Descrição
Este livro reúne artigos escritos pelo renomado jornalista israelense Gideon Levy entre 2014 e 2025 sobre a ocupação e o cerco de Israel à Faixa de Gaza. São quase 100 textos abordando questões cotidianas da vida dos palestinos nessa estreita porção territorial sitiada desde 2007, como dificuldades de encontrar remédios e alimentos e o sofrimento de pais amputados por bombardeios que mesmo assim precisam cuidar de filhos deixados em estado vegetativo pelos projéteis israelenses, até interpretações dos fatos da política interna do Estado judeu, a ascensão da extrema direita sionista, os preconceitos que grassam pela sociedade israelense, e análises sobre a geopolítica do Ocidente e do Oriente Médio. A edição brasileira conta com um posfácio exclusivo escrito pelo autor em janeiro de 2026, atualizando o debate e mostrando que tudo piorou. Um livro essencial para ampliar a compreensão não apenas do genocídio israelense na Palestina mas da situação atual do planeta.
***
Em 7 de outubro de 2023, a mídia israelense deixou de fazer jornalismo e passou a ser um agente das emoções nacionalistas e militantes, agitando e incitando, como se fosse um ministério da propaganda, uma agência de relações públicas do exército, responsável por elevar a moral de uma população em guerra. Não é nem a abordagem do passado, ao estilo “silêncio, está acontecendo um tiroteio”, mas sim “está acontecendo um tiroteio, precisamos esconder toda a verdade”. A imprensa israelense vestiu uniforme militar, prestou continência ao exército e entrou na linha. […] Os meios de comunicação de Israel agem dessa maneira há anos. Eles ocultam a ocupação e abafam seus crimes. Ninguém os obriga a tanto; é feito voluntariamente, a partir do entendimento de que é o que seus consumidores querem ouvir. Para a mídia comercial, essa é a principal e mais importante consideração. Dessa forma, os meios de comunicação de Israel se tornaram o agente mais importante na desumanização dos palestinos, sem necessidade de censura ou direcionamento governamental. […] Vale mencionar o que é Gaza: um abrigo para aqueles que foram repetidamente oprimidos por Israel, de 1948 até os dias de hoje. Arrancados de suas terras e refugiados uma, duas, três vezes, e hoje refugiados mais uma vez. A mesma política e a mesma moralidade que levaram à expulsão de suas aldeias em 1948 agora os forçam a deixar suas casas rumo ao exílio pela segunda ou terceira vez. Ao longo de toda a costa, de Yafa até a Cidade de Gaza, não resta uma única aldeia ou cidade palestina intacta. Todas foram apagadas da terra, e são os descendentes de seus moradores que formam a atual onda de refugiados, que tiveram que se amontoar em tendas ou ruínas de edifícios, em hospitais ou até cemitérios, assim como seus pais fizeram em 1948.
— Gideon Levy, na Introdução
***
A batalha resoluta da Faixa de Gaza também deveria provocar admiração em Israel. O punhado de pessoas com consciência que ainda resta aqui deveria agradecer o espírito inquebrantável da Faixa de Gaza. O espírito da Cisjordânia se esfarelou após o fracasso da Segunda Intifada, assim como o espírito do campo pacifista israelense — em sua maior parte, despedaçado há tempos. Só o espírito da Faixa de Gaza permanece firme em sua luta. E, assim, quem não quiser viver para sempre em um país cruel deve respeitar as brasas que os jovens da Faixa de Gaza ainda tentam atiçar. Não fossem as pipas, os incêndios, os foguetes Qassam, os palestinos já teriam desaparecido por completo da consciência de todos em Israel. […] O espírito da Faixa de Gaza não se quebra com nenhum cerco. Os perversos em Jerusalém fecharam a passagem de fronteira de Kerem Shalom, e Gaza reagiu com disparos. Os maliciosos no complexo governamental da Kirya, em Tel Aviv, impedem jovens de receberem tratamento médico na Cisjordânia para salvar as pernas da amputação. Há anos eles têm impedido pacientes com câncer, inclusive mulheres e crianças, de receber tratamentos que salvam vidas. Apenas 54% dos pedidos para sair da Faixa de Gaza por motivos médicos foram aprovados no ano passado, em comparação com 93% em 2012. Isso é perverso. É preciso ler a carta escrita em junho por 31 oncologistas israelenses, que pedem o fim do abuso contra mulheres com câncer em Gaza cujos pedidos de autorização de saída levam meses para serem processados, selando seus destinos. Os 31 foguetes disparados da Faixa de Gaza contra Israel na noite de sexta-feira são uma resposta comedida a essa maldade. Não passam de um lembrete silencioso sobre o destino da Faixa de Gaza, dirigido àqueles que acham que é possível tratar dois milhões de pessoas assim por mais de dez anos e seguir como se nada estivesse acontecendo.
— Gideon Levy, 15 jul. 2018
***
Janeiro de 2026, e não há demanda para a palavra “esperança” em Israel. Nada foi resolvido. Os problemas que levaram ao 7 de outubro de 2023 não foram resolvidos e nem sequer foram discutidos. Gaza continua sendo a maior prisão do mundo; a Cisjordânia está cada vez mais parecida. A forte opressão também pesa sobre Israel, mas a vida lá insiste em se disfarçar de rotina. Nada incomoda os israelenses, pelo menos à primeira vista. A uma hora e meia de carro da minha casa em Tel Aviv, nas ruínas de Khan Yunis, meu grande amigo Munir se muda de tenda em tenda, sofrendo com o frio congelante, com fome constante e dormindo no chão há dois anos e meio. Ele tem quase setenta anos, sofreu um derrame. Meu coração se compadece dele, e eu não consigo ajudá-lo. No início deste ano, Munir não tinha esperança.
— Gideon Levy, no Posfácio à edição brasileira
SOBRE O AUTOR
Gideon Levy nasceu em Tel Aviv em 1953, filho de pai e mãe tchecoslovacos fugidos do Holocausto. É colunista do jornal israelense Haaretz desde 1982. Passou as últimas décadas cobrindo a ocupação israelense na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Recebeu o Prêmio Sokolov de Jornalismo em 2021; o Prêmio Olof Palme em 2016, por sua luta contra a ocupação e a violência; o Prêmio de Paz através da Mídia, da Premiação Internacional de Mídias, em 2012; e o Prêmio da Associação por Direitos Humanos em Israel em 1996, entre outros. É autor dos livros Twilight Zone: Life and Death under the Israeli Occupation: 1988-2003 (Babel, 2004) e The Punishment of Gaza (Verso, 2010).


















