
Palestina: breve histórico para se posicionar contra a opressão
Por Paulo Silva Junior
No dia 7 de outubro de 2023, cerca de 1.200 israelenses morreram e outros 240 foram feitos reféns num ataque do Hamas, o que renovou a repercussão de um conflito que vem de muito longe. Desde então, Israel já matou mais de 50 mil palestinos — entre eles, 15 mil crianças. E se toda essa história de colonização e opressão de direitos não começou há apenas um ano e meio, vale retomar um panorama conciso de como chegamos até aqui, tanto para quem só começou a deparar com tal horror agora, como para quem milita há tempos por justiça e paz na região.
Essa é a premissa de Brevíssima história do conflito Israel-Palestina, de Ilan Pappe, que está em pré-venda e marca a chegada das obras do historiador israelense à Elefante — outros livros do autor serão lançados nos próximos meses. O escritor de 70 anos, nascido em Haifa, no norte do que hoje é conhecido como Israel, é filho de judeus alemães fugidos da perseguição nazista. Professor de história contemporânea, foi demitido da universidade de sua cidade natal em 2006 por aderir ao boicote cultural às instituições de ensino do país. Migrou para a Inglaterra, onde assumiu o Centro Europeu de Estudos Palestinos na Universidade de Exeter.
Apenas três de seus cerca de vinte livros sobre a história do Oriente Médio foram traduzidos para o português. Um em Portugal — História da Palestina Moderna (Caminho, 2007) — e dois no Brasil: A limpeza étnica da Palestina (Sundermann, 2012) e Dez mitos sobre Israel (Tabla, 2022). Um dos objetivos da Elefante é reduzir esse déficit num momento em que nunca foi tão urgente conhecer os detalhes da história da ocupação sionista da Palestina e todas as suas implicações para a região e o mundo.
“Ao condenar os horrores perpetrados pelo Hamas, António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), lembrou ao mundo que os palestinos têm sido submetidos a ’56 anos de uma ocupação sufocante’ desde a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Mas as raízes do conflito remontam a muito antes disso, mergulham mais fundo no passado, são anteriores a 1948, quando foi fundado o Estado de Israel. Seus primórdios podem ser encontrados no final do século XIX”, escreve Pappe, na introdução do novo livro. “Pretendo lançar luz sobre os principais acontecimentos, personalidades e processos desde a chegada dos primeiros colonos judeus à Palestina histórica até os nossos dias, a fim de explicar por que esse conflito se tornou tão complexo.”
De fato, trata-se de um texto breve. Os quinze capítulos, de “Quando e onde o conflito começou?” até “O contexto histórico e moral do 7 de outubro de 2023”, geralmente não passam de dez páginas cada. Ainda nas palavras iniciais, Pappe reforça que não deseja apresentar um relato exaustivo diante da vasta bibliografia que já existe sobre o assunto; seu interesse é tornar o conflito compreensível para qualquer pessoa contrária à opressão e à injustiça.
Então a cronologia parte de quase 200 anos atrás, ao retomar um momento em que, “entre os anos 1830 e o final do século XIX, a Palestina, como o restante do mundo, estava em transformação. O século XIX foi a era do nacionalismo, e a Palestina não ficou imune”, continua. Dali, passa pela Constituição Otomana de 1876 e pela chegada ao poder dos Jovens Turcos, em 1908. Vem o início da moderna identidade palestina, depois o que o autor vai chamar de anos tranquilos (1918-1926), até o que ele considera o lançamento das bases para a limpeza étnica: as massivas compras de terras pelas agências judaicas de colonização e uma consequente tensão entre os colonos judeus e os palestinos. A partir de 1929, com violência e mortes nas ruas, as coisas não seriam mais as mesmas.
Pappe, no fim, elabora algumas conclusões sobre esse contexto histórico, ao apontar, por exemplo, que “precisamos mudar a forma de falar sobre Israel e Palestina. Não faz sentido falar em paz, como se ambos estivessem igualmente errados, quando o processo do qual realmente tratamos é descolonização”.
Frente a tamanho embate, o autor deixa claro que não tem a pretensão de firmar um roteiro para que a região alcance os objetivos necessários à resolução dos problemas. Mas não perde de vista o sentido de urgência: “Espero que as injustiças infligidas aos palestinos por mais de um século inspirem os leitores, onde quer que estejam, a se solidarizar com sua luta e a se posicionar contra sua opressão”.
Foto: Hossam el-Hamalawy/Flickr