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A busca das mulheres pelo amor

Por bell hooks
Prefácio de Comunhão: a busca das mulheres pelo amor

 

Mulheres falam sobre amor. Desde a infância, aprendemos que conversas sobre amor são narrativas com marca de gênero, um assunto feminino. Nossa obsessão com o amor não começa com a primeira paquera ou a primeira paixão. Começa com a primeira percepção de que as mulheres importam menos que os homens, de que não importa o quão boas sejamos, aos olhos de um universo patriarcal nunca somos boas o bastante. A condição de mulher na cultura patriarcal nos marca, desde o princípio, como seres sem valor ou com menor valor e, portanto, não surpreende que, como meninas, como mulheres, aprendemos a nos preocupar, sobretudo, com saber se somos dignas de amor.

Sendo criadas por mães e pais competitivos que nos apontam falhas e a quem nunca conseguimos agradar de fato, ou em um mundo onde somos a menininha “perfeita” do papai e tememos perder a aprovação dele a ponto de parar de comer, parar de crescer, pois vemos o papai perdendo o interesse. Porque vemos que ele não ama as mulheres, temos dúvidas quanto ao amor. Para manter o amor do papai, devemos nos prender à infância a qualquer custo. Todas as meninas são ensinadas quando jovens — se não pelos próprios pais, pela cultura circundante — que precisam merecer o direito de serem amadas, que “ser mulher” não é bom o bastante. Essa é a primeira lição de uma mulher na escola de pensamentos e valores patriarcais. Ela tem de merecer o amor. Ela não tem direito a ele. Deve ser boa para ser amada. E “boa” é sempre uma definição de outra pessoa, uma pessoa do lado de fora. Ao escrever sobre o relacionamento com seu pai no ensaio “Dancing on My Father’s Shoes” [Dançando sobre os sapatos do meu pai], Patricia Ruff entrega um relato comovente sobre perder a sensação de ser merecedora de amor, de ser valorizada, e confessa:

Minha mãe me disse que primeiro ele queria uma filha e não podia ter ficado mais feliz quando me ganhou. Então eu estava despreparada quando meu status de princesa, sem aviso prévio, foi arrancado de mim de qualquer jeito, como se arranca uma folha de papel de um caderno. Acontecera alguma coisa que ninguém me explicou […]. Eu não sabia expressar meu sentimento e não tinha palavras para a raiva e a dor que senti por ele estar, de repente, fora do meu alcance. 

Preocupada com a possibilidade de que sua irmã mais nova sentisse a mesma dor de ser emocionalmente rejeitada, Ruff sugeriu que elas confrontassem o pai juntas: “Nós invadimos o quarto dele e nos jogamos sobre nosso pai perplexo, que permaneceu mudo e imóvel feito uma pedra enquanto chorávamos em cima dele, agarrando-o, segurando-o, sem querer soltar. ‘Papai, por favor, nos abrace, diga que nos ama, nós amamos você, precisamos que você nos ame’, nós imploráva-mos”. A rejeição e o abandono de pais e mães constituem o lugar de falta que geralmente prepara o terreno para o desespero feminino de encontrar e conhecer o amor.

Com frequência, meninas se sentem profundamente cuidadas quando são crianças, mas descobrem, conforme desenvolvemos vontade própria e pensamentos independentes, que o mundo para de nos validar, que somos vistas como não amáveis. Essa é a percepção que Madonna Kolbenschlag compartilha em Lost in the Land of Oz [Perdida na terra de Oz] sobre a natureza do destino de uma mulher: “De algum modo fundamental, todas fomos destituídas de amor, de cuidados maternos — se não de amor, da sensação de termos sido amadas. Saber que fomos amadas não basta; temos de sentir isso”. Como uma menina poderia sustentar a crença de ser amada, verdadeiramente amada, quando por todos os lados ela vê que a condição de mulher é desprezada? Incapaz de mudar o fato de ser mulher, ela tenta se transformar, se tornar alguém digna de amor.

Ensinadas a acreditar que encontrarão consigo mesmas nas relações com os outros, as mulheres aprendem desde cedo a procurar pelo amor num mundo externo aos próprios sentimentos. Aprendemos na infância que as raízes do amor estão além das nossas capacidades e que, para conhecer o amor, precisamos ser amadas por outros. Pois, como mulheres na cultura patriarcal, não podemos determinar nosso próprio valor. Nosso valor, nossa autoestima e a certeza de poder ou não sermos amadas são sempre determinados por outros. Desprovidas dos meios para gerar amor-próprio, esperamos que os outros nos considerem dignas de amor; desejamos o amor e o procuramos.

