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De Conselheiro Vivo ao isolamento: fios de uma reflexão sobre a importância da resistência conselheirista

Por Joana Barros, Caio Marinho, Grace Alves, João Batista & Paulo Zangalli Jr.

Estivemos em Quixeramobim uma semana antes do isolamento e confinamento provocado pela pandemia do coronavírus. Lá lançamos o livro Sertão, sertões: repensando contradições, reconstruindo veredas. Uma honra ter estado na cidade natal do Beato Antônio, na semana Conselheiro Vivo. O convite veio pelas mãos de Neto Carmorim ainda lá em Canudos, em outubro do ano passado, durante a romaria, quando lançamos nosso livro diante de uma praça cheia.

A relação Canudos-Quixeramobim está mais estreita: a história de uma se faz com e pela outra, uma troca importante de experiências e formas de resistência e construção de uma memória popular sobre a guerra de Canudos e a vida no arraial. Movimento importante de “escovar a história a contrapelo”, que vem na esteira de figuras importantes como José Calazans, João Ferreira, Claude Santos e outros tantos pesquisadores e pesquisadoras que estão a escavar as ruínas do Belo Monte para desenterrar/desafogar suas histórias, não para “resgatá-los” do passado petrificado, mas, sobretudo, para reconstruir seu presente e futuro.

Foi em Quixeramobim que Antônio Conselheiro nasceu e de onde partiu para se assentar com muitos outros — negrxs escravizadxs, sertanejxs e camponesxs das fazendas da região, descendentes dos índios Kariri — no Belo Monte, sertão da Bahia.

“Canudos — sua gente, sua terra, suas lutas, seus dissensos instauradores — continua em disputa. Se Canudos e os conselheiristas foram feitos inimigos da República brasileira, do progresso e do desenvolvimento, seus sobreviventes — sobreviventes, não vítimas — espalharam-se como sementes de resistência. Por isso, voltamos a Canudos e às suas lutas. Não para reconstruir o tempo de Antônio Conselheiro como monumento imóvel e petrificado. Trata-se de reconhecer, lá e aqui, o esforço de reavivar ‘as centelhas da esperança’ acesas pela tradição de rebeldia dos pobres, dos trabalhadores, dos oprimidos, que, ao escavar a própria história, vão construindo um modo de ser e de existir que permite romper com as dominações. Voltamos a Canudos, ao sertão e a seus múltiplos sentidos, disputando e contrarrestando os significados impostos desde fora como monumento-barbárie que consolidaram a visão dicotômica e dual entre o sertão e o Brasil.”

Significativo na semana Conselheiro Vivo parece ser menos a recuperação da figura de Antônio Conselheiro na sua singularidade, mas o fato de que este “escovar a história a contrapelo” está sendo feito por aqueles que se reivindicam conselheiristas (em Canudos, em Quixeramobim, em Salvador, em São Paulo…), e vai se fazendo no “safado da vida”, no miúdo dia a dia, na luta contra o latifúndio, contra as cercas na terra e nas águas, na reivindicação de uma história de luta, nas formas de construção coletivas de cuidar dos animais, nas raízes e seus usos diários, na publicação das imagens e documentos que contam uma outra história para além dos registros de guerra feitas pelo fotógrafo Flávio de Barros a mando do Exército brasileiro, nas conversas com outros conselheiristas espalhados pelas universidades.

Os fios que ligam Canudos e Quixeramobim passam não apenas pelo deslocamento geográfico de Conselheiro. Estes fios amarram República, progresso, desenvolvimento, violência, guerra contra os pobres, latifúndio e confinamentos e vão se entrelaçando e construindo uma imensa rede de sustentação das elites brasileiras. Neste emaranhado, as obras de combate à seca no sertão e a “dádiva” da água firmam-se como a forma mais perversa do clientelismo e da tutela.

O Açude do Cocorobó — que significou a segunda morte de Belo Monte — se fez tentativa de apagamento da memória da luta pela terra no momento de alagamento da “segunda Canudos” erguida depois da guerra contra Belo Monte, primeiro enfrentamento da República que se materializa pelas mãos dos militares.

De cima da ponte-barragem-vertedouro no Rio Quixeramobim, avistamos os restos de uma construção branca, quase bucólica. Uma ruína branca no meio da vegetação bem verde dessa parte do sertão cearense, que vai se juntando com a plantação no leito do rio. A barragem estava seca, ainda não repercutia o resultado das últimas chuvas do sertão, sendo aproveitada para plantações neste tempo de estiagem. Embaixo, no rio, no pé do vertedouro, há casas construídas pelos moradores já há algum tempo. As marcas das cheias estão nas paredes das casas, ali nas margens também se planta.

No começo da ponte, uma placa de bronze faz uma marcação importante: aquela ponte-barragem é obra do Departamento Nacional de Obras de Contra a Seca (DNOCS). O Açude Quixeramobim foi construído no mandato do presidente Juscelino Kubitschek, entre 1958 e 1960, em pleno desenvolvimentismo e às portas do golpe civil-militar de 1964. As ruínas no sopé da serra ali do lado da barragem foram usadas para abrigar os trabalhadores que construíram aquela obra de “combate” à seca.

