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A visão distorcida da justiça e a impunidade dos algozes do fotógrafo Sérgio Silva

Por Tadeu Breda

 

As Jornadas de Junho de 2013, silenciosamente, estão prestes a completar dez anos. E também sem qualquer estardalhaço fará dez anos que o fotógrafo Sérgio Silva perdeu o olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo na noite de 13 de junho. Uma década se passou e a mais alta instância da justiça paulista continua se negando a reconhecer a notória responsabilidade do Estado pelo ferimento que cegou Sérgio Silva.

Não bastam as declarações dos então governantes e dos jornais pedindo sangue. Não bastam todas as imagens exaustivamente reproduzidas sobre a barbárie policial empreendida naquela noite no centro da capital. Não bastam as alegações da própria PM admitindo que disparou centenas de balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio contra aqueles manifestantes. Não basta outra pessoa, outra jornalista, também ter recebido, no mesmo dia, um tiro de bala de borracha no olho.

Não bastam as fotos de pessoas atingidas no peito, no pescoço, no rosto com o mesmo artefato. Não bastam as jurisprudências dos tribunais federais que determinam a (óbvia) responsabilidade do Estado em casos como o do fotógrafo. Dez anos se passaram e, para a justiça, nada mudou. Os desembargadores paulistas seguem batendo na tecla de que não há “nexo de causalidade” entre a perda do globo ocular de Sérgio Silva e a truculenta ação dos agentes fardados do Estado.

Dez anos depois, ainda conseguem dizer, sem ruborizar, diante da vítima, que qualquer coisa pode ter atingido o olho do fotógrafo. Na visão distorcida, deformada da justiça, é Sérgio quem precisa provar que recebeu um disparo de bala de borracha — e não de qualquer outra coisa — na cara.

Não é o Estado, as polícias ou o Ministério Público que devem cumprir suas funções constitucionais e investigar o ocorrido — o que, de fato, não fizeram. Não. Para os desembargadores, é a vítima que deve demonstrar tudo, tintim por tintim. Como obviamente não conseguiu nem conseguirá fazê-lo da maneira como querem os donos da caneta, o Tribunal de Justiça sedimentou sua sentença: Sérgio não tem direito a nada, e o choro é livre. Com ele choramos.

Agora, só as cortes de Brasília poderão decidir em contrário. Enquanto isso, os grandes responsáveis pela cegueira do fotógrafo — o então governador Geraldo Alckmin e o então prefeito Fernando Haddad, outrora irmanados na repressão e agora grandes companheiros na Esplanada — assumem papel de destaque nesse governo Lula de salvação nacional. Para os direitos humanos e a esquerda brasileira, trata-se de uma tragédia de grandes proporções.

Da rua à corte, da farda à toga, da bala à sentença, quanta violência tem sido cometida contra Sérgio! Uma violência reiterada, recorrente, sem fim. Quanta revolta.

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