Antifeminismo, cotidiano e pertencimento — a orelha de ‘Mulheres e extrema direita no Brasil’
A Elefante está lançando Mulheres e extrema direita no Brasil, livro de Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira. O texto da orelha da edição, de Brenda Carranza, é esclarecedor sobre os pontos da pesquisa das autoras: como essas mulheres conservadoras atuam diante das pautas feministas, construindo uma forma própria de ação política (não apenas auxiliar) deste campo a partir de imagens de feminilidade e temas cotidianos. Brenda é doutora em ciências sociais, professora e pesquisadora da Unicamp, da Uerj e da Faperj. Segue o texto:
Durante décadas, o antifeminismo foi majoritariamente vocalizado em mídias, parlamentos e púlpitos por homens conservadores. Nos últimos anos, contudo, esse cenário mudou: as próprias mulheres de direita assumiram o protagonismo do combate às pautas feministas na esfera pública. Em nome de Deus, elas passaram a se opor às questões de gênero e a construir uma nova autoridade política, ancorada na defesa da família, na moralidade conjugal, no cuidado e na virtuosidade cristã.
É sobre esse deslocamento e a construção de um projeto de poder que Christina Vital da Cunha e Jacqueline Moraes Teixeira se debruçam neste livro. A partir de um acompanhamento sistemático de redes digitais, mídias convencionais e processos eleitorais, as autoras demonstram como as trajetórias de mulheres proeminentes da direita brasileira, com destaque para Michelle Bolsonaro e Damares Alves, tornaram-se chaves interpretativas do ativismo político antifeminista. Mais do que meras personagens, essas duas figuras icônicas do conservadorismo nacional passaram a ocupar uma posição estratégica na reorganização política do Brasil, mobilizando imagens de feminilidade, fé e proximidade afetiva para disputar políticas públicas cruciais de saúde, educação, infância, direitos reprodutivos e sexuais.
Ao longo desta leitura instigante, é possível acompanhar de que forma atuam Michelle e Damares, quais repertórios mobilizam e como transitam entre as arenas partidária, governamental e evangélica. O livro revela o modus operandi desse conservadorismo — que se autopromove como “não ideológico” — e como ele transforma atributos tradicionalmente associados ao feminino (delicadeza, fragilidade, domesticidade, maternalidade) em uma eficiente tecnologia política de pertencimento nacional.
Para Christina e Jacqueline, o ativismo feminino bolsonarista não é uma presença auxiliar na extrema direita, nem uma adesão passiva a projetos masculinos; trata-se de uma forma própria de ação política, uma força capaz de recrutar, formar, disciplinar e mobilizar mulheres a partir de uma gramática que combina feminilidade essencializada, suposta capacidade de pacificação, performatividade de sentimentos e alinhamento fino com a estética da branquitude, do consumo e do empreendedorismo.
Mais ainda, as autoras sugerem a emergência de uma “cultura pentecostal difusa”, expressa em modos de falar, orar, aconselhar e testemunhar que extrapolam os templos e penetram a política, as redes sociais e o cotidiano feminino. Trata-se de um antifeminismo que propõe empoderar sem romper com as hierarquias de gênero, afirmando uma ordem política liderada por mulheres, mas alicerçada na complementaridade e não na corresponsabilidade. Ao reorganizar as fronteiras simbólicas entre o movimento feminino e o movimento feminista, esta obra fundamental ressignifica as próprias noções de “direita” e descortina, enfim, uma outra face do bolsonarismo.
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Foto: Manifestação de mulheres contra Bolsonaro em 2018.









