Música afrodiaspórica e crítica cultural: ‘bell hooks me ensinou a ser um intelectual negro’

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Por Paulo Silva Junior
Elefante na Sala

bell hooks e o Brasil é mais uma temporada especial do Elefante na Sala, o podcast da Editora Elefante; aqui na nossa estante temos 14 livros da autora, publicados desde 2019 — e tem muito mais para chegar em breve. Esse podcast então conversa com pesquisadoras e pesquisadores cujo trabalho é influenciado por hooks, em diversas áreas.

Neste primeiro episódio batemos um papo com Rafael de Queiroz, radialista e doutor em Comunicação na Federal de Pernambuco com a tese Fogo nos Racistas: Epistemologias negras para ler, ver e ouvir a música afrodiaspórica. A argumentação do trabalho de Rafael pega diversos autores, claro, vai citar na conversa o Frantz Fanon, por exemplo, mas com mais destaque aqui à influência das provocações de bell hooks para se refletir sobre a crítica cultural. Ele então vai olhar para artistas negros na música, não só no produto de áudio, mas também no videoclipe que pensa uma forma de interpretar e simbolizar as composições e sonoridades. Por exemplo: Emicida, Rincon Sapiência e Xênia França, três artistas brasileiros contemporâneos, todos eles com 40 anos de idade neste abril de 2026.

A gente começa ouvindo o Rafael sobre como é que um texto de bell hooks bateu no seu mundo musical, artístico — ele que é radialista e também já foi DJ.

No meu ano de primeiro doutorado, em 2016, na Universidade Federal de Pernambuco, eu estava nessa busca porque eu pesquisava música negra já, né? Mais especificamente do Atlântico Negro. Uma das referências foi a obra do Paul Gilroy, O Atlântico Negro. E eu estava buscando alguns lugares, alguns locais que eu pudesse discutir autores e autoras negras, que pudessem me ajudar, porque até então o currículo da comunicação, eu acredito que de forma nacional, era muito embranquecido, né? Assim, não tinha muito espaço para discussão de raça. Por ser um homem pardo, de pele clara, em Recife, eu não tinha ainda o meu autodeclarado negro, sabe? Eu vou te contar isso porque tem muito a ver com o ambiente que eu redescobri bell hooks. Que foi quando eu realmente me apaixonei pela bell hooks. E eu, buscando esses espaços de discussão, encontrei uma disciplina que estava sendo ofertada na pós-graduação de Sociologia, que era O Feminismo Negro. Lá eu tive contato com Lélia Gonzalez, Luiza Barros, Angela Davis, bell hooks, Audrey Lorde…

Eu lembro que na ocasião a gente leu o artigo “Intelectuais Negras”. É um artigo que ela faz uma crítica a um texto do Cornel West. Ele faz um texto sobre os intelectuais negros e bell hooks faz um texto, assim, avassalador. Uma enxurrada de crítica. E ela também levanta muitas questões sobre o que é ser um intelectual negro, num ambiente acadêmico eurocêntrico, mantenedor do status da cultura europeia, do que se chama de ciência europeia e da supremacia branca. E, ao mesmo tempo, ela coloca muitos poréns ali. Vai falar sobre como é ser uma intelectual negra, e muito a partir do gênero feminino das mulheres negras.

Ela destrói o crítico, né? E ela já começa dizendo, olha, a gente tem um trabalho muito profundo, muito importante, e você ignorou todas as mulheres negras nesse percurso. Como é que você não cita? Com as palavras muito cortantes, assim, mas muito bem embasadas, e que mostra a realidade de pessoas negras, e falando da própria experiência e da experiência de seus pares. E aquilo me preencheu de uma forma que, assim, eu não sabia que era possível. A bell hooks me mostrou um caminho. Um caminho para ser um pesquisador negro. Ela me ensinou a escrever, me instigou a ter um olhar mais crítico sobre tudo. Inclusive aos próprios artistas e produtos da cultura pop que eu pesquiso na tese. 

Não deixando de questionar o capitalismo nem a supremacia branca, com uma crítica muito ferrenha e muito sagaz. E ela conseguia o que era mais impressionante: é que eu sempre achei a escrita dela muito envolvente. Me sentia próximo de bell hooks. Isso é uma coisa muito doida quando você está lendo um texto supostamente acadêmico. Supostamente porque eu digo que a razão europeia e o modus operandi da academia — que tem sido quebrado cada vez mais e ela é uma das pessoas responsáveis por isso) — estão naquela falácia da neutralidade,  da objetividade. E a gente sabe que isso é mentira, que toda posição esconde um lugar de poder. E a escrita, a forma de escrever, a forma de se pesquisar, o método, tudo isso está envolvido nesse processo. A bell hooks me mostrou que eu queria ser um intelectual negro, sabe? Eu tinha até um problema com essa palavra: para que intelectualidade, isso é coisa de burguês, de branco, eu não gostaria de me associar a isso, de ser um intelectual.

