Jornal inglês elogia livro sobre
‘uberização’ publicado no Brasil

Por Steven Poole
The Guardian

Tradução
João Peres

“Compartilhamento” é um dos valores retóricos mais abusados em nossos tempos. Primeiro tivemos o eufemismo do “compartilhamento de arquivos” para reproduzir e oferecer cópias de álbuns ou filmes na internet. Bem, você não pode compartilhar o que não é seu, para início de conversa. (Se eu pego dinheiro de um banco e dou a meus amigos, eu posso alegar que era apenas “compartilhamento de dinheiro”, mas é mais provável que eu seja condenado por roubo.)

Agora nós supostamente temos uma “economia do compartilhamento”, cujos exemplos mais mencionados são duas empresas — Uber e Airbnb — que são corporações gigantes buscando o poder do monopólio e brigando com governos ao redor do mundo. O que exatamente está sendo compartilhado aqui, e em benefício de quem?

adquira seu exemplar com frete grátis!

As primeiras organizações da “economia do compartilhamento” permitiam aos integrantes dividir coisas como carros e ferramentas, em lugar de apenas ter a propriedade sobre um objeto que fica ocioso a maior parte do tempo. Em essência, esses grupos eram de “iguais-para-iguais”: auto-organizados, sem uma autoridade central. Uma vez que uma companhia lucrativa é estabelecida para lidar com a logística, no entanto, a noção de “compartilhar” já foi jogada pela janela.

Apesar disso, remanesce aquele núcleo de uma ideia comunitária da origem do Airbnb, fundado por dois trabalhadores da tecnologia que alugaram colchões de ar na sala para uma conferência, e pensaram que isso poderia se transformar em um negócio. O marketing do Airbnb ainda joga sobre os sentimentos de sociabilidade aventureira e virtuosa erguida sobre a ideia de um “visitante” ficando em um espaço vazio da casa do “anfitrião”.

Porém, como indica o livro fantasticamente bem argumentado de Tom Slee, o grande negócio do Airbnb agora são aluguéis de imóveis inteiros: flats ou casas autônomas. Inquilinos em cidades como San Francisco estão sendo expulsos por proprietários que enxergam mais lucro nas estadias de curto prazo do Airbnb. Tom Slee realiza uma pesquisa de dados muito inteligente e descobre que o apartamento mais caro do Airbnb em Roma é um de muitos imóveis de luxo alugados por um empreendedor de tecnologia dos Estados Unidos, que os comprou com os lucros da venda de sua última empresa de software.

A ideia de “compartilhamento” é tão sem sentido aqui quanto no conceito da Uber de “viagens compartilhadas”, que soa tão ecologicamente preocupado quanto “compartilhamento de carros”, mas que em verdade descreve um serviço de táxi. Nem qualquer “compartilhamento” vai ocorrer com companhias como TaskRabbit, na qual pessoas se oferecem para cumprir as tarefas bizarras de outras pessoas.

O que explicitamente não é compartilhado por qualquer dos garotos-propaganda da “economia do compartilhamento” é a responsabilidade. Quando alguma coisa sai terrivelmente errada com uma transação no Airbnb ou na Uber, as empresas simplesmente dizem: “Não fui eu.” (A megacorporação supostamente não é compradora nem vendedora, mas uma inocente mediadora.)

Tom Slee tem um capítulo brilhante sobre como os “sistemas de reputação” baseados em classificações por estrelas simplesmente não funcionam porque as pessoas se sentem mal em dar notas baixas mesmo quando merecido, de modo que tudo fica entre quatro e cinco estrelas. Em vez disso, a confiança tem de ser imposta por uma vigilância autoritária e uma disciplina imposta pela própria companhia.

Ainda assim, as empresas insistem que não estão provendo um serviço; as páginas e os aplicativos são uma simples “plataforma de comunicação” para conectar fornecedores e consumidores. (Mesmo que elas explorem os fornecedores, como a Uber tomando parcelas crescentes das remunerações, que chegam a 30% da tarifa). Nem, notoriamente, a Uber considera seus motoristas como empregados, com quem deveriam assumir responsabilidades: eles são, em vez disso, “autônomos”.

O que todas essas estruturas artificiais significam para Uber, Airbnb e companhia é uma tentativa de burlar leis construídas ao longo de décadas precisamente para proteger inquilinos e proprietários, taxistas e passageiros. Impressionados pela popularidade e pelo poder financeiro, muitos legisladores se curvam para acomodá-los. A Califórnia aprovou uma lei especial que reconhece a Uber e seus competidores como “Companhias de Redes de Transporte”. Diante das queixas dos motoristas de táxi de Londres, a alta corte definiu no ano passado que o smartphone de um motorista da Uber — que faz a medição da quilometragem e o cálculo da tarifa através de sinais de GPS e internet — não é um taxímetro.

Isso pode parecer a alguns como uma recusa perversamente criativa para fazer valer a letra fria da lei. A definição integral de “taxímetro” na legislação londrina de 1988 é: “Nessa seção, taxímetro significa um dispositivo para calcular a tarifa a ser cobrada em razão de qualquer deslocamento, tendo como referência a distância viajada ou o tempo perdido desde o começo do deslocamento (ou uma combinação de ambos).”

Nada disso diz que lucrativas operações pseudocompartilhadas não podem ser estabelecidas em benefício de todos. A introdução em Paris de um esquema de empréstimo de bicicletas em 2007 foi um grande boom para os residentes, e agora a cidade tem o Autolib, uma operação exitosa similar para carros elétricos. Muitos de nós continuarão a usar a Uber, também. Criticá-la não é tarefa solitária de pessoas que são admiradoras pouco fundamentadas das altas tarifas de táxi de Londres.

Tom Slee defende, com razão, que seus argumentos não dependem de ele ou os leitores realmente usarem esses serviços. Em nossos tempos, fomos deseducados a acreditar que a escolha do consumidor é todo-poderosa, mas a ideia de que consumidores exercendo o direito soberano de escolha sempre levarão às melhores soluções é obviamente de interesse de corporações que buscam evitar a regulação oficial. Então, o próprio autor usa o Airbnb*, mas cobra das autoridades municipais uma regulação mais rigorosa; e não há contradição entre tomar um Uber para casa depois de uma festa e desejar que a empresa se comporte melhor. Apenas a lei pode forçar a isso.