Antes, no começo dos anos 1930, aquelas mesmas ruínas tinham sido usadas como abrigo para os flagelados da fome. Quixeramobim esteve na rota dos campos de concentração erguidos no Ceará como forma de contenção dos mais de 72 mil flagelados que, atingidos pela grande estiagem de 1932, deslocaram-se do sertão cearense para a capital Fortaleza e foram confinados em campos nas cidades de Quixadá, Quixeramobim, Ipu, Senador Pompeu, Buritis, Cariús, além de Fortaleza.

O isolamento, o confinamento e a violência que lhe é intrínseca, desde o nascedouro da República, estava presente e segue operando: andando pelas ruas de Quixeramobim, pudemos, num espanto, perguntar: “Não era esta uma rua pela qual já andamos em Canudos?”. Canudos e Quixeramobim se mostram como dois grandes nós dessa teia, e nos caminhos entre lá e aqui vai mostrando como o projeto de desenvolvimento inaugurado pela República brasileira assenta-se na violência e no alinhamento entre as elites, operada pelo Estado.

Saímos de Quixeramobim, e de lá fomos direto para nossas cidades, cumprir o isolamento por causa da pandemia. Emblematicamente, saímos de Quixeramobim e entramos no isolamento e no enfrentamento do “coronga” sob um governo infestado por militares, cujo capitão-chefe da nação (junto com representantes da burguesia brasileira) insta a população a não seguir os procedimentos médico-sanitários de proteção em nome do crescimento econômico e do desenvolvimento do país — que não pode parar (assim como Canudos não poderia parar a República e o progresso), e para que não pare deve-se novamente (assim como em Canudos) morrer produzindo ou aceitar a morte daqueles que estão contra o progresso.

O confinamento — uma experiência que as classes populares conheceram ao longo da história sempre associado à violência e à segregação — tem se mostrado a forma mais eficaz de controle do coronavírus. O confinamento dos pobres esteve ironicamente a serviço da proteção da vida dos ricos, das elites. Hoje, o confinamento embaralha as peças no tabuleiro, expondo, porém, a mesma violência que opera a morte dos pobres em nome do progresso e da nação.

A aparente não política do Estado e as medidas contraditórias do governo federal para os pobres, trabalhadores, indígenas e quilombolas desvelam a real face da política de morte que historicamente foi dirigida a essa população.

Lá, na guerra contra Canudos, nos campos de concentração dos flagelados da seca no Ceará e nas obras de combate à seca que alagaram a segunda Canudos e que construíram o Açude de Quixeramobim, era preciso conter/confinar/isolar para massacrar; era preciso não dar alternativas para que a única alternativa fosse o aniquilamento e a destituição da possibilidade de autonomia sobre os corpos e as vidas, a memória e as formas de ação coletiva.

Aqui, a aparente não política para os pobres durante a pandemia do coronavírus revela-se como a própria política de terror e morte radicalizada e escancarada. O confinamento sem cuidados nas periferias, aldeias, territórios, ou o “trabalho para não parar o Brasil” são as faces da mesma política de morte contra os pobres deste país.

Mas Canudos e Quixeramobim nos mostram que as resistências são cerzidas, costuradas e tramadas nas brechas silenciosas do cotidiano. Frestas e cunhas que, pouco a pouco, vão abrindo caminhos de passagem dos passos e dos olhares e vão sendo nutridos nas lutas cotidianas de muitxs sertanejxs-conselheiristas que se contrapõem à dominação e à barbárie intrínsecas ao progresso e ao desenvolvimento.

Em tempos de isolamento social, Canudos e Quixeramobim escancaram que só nos constituímos sujeitos porque nos relacionamos com os outros, com o mundo e com nós mesmos. Reafirmam que só existe sociedade quando se luta coletivamente contra a política de morte operada pelo Estado.

Num momento de emergência sanitária, Canudos, Belo Monte, Conselheiro e os conselheiristas nos fazem pensar na construção das utopias, alicerçadas na “reza” cotidiana que não sucumbe aos incêndios, aos alagamentos, aos ataques mais ferozes. Das ruínas do progresso — ou, precisamente, nas ruínas produzidas pelo progresso —, se abrem brechas e saídas, perspectivas nas encruzilhadas, a partir da ação e da existência coletiva. O Conselheiro vivo parece hoje ainda nos dizer que o sertão é do tamanho do mundo, mostrando-nos a potência de reinventar coletiva e autonomamente as formas de viver.

Por isso, voltamos a Canudos, voltamos a Quixeramobim, não idealizá-las, mas para observá-las como um tempo-espaço no qual é possível vislumbrar a construção autônoma e libertária da vida coletiva. Ali e por aí, estamos numa encruzilhada na qual as centelhas de esperança estão a lampejar nos olhos, nas mãos e nos corações daqueles que ousam pensar-viver-construir suas vidas para além da dominação e da violência do mercado e do Estado, tomar a vida nas mãos, e coletivamente construir possibilidades, encontros e perspectivas de um mundo onde caibam muitos mundos. Estamos separados espacialmente na vida, mas juntos na luta.

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