapas. Ao longo desse processo, desde 1994. A gente não sabe os números exatos sobre isso, mas calcula-se que até hoje os zapatistas recuperaram cerca de 250 mil hectares em Chiapas, que estavam sob o controle de grandes proprietários não indígenas. E foi um processo muito tenso, e até hoje é muito tenso, a questão agrária no México, de maneira geral, é muito forte, mas em Chiapas isso é levado ao extremo. E essas recuperações que aconteceram lá, muito próximas do que a gente chama aqui no Brasil de retomadas, que os indígenas executam também no seu processo de luta pelo território, é um ponto muito importante, porque para o exercício da autonomia é fundamental a existência desses territórios. Ou seja, é uma base material onde essas instituições autônomas vão se autogovernar, vão atuar, onde vão se dar os projetos e tudo mais. Então nesse sentido, a partir dessa reforma agrária revolucionária, os zapatistas puderam estabelecer suas próprias instituições autônomas, como as escolas, serviços de saúde, sistemas agrícolas. Tem a produção agrícola que é coletivizada, tem uma produção agrícola que é familiar. Ou seja, eles fizeram, eles organizaram essa geografia da autonomia no território.
Vamos falar dos contrapontos à experiência, Fábio. O livro vai lembrar das críticas do David Harvey em 2004, quando o movimento estava completando 20 anos, e aí você vai puxar também para uma reflexão de hoje, aos 30 anos, falando dos limites e desse potencial antissistêmico da autonomia zapatista. Ao mesmo tempo que me parece, claro, que o livro não está problematizando esses limites, não está dizendo que esses limites são necessariamente ruins, impeditivos à experiência. Mas que balanço você faz? Como refletir sobre essas críticas que foram surgindo ao longo do tempo?
Existem também, com certeza, as limitações desse processo. Não é uma solução, um manual que vai resolver todos os problemas. Com certeza, há limitações nesse processo que são combatidas com esforço e geram transformações. O geógrafo David Harvey faz algumas dessas críticas, que, como você disse, não é deslegitimando, eu acho que é um exercício crítico mesmo de pensar os limites. Uma questão está, por exemplo, entre a possibilidade dessa experiência tão particular zapatista ser levada a cabo em outros ambientes, como ambientes, digamos, urbanos ou não indígenas. Seria possível um rompimento tão radical com o Estado em outros contextos? Também, o Harvey acaba trazendo a reflexão sobre a manutenção de formas militares hierarquizadas dentro de um movimento, que é o movimento autônomo, ou seja, há uma aparente contradição. Forças Armadas, o Exército e tudo mais, são, pela sua própria natureza, extremamente verticalizadas. São as ideias da patente, da hierarquia, que se contrastam totalmente com a lógica da autonomia que é horizontalizada, que é a ideia da Assembleia, que é a ideia da deliberação, da discussão, do consenso, da participação dos plurais. Na assembleia zapatista, participam idosos, crianças, todo mundo tem um direito à palavra ali. Bom, dentro dessa construção de resistência, da autonomia, a ideia de autodefesa acaba sendo meio inseparável. Na minha opinião, é possível afirmar que o zapatismo só completou 30 anos de existência pública no ano passado porque ele possuía um braço armado, possuía esse tipo de autodefesa, que nem sempre é mobilizado, mas que existe potencialmente ali, para poder enfrentar os processos violentos que estão passando por ali. Ele já teria sido exterminado se não houvesse esse braço armado, se ele não fosse um movimento político-militar. Bom, também tem crítica ao aspecto econômico da autonomia. Como que essa autonomia política acaba sendo limitada por esse aspecto econômico? De fato, isso é um grande desafio. Como você consegue resolver essa questão da limitação econômica sem comprometer os processos autonômicos? É uma outra limitação. Os zapatistas tentam desenvolver seus processos, criando conexões com outros movimentos sociais, tentando criar projetos produtivos, tentando ter até banco, uma espécie de banco ali dos zapatistas que faz arrecadação de dinheiro e consegue emprestar de maneira mais barata para alguém desenvolver algum tipo de projeto. Mas, de maneira geral, apesar dessas limitações, a experiência zapatista demonstra que, mesmo pontual e circunscrita à Chiapas, ela pode inspirar e abrir outras possibilidades de criação de alternativas políticas que rompem com essa lógica capitalista e com essa ideia de poder centralizado. Acaba sendo um convite à utopia, com o pé na prática. Os zapatistas estão lá agora, nesse momento. Eles continuam existindo e reexistindo.