(*) Há um pequeno erro do autor da resenha. Tom Slee deixa claro que não usa Airbnb, mas também enfatiza que a ideia do livro não é fazer o consumidor se sentir culpado por uma escolha individual.

Uber, Airbnb, TaskRabbit
e o lado menos cool dos apps

Uber, Airbnb e outros aplicativos da chamada Economia do Compartilhamento juram de pés juntos que as novas tecnologias estão nos levando a um mundo incrível. Vizinhos ajudando vizinhos, cidades onde todos se respeitam, sistemas de transporte eficientes, o retorno da confiança na boa-fé dos seres humanos, tudo isso possibilitado por um smartphone com conexão à internet: a “revolução” na palma da mão.

Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer! No horizonte, um arco-íris em fim de tarde (temperatura agradável, 26 graus) e, ao pé dele, Dona Benta nos aguarda com café — ou chá, para quem não curte cafeína —, biscoitos de polvilho e um bolo de chocolate, talvez de cenoura. Atrás da bela imagem construída pelo marketing, podemos (não) ver direitos trabalhistas sonegados, empresas que não se responsabilizam pelos danos decorrentes do uso de suas tecnologias, e um movimento massivo de enfraquecimento das últimas instâncias democráticas.

“A Economia do Compartilhamento é um movimento: um movimento pela desregulação”, escreve Tom Slee, autor de nosso porretíssimo lançamento Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. “Grandes instituições financeiras e fundos influentes de capital de risco estão vislumbrando uma oportunidade para desafiar as regras formuladas pelos governos municipais democráticos ao redor do mundo. E para remodelar as cidades de acordo com seus interesses. Não se trata de construir uma alternativa à economia de mercado dirigida por corporações. Trata-se de expandir o livre mercado para novas áreas de nossas vidas.”

Tendemos a olhar para Uber e Airbnb como empresas que estão chegando para “quebrar paradigmas” e desbancar negócios caducos, elitistas e meio mafiosos, como táxis e hotéis. São cool, high tech, ajudam a galera a fazer uma grana a mais. Transformam problemas concretos em facilidades digitais. Quem não poderia gostar disso?

Depois de ler nosso lançamento de outubro, que chega ao público brasileiro com prefácio de Ricardo Abramovay, você talvez fique decepcionado. Não conosco, pô, porque demos duro para colocar mais esse livro no mundo. Mas com essas empresas tão incríveis.

adquira seu exemplar com frete grátis!

Na real, foi um sentimento de profunda traição que levou Slee a escrever a respeito. Britânico que vive no Canadá e trabalha na indústria de software, com pós-doutorados em Oxford e Waterloo, ele ficou muito puto quando viu bandeiras legítimas da sociedade sendo apropriadas pelos criadores da Economia do Compartilhamento, um conjunto de empresas do Vale do Silício bancadas pela alta grana da nata da especulação do mercado financeiro. Obcecado, transformou-se num dos grandes estudiosos do assunto, levantando dados inéditos que ajudaram a desmontar o discurso de altruísmo e baixo impacto desses negócios — e a ver que o cool é, na verdade, um cu.

“O que havia começado como um apelo ao comunitário, a conexões interpessoais, a sustentabilidade, a compartilhamento, tornou-se o playground de bilionários, de Wall Street e de capitalistas de risco, expandindo seus valores de livre mercado cada vez mais fundo em nossas vidas.” O desenrolar das atividades dessas empresas pelo mundo é autoexplicativo, e Slee traz centenas de exemplos ocorridos com Uber e Airbnb na América do Norte e na Europa para embasar seus argumentos.

O título original do livro, What’s Yours is Mine [O que é seu é meu], reflete essa decepção. Trata-se de uma resposta ao generoso slogan fundador da Economia do Compartilhamento, “o que é meu é seu”. A promessa era de que, daqui por diante, graças aos maravilhosos programadores do Vale do Silício, todos privilegiaríamos o dividir em lugar do possuir. Esses aplicativos “nos abririam” a possibilidade de estar em contato uns com os outros, com uma mediação segura garantida por uma tecnologia infalível.

Nós compartilhamos nossas forças de trabalho, nossos dados, nosso tempo, nosso dinheiro. E em troca o que recebemos até agora foi muito pouco, quase nada. Claro que nós podemos encontrar por aí a história daquele motorista que saiu do buraco financeiro dirigindo para a Uber, ou de um anfitrião que levantou uns trocos no Airbnb — e assim conseguiu pagar o aluguel. Enquanto isso, CEOs amealham bilhões de dólares, armam exércitos de lobistas e influenciam governos mundo afora.

Como ressalta Slee, precisamos nos perguntar sobre as histórias que não são mostradas por essas empresas: aquelas que não entram no marketing agressivo que nos assalta nas ruas e nas redes sociais. A Uber alavanca seu controverso modelo de negócios empurrando aos motoristas uma série de responsabilidades — seguro, manutenção, combustível, segurança — e deixando de atender às exigências e arrecadar os impostos que os táxis têm de pagar às cidades. Nos últimos meses, surgiram dezenas de casos de violência relatados no Brasil envolvendo a plataforma, vitimando passageiros e motoristas. Nessas horas, o que a empresa faz é tirar o corpo fora: chamam seus motoristas ou anfitriões de “parceiros” e alegam que são meras mediadoras do serviço.

“A promessa de um caminho mais humano para o mundo corporativo é, pelo contrário, uma forma mais agressiva de capitalismo: desregulação, novas formas de consumismo e um novo mundo de trabalho precário”, escreve Slee, para quem a receita de sucesso desses fenômenos do capitalismo tardio é simples: os riscos ficam com todos nós, as recompensas ficam todas com eles, e os ricaços de Wall Street multiplicam suas fortunas injetando toneladas de dinheiro em aplicativos que estão definindo novos modelos de trabalho que em breve serão adotados por toda e qualquer empresa para maximizar os lucros de seus proprietários.

