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Escutar o corpo coletivo para enfrentar a extrema direita

As integrantes do Ni Una Menos, Luci Cavallero e Verónica Gago, analisam o contexto político argentino após a vitória do candidato negacionista e antifeminista

Por Luci CavalleroVerónica Gago
Publicado em Canal Abierto

 

A pouco mais de dez dias das eleições, ainda sentimos em nosso corpo a comoção provocada pela contundente vitória da ultradireita na Argentina. Não adianta ignorar que estamos sendo afetadas por estado de espírito geral.

O corpo — esse campo de forças que é um lugar de criatividade, e não apenas de exploração, como diz Silvia Federici — é um espaço estratégico para obter informações sobre o que será re-existir no novo ciclo que se inicia.

Acreditamos que os automatismos não funcionam na hora de convocar a organização e a resistência. Automatismo: não reconhecer esse impacto emocional que acompanha a precarização das vidas. Desde o resultado das primárias, quando o boom de Milei se fez presente, apontamos a necessidade de compreender sua popularidade a partir da materialidade de uma economia cotidiana desfalcada, endividada e exaustiva.

A precariedade é uma força antidemocrática por excelência: gera formas de insegurança sobre as próprias possibilidades de subsistência que se alinham às promessas destrutivas com as quais a direita consegue canalizar o real descontentamento.

Aferrar-se aos legados e histórias de luta de nosso povo é imprescindível. Lembramos, como não poderia ser diferente, que o primeiro protesto contra Macri — que é quem parece realmente estar prestes a assumir o poder — foi feito pelo movimento feminista. Desde então, nos envolvemos em assembleias, encontros, manifestações que criaram um movimento massivo que atravessou as fronteiras argentinas.

O movimento feminista de nosso país foi inspiração para o mundo inteiro, inaugurando um ciclo de mobilização transnacional. Durante a pandemia, graças a essa força, as manifestações nas ruas foram mantidas a ponto de conquistar a legalização do aborto em 2020. A memória feminista das redes que nos sustentou é fundamental. Aqueles que não têm uma compreensão do processo apenas olham fotos estáticas.

O evidente antifeminismo

Não é por acaso que hoje a ultradireita continua nos apontando como inimigas e tenta gerar um apagão estatal para as milhares de mulheres, lésbicas, travestis e trans que ligam para o número 144 para denunciar violência.

Também não são casuais as ameaças ao Ministério da Mulher, Políticas de Gênero e Diversidade Sexual, atacando uma institucionalidade que, apesar de todas as críticas que fizemos ao longo desses anos, foi uma forma de hierarquizar nossa agenda e, sobretudo, de afirmar que as violências não são privadas.

Do governo recém-eleito, legitima-se uma renormalização e reprivatização das violências por razões de gênero. Enquanto isso, difunde-se por baixo uma frustração transformada em força odiosa: atacam uma professora lésbica à vista de todos no sul da Grande Buenos Aires ou viralizam ameaças nas redes sociais e nas escolas.

Assim, fica claro que o projeto avançado neoliberal autoritário é indissociável de uma guerra contra mulheres, lésbicas, travestis, trans e não bináries. Não há projeto de recolonização financeira autoritária que não nos coloque na mira.

A tomar as ruas

O movimento feminista teve seu maior momento de efervescência simultaneamente ao pior processo de endividamento da Argentina, em 2018. Lá estava sendo chocado o ovo da serpente que está irrompendo hoje. Desde então, o poder de compra de salários e subsídios não para de cair; desde então, trabalhamos mais por menos. Não esquecemos que, justamente quando mais e mais corpos ocupavam as ruas, Macri e seus seguidores nos endividavam por gerações.

O FMI foi o meio pelo qual parasitaram nossa capacidade de construir mobilização social para bloquear seu projeto. Essa dívida, que foi legalizada pelo atual governo de Alberto Fernández (além de ter sido insuficientemente investigada e questionada), hoje está nas mãos dos mesmos devedores seriais, como Luis Caputo, para ser garantia de novas dívidas. Os fundos de investimento estão prestes a governar o país, consolidando um modelo de valorização financeira que requer mais pobreza, mais ajuste e mais neoextrativismo.

Não podemos cair em automatismos, dizemos, e ao mesmo tempo esses primeiros meses serão cruciais. Não podemos esquecer o poder de nossas lutas e, ao mesmo tempo, precisamos processar um luto e um cansaço que é pelo menos generalizado para aqueles que estiveram envolvidos ativamente, até o último dia, nas tentativas de evitar este desastre.

Não há receitas mágicas, nem truques narrativos, para voltar a ocupar as ruas com massa, contundência e energia. Cabe a nós reinventar uma força que, para continuar sendo transfeminista e popular, exige dedicar tempo à escuta e à organização: é preciso falar de questões concretas e, ao mesmo tempo, abrir a imaginação política.

A única tecnologia que continua sendo eficaz contra o poder corporativo são as alianças transversais nas ruas, nas praças e nas casas.

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