Mas ela me fez olhar contra outros olhos, junto com o Frantz Fanon. Foram os dois autores que me influenciaram a ser mais crítico, a escrever em primeira pessoa, a colocar a experiência da negritude como um dado acadêmico, uma questão de pesquisa. Então essa subjetividade negra vai dar potência, vai transformar, pode transformar o conhecimento, a forma de ensinar. Como a gente sempre foi alijado desse processo, enquanto objetos de pesquisa. E passamos a ser autores a partir de como a vida é olhada, sentida e vivida. Por pessoas negras.

Ao mesmo tempo, ela faz isso com uma maestria crítica muito grande, muito profunda. Eu escrevi sobre música, sou radialista, fui DJ e tal. Então, sempre foi uma coisa de estar nesse ambiente da pesquisa da música, também do audiovisual, escrevendo sobre cinema. Então, quando eu li bell hooks falando sobre, principalmente, cinema (mas a música também), eu disse assim: crítica cultural pra mim é isso agora. Achei mais orgânico como ela se envolvia com aquilo, como ela colocava. O olhar opositor que vai nos mostrar que a gente tem um compromisso com a crítica cultural, mas também com a crítica ao capitalismo, a crítica à supremacia branca, de desenvolver esse olhar pra além do óbvio. Além dos frames ali, das molduras. Porque a gente tem que fazer essa expansão.

Aí a gente entra nessa ideia do olhar opositor. Puxando do próprio texto escrito por Rafael em sua tese, é o olhar opositor que que poderia desconstruir criticamente o uso de imagens de controle (aqui citando Patricia Hill Collins) que a mídia utiliza para perpetuar e expandir o devir negro no mundo (aqui citando Achille Mbembe). Tomando o controle, mesmo que parcial, de suas narrativas, vozes negras ajudam a desestabilizar o discurso hegemônico e sonhar futuros possíveis.

O olhar opositor mostra uma forma de você ter um compromisso político com o povo negro, um compromisso político em questões de raça, de gênero, de classe também. Me lembro um pouco da conversa que ela teve com Stuart Hall que virou até livro, um momento até meio de descontração, em que ela fala ‘o que seria de nós hoje se a gente também não tivesse sido um pouco essencialista, né’? Então ela fala de ser essencialista em relação à raça, mas a escrita dela não tem nada de essencialista. Ela reconhece um processo que foi importante de afirmação política, que levou a esse processo de sofisticação crítica que ela apresenta. Como ela mostra vários teóricos e artistas que já conhecíamos, ela vai mostrando os meandros que às vezes não estavam tão claros, tão nítidos para vários espectadores e espectadoras.

E ela expande! Ela dá um nó na sua cabeça porque ela vai fazer, por exemplo, uma crítica muito ferrenha ao Spike Lee. E Faça a Coisa Certa era um filme que eu tinha visto adolescente, que eu pirava. E aí ela foi mostrando várias coisas, vários problemas de narrativas do Spike Lee, muitas vezes por questões de classe e por questões do patriarcado. Meio que ele representava a mulher negra ainda como um estereótipo patriarcal de representação da mulher. Como se fosse… Poderia ser um cineasta branco ali também, né? Narrando a mulher daquela forma.

Ela meio que consegue demonstrar através dos seus textos como a gente tem que sempre procurar as brechas que, às vezes, não estão óbvias. Para fazer uma crítica mais profunda do produto cultural, dos artistas. Então, eu acho que o olhar opositor é uma educação de pensar o olhar enquanto uma instância crítica. E nós negros sempre fomos proibidos de olhar. Por isso talvez tenha criado esse desejo quase obsessivo em ver, em descobrir através do olhar. E como a gente está numa sociedade extremamente visual, e cada vez mais visual, é cada vez mais necessária a teoria dela. Ainda está superatual. Ela mostra um fortalecimento político, até militante, a partir desse olhar desenvolvido de crítica sobre os produtos do comum, do dia-a-dia. Mostra como o olhar tem que ser politizado também. E muitas vezes, enegrecido.

