O Bem Viver: sacudir inércias, buscar alternativas, imaginar futuros

A Elefante está lançando uma segunda edição (revisada, atualizada e ampliada) de O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, de Alberto Acosta. Está em pré-venda com desconto no nosso site. O livro foi publicado em vários países na década passada e, como diz o autor na nova introdução, “todas essas edições foram revisadas, ampliadas e corrigidas, introduzindo novas reflexões advindas do estudo de novas e velhas contribuições, tudo como resultado de um processo permanente de aprendizado e muitos questionamentos.” Publicamos abaixo um trecho deste texto inicial:

Introdução

Para falar do Bem Viver, é preciso recorrer a experiências, valores, propostas e práticas de povos que se empenharam em viver harmoniosamente entre si e com a Natureza, e que possuem uma história longa e profunda, ainda bastante desconhecida e até mesmo marginalizada pelos círculos de poder. Esses povos resistem, de diversas maneiras, a um colonialismo que já dura mais de quinhentos anos. E são justamente as suas visões de mundo que nos permitem imaginar um futuro diferente, com propostas que poderiam alimentar e conduzir os debates globais em outra direção.

A matriz das reflexões e conclusões contidas nestas páginas emerge dos povos originários — uma grande fonte de informações e ensinamentos, embora ainda incompreensivelmente marginalizada. Trata-se de “mundos”, no plural, nos quais não prima a cultura escrita — algo que talvez possa limitar a difusão de seus ensinamentos, mas certamente não a impossibilita. Esses mundos estão vivos em diversos cantos do planeta e, decerto, na memória de muitas culturas, inclusive nas que hoje são consideradas “avançadas”.

Este livro não compila receitas nem modelos. Não pretende ser um manual do Bem Viver ou oferecer recomendações de autoajuda que contribuam para instaurar o discurso do entusiasmo, da superação e da vontade pessoal como ferramenta de mudança, ignorando as estruturas socioecológicas. Tampouco aceita uma noção estrita de “felicidade”, usada para legitimar estilos de vida supostamente “corretos”. Este livro expõe e analisa problemas, ao mesmo tempo que propõe algumas soluções, buscando abrir espaço para o debate. Aqui se questiona sem rodeios o patriarcado e o colonialismo enquanto pilares da civilização do capital, a qual deveria ser superada por caminhos comunitários. Definitivamente, estas páginas pretendem sacudir as inércias e as leituras ortodoxas. A meta deste livro é incomodar.

Não ter um caminho predeterminado não é problema. Muito pelo contrário: liberta-nos de visões dogmáticas, embora exija mais clareza de onde queremos chegar, admitindo a transição para outra civilização como parte integrante do Bem Viver. Em outras palavras, não importa apenas o destino, mas a jornada rumo a uma vida digna que garanta a todos os seres — humanos e não humanos —um presente e um futuro desejáveis, que assegurem a sobre-vivência da Humanidade na Terra. Lançamos aqui algumas luzes para a ação, recuperando a “vocação utópica do futuro”, tal como recomendava o pensador peruano Alberto Flores Galindo, alertando para o fato de que “não há uma receita. Tampouco um caminho traçado, nem uma alternativa definida. É preciso construí-los”.

Portanto, certamente com muitas limitações e também equívocos, nestas páginas propomos o que fazer e até mesmo como fazer, inspirados, sobretudo, em visões e práticas oriundas de experiências comunitárias atuais e tratando de encontrar lições acumuladas nos muitos relatos disponíveis sobre o passado. É evidente que precisamos nos nutrir do mundo da indigenidade (indigenidad) como definiu Aníbal Quijano (2014) — um mundo que não se encontra apenas nos Andes ou na Amazônia, mas em todas as culturas nas quais as relações comunitárias desempenharam ou desempenham um papel essencial. […]

Esta 2ª edição brasileira, integralmente revisada, corrigida, ampliada e atualizada, apresenta, portanto, um texto renovado, com o qual se pretende novamente provocar a reflexão e a crítica, elencando ideias e propostas que contribuam para a construção de outros mundos inspirados na justiça social e ecológica, como um exercício ético de radicalização permanente da democracia. Nesta nova versão, expõem-se temas tratados em edições anteriores e outros inéditos, na tentativa de ampliar a compreensão do Bem Viver — o que é natural, pois, como dissemos, este livro é parte de um processo permanente de construção.

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