Em um mundo que bate recordes de desigualdade, nós achamos fundamental debater aquilo que buscam nos apresentar como um futuro cool e inevitável. A recente imposição de uma desregulação trabalhista no Brasil, por sinal, não pode ser vista como desconectada de toda essa movimentação global. Assim, lançar Uberização: a nova onda do trabalho precarizado é um prazer. Mas também um sentimento de que estamos, dentro de nossas limitações sempre evidentes, cumprindo a missão de jogar luzes sobre um debate central — e propositalmente ofuscado.

 

LANÇAMENTO

24 de outubro de 2017, às 19h
Casa do Povo
Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo-SP
Debate:
Ricardo Abramovay, USP
Eliane Lucina, procuradora do Trabalho
Ludmila Costhek Abilio, Unicamp
Mediação: João Peres

FICHA TÉCNICA

Uberização: a nova onda do trabalho precarizado
Autor: Tom Slee
Tradução: João Peres
Prefácio: Ricardo Abramovay
Capa: Isabela Sanches
Lançamento: outubro 2017
Páginas: 320
Dimensões: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 40,00

SOBRE O AUTOR

Tom Slee escreve cética e criticamente sobre o crescimento de novas tecnologias e plataformas globais, com atenção especial à Economia do Compartilhamento. Nos últimos anos, tornou-se um dos principais estudiosos dos problemas provocados pelas corporações do Vale do Silício, na Califórnia. Tem um phd em química teórica e pós-doutorados nas universidades de Oxford e Waterloo. Nasceu na Grã-Bretanha, em 1959, mas reside no Canadá, e tem uma longa carreira na indústria de software. Além de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, é autor de No One Makes You Shop at Wal-Mart [Ninguém te obriga a comprar no Walmart, editora Between the Lines, 2006], uma investigação sobre escolhas individuais que foi adotada em cursos universitários de economia, sociologia e filosofia. Mantém o site http://tomslee.net/.

Parceria com Doria e desconto em dia de greve
escancaram oportunismo da Uber

Descolada, high-tech, pronta para derrubar as estruturas arcaicas: a imagem que a Uber tenta promover de si mesma mundo afora é maravilhosa — e distorcida. A parceria com o prefeito de São Paulo, João Doria, para que funcionários municipais furem a Greve Geral, e o desconto a usuários que recorrerem ao app para chegar ao trabalho na sexta-feira, dia 28 de abril, só faz reforçar a imensa distância entre as aparências e a realidade da “economia do compartilhamento” corporativa.

Inicialmente, o tucano anunciou em seu pululante perfil no Facebook que havia fechado um acordo com Uber e 99Taxis para que fizessem o transporte gratuito de servidores públicos dispostos a não aderir à paralisação nacional contra o desmonte de direitos sociais promovido pelo governo golpista de Michel Temer. As duas companhias estavam juntas para tentar atenuar os efeitos da manifestação, que se avizinha como a maior desde o golpe e, quiçá, uma das mais importantes em décadas.

Já durante a noite de quarta surgiram manifestações em redes sociais propondo o boicote à Uber. Um evento criado no Facebook já tinha, na tarde desta quinta-feira, 27 de abril, quase seis mil confirmados. Diante disso, tanto Uber quanto 99Taxis recuaram. Passaram a dizer genericamente que darão viagens para a população paulistana, sem fazer menções à participação no movimento fura-greve. Não deveria causar surpresa que empresas especializadas em precarizar o trabalho de seus “colaboradores” apoiem medidas que legalizam o esbulho trabalhista aliando-se a políticos alinhados com as reformas, como João Doria. Mas causa espécie que o façam vendendo a imagem de empresas bem-intencionadas, que apenas querem ajudar as pessoas a se locomover.

Eis a nota que a megacorporação norte-americana — hoje avaliada em US$ 70 bilhões, valor muitíssimo maior que o das grandes empresas do setor de aluguel de veículos — emitiu sobre o episódio:

Como todos sabem, os motoristas parceiros da Uber são autônomos e todos os dias têm o poder de escolher se desejam ou não dirigir pela plataforma. Dado o altíssimo trânsito esperado em São Paulo nesta sexta-feira (28), a forma como a Uber pode ajudar a cidade é incentivando quem for se movimentar a compartilhar um carro. Desta forma, para colocar mais gente em menos carros, vamos oferecer duas viagens de R$ 20 de uberPOOL para quem precisar sair de casa em horários de pico (7h às 11h e 16h às 20h).

A nota e os acontecimentos fazem dar ainda mais razão às críticas contidas no livro Cooperativismo de Plataforma, que nós, da Editora Elefante, tivemos o prazer de lançar recentemente em parceria com a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo. Em linhas gerais, o autor Trebor Scholz, professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, advoga que a Uber tenta se apropriar de todo um discurso por igualdade e justiça, arrogando-se a posição de responsável por uma ruptura de paradigma no setor de transportes a nível global. “Seu motorista particular” foi o principal slogan da empresa erigida no Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Não, os motoristas não são autônomos, nem podem escolher quando desejam dirigir. A Justiça do Trabalho em Belo Horizonte decidiu há poucas semanas que existe um vínculo trabalhista bem clarinho entre a empresa e aqueles que dirigem para ela. Desta maneira, determinou que a empresa arque com o básico do básico: fundo de garantia, décimo-terceiro, férias etc. Os ganhos são tão instáveis e a possibilidade de descredenciamento tão iminente que os motoristas acabam forçados a trabalhar muitas horas, sempre arcando com os próprios custos, enquanto a Uber e seus investidores entram nas listas dos mais ricos do mundo.

garanta seu exemplar com frete grátis

O marketing da empresa bate forte no Big Taxi, numa tentativa de dizer que a indústria de táxis mundo afora é dominada por canalhas que precisam ser derrubados – Uber à frente desse movimento em prol de todos nós. Acontece que nenhuma empresa de táxi, por mais problemas que esse módulo de transporte tenha, jamais chegou a uma ínfima parte do valor que hoje detém a Uber. E nem ao poder: em todo o planeta, a megacorporação tem buscado impor às cidades uma agenda de desregulação do deslocamento, desrespeitando leis e buscando revogar aquelas que possam impor-lhes obstáculos.

