O Bem Viver: novidades da 2ª edição e reverberações no Brasil de hoje
O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, de Alberto Acosta, chega numa 2ª edição revisada, atualizada e ampliada em que esses termos não são apenas modos de dizer. Trata-se de uma obra que, diante do processo permanente de construção do conceito, enfrentando os desafios da realidade imposta pela vida cotidiana, precisa dialogar com o que o autor segue estudando, ouvindo e percebendo nos últimos anos. Nesse caso, não é exagero dizer que estamos diante de um livro vivo, em constante reescrita e problematização.
Por isso é tão presente o acolhimento das críticas e sugestões de colegas desde a primeira publicação, no Equador, em 2012, passando pelas versões lançadas na Espanha e em francês, alemão e holandês, além, claro, de nossa edição em português do Brasil. Reagir ao que se apresenta — a pandemia de covid-2019 escancarando as desigualdades ou a própria constatação das manipulações sofridas pelo conceito do Bem Viver — é seguir se oferecendo a chance de imaginar outros mundos.
Agora a edição tem mais capítulos, onze, mas não apenas em acréscimos de novos trechos, e sim num exercício de releitura, complexificando a análise. Ou seja, o texto é fresco tanto para os antigos debates quanto para os temas inéditos. Não é preciso ir muito longe para ter a clareza de que a urgência em mudar nossa relação com a natureza, a crise da vida nas grandes cidades ou mesmo a iminente ideia do colapso que vem da acumulação de capital, por exemplo, impactam diariamente a forma de seguir elaborando alternativas.
O livro ganhou um novo texto de orelha, da jornalista Juliana Gonçalves dos Santos, autora da dissertação O Bem Viver em narrativas de mulheres negras; também tem novas epígrafes (Silvia Cusicanqui, Silvia Federici, entre outras); novo epílogo; e muito mais páginas de referências. Dez anos depois, um novo livro, de fato. Reproduzimos abaixo a orelha:
Texto da orelha, Juliana Gonçalves dos Santos
Nas últimas décadas, o conceito de Bem Viver atravessou fronteiras geográficas, epistemológicas e políticas, deixando de ser uma formulação situada no pensamento indígena andino-amazônico para se tornar um horizonte de disputa e reinvenção em diversos contextos. E encontrou no Brasil terreno fértil para uma reinvenção política fundamentada em experiências históricas de resistência.
Comunidades indígenas, negras e quilombolas, embora atravessadas por processos contínuos de colonização, exploração e opressão, jamais deixaram de praticar modos de vida comunitários que hoje reconhecemos como Bem Viver. São memórias, valores e ações que sustentam outros pactos de convivência social, econômica, ambiental e política, na contramão da lógica do desenvolvimento e do progresso capitalistas.
No Brasil, o Bem Viver passa a ser reivindicado inicialmente pela luta indígena, mas logo é articulado por outros sujeitos coletivos territorializados —quilombolas, ribeirinhos, sem-terra — e por campos políticos diversos, como os feminismos, os ecossocialismos e os setores acadêmicos críticos. Contudo, é em 2015 que o conceito ganha fôlego e densidade política, ao ser incorporado à Marchadas Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que levou mais de cem mil pessoas a Brasília.
A escolha do Bem Viver como eixo político dessa mobilização fez o conceito extrapolar a esfera indígena e acadêmica para nomear práticas já existentes entre mulheres negras: diversidade, ancestralidade, coletividade, oralidade e valorização da natureza enquanto parte da comunidade e das relações sociais e políticas que vão de encontro ao capitalismo. Assim, o Bem Viver passa a se afirmar como projeto ético, político e civilizatório essencialmente antirracista. Como afirma Benilda Brito, “o movimento de mulheres negras enegreceu muito o Bem Viver”.
A Carta das Mulheres Negras de 2015 é um marco fundador desse processo, pois, mais do que um diagnóstico social, sistematiza um projeto de país ancorado no Bem Viver, articulando reparação histórica, justiça racial, ambiental e futuro coletivo e aproximando o conceito de valores civilizatórios africanos e afro-brasileiros.
Em 2025, essa proposta foi reforçada pela Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que reuniu cerca de trezentas mil pessoas em Brasília. A mobilização aprofundou debates e elaborou documentos que relacionam o Bem Viver à justiça climática, à economia, ao enfrentamento do racismo religioso, à segurança pública, ao trabalho e ao direito ao tempo de vida não tutelado pelo capital.
No Brasil, o Bem Viver não é consenso; é disputa. Ao emergir em meio às vozes das comunidades historicamente marginalizadas e exploradas, ele não anuncia apenas um mundo desejado, mas um projeto de país em construção, que tensiona o Estado e reorganiza as possibilidades de futuro.
Sumário:
1 | Aprender o caminho do inferno para dele se afastar
2 | O desenvolvimento, da euforia ao desencanto
3 | Uma alternativa ao “desenvolvimento”, em reconstrução e construção
4 | Riscos e ameaças ao Bem Viver
5 | A vida no instrumento de tortura da Modernidade
6 | Direitos da Natureza, uma “revolução copernicana”
7 | Repensando o Estado plurinacional
8 | A cidade, um espaço de emancipação
9 | Outra economia para outra civilização
10 | Ócio e trabalho na chave do Bem Viver
11 | Iniciativa Yasuní-ITT: a difícil mas possível construção da utopia












