Alberto Acosta: ‘Reconectar-se com a natureza é o mínimo; precisamos de curiosidade, de outra organização social’

Alberto Acosta vem ao Brasil neste início de maio para lançar O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos – 2ª edição revisada, atualizada e ampliada na Feira do Livro da Rocha, no Bixiga, em São Paulo. Ele participa da mesa de abertura, na sexta (01/05), às 10h30; de uma aula pública, no sábado (02/05), às 14h; e de uma roda de conversa, no domingo (03/05), às 15h. A programação completa está aqui. Acosta concedeu essa entrevista ao nosso blog pouco antes de embarcar ao Brasil:

1. Dez anos depois, chegamos a uma nova edição de O Bem Viver aqui no Brasil. Como te parece nossa relação atual com esses temas que você traz, como pós-extrativismo e decrescimento, passada essa década com pandemia e um presidente de extrema-direita?

Olhando do Brasil, me inspira a capacidade da Editora Elefante em sustentar esse tipo de debate. Isso demonstra, por um lado, o crescente interesse em propostas emancipatórias e transformadoras. Por outro, evidencia a coerência da editora, que se tornou uma espécie de ponto de vista privilegiado para receber e disseminar mensagens que incentivam discussões profundas e até mesmo processos de mudança, construindo pontes entre diversas realidades e fomentando reflexões inovadoras.

Abordando essa questão a partir da perspectiva do meu país, o Equador, me impressiona a multiplicidade das lutas de resistência e re-existência dos setores populares, que defendem direitos e territórios, exigem mudanças e constroem alternativas de baixo. Eles enfrentam situações marcadas pela militarização da sociedade e pela crescente neoliberalização da economia, tudo isso em um país onde práticas ditatoriais se consolidam rapidamente.

Em suma, ao longo deste livro, com revisões e atualizações em suas diversas edições em diferentes idiomas, enfatizei repetidamente que o mundo precisa de mudanças profundas e radicais, e não de meras medidas paliativas. Precisamos superar as visões simplistas que fizeram do economicismo o eixo da sociedade. Precisamos de uma outra organização social e de novas práticas políticas. Reconectar-se com a natureza é o mínimo que podemos incentivar, ao mesmo tempo que erradicamos a exploração do ser humano. As cidades precisam ser repensadas a partir de perspectivas de equidade social, inclusive de sustentabilidade. Para alcançar isso, é essencial recorrer à nossa experiência acumulada, despertar a criatividade e fortalecer nosso compromisso com a vida. Precisamos iluminar o futuro com a esperança como uma força ativa, que nos impulsione à ação.

2. Ao mesmo tempo, o retorno do presidente Lula renova alguma esperança em ver a América Latina sonhando com novos mundos? Ou não tem se tratado exatamente de um ou outro governo

Sem dúvida, apesar de todas as críticas que podem ser dirigidas ao governo Lula, sua presença e suas ações democráticas mantêm abertos os espaços para o debate e a construção de alternativas e horizontes emancipatórios. Com um governo de extrema direita, como os regimes de Bukele, Milei ou Noboa, o ambiente para a reflexão estaria seriamente ameaçado. Contudo, não podemos deixar de questionar todas as políticas governamentais brasileiras que permanecem na trajetória do desenvolvimentismo, como a mineração e a extração de petróleo, a falta de soluções para a enorme concentração de terras e riqueza, ou a ainda muito presente estrutura patriarcal e colonial.

3. Você traz no livro, inclusive, as formas com que o conceito do Bem Viver foi sendo manipulado — Maristella Svampa, por exemplo, observou isso nos casos do Equador e da Bolívia, em como foram anulando o potencial transformador da ideia. Houve esse desgaste? Enfraqueceram o Bem Viver para seguirem com seus projetos de desenvolvimento?

Maristella Svampa, essa grande pensadora latino-americana, compreendeu desde cedo o que estava acontecendo nos governos progressistas da Bolívia e do Equador. Nesses regimes, o conteúdo profundo do Buen Vivir (Equador) ou do Vivir Bien (Bolívia) foi vampirizado e transformado em um mecanismo de poder, uma mera ferramenta de propaganda. Essa ação esvaziou o Bem Viver de seu conteúdo transformador, como uma proposta que questiona profundamente a Modernidade. O Bem Viver foi metamorfoseado em uma alternativa de desenvolvimento, quando, em sua essência, é uma alternativa ao próprio desenvolvimento e ao progresso em si. Isso explica por que esses regimes progressistas continuaram trilhando o caminho desenvolvimentista.

4. Ainda nesse sentido, algo positivo a se tirar de mobilizações como a COP30 em Belém? Governantes e indústria à parte, um evento de clima na Amazônia acabou reunindo movimentos sociais, denúncias, pautas de coletivos indígenas…

Precisamos reconhecer que as COPs, não apenas a de Belém, estão longe de ser espaços onde possamos discutir, muito menos promover, soluções fundamentais para os graves problemas que a humanidade enfrenta. A COP30, realizada na Amazônia brasileira, que despertou grandes expectativas e foi marcada por forte pressão social e indígena, apesar de algumas conquistas no discurso, não conseguiu produzir um plano concreto para a eliminação dos combustíveis fósseis. Na prática, o poder dos interesses daqueles que lucram com esses combustíveis e com a extração mineral, atrelados à transição energética corporativa e à transição digital, domina o cenário geopolítico, inclusive dentro das COPs. Isso também explica a enorme discrepância entre discurso e prática.

Avançar rumo à descarbonização enquanto enfrentamos os impactos das mudanças climáticas soa bem. Mas, como bem sabemos, isso exige ações coerentes, não meras medidas paliativas, muito menos retórica vazia desprovida de conteúdo prático. Precisamos urgentemente de uma transformação energética, mas não basta qualquer transição.