Em certo sentido, é muito normal que João Doria e Uber deem as mãos. O prefeito de São Paulo e o CEO da empresa de transportes, Travis Kalanick, são conhecidos pelo comportamento intempestivo e pelos padrões de exigência absolutamente descabidos. Ambos tratam o mundo como extensão de seu quintal de negócios. Por aqui, o tucano afirmou que, embora reconhecendo a legitimidade da greve, vai cortar o ponto dos funcionários simplesmente porque não concorda com o mote da paralisação. Como se coubesse a ele definir o que fazem seus vassalos. Saiu-se ainda com a explicação de que a reforma que arrebenta com as chances de aposentadoria de muita gente não afeta quase ninguém.

Já Kalanick não opinou sobre a greve brasileira, obviamente. Mas sua empresa teve o mesmo comportamento quando taxistas decidiram se juntar a manifestações contra a reforma imigratória de Donald Trump, o que também resultou em um movimento de boicote. Feita a besteira, Kalanick enviou uma mensagem aos motoristas dizendo que buscaria ajudar aqueles que se vissem afetados pelos cortes de direitos dos trabalhadores estrangeiros em terras norte-americanas.

De novo, e de novo, e de novo, o discurso não convence. A postura da Uber é frontalmente oposta à imagem simpática que busca passar. Reportagem publicada esta semana pelo The New York Times, que já comentamos aqui em nosso blogue, expõe como a empresa invadiu os dados de usuários que baixaram o aplicativo por dispositivos da Apple. E narrou também as tentativas nada descoladas de limar do mapa os principais concorrentes.

Além disso, Kalanick afirmou no começo do governo Trump que buscaria trabalhar em parceria para encontrar soluções. Mas, claro, é preciso dar um verniz bacaninha a essa história: “Seremos parceiros de qualquer um no mundo contanto que esteja fazendo o transporte nas cidades melhor, criando oportunidades de emprego, facilitando o deslocamento, tirando a população do ar e o trânsito das ruas.” Tudo o que Trump não fez. Nem a Uber.

Seremos todos ‘uberizados’?

Canalhas, canalhas, mil vezes canalhas!

Patrocinada por um governo golpista e ilegítimo que conta com apoio de apenas 4% da população brasileira e que jamais seria eleito nas urnas, a Câmara dos Deputados votou a toque de caixa, ontem, 26 de abril, uma reforma trabalhista que enterra salvaguardas criadas há 74 anos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). É bem verdade que o marco criado por Getúlio Vargas tem vários defeitos, mas também é verdade tais defeitos, que poderiam ser corrigidos e aprimorados com debate e participação social, a partir de agora mais se parecerão com detalhes tão pequenos de nós todos…

Depois da aprovação por 296 votos favoráveis e 177 contrários — nenhuma surpresa para um parlamento repleto de defensores dos interesses empresariais –, falta agora ver como o texto do governo ilegítimo se sai entre os senadores. Se passar tal como está, seremos todos “uberizados”. Puxa! Que legal! Eu posso trabalhar na hora em que quiser? Definir meus ganhos? Ser dono da minha vida? Não, guri, não pode. Pergunte a um motorista da Uber se a vida anda fácil.

“Daqui a vinte ou trinta anos, quando provavelmente enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças com mais força”, resume Trebor Scholz em Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa, livro lançado em parceria entre a Editora Elefante, a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo.

garanta seu exemplar com frete grátis

O norte-americano, que é artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, problematiza aquilo que é vendido como vantagem pelas grandes corporações dessa área, muito bem simbolizadas pela Uber. E que é vendido como vantagem pelo governo de Michel Temer e por seus comparsas legislativos.

“O presidente Michel Temer tem coragem para apresentar essas reformas. Ele faz isso não pensando na próxima eleição, mas nas próximas gerações, para que no futuro todos os brasileiros tenham casa e emprego.” Guardem essas palavras. São do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, do PTB, que foi exonerado pelo presidente da República junto de outros três ministros para reassumir sua cadeira de deputado e votar a favor da medida. Mais uma vitória típica de Michel Temer: manobras regimentais para lá de estranhas, microfones cortados, atropelos à oposição. Tudo sob o comando do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ), que faz cada vez mais jus ao passado ditatorial de seu partido.

Sob as promessas da modernização — sempre ela –, Congresso e Planalto sequestrados pelos lobbies mais inconfessáveis da concentração de renda e poder se esforça em agilidade para fazer da vida dos grandes empresários algo ainda mais fácil, às custas do que restou de nossa liberdade. São muitos os pontos em jogo, e o noticiário internet afora está repleto de textos que comentam cada um. Para nós, importa o espírito da bagaça toda: precarizar nossas vidas até o último fio de cabelo.

“Apesar de toda a deliciosa e caseira conveniência da ‘economia do compartilhamento’, podemos acabar compartilhando as sobras e não a economia”, prossegue Trebor, que, vamos lembrar, está falando de mudanças em nível global, ou seja, os brasileiros não somos privilegiados na perda de direitos trabalhistas, apesar de nossas especificidades. “Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas anteriormente. Sem dúvida, não podemos mudar o que não entendemos. Portanto, estou perguntando, o que a ‘economia do compartilhamento’ significa?”

cooperativismo_de_plataforma_layout_3DBasta olhar para a emblemática Uber para entender o que significa. Os motoristas estão sujeitos às regras da empresa, sem possibilidade de discussão, e não têm direitos trabalhistas. Se um deles adoece, o azar é só dele, já que a megacorporação avaliada em US$ 70 bilhões diz-se mera intermediadora de serviços. Se recebe notas baixas dos usuários, pode ser descredenciado sem mais, perdendo o sustento. Se a empresa decide mudar as tarifas de uma hora para outra, só cabe ao motorista trabalhar mais mais e mais para compensar a redução dos ganhos.

