“O que foi aquilo?” Marion Nestle levou as mãos ao alto, em sinal de surpresa, ao cruzar a porta do auditório 3 da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília. Por um momento, sentimos um frio na espinha: ela havia odiado tudo aquilo? “Eu nunca fiz um evento de lançamento de livro com tanta gente. Nunca.”

A professora emérita da Universidade de Nova York havia deixado sua cidade 24 horas antes. Ela estava exausta. Mas encontrava forças para mais um autógrafo, mais uma foto, mais um sorriso. O auditório de duzentos lugares ficou repleto para recebê-la, e era possível sentir o entusiasmo das pessoas em ouvir a fala mansa, clara e contundente de Marion.

Dois dias mais tarde, o auditório de 230 lugares da Faculdade de Saúde Pública da USP não foi suficiente. Além de muita gente sentada nos corredores, foi preciso apelar a uma sala extra que transmitiu em simultâneo a fala de Marion. Ela mal pôde acreditar quando chegou e se deparou com uma enorme fila de pessoas ansiosas por ouvi-la.  O mesmo se deu ontem na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

“Eu publiquei dez livros. Dez. E nunca vi nada parecido”, Marion continuou nos contando, depois de uma aula no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. Nascida na década de 1930, Marion surpreende pela profunda vitalidade. Sim, ela ficou cansada. Por vezes parecia que ela queria nos amaldiçoar pela agenda pesada. Mas topou tudo e se deu bem em tudo, com extrema clareza de raciocínio. 

O que fica do pequeno tour de Marion Nestle? Primeiro, a vontade de que ela possa retornar mais algumas vezes. Segundo, um livro para circular por aí. Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos vai muito bem, obrigado. 

Terceiro, ideias. Muitas. É aqui que a passagem da professora pelo Brasil encontra nossa infeliz conjuntura. O que são centenas ou milhares de pessoas diante do rolo compressor a que estamos sendo submetidos? São bastante coisa. Esse cenário grotesco não pode durar para sempre. Enquanto durar, debates como os suscitados pela visita de Marion são um ato de resistência.

E de semeadura: estamos tentando, lentamente, criar um amanhã mais promissor. Como já fizemos de outras vezes. Demorou décadas para que o sistema de segurança alimentar e nutricional do Brasil desafogasse em políticas públicas que fizeram do país um modelo global. 

Auditórios de universidades públicas ficaram lotados poucos dias depois de o ministro da Educação declarar que se tratam de ambientes de “balbúrdia”. O evento na Saúde Pública da USP se deu horas depois de outro ministro, o da Saúde, demonstrar a intenção de passar o trator sobre anos de discussão a respeito do melhor modelo de rotulagem de produtos comestíveis ultraprocessados. Em meio a um desmonte das políticas públicas exitosas no combate à fome. 

Mas lá estava Marion, declarando que o Guia Alimentar para a População Brasileira é o melhor do mundo. E mostrando que há muito jogo por jogar.

O que é uma professora diante de um governo? Talvez tenhamos de inverter a pergunta: o que é esse governo diante de uma pessoa que atravessou uma guerra mundial, a Guerra Fria, inúmeros governos reacionários, o machismo no âmbito acadêmico, dossiês corporativos e muito mais para chegar à condição de referência no debate sobre alimentação? Sim, eles têm a caneta e a utilizam sem pudor para produzir violência, desigualdade, dor. Mas é certo que um dia serão passado. 

Marion, não. Nos auditórios repletos havia gente que levará essas ideias adiante. Que formulará novas pesquisas. Que se decidirá a atuar em organizações da sociedade civil ou autonomamente. Que proporá políticas públicas. Que produzirá as mudanças necessárias para encararmos o século 21. Nos últimos meses, estamos todas e todos tentando colocar os tijolinhos que nos levarão a algum desfecho melhor. A passagem da professora pelo Brasil nos deu uma fileira inteira dessa nova parede.    

“Eu não tenho palavras para expressar tudo o que vocês fizeram”, ela disse, ao se despedir. Bom, nós temos. Obrigado, Marion. E até a próxima.