Pôr o mundo para trabalhar

A Elefante está lançando O nascimento da energia: combustíveis fósseis, termodinâmica e política do trabalho, de Cara New Daggett, uma espécie de “genealogia da energia” como ideia científica e política, percorrendo um trajeto da própria palavra ao longo do tempo — como ela passou a ser sinônimo de nossa força de trabalho, por exemplo. Segue a primeira parte da introdução:

 

Uma casa. Um carro. Luzes à noite e aquecimento no inverno. Uma geladeira que mantenha a comida fresca e um forno para cozinhar. Uma educação melhor e um bom emprego. Tratamentos médicos modernos. Comunicações sem fio. Tecnologia e inovação. A liberdade para conduzir nossas atividades cotidianas para algo mais do que a mera subsistência. Esses são alguns dos muitos benefícios trazidos pela energia moderna… Então por que “energia”? Porque a energia é essencial para nossas vidas diárias. — ExxonMobil, “The Outlook for Energy: A View to 2040” (2015)

O consumo intensivo de energia é fundamental para uma boa vida. Ao menos é o que nos dizem as projeções da ExxonMobil sobre o tema em seu “A View of 2040”, citado na epígrafe. Conforme o aquecimento global vai se tornando mais difícil de ignorar, gigantes do petróleo e do gás natural buscam cada vez mais se apresentar não como meras extratoras de combustíveis fósseis, mas como companhias energéticas que oferecem ao povo esse poder tão necessário. Petróleo, carvão e gás natural viraram os vilões de um planeta que não para de aquecer, mas quem poderia ser contra a energia?

As companhias petrolíferas não estão sozinhas em sua devoção à energia. O conceito parece nos incitar a pensamentos grandiosos. Afinal de contas, seria possível dizer que a energia é o alimento para a própria vida, para sua produção e reprodução e para todas as atividades em geral. Como o antropólogo Leslie White proclamou em 1943, “tudo no universo pode ser descrito em termos de energia”, inclusive organismos vivos e civilizações humanas (White, 1943, p. 335). O sentido de “energia” é abrangente. Ela pode ser fornecida pelo carvão, pelo petróleo, pelo vento, pode ser lida como uma entidade científica, como uma metáfora ou um índice de vigor corporal com matizes de virtude. A energia nos transmite uma sensação trans-histórica e cósmica, mas também é bastante material: pode ser bombeada por oleodutos, revolver em tanques de combustível ou rodopiar por turbinas eólicas. E, o que é mais importante, a energia ocupa um espaço fundacional na física moderna: o espaço da busca pela compreensão da mudança no cosmos.

Isso também faz da energia o conceito ecológico par excellence: uma unidade de equivalência com a qual podemos comparar civilizações humanas, da queima de carvão no século xix à grama ingerida por um cavalo na Grécia antiga ou à colheita de frutos silvestres por hominídeos durante o Pleistoceno. Esqueçamos o dinheiro. “A energia é a única moeda universal: uma dentre suas muitas formas deve ser transformada para que seja possível fazer alguma coisa”, observa Vaclav Smil (2017, p. 1), uma das principais figuras na área dos estudos energéticos. Ao mesmo tempo, Smil ressalta que o consumo de energia e o bem-estar humano só parecem se correlacionar até certo ponto — por volta de 110 gigajoules (GJ) per capita ao ano — e, acima de aproximadamente 200 GJ, a relação entre ambos parece até mesmo se manifestar de forma “contraproducente” (Smil, 2010, p. 725-6).

Os Estados Unidos extrapolam esses dois marcos de longe, tendo tido um consumo per capita de energia de 316 GJ em 2017.1 Apesar disso, as evidências citadas por Smil não interferiram nos sentimentos generalizados do público quanto à energia. Os humanos parecem ansiar por cada vez mais energia, e a Exxon-Mobil e outros conglomerados contam com isso. A Energy Information Administration (EIA) projeta um aumento de 28% no consumo mundial de energia até 2040 (EIA, 2017). E, ainda que o uso de fontes renováveis continue em aceleração, seus efeitos têm sido, em grande parte, misturados a um caldeirão de energia e estão longe de se apresentarem como sinais de uma transição completa para o pós-carbono (York & Bell, 2019). Na verdade, a eia prevê que o uso de combustíveis fósseis (exceto carvão) continuará a crescer ao lado do uso de fontes renováveis e representará três quartos de todo o consumo de energia em 2040. A produção de menos energia parece quase incompatível com a política moderna. Renunciar à energia é algo que, na melhor das hipóteses, soa como sacrifício e ascetismo e, na pior, como morte e injustiça desenfreadas.