Por esses dias, a Revista do Instituto Humanitas Unisinos, do Rio Grande do Sul, publicou uma bela edição especial sobre a uberização de nossas vidas, analisando a questão tanto a nível global como a nível nacional. Entre muitas reflexões bacanas, pinçamos a de Ludmila Costhek Abílio, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp. Ela lembra que a Uber dá escala e novas formas a antigos sonhos empresariais de precarização da vida de todos nós.

“Ao mesmo tempo em que se livra do vínculo empregatício, a uberização mantém, de formas um tanto evidentes, o controle, gerenciamento e fiscalização sobre o trabalho. Trata-se então da consolidação da transformação do trabalhador em um nanoempreendedor de si próprio. E da empresa como uma simples provedora dos meios de trabalho”, avalia. “A empresa Uber deu visibilidade a este padrão, mas, como diz o professor Marcio Pochmann, é possível pensar que seja generalizável por todos os setores econômicos.”

Ainda não está claro de que maneira outros setores serão incluídos nesta precarização, mas já está claro que não faltam tentativas nesse sentido. Há páginas de internet e aplicativos voltados ao oferecimento de serviços de comunicação e de design, de Direito e de Medicina, de limpeza e de pequenos consertos. Com ganhos muito rebaixados devido à competição predatória e a exigências descabidas, todos acabam obrigados a trabalhar muito mais, em horários imprecisos e exóticos, arcando com os próprios custos.

Mas, então, o que podemos fazer? Isso também ainda não está claro. A pressa do governo golpista brasileiro em votar rapidamente a reforma trabalhista tem explicação: a greve geral convocada por centrais sindicais para amanhã, dia 28 de abril. Teme o presidente ilegítimo que o tamanho da paralisação, prometida como a maior em três décadas, acabe por intimidar alguns parlamentares, e por isso se esforça por dar celeridade ao desmonte da legislação trabalhista.

Não é à toa que a Uber se somou ao prefeito-show de São Paulo, João Doria, para furar a greve geral de amanhã, definitiva nos rumos desse trem todo: uma manifestação realmente massiva, como parece se avizinhar, pode ser a pressão que falta para colocar freio em algumas das iniciativas cruéis do atual governo. Assim como já havia feito em Nova York, o serviço de transporte de passageiros vai oferecer deslocamento gratuito aos servidores públicos interessados em furar a paralisação nacional.

Olhando mais a longo prazo, e falando desde um ponto de vista global, Trebor Scholz entende que é possível, sim, criar muitas saídas. E tudo começa por ir ao coração das grandes corporações que buscam precarizar nossas vidas, sugando delas as ideias que, trabalhadas coletivamente, podem revolucionar a maneira como nos relacionamos com o trabalho. O autor de Cooperativismo de plataforma lembra que a economia do compartilhamento em si não é um problema: a questão reside na maneira como o capitalismo se apropriou da tecnologia para fabricar precariedades. Se conseguirmos mudar essa lógica e sermos os próprios donos da tecnologia, está aberto o caminho para a mudança.

Uber violou regras, tentou limar
concorrentes e explorou lacunas nas leis

Uma extensa reportagem publicada pelo jornal The New York Times mostra como a Uber fraudou dados, valeu-se de trapaças para tentar minar concorrentes e explorou lacunas nas leis para se transformar numa das maiores empresas da nova era dos negócios. O texto, reproduzido pela Folha de S. Paulo, conta que a Apple chegou a ameaçar banir a corporação de seus aplicativos.

O quase racha entre as duas gigantes do Vale do Silício é um dos muitos momentos controversos envolvendo o presidente-executivo da Uber, Travis Kalanick, conhecido pelo perfil agressivo. Em 2015, a Apple descobriu que a empresa estava se apropriando ilegalmente dos dados de usuários que já haviam apagado o aplicativo de seus celulares, o que viola as normas de privacidade da fabricante do iPhone.

“Em seu seu esforço para fazer da Uber o serviço de carros dominante no mercado mundial, Kalanick desrespeitou muitas regras e normas abertamente”, anota o repórter Mike Issac, “e só deixou de fazê-lo quando apanhado em flagrante ou encurralado. Ele violou regras de transportes e de segurança no trânsito, tentou solapar concorrentes estabelecidos e explorou lacunas e áreas cinzentas na legislação a fim de ganhar vantagem contra concorrentes.”

garanta seu exemplar

Todas essas questões são alvo da reflexão de Trebor Scholz, autor de nosso livro Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa. Scholz, que é artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, em Nova York, mostra como Uber e Airbnb, os líderes daquilo que se convencionou chamar de “economia do compartilhamento”, construíram suas reputações sobre uma série de violações e artifícios.

Para ele, as duas companhias fazem precarizar de maneira definitiva a vida dos trabalhadores, desprovidos de direitos e responsáveis pelas próprias ferramentas de trabalho, submetidos a condições estressantes e a uma instabilidade que tem no poder de classificação do consumidor sua face mais cruel.

Mas não se trata apenas de uma questão individual. Como mostra a reportagem do jornal norte-americano, a Uber, hoje avaliada em US$ 70 bilhões, tenta derrubar qualquer obstáculo que apareça pelo caminho, incluindo leis há muito tempo estabelecidas. O livro lançado pela Editora Elefante em parceria com a Autonomia Literária e a Fundação Rosa Luxemburgo acrescenta que a empresa manipula consumidores e motoristas. Assistimos a isso recentemente no Brasil, com a mobilização de motoristas contra a aprovação de uma nova regulamentação desse tipo de serviço pelo Congresso Nacional.

“Seu modus operandi segue um padrão. Primeiro, empresas como Uber violam várias leis – leis antidiscriminação, por exemplo – para então conquistar uma base crescente de consumidorxs, que demandam mudanças jurídicas”, escreve Trebor. “A Airbnb gastou mais de 8 milhões de dólares em lobby em São Francisco quando residentes votaram a favor de regular a operação da empresa. A Uber gasta mais dinheiro com lobistas do que a Walmart. De forma significativa, tanto Uber quanto Airbnb estão usando seus aplicativos como plataformas políticas que podem ser usadas para ativar clientes para opor qualquer esforço regulatório contra eles.”

