Para descolonizar o prato, é preciso descolonizar a mente

A Elefante está lançando Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil, de Inara Nascimento & Rute Costa, uma publicação com o apoio do Instituto Ibirapitanga. Segue a orelha o livro, que está em pré-venda no nosso site.


O livro que você tem em mãos começa com um ponto de abertura e termina com um ponto de despedida, convidando à continuidade da conversa — uma conversa que só tem início depois de nos sentarmos à mesa com Inara Nascimento e Rute Costa para um café com garapa e fritinhos de farinha d’água, receitas que ocupam um lugar especial na memória das autoras. Ajeum mi’u é uma publicação que, como o ciclo da natureza, tem começo, meio e começo; e que, como os rios, está em permanente confluência.

“Apresentamos esta escrita feita por corpos-mulheres racializados, negros e indígenas. Em nossos corpos estão inscritos nossos territórios, as marcas das opressões que nos atravessam, nossa ancestralidade, nossas resistências e nossas lutas. Com nossos corpos também escrevemos as ciências, os movimentos e as sapiências que produzimos, e, com os pés no chão, também nos posicionamos.”

Para dialogar com Inara (indígena sateré-mawé nascida no Amazonas e radicada em Roraima) e Rute (cria do Morro do Caonze/Kwanza, na Baixada Fluminense) sobre a necessidade de estabelecermos novos sistemas alimentares no país, é preciso aguçar o entendimento, estender a compreensão para além do discurso hegemônico e praticar o que Geni Guimarães chama de “descarrego colonial”. “Nosso modo de saber entra em conflito com o paradigma cartesiano, científico, moderno, ocidental, branco, patriarcal e capitalista”, alertam. “As nossas sabenças insurgentes, as aprendemos com as nossas mais velhas. E as nossas práticas de cuidado — conosco, com as nossas e com o território — se configuram como transgressões, práxis políticas, elementos imprescindíveis para a organização e a luta comunitária.”

Como sugere Bruna Crioula, citada em uma das epígrafes, “o caminho para descolonizar nossos pratos passa pela descolonização da nossa mente”. Na mesma linha, Inara e Rute afirmam: “Não é possível debater as questões alimentares sem as nossas vozes”, resumindo o objetivo de Ajeum mi’u: é urgente reconhecermos as contribuições indígenas e negras para a formação alimentar do Brasil. “Tomamos a roça e o terreiro como experiências concretas capazes de demonstrar modos de produzir e compartilhar processos alimentares ancestrais”, escrevem. “São lugares de produção de alimento e cuidado, de encontros para a partilha da vida, de conexões com a espiritualidade e de articulações para as lutas. São tecnologias ancestrais que se situam em processos históricos e dinâmicos no tempo — não são técnicas atrasadas, retrógradas, como alguns insistem em rotular.”

Além dessa visibilização e reparação histórica e cultural, que precisa ser acompanhada de demarcação e redistribuição de terras, é preciso ressaltar a importância das tradições indígenas e negras como alternativas para a implementação de sistemas alimentares diante do colapso climático — causado, em grande parte, pelo desmatamento imposto pelo modelo hegemônico de produção agropecuária. “O capitalismo neoliberal chega aos territórios desqualificando a alimentação tradicional e impondo um padrão supostamente ideal e único, reduzindo a diversidade.”

De acordo com Rute e Inara, a alimentação vai muito além de suas funções nutricionais. “Quando dizemos ajeum, em iorubá, ou mi’u, no idioma sateré-mawé, não estamos apenas falando de comida. Por meio dessas palavras, o alimento não se restringe ao prato; envolve território, corpo e espírito; é encontro, partilha, cuidado e ancestralidade. Assim afirmamos nossa maneira de existir, sentir e alimentar, recusando a lógica que busca nos limitar e insistindo que a comida é, antes de tudo, vida em movimento.”

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Ilustrações do livro: Yacunã Tuxá / Acervo Ibirapitanga

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