5. A atualização do livro mostra um novo momento da nossa relação com a vida na cidade. Os últimos anos amplificaram o debate público sobre a crise da convivência urbana. Como trazer o Bem Viver nesse contexto de urgência diante da mobilidade urbana, do preço da passagem de ônibus, do valor dos aluguéis, da precariedade do trabalho via aplicativos etc?

Esta edição do livro aborda diversos temas não contemplados nas edições anteriores. Com as experiências e lições acumuladas nesta segunda edição, sintetiza-se algo fundamental: o Bem Viver não só nos permite compreender o mundo a partir de outras perspectivas, como, sobretudo, nos oferece muitos elementos para imaginar outros mundos.

Assim, a tarefa exige que abordemos, entre muitos outros aspectos, a questão urbana. A maioria dos habitantes do nosso continente vive na cidade. Esses espaços têm o potencial de se transformarem em territórios emancipados e, ao mesmo tempo, emancipatórios. Reconheço a dificuldade de abraçar o Bem Viver, com sua enorme carga conceitual e prática proveniente de mundos indígenas, mas, apesar dessas complexidades, existem muitos elementos e muitos processos em curso que estão transformando as cidades.

A vida na cidade deve ser repensada por meio de práticas que gerem satisfação e alegria em sua execução, inspiradas por diversas facetas onde prevalecem a comunidade, a solidariedade, a reciprocidade e o respeito constante pela vida. Isso inclui repensar a organização do tempo cotidiano, começando pelo transporte nas cidades, para citar apenas um ponto específico.

6. também uma presença maior da ideia do colapso. As pessoas passaram a falar mais normalmente sobre fim do mundo, e você até cita Fabian Scheidler comfim da megamáquina. Onde espaço para a utopia diante dessa sensação geral de esgotamento?

Aí reside um dos grandes desafios. Devemos reconhecer que muitas pessoas estão convencidas de que a civilização do capital caminha cada vez mais para o fim da megamáquina. Muitas pessoas se veem, figurativamente falando, no Titanic, cujo fim parece inexorável. Para enfrentar esse sentimento de impotência, precisamos recuperar e construir alternativas concretas que existem em todo o mundo; alternativas que emergem principalmente dos espaços comunitários urbanos e rurais. E se estivéssemos mesmo em uma espécie de Titanic, não me peçam para baixar a guarda; continuarei tocando — propondo alternativas — até o último momento, assim como o grupo de músicos no navio que estava afundando.

7. O Brasil está debatendo fortemente o fim da escala de trabalho 6×1. Como essas mudanças da classe trabalhadora têm impactado nessa reflexão toda que você traz? Podemos ser otimistas em acreditar numa vida de menos trabalho? mais espaço para se provocar o direito ao ócio?

Para compreender o que essa demanda representa, é necessário situar o significado do trabalho na civilização do capital. O trabalho é uma ferramenta de exploração e alienação. Por essa razão, a luta por jornadas de trabalho mais curtas e melhores condições de trabalho caracteriza processos políticos há muito tempo, com longa história. Menos horas de trabalho significam mais tempo livre, mais tempo para a família, mais tempo para descansar. Tudo isso é ótimo. Mas, como sempre há um “mas”, exigir o direito ao trabalho neste sistema é exigir o direito à exploração.

O que devemos exigir como direito é o ócio, que de forma alguma deve ser confundido com o “tempo livre” causado pelo desemprego ou imposto por uma quarentena. Não estamos falando de ócio como uma oportunidade de negócio, ou seja, também uma fonte de exploração. O ócio deve expressar a liberdade e a autonomia dos indivíduos vivendo em comunidade. Deve ser parte integrante da vida, um momento de criatividade e celebração do sagrado.

Essa compreensão impõe mais uma tarefa na grande transformação civilizacional. O “ócio comercial” terá que ser substituído pelo “ócio emancipatório”; o trabalho alienante deve ser emancipado das relações de exploração; e, na medida em que o trabalho e o ócio estiverem sob nosso controle, a perversa distinção entre os dois vai evaporar.

8. Por fim, como tem sido trabalhar o texto de um conceito vivo, de um livro em constante reescrita? A nova edição é influenciada por conversas com colegas e por novas leituras, claro, diante de um debate que ganha novos elementos a cada instante. Como têm sido percorrer esse caminho de quase 15 anos desde a publicação do livro no Equador, em 2012?

Isso mesmo, este livro não oferece um texto acabado. Está longe de apresentar receitas ou modelos indiscutíveis. Não existem. Este livro reúne muitas reflexões, tanto minhas quanto de outros. É o resultado de um processo contínuo. Há muitas correções e lições acumuladas. Considero-me apenas um estudioso do Bem Viver e de forma alguma um especialista. O que reconheço é que este tema me motiva há algum tempo.

Busco inspiração nas lutas dos movimentos populares, especialmente os indígenas e afrodescendentes. Aprendi com as visões, os valores, as experiências e as práticas de povos tradicionalmente marginalizados e até mesmo esquecidos pela história. Não desconsidero outras contribuições, como, para citar algumas, as poderosas contribuições do feminismo e do ambientalismo. As lições que aprendi com debates e conversas são muitas, enriquecidas pela minha participação na política atual e também pelos meus anos como professor universitário, mas sobretudo por ter sido e continuar sendo um companheiro de luta dos movimentos sociais e populares. Toda essa vasta experiência me permite contribuir modestamente para o debate e para a construção de alternativas profundas.

Aprendi, desaprendi e reaprendi por meio de um processo constante de reflexão crítica e autocrítica. E espero continuar assim, contando com instituições como a Editora Elefante, que, neste mundo complexo, nos abrem portas, nos apoiam e, em última análise, nos incentivam a continuar.

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