A reportagem do The New York Times acrescenta mais caroços a esse angu. Mostra, por exemplo, que a Uber tentou sabotar seu principal concorrente internacional, o Lyft. Para desestimular os motoristas a trabalharem também para o Lyft, o presidente da empresa forçava os funcionários a fazer muitos pedidos pelo Lyft e em seguida cancelá-los, de modo a transmitir a ideia de que não valia a pena manter o aplicativo.

Internamente, retrata o jornal, a Uber promove um ambiente nada amigável. A agressividade é valorizada por Kalanick, que teria engavetado casos claros de assédio para proteger funcionários que apresentam bons resultados em termos de lucro. “Crescimento acima de tudo” é o lema do presidente da corporação. “Crescimento por cima de todos nós” talvez fosse um mote mais sincero, a julgar pelas novas revelações.

Motoristas do Uber protestam contra a votação de projeto que regulamenta serviço

Os apps de trabalho e a precarização

Por Lilian Milena
Jornal GGN

Apesar da grande diversidade de aplicativos à disposição do consumidor, esse é um mercado praticamente oligopolizado na atualidade. A prova disso está no seu aparelho de celular onde, muito provavelmente, os apps que você utiliza receberam investimentos da Google, Amazon ou Microsoft. Esse pequeno e forte grupo também está por trás do capital investido nos aplicativos de prestação de serviços mais acessados no mundo, como Uber e Airbnb. O alerta é do professor de cultura e mídia digital da The New School, de Nova York, Trebor Scholz, autor de Cooperativismo de Plataforma: contestando a economia do compartilhamento corporativa, que acaba de chegar ao Brasil pelas editoras Autonomia Literária e Elefante e a Fundação Rosa Luxemburgo.

Scholz participou, conectado de Nova York, da coletiva realizada em São Paulo, no lançamento do seu livro para o português, destacando que a expansão desse modelo de economia do compartilhamento (sharing economics), ou economia sob demanda, ocorreu a partir de 2008, em meio à crise financeira mundial, como uma opção promissora por dois motivos: “Essas plataformas de intermediação provem grandes benefícios para você enquanto usuário. São fáceis de usar, você não tem muito trabalho e pode, ao mesmo tempo, consumir e ser um prestador, alguém que oferece esse tipo de serviço e ganha algum dinheiro com essas plataformas”.

Mas existe também o lado oculto, que ganhou o nome de Uberização do trabalho, como explicou ao GGN o tradutor do livro, Rafael Zanatta, que também é pesquisador na área de tecnologias digitais: “Uberização é um conceito usado para designar esse tipo de economia, no qual você tem pares oferecendo um serviço ou um produto, uma relação de troca, mas, no meio, você tem um intermediário extraindo valor dessas partes e não estabelecendo uma relação de trabalho formal com elas”. Os donos das plataformas detêm, em média, 25% a 30% do valor dos serviços prestados, sem um contrato que assegure direitos trabalhistas.

Outros dois pontos negativos levantados por Scholz é a transformação desses serviços em verdadeiras commodities e, ainda, a invasão da privacidade em nível massivo dos usuários que, para baixar esses apps, são obrigados a aceitar contratos que têm, como contrapartida, o acesso dos seus dados pessoais. Por isso, o pesquisador chama de “ilegal” a metodologia dessas plataformas que acabam tornando o Direito nulo: “Nenhuma delas respeita relações pré-existentes dos setores onde prestam serviços”, ressalta.

Apesar do cenário que aponta para um horizonte de menos direitos e garantias, Scholz traz no seu trabalho exemplos de cooperativas de plataformas digitais que deram certo. Como a Open Group Cooperativa, de Nova York, formada por trabalhadoras de limpeza e cuidado com crianças, eliminando completamente o modelo de intermediação entre prestadores de serviço e clientes. Além de maior retorno financeiro, as trabalhadoras têm voz decisiva na empresa.

Scholz também destaca a experiência da Green Táxi Cooperative, na cidade de Denver, capital do Colorado, Estados Unidos, onde motoristas imigrantes formaram a empresa, com o apoio do sindicato, para fazer frente ao Uber, atendendo hoje 37% dos usuários locais. Outra experiência é da Stocksy, uma cooperativa canadense de fotógrafos e artistas de imagem que já faturou 7 bilhões de dólares e reune cerca de mil profissionais.

E por que elas deram certo?

Segundo o pesquisador para a cooperativa dar certo os empreendedores precisam estabelecer o valor correto dos serviços para o mercado onde o trabalho será implementado. “A Stocksy é um bom exemplo, pensado por pessoas que já tinham experiência naquele mercado, sabiam exatamente qual era a demanda e qual a proposição de valor”.

Ele também afirmou que, diferente das grandes corporações, as cooperativas dispõem seus dados organizacionais na internet, de forma aberta e democrática, salientando ainda que dificilmente as experiências avançaram em precarização. Muito pelo contrário, o modelo dessas organizações é mais transparente e democrático, e aumenta o poder de ganho dos trabalhadores pela inexistência do intermediário.

Por fim, Trebor Scholz destacou que não encontrou exemplos da cultura misógina entre as cooperativas, tipo de violência “muito presente nas Startups do Vale do Silício, que colocam a mulher em situação de submissão plena”, concluiu.

O pesquisador da The New School reuniu ao todo 160 experiências de várias partes do mundo, e que podem ser acessadas pelo site Plataform.coop, convidando os brasileiros a compartilharem exemplos, independente da área de atuação.

Programadores, ativistas e trabalhadores

O GGN perguntou ao pesquisador Rafael Zanatta se as experiências de cooperativismo de plataforma teriam algo em comum, que pudesse ser estruturada para replicar esses modelos nas regiões em desenvolvimento e a resposta foi positiva, ao lembrar de outro case bem-sucedido, de uma cooperativa de limpeza estabelecida em Boston, Estados Unidos.

