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Extra! Extra! Receita da agroindústria brasileira cresce 17% em meio à coronacrise e vai na contramão da economia. Desvalorização do real e ausência de quarentena ampliam margem brasileira no mercado internacional.

A Associação Brasileira de Proteína Animal reúne os produtores agroindustriais de frango e porco. Seu diretor, Ricardo Santin, enquanto contabilizava os milhões a mais declarou à Folha de S. Paulo:

“Talvez a covid-19 tenha despertado para duas realidades, a importância da família e da comida. São coisas que corriam automaticamente, mas, no momento de dificuldade, como agora, reforçaram-se as relações familiares e de amizade e, também, da comida”.

Que bonito.

Os capitalistas de bom coração, esse espécime sazonal que fica ótimo com molho e batata. Sempre soubemos que por trás de seu sucesso está a materialidade da exploração animal e trabalhista, suas enormes fábricas de moer bichos. Agora, descobrimos que este é o meio de cultura ideal para o florescimento de novos vírus.

O chão de fábrica destas granjas e quetais é o pano de fundo de Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência, que será publicado pela Elefante e Igra Kniga agora em agosto (o livro já está na gráfica!). O biólogo evolucionista Rob Wallace é o autor do livro e da seguinte frase:

“Desde a década de 1970, a produção pecuária intensiva se espalhou pelo planeta a partir de suas origens nos Estados Unidos. Nosso mundo está cercado por cidades de monoprodução de milhões de porcos e aves apinhados lado a lado, em uma ecologia quase perfeita para a evolução de várias cepas virulentas de influenza.”

Voltemos, então, ao chão da fábrica de bicho. Imagine a massa de animais amontoados e considere os hormônios e antibióticos, a alimentação ração sabor resto da indústria e a ausência de sol para a digestão. Como ser feliz sem tomar sol na barriga? Mas bichos amontoados, os bicos cortados fora para impedir o suicídio, seu dia e sua noite otimizados pelo lucro dos acionistas.

Uma tragédia humana e também um criadouro fértil para novos vírus. Este Pandemia e agronegócio é a versão brasileira de Big Farms Make Big Flu: Dispatches on Influenza, Agribusiness, and the Nature of Science, de 2016. Rob foi consultor da FAO e do governo dos Estados Unidos mas acabou ostracizado pelo setor ao se posicionar mais e mais contra a produção agroindustrial.

O status quo político acadêmico corporativo expeliu o divergente radical e poucos anos depois o coronavírus apareceu para morder a língua de todos. O livro — cujo nome se traduz literalmente para Grandes Fazendas Fazem Grandes Gripes — conta este processo, abordando seu desemprego forçado, a ver:

“Por mais que eu as observasse, as sequências genéticas da gripe que eu estava compilando não podiam me dizer por que o H5N1 surgiu em Guangdong em meados da década de 1990. Então comecei a olhar para a geografia econômica da região, particularmente para os modos como um setor agrícola em transformação altera as trajetórias patogênicas. Muitos de meus colegas não tinham a menor noção do que eu estava fazendo, me vi em um beco sem saída entre epistemologias, apenas com a sorte profissional para me guiar. E Boston é tão cara nesta época do ano!”, brinca o então desempregado, que estava na cidade para palestrar na Universidade Harvard.

Rob é estadunidense, ainda não encontramos um vídeo seu em português ou com legendas para compartilhar por aqui, mas, nessa busca, tivemos a grata surpresa de encontrar Larissa Mies Bombardi, geógrafa e professora USP, especialista em agrotóxicos e autora do Atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Ela deu vinte minutos de entrevista à Radio Brasil Atual, e usa parte da obra de Rob Wallace para fazer seu argumento.

Então, voltamos ao chão da granja. Nunca saímos: “O sistema imunológico desses animais fica rebaixado. Imagine um vírus que atinge um plantel enorme e frágil. O descontrole está relacionado à velocidade. Se não fosse uma criação industrial, haveria tempo de criar resposta imunológica”.

Conosco está o velho barbudo que explicou a origem das espécies, Carlos Darwin ele mesmo. Foi ele quem articulou A origem das espécies, sua obra de 1858 que funda a compreensão científica de que uma espécie é tão saudável quanto mais diversa for sua população — aliás, um conceito que sempre foi uma obviedade para a maior parte dos povos indígenas das Américas.

“A ideia de ‘mais evoluído’ como sinônimo ‘o melhor’ é narcísica e apolínea. Para a biologia, evolução é adaptabilidade, está relacionada com diversidade e não supremacia.”

Quando vem uma doença devastadora, os que tem anticorpos sobrevivem. Quando vêm as cheias, os que sabem nadar sobrevivem e só foge do tigre quem sabe correr. E nem assim, porque o tigre também está sendo selecionado e também está sendo bem-sucedido. Seleção natural, o motor da evolução. Os diferentes sobrevivem.

E aí chegamos nós, o macaco pelado que se acha esperto, e derruba inconsequentemente toda essa complexidade que nossa mãe gentil criou, mamãe sempre ela <3, barreiras físicas e químicas que impedem a circulação intensa de material genérico.

Nós ignoramos para otimizar e então tome centenas de milhares de frangos da mesma família, aglomerados e tomando os mesmos remédios, sujeitos ao estresse e à imunossupressão. Monocultura genética, uma bomba relógio biológica que tem como efeito colateral o lucro dos acionistas que moram no ar-condicionado.

E essa bomba vai estourar porque os vírus e tudo o mais está vivo e se adapta. “Às costas de cientistas e empresários, todos os anos, cepas de vírus emergentes decifram a biologia de animais e, em resposta, o humano moderno sacrifica centenas de milhares de vidas, calculadas e rubricadas como custo operacional de seu negócio”, diz Allan de Campos no prefácio do livro.

A entrevista de Larissa para a Rede Brasil Atual prossegue: “Quando dizemos ‘o Brasil é o maior exportador mundial de frango’, estamos ali operando na ideia de que a vida deixou de ser vida e se tornou moeda de troca. Estar diante de uma pandemia pode sim estar relacionado com a maneira como determinamos que a agricultura seja enxergada no mundo”.

De fato, temos um problema sobre como a agricultura é enxergada. Abrimos esta reflexão com as aspas de Ricardo, diretor da associação dos frangos e porcos que veio nos contar como ele e seus associados estão muito rentáveis nessa pandemia.

A mesmo Folha abriga a coluna “Vaivém das commodities”, que no dia 3 de agosto se sai com a incrível: “Até as exportações de madeiras, cujo volume subiu para 267 mil toneladas no mês passado, 18% mais do que em julho de 2019, ajudou a engrossar as receitas do país”.

Como se algo positivo! Assim, sem ficar envergonhado ou questionar, pleno orgulho da locomotiva canarinho vendendo madeira na bolsa de Chicago. Ademais, ignora que o desmatamento é outra forma de nos fazer vulneráveis para os vírus que habitam animais que vivem ora isolados nos meios de mato desse mundão.

Então segue azeitada a máquina e nós podemos fazer as pazes com a constatação de que nosso povo seguirá encontrando formas de, muy lucrativamente, explorar nossos irmãos e nossa mãe gentil, tão distraída.

No meio dessa mediocridade, Rob é um ponto de referência, há décadas de pé e altivamente denunciando os absurdos do poder. Suas ferramentas são ciência e a cabeça erguida. Pandemia e agronegócio reúne artigos do autor publicados desde 2007, esclarecendo este tão particular e massivo modo capitalista de produção de doenças.

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