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E o racismo, pode parar?

Faz um ano que agentes do Exército brasileiro executaram duas pessoas negras no Rio de Janeiro com 257 tiros, um músico e um catador de materiais recicláveis, "confundidos" com criminosos. O episódio ensejou o lançamento da coletânea De bala em prosa. Agora, além da violência de Estado, os efeitos do coronavírus amplificam o racismo estrutural no país

Não que seria menos grave, absurdo ou revoltante, mas, vejam bem: não foi que, no meio de um fogo cruzado, um tiro acabou pegando de raspão no carro de uma família a caminho de um chá de bebê. Não. Foram 257 disparos que partiram das mãos de soldados brasileiros no Rio de Janeiro, número confirmado dias depois da impressão inicial, de oitenta balas. “Por engano.”

A barbárie protagonizada pelo Estado, mais uma, daquela vez matou o músico Evaldo Rosa e o catador de recicláveis Luciano Macedo. O presidente Jair Bolsonaro demorou para se manifestar, e quando o fez afirmou: “O Exército não matou ninguém, não, o Exército é do povo.”

Eram doze militares na ação, e dez responderam pelos tiros. Foram presos à época, mas acabaram soltos semanas depois.Agora, após um ano dos assassinatos de 7 de abril de 2019, aguardam o julgamento em liberdade, acusados de homicídio qualificado, tentativa de homicídio qualificada e omissão de socorro.

O Ministério Público Militar encontrou contradições em depoimentos e o caso segue sob investigação. Para a família que sobreviveu aos 257 tiros, persiste a dificuldade financeira, o desamparo e nenhum aceno do Exército, aquela organização “do povo”, como disse o chefe.

“Tivemos que entrar na justiça para conseguir a pensão que, hoje, seria fundamental para eu e meu filho podermos nos sustentar. Eu me sinto abandonada”, relata a viúva, Luciana dos Santos, que estava junto do filho, Davi, no carro que foi fuzilado. A matéria é do Globo.

Ela foi demitida de um dos empregos e, no final de março, recebeu um depósito referente a três meses do pagamento mensal a que tem direito como indenização. Luciana continua tentando receber os valores referentes ao ano passado, ainda mais depois de perder um dos empregos como técnica de enfermagem num hospital e acumular gastos com o tratamento psicológico dela e do filho.

Precisou mudar de casa, para fugir das lembranças. Davi hoje tem oito anos.

Genocídio

A Coalização Negra por Direitos, reunião de mais de cem entidades no Brasil, lançou a Alvos do Genocídio, uma campanha para escancarar os números e gráficos que mostram o assassinato de pretas e pretos no país.

Por exemplo: 75,5% das pessoas assassinadas no país eram negras; 75,4% das pessoas mortas em intervenções policiais entre 2017 e 2018 eram negras. Uma das ações é que as pessoas enviem um pedido aos veículos de mídia, para que passem a tratar as mortes de pessoas negras como genocídio.

E mais, um estudo do IBGE publicado em novembro apontou que a taxa de homicídios entre homens jovens pretos e pardos em 2017 chegou a 185 a cada cem mil, quase três vezes acima dos brancos.

Se as famílias pretas vão sendo desfeitas sem cerimônia — poderíamos lembrar de Ágatha Félix, de oito anos, morta em setembro de 2019 por um tiro da Polícia Militar —, agora é a vez de mais um perigo no ar. Esse, invisível.

Coronavírus

A mesma Coalização Negra por Direitos enviou uma carta ao Ministério da Saúde questionando sobre etnia, raça, gênero e território nos dados divulgados a respeito dos infectados pelo coronavírus. Dias depois, nenhuma surpresa.

Os números têm mostrado que, ainda que os brancos sejam os que mais morrem quantitativamente, a proporção de mortos entre os negros internados é maior. Se são 23% dos internados, tornam-se 32% das vítimas fatais do país.

O mesmo acontece nos Estados Unidos, o que pode apontar um cenário provável no Brasil à medida que o vírus se espalha. As desigualdades estruturais fazem com que comunidades e famílias negras estejam mais suscetíveis ao contágio.

Nesse outro texto sobre os negros nos Estados Unidos (em espanhol), um especialista lembra que “uma a cada seis pessoas negras não puderam ir a um médico em 2018 devido ao custo, e 32% viveu discriminação racial ao frequentar um médico ou clínica de saúde”.

No fim das contas, é quem, na cadeia do trabalho, menos pode escolher ficar em casa. Thiago Amparo falou disso em sua coluna (“Por que a Covid-19 é tão leteral entre os negros?”), assim como Luciana Brito (“E o racismo, pode parar?”) e Simone Freire (“Coronavírus: quando estar no mesmo mar não é estar no mesmo barco”).

E, não bastasse o cuidado com a saúde, homens negros já relataram o receio em usar máscaras na rua, temendo que se pareça com um adereço criminoso. “Não há dúvida de que o coronavírus, grave como é, vai impor uma radicalização do genocídio negro”, afirma Douglas Belchior.

O portal Geledés está articulando sua rede de Promotoras Legais Populares para orientar e auxiliar mulheres de comunidades periféricas diante da pandemia. Pelo descaso do poder público e necessidade urgente de apoio mútuo, começam a surgir alternativas como essas — no bairro de Paraisópolis, São Paulo, quem contrata os médicos é a associação de moradores. “A periferia não pode esperar.”

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