“O diferencial é que existia um projeto na Universidade do MIT tentando identificar experiências de cooperativas, e quando eles identificam que essas mulheres estavam se organizando, eles ofereceram programadores de graça. Então, tinha uma união ali de programadores, ativistas e trabalhadores. Nas várias experiências que a gente mapeou, sempre tem essa união: tem trabalhadores, tem o ativista [geralmente de universidades] e tem o programador. Acho que o que falta no Brasil é juntar esses três grupos. Esses grupos estão muito isolados. Se a gente tiver mais diálogo a fazer com que as pessoas conversem, a gente pode tentar florescer esses mercados de cooperativa de plataforma aqui no Brasil. É isso que está faltando”.

Zanatta explica que o período áureo dos aplicativos vendidos pelas grandes corporações começou em 2014 e está entrando em declínio, isso porque as pessoas estão se dando conta que o retorno financeiro prometido é ilusório.

“Esse despertar é tardio porque a pessoa percebe isso depois de seis meses, um ano, um ano e meio trabalhando com as plataformas. Então já vi vários motoristas se organizando com seus sindicatos. Em João Pessoa tem um caso, por exemplo, de uma cooperativa que foi formada a partir de um sindicato de motoristas, eles criaram o próprio aplicativo para concorrer”, conta.

Zanatta salienta, entretanto, que a reforma trabalhista aprovada recentemente na Câmara dos Deputados, e em discussão no Senado, facilitando as regras para a terceirização irá trazer impactos negativos para o setor cooperativista, mesmo que indiretamente.

“[A reforma] é um grande problema, porque vamos ter grandes plataformas de intermediação operando no Brasil que não vão ser cooperativas, fomentando um tipo de mercado que é hierarquizado, onde você tem um player, uma empresa que é o intermediador”. Por outro lado, assim como a “uberização”, implementada pelas grandes corporações, a reforma poderá elevar ainda mais a resistência dos trabalhadores e, consequentemente, incentivar a criação de cooperativistas.

A grande questão é como os pequenos grupos de prestação de serviços locais vão conseguir fazer frente à eficiência ofertada pelas grandes corporações, não só em termos de estrutura de serviço, mas também em termos de divulgação. À essa pergunta Zanatta responde que a comunicação entre trabalhadores e clientes locais será a saída, como o caso dos trabalhadores motoristas de João Pessoa, que distribuíram panfletos pela cidade mostrando a perda de receita que eles sofriam por trabalhar com aplicativos como o Uber ou o 99.

Para começar a discutir os impactos de
Uber, Airbnb e outros apps de trabalho…

Por Daniel Santini
Fundação Rosa Luxemburgo

 

No dia da aprovação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 5.587, de 2016, que determina a base para a regulamentação dos serviços de transporte individual de passageiros por meio de aplicativos digitais no Brasil, a empresa Uber investiu consideravelmente em uma campanha para influenciar a opinião pública e parlamentares. A multinacional é contra qualquer restrição ao lucrativo modelo pelo qual gerencia motoristas para o atendimento das solicitações que recebe via celulares conectados à internet. Nesta quarta-feira, dia 4, a empresa comprou páginas duplas nos principais jornais do país para cobrar dos deputados respeito ao que classifica como “direito de escolha”.

ADQUIRA SEU EXEMPLAR

Apesar de apresentada como uma mera questão de respeito à opção dos consumidores, a decisão do Congresso de estabelecer regras mínimas sobre a intermediação de serviços por meio de aplicativos envolve muitos outros aspectos — incluindo o risco de precarização das condições de trabalho dos profissionais do setor e a consolidação de um modelo econômico marcado pela concentração de dinheiro e poder nas mãos de poucas empresas estrangeiras. Trata-se de uma discussão difícil e que não se limita ao transporte. Pelo contrário. A assim chamada “economia do compartilhamento” corporativa avança com velocidade em diferentes áreas, beneficiada pela falta de regras e pela dificuldade do poder público de acompanhar e legislar sobre novos formatos de negócio.

É justamente na crítica à rápida disseminação de aplicativos de empresas multinacionais e seus impactos que se baseia o livro Cooperativismo de plataforma: Contestando a economia do compartilhamento corporativa, apresentado na noite desta segunda-feira, dia 3 de abril, em São Paulo. O livro, publicado no Brasil pela Fundação Rosa Luxemburgo em parceria com as editoras Autonomia Literária e Elefante, não se limita a fazer um alerta contra as mudanças em curso. O autor, Trebor Scholz, fala com entusiasmo das novas ferramentas digitais e de suas possibilidades, defendendo que a internet pode ser o lugar para uma nova fase do cooperativismo, agora beneficiado por plataformas de solidariedade baseadas em software livre. Conectado de Nova York, onde dá aula de cultura e mídia digital na The New School, ele conversou com uma plateia formada por sindicalistas, desenvolvedores, pesquisadores e curiosos.

A conversa, que durou quase duas horas, foi transmitida pela TV Drone e está disponível na íntegra:

Citando exemplos de sucesso que vão de cooperativas de trabalhadores imigrantes latinos nos Estados Unidos a redes de transporte individual organizadas a partir da articulação de redes de motoristas particulares, Trebor Scholz falou sobre como novas formas de organização podem surgir em contraposição ao modelo empresarial, defendeu sistemas baseados em ferramentas e licenças abertas, e sugeriu a adoção de tecnologias livres. A apresentação contou com a participação do responsável pela tradução da edição para o português, Rafael Zanatta, mestre em Direito pela Universidade de São Paulo e em Direito e Economia Política pela Universidade de Turim, na Itália, e pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Também participou Rodrigo Souto, Graduado em Ciência da Computação na UFBA, desenvolvedor e integrante da Cooperativa de Trabalho em Tecnologias Livres (Colivre), organização baseada em Salvador, na Bahia. A mediação foi feita pela escritora Ana Rüsche, que, com Daniel Santini, é autora do prefácio da edição brasileira.

