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Pandemia, seu prato e o futuro

“Não sei vocês, mas tenho tido dificuldade em prestar atenção a outra coisa que não o coronavírus. Todo o resto parece irrelevante.” Assim a professora e escritora Marion Nestle começou um dos mais recentes textos de seu blogue Food Politics, que, como muitos sites por aí, tem trazido informação voltada para a pandemia global. (Como poderia ser diferente? Até nossa newsletter foi “contaminada” pelo vírus).

No caso da pesquisadora estadunidense, uma das maiores autoridades mundiais em nutrição e autora de Uma verdade indigesta: como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos, que a Elefante publicou no ano passado em parceria com O Joio e o Trigo, a pauta é: como comer de maneira saudável e nutritiva sob a ameaça da covid-19 e com a necessidade de isolamento social?

Nos últimos dias, Marion Nestle ressaltou que existe um risco muito baixo de propagação do vírus em produtos alimentícios ou embalagens enviadas num período de dias ou semanas em temperatura ambiente, refrigerada ou congelada; que a exposição de origem alimentar a esse vírus não é conhecida por ser uma via de transmissão; que experiências de surtos anteriores relacionados ao coronavírus mostram que não houve transmissão pelo consumo de alimentos; que o coronavírus precisa de um hospedeiro para se reproduzir, e não pode fazê-lo em comidas. Na postagem, em inglês, você pode acessar os links para conhecer as fontes e os textos originais utilizados pela autora.

Assim, Marion, baseada nas informações científicas e consultas com especialistas — diferentemente do presidente da nossa combalida República —, considera que, sim, é seguro consumir produtos frescos dos supermercados, embalados por sacolas ou plásticos, vindo direto dos produtores agrícolas, e também comprar comidas preparadas para serem retiradas no restaurante ou mesmo enviadas por delivery.

Mas a pesquisadora registra os mesmos cuidados recomendados para lugares sem acesso a água potável. Ou seja, os alimentos frescos devem ser comidos: i) muito quentes (altas temperaturas destroem vírus e outros organismos); ii) descascados (lavando as mãos antes e depois da preparação, claro); iii) purificados (cozidos); iv) embalados (industrialmente, congelados ou secos). “Se você tiver produtos frescos, lave-os. Em caso de dúvida, cozinhe”, finaliza.

O blogue Food Politics vale a pena para quem se liga na ciência da alimentação — uma área que diz respeito a todos nós, porque todos nós temos que comer para sobreviver e todos nós estamos expostos aos anúncios de alimentos saudáveis e vilões etc. —, uma ótima referência para acompanhar os comunicados sobre o tema, os números e reações de diversos setores da indústria dos alimentos e, de forma geral, tudo que relaciona nosso prato com os dias que estamos levando.

Ah, nunca é demais lembrar que, de acordo com as evidências disponíveis, o coronavírus é especialmente cruel com quem padece de diabetes e hipertensão — condições de saúde que podem ser diretamente influenciadas pelos hábitos alimentares com excesso de açúcares e sal. A relação com o consumo exagerado de ultraprocessados — os queridinhos da indústria alimentícia — não é mera coincidência.

Em matéria publicada pelo UOL na última semana, Marion é uma das fontes do texto que reflete sobre uma revisão da cadeia global de alimentos. “Recomendações alimentares atuais para a saúde tanto das pessoas quanto do planeta exigem menor consumo de carne e maior consumo de verduras, legumes, frutas, grãos e nozes. Isso ajudaria.”

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