Descrição
Para escrever esta história radical da crise climática, Francisco Serratos recorreu aos momentos-chave da caminhada humana — ou melhor, de uma pequena parte dos seres humanos, a verdadeira causadora da tragédia ambiental em que estamos metidos — rumo ao colapso: a passagem do feudalismo para o capitalismo, a conquista da América, a expansão colonial europeia, o extermínio de povos indígenas e de meios de vida tradicionais ao redor do mundo e uma longa lista de episódios muitas vezes considerados grandes feitos da humanidade mas que deixaram um rastro indelével de destruição e morte. Obviamente, a invenção do motor à vapor, os combustíveis fósseis e a emissão de gases causadores do efeito estufa recebem atenção especial do autor. Contudo, sua análise vai muito além, abordando a exploração do látex nas florestas tropicais, a guerra pelo guano, a produção de algodão, o agronegócio, o mundo de plástico, o neoliberalismo e a indústria da carne. Episódios da história da Índia sob domínio britânico, sobretudo a grande fome que se abateu sobre o país no século XIX, matando milhões de pessoas, são citados como exemplos das formas que a crise pode assumir no século XXI. O livro encerra com esboços de um futuro possível, após breves análises sobre o regime ambiental soviético e chinês. Uma leitura acessível e essencial para compreender, de uma vez por todas, onde está o problema.
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Aqui reside o eixo deste livro: o Capitaloceno, antes de um conceito, é um argumento; mais ainda, é a crônica de uma série de acontecimentos enquadrada por uma narrativa muitíssimo mundana que é a acumulação ilimitada de riquezas através de diversas tecnologias como a guerra, a colonização, a privatização ou a espoliação. Dessa narrativa, todos participamos, mas não da mesma forma, porque historicamente não foram dados os mesmos benefícios para todos. E, atualmente, nem todos os humanos consomem a mesma quantidade de recursos. Tomemos como exemplo o Dia da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot Day), a data em que se esgotam os recursos que o planeta é capaz de gerar ao longo de um ano e começamos a viver de seu crédito ecológico. Desde 1970, esse dia muda de posição no calendário; em 2020, foi em 22 de agosto, e desde então não mudou muito disso. Entretanto, alguns países consomem mais do que outros: se a população mundial tivesse o mesmo estilo de vida de Luxemburgo, os recursos se esgotariam na segunda semana de fevereiro. Mas, se tivesse o mesmo estilo de vida da Argentina, seria em fins de junho. E, com o da Indonésia, iria até dezembro. As emissões do 1% mais rico da população mundial 39 são mil vezes superiores às dos habitantes de Moçambique, Honduras ou da Etiópia; em outros números, esse 1% polui 170 vezes mais do que os 10% mais pobres da população mundial. A partir de uma perspectiva histórica, 80% das emissões acumuladas desde 1751 e 2015 são de responsabilidade dos países ricos, e os atuais 800 milhões mais pobres contribuíram com apenas 1%. Essas emissões, é preciso esclarecer, são territoriais, o que significa que conta somente o que foi emitido dentro de determinado país. […]
Portanto, optar por “Capitaloceno” e não por “Antropoceno” é uma questão não só de precisão, mas também de justiça histórica, pois só assim é possível encontrar uma solução para nos afastar do pessimismo que nos assalta como testemunhas da devastação. Pessimismo que serve de argumento para a inação e a desesperança. Claro, esta época é um retrato de nós mesmos que nos apresenta como um estranho, como um reflexo amorfo e monstruoso que nos repugna e, mal lhe damos as costas, nos persegue feito uma sombra. Estejamos em acordo ou desacordo sobre seu início ou final, a verdade é que parece ser o ponto de não retorno, o horizonte de um futuro nebuloso que encobre o reino prometido, ou o apocalipse. “É a nossa época. A nossa condição”, definiu Bonneuil no Dictionnaire de la pensée écologique: “É a marca do nosso poder, mas também da nossa impotência”. Como apontou Fredric Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Mas, na prática, a única maneira de destruir o capitalismo é destruindo o mundo? Não, pois, se passarmos da culpa metafísica cujo mantra é “somos os humanos sendo humanos destruindo o planeta” para “são certos humanos com muito poder econômico, político e militar, que sustentam um sistema econômico inviável, incompatível com os processos biológicos da natureza, os que têm se beneficiado historicamente dessa destruição”, se prestarmos atenção aos detalhes históricos, então poderemos encontrar a solução. “Assinale com uma marca vermelha a primeira página do livro, pois a ferida é invisível em seu começo”, escreveu Edmund Jabès. Aqui se trata de fazer essa marca para logo reescrever o futuro.
— Francisco Serratos
SOBRE O AUTOR
Francisco Serratos (Veracruz, México, 1982) é escritor e professor da Faculdade de Linguagem, Cultura e Raça da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos. A partir da publicação de Capitaloceno: uma história radical da crise climática, lançado originalmente pela editora mexicana Festina em 2020, orientou seu trabalho acadêmico e literário para o humanismo ambiental e a crítica do aquecimento global. Dedica-se ao estudo de temas como crise climática, animais e literatura latino-americana. É autor de Breve contrahistoria de la democracia (Ataraxia, 2014) e Ecotopías: una crítica radical del futuro (Festina/UAM, 2025).
