Mas a produção de cada vez mais energia não é compatível com a vida multiespécies na Terra. Os cientistas alertam que “uma reação em cadeia de ciclos de retroalimentação poderia lançar o Sistema Terrestre na rota de uma ‘Terra Estufa’ irreversível”, capaz de desembocar em um planeta altamente perigoso, e até mesmo inabitável, para humanos (Steffen et al., 2018). Por mais dramático que isso possa parecer, é difícil exagerar ao falar da crise que assoma em meio àquilo que biólogos e ecologistas se referem como uma sexta extinção (Kolbert, 2014 [2015]) — nada menos do que uma “aniquilação biológica” que traça “um panorama sombrio para o futuro da vida, inclusive para a vida humana” (Ceballos, Ehrlich & Dirzo, 2017). A queima de combustíveis fósseis, o principal contribuinte para o aquecimento global, não é a única causa para o desaparecimento da flora e da fauna terrestres. Essa é uma das razões pelas quais a simples troca de combustíveis, de fósseis para renováveis, provavelmente será insuficiente caso queiramos manter a biodiversidade de um planeta adequado à vida humana. Muitos cientistas se unem a teóricos sociais e das humanidades ao insistirem que a prevenção de mudanças planetárias desastrosas exigirá não só tecnologias mais eficientes e combustíveis renováveis, como também “novos valores, princípios e abordagens compartilhados pela coletividade” para a definição, pelos humanos, daquilo que significa viver bem na Terra (Steffen et al., 2018).

Em termos de energia, isso significa que precisamos não apenas de combustíveis alternativos, mas também de novas formas de pensar, valorizar e habitar sistemas energéticos. Uma mudança nas culturas e nas epistemologias energéticas ou nas formas de abordar a energia trará a reboque uma transformação completa dos hábitos de produção e de consumo de energia. O recém-surgido campo das ciências humanas energéticas analisa a energia nesses termos: mais do que apenas o conjunto de combustíveis e do maquinário a eles associado, a energia é vista mas também como aparato sociomaterial que flui ao longo da vida política e cultural (Mitchell, 2013; Huber, 2013; Boyer, 2011; LeMenager, 2016; Nikiforuk, 2014; Boyer, 2019). As ciências humanas energéticas investigam como e por que comunidades se vinculam a combustíveis fósseis como meios práticos não só para a operação de novas tecnologias mas também para a formação de “petrossubjetividades” e de “petropoder” (LeMenager, 2016; Wilson, Carlson & Szeman, 2017; Malm, 2016 [2025]; Szeman & Boyer, 2017; Daggett, 2018). Até então, esses estudos sobre a energia tenderam a enfatizar os agenciamentos e as culturas de combustíveis — sobretudo petróleo, carvão e gás natural, mas agora também os solares, eólicos e de outras fontes renováveis.

Este livro dialoga com os estudos e as ciências humanas energéticos, mas, em vez de se concentrar na energia como combustível, busca realizar uma genealogia da energia em si mesma e rastrear o surgimento de uma lógica energética dominante que foi influenciada primeiro pela termodinâmica. O nascimento da energia examina a proveniência da energia: como ela veio a representar os combustíveis como objetos que precisavam ser governados? Por que a política energética trata da aquisição e da proteção dos combustíveis, mas não da preservação de uma vitalidade pública? Uma genealogia da energia nos ajuda a compreender por que é tão difícil imaginá-la de outra forma.

Supreendentemente, a energia não tem um pedigree ancestral similar ao de conceitos científicos como matéria ou força. A ideia de energia como objeto atemporal de desejo humano ofusca sua particularidade histórica que nós (e a ExxonMobil) viemos a conhecer. A energia é algo inteiramente moderno que só foi alçado a um lugar de destaque na física depois de sua “descoberta” nos anos 1840, no apogeu da Revolução Industrial. Desde então, foi pregada por um grupo constituído, em grande parte, por engenheiros e cientistas do norte do Reino Unido envolvidos com a indústria da construção naval, com a instalação de cabos telegráficos submarinos e com outros projetos imperiais. Antes de seu surgimento na termodinâmica, a energia não era intimamente associada aos combustíveis, nem sequer com uma definição científica, sobretudo porque, como indica Barri Gold, o conceito de energia caíra em desuso como resultado do “desdém” de Isaac Newton pela palavra. Nas décadas imediatamente anteriores à termodinâmica, a energia era mencionada apenas de forma esporádica e usada como “uma metáfora, uma palavra para descrever pessoas, uma falácia patética, uma palavra predominantemente para poetas” (Gold, 2010, p. 4).