Entrando nos artistas brasileiros, Rafael puxa em seu trabalho os clipes Eminência Parda, de Emicida, lançado em 2019, e Crime Bárbaro, de Rincon Sapiência, de um ano antes, 2018. Eles estão no tópico Corpo negro, iminência do fetiche branco, onde Rafael traz, por exemplo, This is America, também de 2018, do Donald Glover. 

Assim, o Rincon e o Emicida são do mesmo capítulo, e parte a partir de uma provocação do livro Olhares negros, da bell hooks, em que ela fala do medo que pessoas negras têm de pessoas brancas. E que eu achei uma coisa, assim, meio nova ao se confrontar com isso. Porque a gente está muito acostumado no Brasil a ver as teorizações de como os brancos sempre temeram os negros. Até esse próprio endurecimento da pessoa negra, seja homem ou mulher, ele se dá também com essa supressão dos sentimentos das pessoas negras. Como seres que talvez não fossem dessa ordem, não tivessem direito a ter um sentimento de fragilidade ou de medo. E isso eu acho que a bell hooks traz.

Eu começo o texto remetendo ao filme Corra, fantástico, afroestadunidense. E aí o Jordan Peele fala do branco e da branquitude enquanto terror. E aquilo ali, para mim, se encaixou como uma luva nesse texto da bell hooks. E como ele representa essa subjetividade, tudo muito ligado ao olhar. Aquela cena em que ele está, assim, com os olhos, né? E chora, cai uma lágrima… Muito ligado ao olhar… Assim como ele percebe o amigo que ele tinha conhecido em alguma outra situação, que estava lá sem reconhecê-lo direito… Teorizar o medo que populações negras podem ter de pessoas brancas é uma coisa profunda, que eu acho que é muito pouco estudado no Brasil também pela questão do mito da democracia racial, de que está tudo bem… Mas a gente sabe que pessoas negras das classes mais baixas não se comportam de forma natural em ambientes de uma elite branca. A gente sabe que é diferente.

E aí, como é que entra o Emicida e o Rincon nessa história: eles lançaram clipes que demonstravam essa violência da branquitude em relação às pessoas negras. A bell hooks me ativou isso, mas também ela me fez criticar os elementos patriarcais que tinham nesses artistas também, tanto na canção do Rincon, como em outro videoclipe do Emicida, que não foi esse, Eminência Parda, mas um anterior, onde era como se o troféu da revolta negra, do homem negro na rebelião, fosse a mulher branca, a filha do senhor e da senhora, saca?

Eu já tinha sido educado por Bell Hooks nesse sentido. Mas aí o olhar vem por isso, porque ele mostra como, a partir de um olhar de uma pessoa negra, se faz uma crítica direta aos olhares da branquitude sobre pessoas negras. Mais especificamente sobre o Eminência Parda, vai uma família negra de classe média para um restaurante chique e só tem pessoas brancas. De negros, além deles, só as pessoas que estão servindo. E tem essa tomada da família negra se divertindo, comemorando uma questão importante para a família, sempre nessa narrativa entrecortada para as pessoas ao redor, brancas, de elite, que estão ali olhando para aquelas pessoas e imaginando vários estereótipos, vários fetiches em que os corpos negros foram aprisionados nas narrativas, tanto da história como da grande mídia hegemônica. E do racismo, claro. Aí um das pessoas que está lá vai olhar pra eles e imaginar um bocado de moradores de rua comendo com a mão, de forma animalesca, sem educação. Tem dois homens idosos que vão olhar para a menina e vão imaginar ela como uma prostituta, fazendo um striptease para eles, e que passa também por essa hiperssexualização do corpo negro. Masculino e feminino, mas da mulher mais ainda.

Aí o olhar opositor vai mostrando que existem muitas questões que são parecidas, porque a gente está falando de um afrodiáspora. E a gente está falando de lugares que partem do negro enquanto escravizados. Então a gente tem uma formação de narrativas muito próximas. Eu também uso o conceito de imagem e controle da Patricia Hill Collins nesse sentido. Mas aí mostra bem como a gente tem ligações culturais e também manifestações do racismo muito próximas.

Rafael traz também Xênia França, analisando dois videoclipes, Para que me chamas, de 2018, e Nave, de 2019. Aqui entra mais fortemente a cultura e cosmovisão iorubá, principalmente a partir do candomblé.

