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O Brasil já está cozinhando a próxima pandemia?

Desmatamento massivo e acelerado. Avanço de áreas de moradia sobre ex-florestas. Aproximação entre animais domésticos e selvagens. Enormes contingentes de galinhas e porcos confinados. Ausência de fiscalização. Proteção de dados privados em detrimento da saúde pública. O Brasil de Jair Bolsonaro cria as condições perfeitas para ser o berço das próximas pandemias

Por João Peres
Publicado em Bocado

 

Não deixa de ser um paradoxo que a criação de animais confinados ameace colocar toda a humanidade em confinamento. Uma espécie de revolução dos bichos torta porque, afinal, os donos do agronegócio, causadores do problema, já demonstraram ter fortuna suficiente para escapar das restrições, dos custos e dos riscos a que estamos submetidos os mortais.

O diagnóstico de uma nova variedade de H1N2 em uma funcionária de um frigorífico no Paraná, no Sul do Brasil, dá mais solidez à leitura de que o país reúne muitas das condições necessárias para fazer nascer as próximas epidemias e pandemias. Passados quatro meses de confinamento em toda a América Latina, pensar que essa situação de exceção será cada vez mais a regra em nossas vidas já não é uma questão de sensacionalismo, mas de sensatez.

Mais sensato ainda seria se livrar das causas do problema para não precisar lidar com as consequências. Frear o desmatamento. Mudar radicalmente o modelo de produção de carne. Parar de depender da boa fé de frigoríficos.

É espantoso que os governos da América do Sul caminhem no sentido oposto, dobrando a aposta no agronegócio. Uma demonstração clara de que preferem não enxergar a origem da questão, ou não conseguem.

A Argentina se oferece como destino para milhões de porcos, justamente os animais criados em confinamento que têm mais facilidade de fazer migrar vírus para os humanos.

No Brasil, o ministro do Meio Ambiente diz que é “hora de passar a boiada” e assina dezenas de atos que desmontam a fiscalização ambiental. O desmatamento da Amazônia bate recorde, enquanto ao Sul, no país vizinho, é no delta do Rio Paraná, numa das maiores bacias hidrográficas do mundo, que o agronegócio resolve acelerar a derrubada. Ambos em nome da soja, do milho e da pecuária.

Mas, espera, o Sars-Cov-2 não é culpa dos terríveis hábitos de higiene dos chineses? Não é culpa dessa mania estranha de comer animais silvestres? Não foi nos morcegos do país asiático que surgiu o maldito vírus? Em vez de evitar contato com um chinês, gaste sua energia evitando contato com carnes produzidas a partir de animais em confinamento. Enquanto a sinofobia é preconceito, os danos causados pelo agronegócio são um conceito sólido e claro.

As corporações prometeram um modelo plenamente seguro do ponto de vista biológico. Essa era a maneira “certa” de consumir carne, à diferença do atraso representado pela criação de animais em quintais, em pequena escala.

Se tem alguém que pode dizer “eu avisei!”, esse alguém é o epidemiologista evolutivo Rob Wallace. Ele já foi consultor da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Mas, aí, na década passada, começou a alertar que uma pandemia estava se formando no horizonte. E que a China reunia todas as condições para ser o berço de um vírus que saltasse de animais para humanos. Pelos motivos listados no primeiro parágrafo, ou seja, por culpa do agronegócio, e não dos chineses.

Wallace foi colocado na geladeira. Os vírus, não. O livro dele, Pandemia e agronegócio, será publicado em breve no Brasil pela Editora Elefante. Para o epidemiologista, é um erro dizer que a pandemia de Sars-Cov-2 foi causada unicamente pela migração de morcegos a outros animais silvestres e a humanos.

Alegar que a agricultura não teve nenhum impacto — como a China tem esboçado em sua posição oficial, ou, ainda mais absurdo, que o vírus nem mesmo se originou na China — pode colocar aqueles que preferem negar o papel do agronegócio nisso tudo em uma posição bastante frágil. Como explicar a mudança de morcegos para pangolins e, talvez, para outras espécies intermediárias, como do porco para o homem, sem fazer menção à agropecuária (ou à extração de madeira ou à mineração)? A assinatura genética do vírus não aponta para um acidente de laboratório.

Assim como não será acidente se novos vírus mortais nascerem na América do Sul. O caso do Paraná, isoladamente, é motivo para causar alerta? Por ora, é motivo para ficar esperto. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma organização pública que é referência na pesquisa em saúde no Brasil, entende que a nova variedade tem potencial pandêmico, mas isso não significa que vá causar uma pandemia: significa que precisamos continuar buscando casos.