Embora o movimento feminista contemporâneo tenha criticado a desvalorização da mulher, que começa na infância, ele não a transformou. As meninas de hoje crescem num mundo onde vão ouvir de todos os lados que as mulheres são iguais aos homens, mas não existe um espaço verdadeiro para o pensamento e a prática feministas na infância. As meninas, hoje, sofrem com papéis definidores sexistas do mesmo jeito que as meninas sofriam antes do movimento feminista contemporâ-neo. Enquanto algumas correntes feministas aqui e ali reconhecem esse sofrimento, o mais frequente é que as garotas se vejam cercadas de mensagens contraditórias por terem nascido num mundo onde a libertação das mulheres ganhou um pequeno espaço, ainda que as meninas continuem presas nos braços do patriarcado. Uma medida desse aprisionamento é o medo disseminado entre todas as meninas, independentemente de raça ou classe, de que não serão amadas.

Na cultura patriarcal, a menina que não se sente amada em sua família de origem ganha uma nova chance de provar seu valor quando é encorajada a buscar amor entre os homens. Paixonites de colégio, loucas obsessões e o anseio compulsivo por atenção e aprovação masculinas indicam que ela está cumprindo corretamente seu destino de gênero, a caminho de se tornar a mulher que não consegue ser nada sem um homem. Seja ela heterossexual ou homossexual, a intensidade com que vai desejar a aprovação patriarcal determinará se é digna de ser amada. Essa é a incerteza emocional que assombra a vida de todas as mulheres na cultura patriarcal.

Desde o princípio, portanto, as mulheres ficam confusas quanto à natureza do amor. Socializadas sob a falsa impressão de que encontraremos amor num lugar onde a feminilidade é considerada indigna e consistentemente desvalorizada, aprendemos desde cedo a fingir que o amor importa mais que qualquer coisa, quando na verdade sabemos que o mais importante, mesmo após o movimento feminista, é a aprovação patriarcal. Desde o nascimento, a maioria das mulheres vive com medo de ser abandonada, de que, se pisar fora do círculo de aprovação, não será amada.

Dada nossa obsessão precoce por seduzir e agradar aos outros para afirmar nosso valor, nos perdemos de nós mesmas na busca por sermos aceitas, incluídas, desejadas. Nossa conversa sobre amor foi, até agora, fundamentalmente uma conversa sobre desejo. No geral, o movimento feminista não alterou a obsessão feminina por amor nem nos ofereceu novas maneira de pensar sobre o assunto. Ele nos disse que seria melhor se parássemos de pensar sobre amor, se vivêssemos como se o amor não importasse porque, caso contrário, correríamos o risco de nos tornarmos parte de uma categoria feminina realmente desprezada: “a mulher que ama demais”. A ironia, claro, é que a maioria de nós não estava amando demais; não estávamos amando nada. O que estávamos era emocionalmente carentes, desesperadas por um reconhecimento (de parceiros ou parceiras) que comprovasse nosso merecimento, nosso valor, nosso direito de viver no planeta, e estávamos dispostas a fazer qualquer coisa para obter isso. Como mulheres numa cultura patriarcal, não éramos escravas do amor; a maioria de nós era, e é, escrava do desejo — do anseio por um mestre que nos libertará e nos dará validação porque não conseguimos validar a nós mesmas.

O feminismo ofereceu a promessa do estabelecimento de uma cultura na qual poderíamos ser livres e conhecer o amor. Mas essa promessa não se cumpriu. Muitas mulheres continuam confusas, perguntando-se sobre o lugar do amor em nossa existência. Muitas de nós sentem medo de admitir que o “amor importa”, por medo de sermos desprezadas e julgadas por mulheres que obtiveram poder dentro do patriarcado ao bloquearem as emoções, ao tornarem-se iguais aos homens patriarcais que antes criticávamos por serem frios e de coração duro. O feminismo de poder é só mais uma fraude, na qual as mulheres podem brincar de patriarcas e fingir que o poder que buscamos e conquistamos nos liberta. Por não termos criado um grande corpus de trabalhos que pudesse ter ensinado a meninas e mulheres novos modos visionários de pensar sobre o amor, testemunhamos o crescimento de uma geração de mulheres entre vinte e tantos e trinta e poucos anos que enxergam qualquer anseio por amor como fraqueza e ficam de olho apenas nos ganhos de poder.

O patriarcado sempre viu o amor como um trabalho de mulheres, um trabalho desonroso e desvalorizado. E não se importou quando as mulheres fracassaram em aprender a amar, pois os homens patriarcais sempre foram os mais dispostos a substituir o amor por cuidado, o respeito por submissão. Não precisávamos de um movimento feminista para nos informar que as mulheres têm mais inclinação a se preocupar com relações, conexão e comunidade do que os homens. O patriarcado nos treina para esse papel. Precisamos de um movimento feminista que nos lembre, continuamente, que o amor não pode existir num contexto de dominação, que o amor que buscamos não poderá ser encontrado enquanto estivermos amarradas, e não livres.

