A derrota de um time que nunca foi
Por Fabio Luis Barbosa dos Santos
Autor de Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol
Lá pelos 10 minutos do segundo tempo, me senti obrigado a dar explicação. Na sala repleta, cheguei até as minhas filhas e argumentei que o jogo passivo da Seleção era uma estratégia.
“Então eles estão jogando mal de propósito?”
As crianças vão no ponto. De fato, a impressão era essa.
Em 5 de julho de 1982, a Seleção perdeu para a Itália dirigida por um técnico que dizia que futebol não era jogar bem ou vencer, mas jogar bem para vencer. 44 anos depois, jogamos mal para vencer, conduzidos por um técnico italiano. Entre uma derrota e outra, o futebol brasileiro se transfigurou. Esta trajetória é reconstituída no livro Saudades do que nunca fomos.
As raízes do desastre contra a Noruega são profundas. Em 1982, a comunidade futebolista brasileira interpretou a “tragédia do Sarriá” como uma sentença: o futebol-arte não compensa. Dali em diante, enquanto o neoliberalismo ajustava sociedades, o futebol brasileiro também se ajustava. Em 1994, a Seleção foi campeã derrotando a Itália com um futebol defensivo. Foi uma espécie de identificação com o agressor que a havia traumatizado. A Seleção venceu, mas e o futebol brasileiro?
Nos anos seguintes, o esporte continuou se ajustando e se globalizando segundo padrões europeus. Por um momento, pareceu que o Brasil se encaixaria bem: a Seleção foi vice em 1998 e campeã em 2002.
Só que não. De lá para cá, nenhuma seleção sul-americana campeã do mundo venceu uma europeia campeã nos noventa minutos jogados de uma Copa. E o Brasil foi eliminado sempre que enfrentou uma seleção europeia no mata-mata. Visto por este lado, a derrota para a Noruega em 2026 confirmou um padrão. Mas foi diferente.
Com os jogadores brasileiros migrando cada vez mais cedo para a Europa, com o tempo a contratação de um treinador europeu se impôs. Claro, o Mister teve que jogar o jogo da CBF: fechou um contrato até 2030 mas convocou Neymar.
Sabemos que o Neymar imaginário desafia a razão esportiva. Em sua melhor forma, o jogador nunca resolveu uma partida decisiva de Copa. Em um país cada vez mais sem futuro nem trabalho, que se evangeliza dentro e fora de campo, Neymar é a bet encarnada: é a expectativa do milagre na linguagem do futebol.
Mas o Mister disse que não reza porque Deus tem assuntos mais importantes. Contra o Japão, mexeu bem e a Seleção virou. Neymar ficou no banco, mas inconformado. Contra a Noruega, mexeu fatal. Tirou Rayan que, além de atacar, cobria a lateral direita. De fato, a mudança desequilibrou o jogo, só que contra. Aquele que encarnava o Salvador, trouxe a destruição. O Brasil levou dois gols pela direita, Neymar deu um pontapé no meia norueguês que alugou o meio de campo, e bateu boca enquanto se escorriam os minutos finais. Como num espelho do bolsonarismo, nosso messias de chuteira foi pura pulsão de morte. A salvação revelou-se como o fim.
O desfecho escatológico não dissipou a vergonha em campo, mas a escancarou. Foi a cereja podre de um bolo azedo, como disse Casagrande. O Brasil teve a menor posse de bola da sua história em Copas. Em parte, foi a estratégia de deixar a Noruega jogar e ficar no contra-ataque. Em parte, foi incompetência: o Brasil simplesmente não conseguiu ter a bola nos pés. Pode-se discutir se a estratégia foi acertada, e a maioria dos comentaristas acha que não. Mas o que mais preocupa é o que ela revela.
Partindo do princípio de que Ancelotti conhece mais de futebol do que você e eu, deduzimos que a estratégia resultou da leitura que ele fez do confronto. Este técnico experiente olhou para a Seleção brasileira; olhou para a Noruega; e chegou à conclusão de que o melhor a fazer era dar a bola aos noruegueses e jogar no contra-ataque. Menos permeável à aura da “amarelinha” no imaginário brasileiro, o treinador estrangeiro avaliou que não tínhamos meio de campo para se impor: o time pequeno no confronto éramos nós.
Partindo de um diagnóstico severo das limitações do plantel brasileiro, Ancelotti amarrou o time a elas, em lugar de tentar arrancar dele o seu melhor. Foi a versão paraguaia da Seleção brasileira, sem a raça dos vizinhos. Talvez tenha sido uma profecia autorrealizada: um time escalado para jogar pequeno, terminou sendo pequeno mesmo. Fomos Cabo Verde ao contrário.
E, assim, o horizonte de expectativas do futebol brasileiro, que vem se estreitando desde 1982, se rebaixou mais um degrau. Antes desse domingo, ninguém apostava na Noruega no bolão. Promoções de distribuir cerveja ou cancelar a dívida da TV se o Brasil ganhar a Copa perderão tração. A magia sobreviverá como nostalgia. E a atração se desloca do esporte para a imagem. O mundo corporativo não sorteou viagens para ver jogos da Copa, mas para um fim de semana com Ronaldo em Ibiza.
O encantamento do futebol brasileiro sobrevive pelas brechas. Mas também é atiçado como ilusão interessada por quem ganha dinheiro com isso, como o ufanismo embalado pelas bets da Cazé TV.
Cada vez mais desconectada do desempenho nos gramados, a paixão ainda floresce na Copa, porque ela conecta com desejos de vida. Quem não quer cancelar uma segunda-feira, se encontrar e fazer festa? São anseios compartilhados com populações racializadas em todo o mundo, que também torcem pela Seleção que um dia foi poesia. Enquanto o desejo de fruição lúdica da vida seguir pulsando, é porque o jogo não acabou. Mesmo que, para os brasileiros, mais uma Copa tenha terminado.












