Ecofeminismo: conceitos para lutar contra o capitalismo e o patriarcado
A Elefante está lançando Ecofeminismo como política, de Ariel Salleh. Segue abaixo a quarta capa escrita por Felipe Milanez, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), além de autor de Lutar com a floresta: uma ecologia política do martírio em defesa da Amazônia (Elefante, 2024).
A lógica que organiza a sociedade patriarcal-capitalista produziu uma situação de emergência climática e a progressiva inabitabilidade do planeta. Essa lógica traça uma linha entre o que tem e o que não tem valor, estruturando um modo de pensar e agir que hierarquiza e silencia, que marca identidades e diferenças. Ao descrever o seu funcionamento, o ecofeminismo desnuda as relações patriarcais capitalistas exportadas pelas potências metropolitanas para os povos da “periferia”, pautadas pela subjugação da natureza não humana e que se expressam igualmente na dominação “dos demônios negros e das bruxas brancas”, servindo de ba se para a colonização ocidental. Assim, o ecofeminismo é uma chave teórica que ajuda a desarticular o pensamento hegemônico.
Publicado originalmente em 1997, fruto da trajetória intelectual da pesquisadora australiana Ariel Salleh, Ecofeminismo como política oferece contribuições decisivas para as lutas contemporâneas. Surge em um momento crítico, quando o aquecimento global já se tornava um campo de disputa e começava a ser apropriado pelos interesses escusos de corporações e governos. No contexto dos encontros internacionais que mais tarde se consolidaram nas Conferências das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, Salleh integrava um grupo de mulheres intelectuais e militantes que apontavam ausências fundamentais nos debates sobre a crise climática, os quais sempre favoreceram a expansão do capital em detrimento da proteção das condições ecológicas que sustentam a vida na Terra.
A passagem dos anos confirmou que o diagnóstico dessas pensadoras estava correto. Por isso, em 2017, Ecofeminismo como política ganhou uma segunda edição — e é essa a versão que a Elefante apresenta agora ao público brasileiro. Três décadas depois, o livro continua bastante atual, inovador e provocativo, repleto de conceitos fundamentais para compreender os conflitos produzidos pelo capitalismo e o patriarcado. O ecofeminismo materialista ganhou força nos debates internacionais da ecologia política, como mostram, por exemplo, os escritos de Stefania Barca sobre o ambientalismo da classe trabalhadora. Mas, por muitas razões, no Brasil, essa corrente permaneceu ausente ou silenciosa. Apenas nos últimos anos ganharam edições em português obras fundamentais como Ecofeminismo, de Vandana Shiva e Maria Mies, e A morte da natureza, de Carolyn Merchant, além dos livros de Silvia Federici.
Essas publicações encontram hoje um terreno fértil para florescer em um solo já cultivado por outras agroecologias de luta. Isso ocorre especialmente com a emergência do pensamento ambiental de feministas indígenas e afrodiaspóricas, com o crescimento da circulação de ideias indígenas e camponesas e com o fortalecimento das alianças de mulheres em defesa dos territórios. Por toda a América Latina, há uma expansão dos ecofeminismos comunitários, além do surgimento de vertentes como o hidrofeminismo e demais feminismos territorializados.
Nestas páginas, Ariel Salleh enuncia conceitos como “materialismo corporificado” e “classe metaindustrial”, que permitem avançar para além de Marx nas críticas ao capitalismo do século XXI, mantendo a centralidade da luta contra o capitalismo e o patriarcado sem cometer o erro de analisar separadamente estruturas que funcionam em conjunto. A noção de “epistemologia descalça”, construída no chão do trabalho e nas bases das lutas socioambientais, indica saídas potencialmente muito mais transformadoras do que os relativismos pós-modernos, e talvez seja uma das maiores contribuições da autora para o diálogo dos ecofeminismos do Sul Global e das alianças afro-indo-americanas, transatlânticas e transpacíficas.