Dito de outro modo, até mais ou menos a segunda metade do século xix, a energia como a conhecemos não existia na língua inglesa, de modo que “ninguém sequer teria sido capaz de pensar no estudo dos fluxos de energia na sociedade humana […], de calcular a energia proporcionada por diferentes fontes energéticas ou de estabelecer uma diferença entre fontes renováveis e não renováveis” (Martinez-Alier, 2005, p. 66). No campo político, a história da energia é ainda mais recente. Foi só depois dos anos 1970, no rescaldo da chamada “crise do petróleo”, que a energia (como significante abrangente para “combustíveis”) se consolidou e se popularizou como objeto da política. O Departamento de Energia dos Estados Unidos foi criado em 1977, quando tópicos como “transição energética”, “fontes alternativas de energia” e “previsões energéticas” começaram a proliferar pela primeira vez e a abrir caminho para “companhias de energia” e projeções energéticas.

Reconhecer a energia como algo histórico não é mera implicância etimológica. Como é evidente, os humanos já usavam combustíveis, modificavam ferramentas para controlá-los e faziam experimentos com melhorias nos agenciamentos mecânico-materiais muito antes de a energia se tornar um conceito-chave na ciência e na política. Antes da ciência da energia, no entanto, essas várias técnicas e atividades humanas não estavam conectadas por um único paradigma científico, nem por uma estratégia política organizada. Mesmo mais tarde, com as contribuições da teoria newtoniana para a operação de maquinários, como alavancas, polias e rodas-d’água, a mecânica ainda não conseguia explicar máquinas térmicas como o motor a vapor. O processo pelo qual a queima de carvão produzia movimento permanecia cercado de mistério, mesmo quando impérios e economias europeus já começavam a ser amplamente transformados pelo poder do vapor.

Alguma coisa sucedeu com a energia no século xix, essa época em que a física e os combustíveis fósseis se combinaram para dar à luz a energia propagandeada pela ExxonMobil. Essa mudança foi algo mais que o mero advento de sistemas de combustíveis fósseis e de uma intensificação no consumo da energia. Tratava-se também do surgimento da energia como objeto da política moderna. Nesse nascimento, a imagem expansiva e multidimensional da energia poética e pré-industrial foi capturada e atrelada a uma compulsão de pôr o mundo inteiro para trabalhar. Desde o século XIX, a relação dos humanos com os combustíveis tem sido governada por essa lógica energética peculiar e predominante, que justifica a indexação do bem-estar humano à idealização do trabalho e a um impulso inconteste de lucrar com os materiais da Terra.

Assim como a energia passou a estar intimamente ligada à lógica governante do trabalho, também o trabalho começou a ser cada vez mais governado pelas metáforas e pela física da energia. O laço trabalho/energia foi atado firmemente no século xix, com a suposta descoberta da energia e dos serviços por ela prestados em prol de um imperialismo ocidental movido a combustíveis fósseis. A epistemologia da energia no Ocidente vinculou os sistemas de combustíveis ao evangelho do trabalho e à veneração da produtividade. O nexo energia/trabalho foi tão propenso à disseminação do capital fóssil, tão favorável à ocultação de sua violência e tão minuciosamente costurado que deixou poucos vestígios da contingência do pareamento que o constitui. O entrelaçamento entre a energia e o éthos ocidental do trabalho dinâmico e produtivo se deu como verdade cósmica.

O nascimento da energia segue os rastros que ainda perduram e registra as dificuldades e os problemas encontrados nesse percurso como evidências daquilo que foi, e continua a ser, feito para que a energia fosse produzida como racionalidade política voltada a justificar o extrativismo e o capitalismo imperial. O processo de revelação desses rastros envolve a narração da história da captura da energia — com toda a sua abrangência estética, teleológica e material — a partir da lógica do trabalho baseado em combustíveis fósseis. Os sistemas de combustíveis fósseis controlados por europeus não se espalharam pelo globo sem percalços. Houve resistência, e o desenvolvimento de seus projetos se deu a partir de tentativas (ainda em andamento) de extinção de modos de vida e de outras epistemologias energéticas potenciais que o contestassem. Ao mesmo tempo, o trabalho passou a ser cada vez mais compreendido em termos de metáforas energéticas, como local de transformação de energia que exige a maximização da eficiência e da produtividade. De várias formas, o Ocidente continua preso a essa epistemologia energética.

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Foto: Homens trabalhando na beira do rio em Bangladesh. / Crédito: Suman Sarker/Pexels

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