No meu primeiro livro sobre o assunto, Tudo sobre o amor: novas perspectivas, tive o cuidado de afirmar repetidas vezes que as mulheres não são inerentemente mais amorosas do que os homens, mas que somos incentivadas a aprender a amar. Esse incentivo tem sido o catalisador para as mulheres saírem em busca do amor, para observarem com atenção a prática do amor. E para confrontarmos nossos medos de não sermos amorosas e não sermos amadas o suficiente. As mulheres na nossa cultura que mais têm a ensinar ao mundo sobre a natureza do amor são as da geração que aprendeu por meio da luta feminista e da terapia baseada no feminismo que o amor-próprio é a chave para encontrar e conhecer o amor.

Nós, mulheres que amam, somos de uma geração de mulheres que transgrediram paradigmas patriarcais para se encontrar. A jornada rumo à verdadeira individualidade nos exigiu a invenção de um novo mundo, no qual corajosamente ousamos deixar renascer nossa menina interior e a recebemos para a vida, para um mundo onde ela nasce valorizada, amada e eternamente digna. Amar essa menina interior curou as feridas que, com frequência, nos levavam a procurar por amor nos lugares errados. A meia-idade, para muitas de nós, foi o fabuloso momento de pausa em que começamos a contemplar o verdadeiro significado do amor. Começamos a ver com clareza o quanto o amor importa, não as velhas versões patriarcais de “amor”, mas uma concepção mais profunda de amor enquanto força transformadora, que exige de cada pessoa responsabilidade e comprometimento para nutrir o crescimento espiritual.

Somos testemunhas da verdade de que nenhuma mulher consegue encontrar a liberdade sem antes encontrar seu caminho para o amor. Nossa busca nos levou a compreender por completo o significado de comunhão. Em The Eros of Everyday Life [O eros da vida cotidiana], Susan Griffin escreve:

O desejo por comunhão existe no corpo. Não é apenas por razões estratégicas que se reunir é um ato que esteve no cerne de todo movimento por mudança social […]. Essas reuniões eram em si a realização de um desejo que reside no âmago da imaginação humana, o desejo de nos colocarmos em comunidade, de fazer da sobrevivência um esforço compartilhado, de experimentar uma reverência palpável nas conexões uns com os outros e com a terra que nos sustenta. 

A comunhão no amor que nossas almas buscam é a jornada mais heroica e divina que um ser humano pode empreender.

O fato de as mulheres nascerem em um mundo patriarcal, que primeiro nos convida a fazer a jornada ao amor e depois coloca obstáculos no caminho, é uma das tragédias contínuas da vida. Chegou a hora de mulheres mais velhas resgatarem meninas e jovens, oferecendo a elas a visão de amor que vai ampará-las em suas jornadas. É libertador procurar o amor como uma busca do verdadeiro eu. Todas nós, mulheres que ousamos seguir o coração para encontrar tal amor, estamos adentrando uma revolução cultural que reconstitui a alma e nos permite ver com clareza o valor e o significado do amor nas nossas vidas. Ainda que o amor romântico seja uma parte crucial dessa jornada, ele não é mais considerado o único que importa; na verdade, é um aspecto de nosso trabalho geral para criar laços amorosos, círculos de amor que nutrem e sustentam o bem-estar feminino coletivo.

Comunhão: a busca das mulheres por amor compartilha nossa luta para conhecer o verdadeiro amor e nossos triunfos. Ao compilar a sabedoria de mulheres que conheceram o amor na meia-idade, mulheres que com frequência perambularam perdidas no deserto do coração ao longo da maior parte da adolescência até os vinte e tantos anos, este livro nos permite escutar o conhecimento de mulheres acima dos trinta anos que, na busca do caminho para o amor, encontraram pelo trajeto métodos de cura e novas perspectivas e recuperaram o encanto.

Este livro é um testemunho, uma celebração da alegria que as mulheres encontram quando recolocamos a procura por amor em seu justo lugar heroico no centro de nossa vida. Desejamos ser amadas e desejamos ser livres. Comunhão nos diz como realizar esses anseios. Compartilhando a dor, a luta, o trabalho que as mulheres fazem para superar nosso medo de abandono e de perda, os modos como superamos as paixões feridas para abrir o coração, Comunhão nos encoraja a voltar sempre ao lugar onde podemos conhecer a alegria, nos encoraja a vir e celebrar, a nos unirmos ao círculo do amor.

Imagem de capa: Gustav Klimt’s Water Serpents II (1907)

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