Acho que ali ela promove muitas coisas que a bell hooks fala, de comunhão, de criar uma comunidade. Ela vai fazer uma narrativa a partir de filosofias iorubás, Dos nagô, porque os orixás vão estar muito no Para Que Me Chamas. Inclusive, a música parte de um oriki de exú, e aí tem várias representações de orixás. Ela está como se fosse Iansã também, e a gente vê até movimentos corporais que partem disso. A gente vê mulheres cuidando umas das outras, como a bell hooks fala muito, dessa ajuda mútua, dessa criação de comunidade, de liderança…

E aí, a partir dessas referências que são muito nossas, ela vai criando uma narrativa em que existe uma valorização da cultura negra brasileira, ao mesmo tempo que não incorre em problemas da ordem de representar a mulher ou o homem negro enquanto um objeto de fetiche, hiperssexualizado. A bell hooks também meio que ensina a partir dos Olhares Negros a você perceber esses possíveis deslizes, além desse olhar mais apurado e dessa crítica. Assim, possíveis incorrências em narrativas hegemônicas, que não deveriam ser aplicadas para as pessoas negras. Porque ela também pensa o produto cultural, o produto pop, enquanto um lugar de manifestação política, de formação crítica, que pode alimentar a militância.

Agora, como apontar questões diante de artistas que estão tentando galgar um espaço na área da cultura? Esse é um ponto dentro da autonomia e da liberdade de um olhar crítico a um disco, um livro, um filme… bell hooks que o diga: nunca poupou o cinema de Spike Lee, como já foi citado aqui pelo Rafael, logo um dos diretores negros de maior circulação em Hollywood, que ao receber um Oscar honorário chegou a dizer: como negro, é mais fácil ser presidente dos Estados Unidos do que dirigir um estúdio.

Isso pode ocorrer: eu não vou criticar porque é um mano? Eu não vou criticar porque é um irmão negro, uma irmã negra? E bell hooks mostra que, na verdade, o exercício da crítica é necessário para o desenvolvimento intelectual. O desenvolvimento da própria sociedade, de pessoas negras. Que a gente não tem que ter medo nem pudor com o embate do plano das ideias. E ela faz críticas duríssimas, mas sem ser deselegante.

Eu aprendi a olhar melhor para a questão de gênero a partir dela. Nesse sentido, ela puxa muito a orelha dos homens negros, ao mesmo tempo que ela mostra um amor gigantesco por nós. Então, ela tem uma maturidade crítica, que mostra que a crítica é um dos elementos para a gente poder fazer essa virada, né? Para a gente poder estar existindo e resistindo cada vez de forma mais assertiva. Isso numa sociedade extremamente racista. Ela sabe disso. Ela sabe que nos querem mortos, nos querem subalternizados, humilhados, invisibilizados. Mas não tem como ela deixar passar um problema que ela identificou numa narrativa. Porque isso, na verdade, isso enfraquece.

Se não me engano, até uma das primeiras críticas foi Ela Quer Tudo, do Spike Lee. Mas eu sei que muitos anos depois o Spike Lee refilmou como uma minissérie. Não sei se ele se corrigiu, mas acho que isso diz alguma coisa.

Claro, para pessoas negras tudo é mais difícil, né? Na música, na cultura em geral, na academia, em qualquer rolê. A gente sabe que, para pessoas negras, a gente tem que, como o próprio Mano Brown fala, a gente tem que ser dez vezes melhor. Para poder ter um destaque, fazer, ir adiante. Mas a bell hooks fala que a crítica é para, meio que, sofisticar discurso e pensar. Sofisticar acho que não é a palavra certa. Acho que é pensar de forma mais crítica mesmo.

Ela também, por exemplo, criticou muito a Beyoncé. Se não me engano, com o Formation. E para todo mundo foi assim, tipo, pô, Beyoncé se politizou agora! Teve até um esquete daquele Saturday Night Live — uma brincadeira, um programa de comédia, de humor. — onde tinham pessoas brancas descobrindo que Beyoncé era preta. E a bell hooks, duríssima com a Beyoncé, fala que não, isso aí não está legal… Tem muita empolgação achando que um produto cultural hegemônico de uma bilionária vai fazer essa revolução…

Eu discordo de várias críticas que ela fez à Beyoncé. Mas acho que ela nunca desistiu desse embate crítico. A gente precisa atingir essa maturidade para entender que isso é crescimento. É o desenvolvimento de uma complexidade maior ainda de uma arte que já é extremamente complexa. Eu acho que para a gente falta ter essa maturidade ainda, porque… Pelo racismo, né? Pelo que ele reserva às pessoas negras.

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