Futebol como aposta — o Brasil e as bets em campo

Diante da possibilidade do governo federal proibir a atuação das bets (casas de aposta esportiva on-line) no Brasil, diversos clubes de futebol do país se manifestaram pela manutenção da publicidade dessas empresas, dizendo que medidas proibitivas seriam “o fim do futebol brasileiro”. O livro Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, de Fabio Luis Barbosa dos Santos e lançado pela Elefante às vésperas da Copa do Mundo, trata do tema. Seguem alguns trechos que falam sobre as bets.

Futebol como aposta
Parte VII

(…) Não parece casual que as bets tenham ganhado tração no Brasil paralelamente à implantação do VAR. A revisão em vídeo almeja uma padronização da arbitragem que é crucial para um ambiente favorável às apostas, preservando o apostador do risco de ser “roubado” por um juiz. Poderíamos dizer que uma Seleção de jogadores que são também empreendedores corresponde a uma pátria de empreendedores que são também jogadores — de azar. Mas o fenômeno das bets tem implicações que transcendem a relação com o jogo, revelando inflexões de expectativa e de sensibilidade.

Para começar, há uma diferença importante entre o empreendedor e o apostador. Enquanto a ideologia do empreendedorismo está alicerçada no trabalho e no mérito, uma vez que o sucesso depende do empenho individual, no apostador esse nexo se dilui a ponto de se confundir com a sorte. A indústria das bets nega que seja assim, argumentando que a aposta esportiva envolve destreza e inteligência, configurando um jogo de habilidade à maneira do videogame, e não um jogo de azar em que a sorte é preponderante. Foi assim que, no apagar das luzes do governo Michel Temer, o setor driblou a proibição aos jogos de azar no Brasil para se legalizar. Quando uma regulamentação mais detalhada se desenhou em 2023, as bets já eram fato consumado: os clubes não abririam mão do seu patrocínio, nem o Estado dos potenciais tributos. Àquela altura, havia mais de duas mil casas virtuais de apostas em operação, a maioria sediada em outros países, inclusive paraísos fiscais — o que é uma forma de protegê-las da lei brasileira, já que o mundo digital dos jogos de dinheiro vai muito além do futebol. O famigerado “jogo do tigrinho” é hospedado fora do Brasil por uma obscura empresa com sede na ilha de Malta (Gallas, 2024).

Na realidade, o agressivo investimento das bets em marketing esportivo é parte de uma estratégia de imagem que associa um jogo ao outro, visando naturalizar a aposta e o próprio jogo de azar como parte da cultura brasileira. 

(…)

A imagem das bets como um entretenimento inofensivo, estimulante e divertido, à imagem e semelhança do videogame, é reforçada por um ecossistema de influenciadores digitais que lucram com isso. O contrato da influenciadora Virginia Fonseca com a Esportes da Sorte previa o pagamento de bônus de no mínimo 24 milhões de reais caso a bet tivesse lucro líquido de 80 milhões de reais a partir do link que ela divulgou aos seus seguidores (Seto, 2025). Ao invés de contradizer a ideologia das bets como entretenimento, a relação mercantil com influenciadores reforça uma poderosa fantasia na qual ambos convergem: ganhar dinheiro se divertindo.

A triangulação entre futebol, influenciadores e bets sugere uma sensibilidade diferente da do empreendedorismo, revelando uma aposta na vida que não está mais na gramática do trabalho e nem da cesta básica. Um relatório do Banco Central analisando movimentações via PIX em 2024 indicou que, mensalmente, cerca de 24 milhões de brasileiros transferiam dinheiro para casas de aposta e que, em agosto daquele ano, cinco milhões de brasileiros destinaram às bets recursos do Bolsa Família (Banco Central, 2024). Desde o início da Nova República, observa-se um deslizamento das estratégias de sobrevivência popular, que partiram da expectativa de direitos universais alicerçados na Constituição Cidadã para abraçar as políticas focalizadas do lulismo, passando pelo empreendedorismo que atravessou esses anos e desaguando na aposta como complemento de renda. Evidentemente, tais estratégias se misturam e se sobrepõem, mas o uso do benefício do Bolsa Família para apostar indica o sentido do movimento: o dinheiro que serviu para comprar comida ou como investimento inicial para empreender virou capital de risco. A aposta no futuro virou uma… aposta.