Foi a Fiocruz quem informou a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o surgimento de uma nova variação do vírus influenza A detectada na mulher de 22 anos que mora na cidade de Ibiporã. Dos 26 casos de influenza A H1N2 reportados no mundo desde 2005, esse é o segundo registrado no Brasil. O segundo no Paraná, um dos berços da suinocultura no país.

Não é um acaso que essas variações estejam surgindo com mais e mais frequência. A melhora dos mecanismos de detecção pode explicar uma parte da história, mas não o todo. Nas últimas três décadas, o mundo ampliou a criação de animais em confinamento, o ritmo do desmatamento, as conexões globais do sistema alimentar. Grãos produzidos no Brasil e na Argentina alimentam animais a milhares de quilômetros de distância. A carne produzida por aqui vai parar na mesa de ingleses, chineses, russos. Uma quantidade enorme de antibióticos é usada para prevenir infecções, única maneira de garantir a criação de milhares de aves ou porcos em espaços tão reduzidos, o que afeta a resistência dos rebanhos. Animais criados em cada vez menos dias podem ser mais suscetíveis a doenças.

O Brasil tem 1,36 bilhão de galinhas, 172 milhões de cabeças de gado, 39 milhões de porcos, 15,6 milhões de perus. Na cidade de Castro, onde pela primeira vez no país foi detectada uma nova cepa de H1N2, são 276 mil porcos, segundo o último Censo Agropecuário. O Paraná confina 25% do exército de galinhas e frangos brasileiros.

E o que devemos fazer? Eu realmente gostaria de acreditar que basta você, como indivíduo, deixar de comer carne produzida em escala industrial. Mas isso não mudaria em nada o fato de que sucessivos governos são eleitos e desfeitos aos sabores do agronegócio. Ainda que todos os brasileiros argentinos chilenos bolivianos peruanos colombianos equatorianos deixássemos de comer carne, seguiríamos produzindo para enviá-la a outros lugares do mundo.

Também seria ótimo acreditar na ideia de que o agronegócio tem uma parte “civilizada”, moderna, que está plenamente comprometida com o respeito ao ambiente e às sociedades em que atuam. É essa parte que nas últimas semanas tem se movimentado para evitar que o desastre ambiental do governo Bolsonaro cause a perda de bilhões de dólares em investimentos de fundos estrangeiros.

E é essa parte que se movimenta para não perder nenhum centavo diante do coronavírus. Frigoríficos são um dos principais centros de contágio no Brasil e em outros países. O que fez o governo do Paraná em simultâneo à notícia sobre o H1N2? Cedeu às pressões das empresas, revogando as restrições impostas às unidades de produção, como um simples afastamento de um metro e meio entre os funcionários. Repito: essa é a parte “civilizada” do agronegócio. A que prefere arriscar a vida dos trabalhadores em troca de não adotar a mais mínima medida de proteção. Imagine a parte bárbara.

Talvez seja hora de dar ouvidos a quem previu tudo isso. Para Rob Wallace,

a longo prazo, devemos acabar com a indústria pecuária tal como a conhecemos. Hoje em dia, as influenzas surgem por meio de uma rede globalizada de produção e comércio corporativo de animais confinados, onde quer que surjam cepas específicas. Com rebanhos e manadas levados de região para região — transformando a distância espacial em conveniência just-in-time (Harvey, 2006 [1982]) —, várias cepas de influenza são continuamente introduzidas em localidades cheias de populações de animais suscetíveis. Se os custos totais dos surtos fossem considerados em seus balanços contábeis, as operações de grande porte, tal como as conhecemos, deixariam de existir.

Não é de hoje que se alerta que reduzir as chances de uma pandemia teria custos relativamente baixos. Pelo menos quando olhamos para nossas sociedades. Investimentos na casa dos bilhões teriam evitado uma perda que passa de muitos trilhões de dólares. Isso se decidirmos desconsiderar todas as perdas físicas e psicológicas. Um estudo publicado essa semana na revista Science fala em US$ 30 bilhões ao ano. Um trocado.

Se nossos governos querem levar a sério a louvação ao agronegócio, precisam começar a calcular de verdade os custos desse modelo. Quando perdemos florestas nativas e cedemos nosso recurso mais valioso, a água, para a produção de grãos e animais. Quando nossos hospitais públicos atendem os trabalhadores que se infectaram nos frigoríficos. Quando precisamos criar sistemas de rastreamento do problema. Quando nossas cidades ficam mais inchadas pela chegada de pessoas expulsas do campo para abrir espaço a novas áreas de monocultura.

Enquanto isso, a conta é paga por todos nós. Com vidas. Com desemprego massivo. Com danos psicológicos diversos. Mas a picanha do domingo está garantida.

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