E para a gente fechar, Fábio, o livro termina trazendo alguns avanços conquistados pelo movimento. Acho que, de forma geral, reafirmar a diversidade do país e reforçar a presença indígena, seja enquanto identificação da população, seja também como força, como relevância política e social. Queria te ouvir sobre em que pé você vê isso hoje. Qual a marca do movimento, até em questões de gênero, de raça, que foram sendo debatidos nesses 30 anos, e quem está bebendo dessa fonte — que movimentos, que situações estão imaginando novos futuros a partir dessa inspiração?
Bom, o livro ressalta como os avanços dos zapatistas dentro desse debate nacional mexicano, como que ele trouxe repercussões políticas concretas para os povos indígenas daquele país. Por mais que seja uma luta extremamente territorializada, ela acabou repercutindo no México e no mundo. Por exemplo, houve um aumento significativo no número de mexicanos que passaram a se auto-identificar como indígenas, não tendo mais medo ou vergonha disso. Ou seja, essa crítica à ideia de cidadão segunda classe. Além disso, a discussão sobre os direitos dos povos indígenas no México se tornou central, entrou na pauta política do Estado mexicano. Também houve uma questão muito interessante em relação aos papéis de gênero entre os povos indígenas, o protagonismo das mulheres no plano político, no plano das autonomias. Isso também trouxe avanços muito interessantes e discussões muito interessantes a respeito. No plano internacional, o zapatismo continua a inspirar inúmeros movimentos que buscam alternativas a essa ideia da democracia representativa e ao modo da produção capitalista, a essas questões que nós vivemos no Brasil e no mundo. No Brasil, por exemplo, os zapatistas reverberam em articulações como a Teia dos Povos, que é um movimento muito interessante, é uma articulação que promove alianças entre povos indígenas, quilombolas, camponeses e movimentos urbanos em torno da resistência territorial, da agroecologia e da construção da autonomia. Então, com as particularidades do Brasil — históricas, geográficas, sociais —, a ideia de autonomia se transformou, e já trouxe, por exemplo, uma ideia de articulação com outras lutas que são importantes aqui no Brasil, mas que no México, em Chiapas, não eram fortes, como, por exemplo, as quilombolas. De certa maneira, também o MST, na minha perspectiva, na ideia das comissões. E também, a gente não pode esquecer de processos mais locais e particulares, que, apesar de não terem uma escala como essas organizações que estou falando, elas existem. Por exemplo, no Brasil, de maneira geral, diversas organizações indígenas estão aí desenvolvendo processos de autonomia em seus territórios, como autodemarcações, muito fortes na Amazônia, as retomadas, muito fortes nos Guarani, a criação de escolas autônomas e projetos políticos pedagógicos autônomos, de saúde, de monitoramento territorial. Esses são processos de autonomia também, que existem, que estão se dando por aí e podem ter uma inspiração nos zapatismos, sim, só que eles estão aí circunscritos em certas esferas sociais. De certa maneira, também, eu acho que um legado nessa inspiração é dar nessas novas formas de fazer política, muito mais horizontais e próximas às bases. A experiência zapatista sugere que futuros alternativos não são apenas possíveis, mas eles já estão sendo construídos no meio dessas práticas autônomas cotidianas e pela recriação dessas formas de vida.
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