Ao introduzir a discussão sobre as novas formas de organização econômica baseadas em tecnologia, Rafael Zanatta lembrou que o próprio termo “economia de compartilhamento” surgiu para designar bases públicas abertas coletivas, tais como a Wikileaks, ou ferramentas de software livre. Ele critica a maneira como o modelo de plataformas baseadas em código proprietário e administradas por poucas empresas multinacionais foi e segue sendo implementado. “Houve uma resignificação por parte de empresas. As coisas aparecem de maneira atropelada, sem o mínimo de discussão”. Como alternativa, o advogado defende que é possível pensar em uma nova era de cooperativismo em redes, algo como uma economia solidária digital.

O público participou bastante com questões sobre pontos teóricos, como as posições críticas da própria pensadora Rosa Luxemburgo sobre cooperativismo, incluindo eventuais limitações de alcance político, algo que o autor menciona no livro, até questões bastante práticas, como o desequilíbrio na concorrência entre transnacionais e pequenos grupos de cooperados na prestação de serviços, inclusive com a defesa de que as subcontratações sem direitos praticada pelas empresas poderiam ser entendidas como dumping social. Representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), presentes no evento, mencionaram que existem demandas de motoristas de Uber por apoio para sindicalização e para garantia de direitos, e manifestaram preocupação em relação ao futuro de diferentes categorias. O aumento da automação e a perspectiva de cada vez mais robôs cumprirem com funções até então realizadas por pessoas também foram temas discutidos.

Como integrante de uma cooperativa de tecnologia baseada em Salvador, Rodrigo Souto defendeu que a própria organização do trabalho neste formato já é uma posição política, assim como a decisão de adotar o software livre, uma premissa fundamental do trabalho do grupo em que está envolvido. Ele entende que, para evitar que as estruturas coletivas já consolidadas acabem cooptadas, é preciso firmar redes de cooperativas, frentes amplas capazes de lutar por mudanças. Citou os desafios e necessidades de atualização da legislação. “Abrir uma cooperativa é mais complicado que abrir uma empresa e, neste formato, há limitações como participar de alguns editais, por exemplo”, menciona. Como parte das alterações necessárias, ele defende que é preciso também considerar mecanismos para dificultar o que chama de “coopergatos”, cooperativas de fachada que são controladas como empresas e servem apenas para fugir de impostos e obrigações trabalhistas.

Livro propõe tecnologias livres contra a uberização do trabalho e da vida

Em meio aos impactos da aprovação da terceirização n​a​ Câmara dos Deputados, da perspectiva de desmonte da ​Previdência ​Social e do cancelamento de garantias mínimas trabalhistas, tentar compreender e refletir sobre as novas formas de organização do trabalho é fundamental.

Al​​​​ém das ameaças representadas pelas diferentes reformas na pauta conservadora apresentada no Congresso, é preciso considerar também o impacto direto de novas tecnologias nas relações laborais, as mudanças já concretizadas, os limites e possibilidades futuras.

cooperativismo_lancamento_2

Neste sentido, as editoras Autonomia Literária e Elefante​ e a Fundação Rosa Luxemburgo convidam para um bate-papo sobre economia do compartilhamento e o fenômeno da uberização das profissões. O debate acontece na próxima segunda-feira, dia 3 de ​abril, no ​Ateliê do Gervásio (Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga,​ ​São Paulo​).

Na ocasião, será lançado o livro ​​Cooperativismo de Plataforma​: Contestando a economia do compartilhamento corporativa​, de Trebor Scholz, com tradução de Rafael Zanatta.

A ideia é discutir não só a multiplicação de aplicativos propriet​á​rios em um novo mercado concentrado por poucas empresas transnacionais, marcado pela concentração econômica, precarização e desregulamentação​ do trabalho​, mas também alternativas possíveis e o potencial do uso de tecnologias livres e plataformas cooperativas como uma alternativa a essa ordem em implementação.

​O livro

​O autor, Trebor Scholz, ​é escritor, artista e professor de cultura e mídia digital da The New School, de Nova ​Y​or​k. O livro foi traduzido por Rafael Zanatta, mestre em Direito pela Universidade de São Paulo e em Direito e Economia Política pela Universidade de Turim, na Itália, pesquisador em direitos digitais e telecomunicações no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (I​dec).

​Durante o lançamento, ambos apresentar​ão​ os principais conceitos do livro, comentando episódios recentes e exemplos concretos​.​ Rafael Zanatta ​estará presente ​no auditório e Trebor​ participará por meio de videoconferência.

Para trazer mais​ ​elementos​ sobre a experiência na construção de modelos alternativos à economia do compartilhamento e um pouco da realidade fora do Eixo Rio-São Paulo, também estar​á​ conectado​ em videoconferência​ Aurélio A. Heckert, desenvolvedor de Software Livre e integrante da Cooperativa de Trabalho em Tecnologias Livres​ (Colivre)​, organização baseada em Salvador, na Bahia.

A mediação da conversa será feita pela escritora Ana Rüsche,​ que, com Daniel Santini, é​ autora do prefácio ​à​ edição brasileira.

A proposta é de refletir sobre as mudanças em curso em diferentes mercados de trabalho e setores. Mais do que se render passivamente às comodidades da economia de compartilhamento​,​​ ou simplesmente criticá-la sem apresentar alternativas,​ é preciso compreender seus impactos e limitações.

Ou, como questiona Trebor Scholz​, autor do livro,​ aceitar que “daqui a trinta anos, quando enfrentaremos o fim das profissões e mais empregos serão ‘uberizados’, podemos muito bem acordar e imaginar por que não protestamos contra essas mudanças. Podemos sentir remorso por não termos buscado alternativas, mas não podemos mudar o que não entendemos”.

 

cooperativismo_de_plataforma_layout_3D

COOPERATIVISMO DE PLATAFORMA
Lançamento do livro em bate-papo com Rafael Zanatta, responsável pela tradução e comentários​ ​à edição brasileira, e conexão com Trebor Scholz, o autor, direto de Nova ​Yor​k, e com Aurélio Heckert, desenvolvedor de software livre e integrante da Colivre. Mediação: Ana Rüsche​.​
Data: ​3 de ​abril de 2017, segunda-feira
Horário: a partir das 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bela Vista, São Paulo (SP)
Realização: Autonomia Literária, Elefante Editora e Fundação Rosa Luxemburgo​