Alheia aos efeitos do vício para a saúde financeira e mental de milhões de brasileiros, a razão econômica se alarmou com a drenagem de recursos do consumo varejista e da poupança bancária e com a inadimplência: as plataformas de apostas passaram a ser vistas como concorrentes de produtos de investimento. Apenas 2% dos brasileiros investem na Bolsa de Valores, mas 15% “investem” em apostas on-line — e um sexto deles considera a sua relação com as bets um “investimento” (Tagialori, 2024). Uma sensibilidade atravessa a aposta. Essa sensibilidade passa pela crise do trabalho, que contrasta com a magia do mercado financeiro, em que dinheiro gera dinheiro. Em uma realidade em que estudo e labuta traz em poucas recompensas, parece mais promissor investir a esperança fora do trabalho. O sonho desse mundo não passa pela ideologia do trabalho que enriquece e enobrece, mas por ganhar dinheiro se divertindo e fazendo o que gosta, tal qual os influenciadores digitais e os jogadores de futebol.

Para além dos seus significados sociais e econômicos, a bet esportiva oferece a overdose de emoção que tem faltado ao jogo, produzindo um engajamento que o próprio futebol se mostra cada vez menos capaz de garantir. Porém, a natureza do vínculo com o esporte arrisca se modificar — o que já aconteceu com os jogadores. Assim como na carreira dos gramados, a lógica da aposta desafia a lealdade ao clube, prevalecendo o cálculo das possibilidades de rentabilização. O lado afetivo do futebol se vê comprimido pela análise racional, então há fidelidade além do dinheiro.

Tal qual acontece com a racionalização defensiva do esporte, a lógica das bets decompõe a partida em variáveis redutíveis a cálculo matemático, sem o que não há como cercar o jogo para produzir a aposta. Há um fracionamento em elementos passíveis de monetização (gols, escanteios, cartões, substituições), embora a soma dessas partes nunca explique o todo constituído por uma partida, como o próprio placar é incapaz de traduzir. Essa segmentação tem efeitos na relação do espectador com o jogo; ele se vê torcendo para que determinado jogador tome um cartão amarelo num certo período da partida, ou para que o treinador substitua tal jogador por outro no segundo tempo. A fruição do esporte é trocada por realizações menores que podem ser um lateral, um escanteio ou um impedimento. Jogadores se envolveram em esquemas para fazer dinheiro em função de ações por eles provocadas, como um cartão em determinado momento da partida. Alguns foram banidos do esporte (Marchiori & Saviani, 2024).

A aposta exige uma redução do jogo a seus aspectos contábeis. Essa produção de equivalentes gerais objetivamente comparáveis lima a relevância de tudo o que diz respeito à qualidade sensível do esporte — justamente onde mora a sua beleza. Não se pode apostar se as equipes mereceram o resultado ou em quem jogou mais bonito. Em uma sociedade em que cada vez mais se somam calorias em lugar de apreciar o sabor dos alimentos; em que se contam calorias perdidas, mas não se contemplam paisagens ao caminhar; em que a qualidade do sono é medida por um relógio, e não pela disposição no dia seguinte; e em que a capacidade de julgamento sensível sobre si e sobre o mundo está em declínio, a relação de prazer como futebol também é afetada. A subjetivação por trás do engajamento mediado por apostas sacrifica a qualidade sensível do jogo em nome da sua racionalização contábil interessada. A fruição se desloca da gratuidade do deleite esportivo e da torcida pelo time do coração, para ser atravessada pelo ganho monetário. Refém das odes das casas de aposta, o gozo com o futebol também se mercantiliza.

Atravessando o financiamento dos clubes, o patrocínio dos torneios, a experiência dos torcedores e a ética dos jogadores, o envolvimento do futebol brasileiro pelas bets corrobora um estreitamento angustiante da vida. Em lugar de prover espaço mental para descomprimir subjetividades cada vez mais tensionadas, esse atravessamento do lúdico pelo imperativo mercantil a reforça. O futebol que foi colonizado pelo trabalho agora é sitiado pela falta de trabalho. O despontar do Brasil como potência futebolística na segunda metade do século XX sugeria a possibilidade civilizatória de subsumir a técnica ao lúdico, a eficiência à arte e a defesa ao ataque. Atualmente, assistimos ao processo contrário, em que a previsão mercantil coloniza o lúdico, pre-tendendo fazer do futebol objeto de valorização também para os seus amadores-torcedores. O Brasil deixou de ser uma aposta no futuro, e o futebol brasileiro sobrevive como aposta.

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Foto: Arbitragem em jogo do Campeonato Brasileiro, patrocinado por uma casa de apostas. / Crédito: CBF

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