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Por Talía Llanos Chacón
Publicado em El Desconcierto

Verónica Gago (46) é uma jornalista e acadêmica argentina, doutora em ciências sociais e militante do Colectivo Situaciones e de NiUnaMenos. Em sua primeira visita ao Chile desde a efervescência popular que tomou conta do país, Gago apresentou, na Universidade Diego Portales (UDP), uma de suas recentes linhas de investigação: as lutas da reprodução social como limite ao neoliberalismo.

 A docente da Universidade de Buenos Aires (UBA) é autora de  livros como A razão neoliberal: economias barrocas e pragmática popular, Uma leitura feminista da dívida e A potência feminista, ou o desejo de transformar tudo, entre outros. Em conversa com El Desconcierto, faz um balanço do cenário político do momento, em nível nacional e internacional, e as relações intrínsecas entre a violência, o neoliberalismo, e o papel que as manifestações sociais e feministas fazem como contrapeso. 

El Desconcierto: Qual é sua visão sobre o movimento feminista latinoamericano e seu papel na organização e no protesto social?

Entre cinco e sete anos, para falar do ciclo mais recente, o movimento feminista realizou mudanças que são muito radicais em muitos sentidos. Primeiro, uma massividade que nunca antes havia tido. Isso dizem as companheiras que foram protagonistas de outros momentos históricos do feminismo, e creio que aí há uma coincidência: a massividade é um caráter distintivo deste ciclo.

Qual é a importância da massividade?

A mim interessa muito analisar de que é feita essa massividade. Por um lado creio que é uma capacidade de convocatória e de mobilização de rua que é inédita. Por outro lado, me interessa saber como se conforma essa massividade e como se sustenta. No caso da Argentina, tem sido muito interessante o processo pelo qual a dinâmica feminista se integrou como parte de organizações preexistentes e, ao mesmo tempo, era uma força disruptiva nessas organizações.

A que se refere?

Estou pensando em movimentos sociais, em organizações de base, de bairros, em sindicatos. Me parece que aí também funcionam temporalidades diferentes. Podemos ver uma espécie de sequência, de mobilizações, de greves feministas e, ao mesmo tempo, a possibilidade de ir construindo debates no interior da vida cotidiana das próprias organizações e dos diferentes espaços em que transitamos, que vão dando conta de uma transformação que, acredito, seja de longo prazo.

Em que isso reflete?

Vou te contar um fato. Na Argentina acabamos de saber que nos últimos cinco anos a gravidez adolescente diminuiu 50%. Acho que esse número é muito importante para ler um tipo de transformação que foi impulsionada e nutrida pelo feminismo. Tem a ver com dar força e importância à educação sexual integral nas escolas e a toda a militância que isso implica, mas também a uma atmosfera de movimento que permite construir autonomia sobre a própria vida, que está vinculada à luta pelo aborto e à capacidade de tonar cada vez mais palpável um desejo de outra vida.

Ver isso como um número que se reflete de maneira tão direta na diminuição da gravidez em geral, e da gravidez adolescente em particular, me parece interessante. Muitos jornais manchetaram “histórica e preocupante baixa de natalidade na Argentina”, como se tivéssemos um problema populacional.

Acho interessante disputar também a interpretação do que significa este número. Muitas vezes, uma armadilha que colocam ao movimento feminista é dizer: “O único número que vale são os feminicídios e os travesticidios”, e esse número pode ser que não se modifique, ou inclusive que aumente.

Mas não é só isso…

Mas não é só isso. Dizer “deixem de nos matar” é uma consigna que tem sido importante, mas não é o único número em que temos que nos fechar, que é justamente o que pretendem certos meios de comunicação. O que fazem é difundir esse número como uma maneira de culpabilizar o movimento, ao dizer “apesar da mobilização e de tudo o que estão fazendo, não deixam de matá-las, ou inclusive matam mais”. Colocam esse número como único índice de eficácia do que pode fazer um movimento. Acho interessante difundir ou construir outros indicadores, do que significa uma transformação que o movimento feminista está fazendo, que precisamos aprender a ler, temos que produzir como informação, e que temos que viabilizar politicamente em todo o seu conteúdo. 

Você também investiga as relações entre o movimento feminista e as problemáticas derivadas do neoliberalismo. Como se observa essa conexão na vida cotidiana?

Creio que é muito interessante pensar como o feminismo encarregou-se de denunciar violências neoliberais, de maneira concreta e na vida cotidiana, e demonstrar os efeitos do neoliberalismo. Não como uma doutrina abstrata, ou que somente quem faz análises políticas pode entender, mas ter traduzido, em efeitos concretos, o que significa o neoliberalismo.

Quando você não pode pagar o aluguel da sua casa, quando tem que trabalhar cada vez mais para ganhar o mesmo, quando somos as mulheres lésbicas, travestis, trans, pessoas intersexo, não binárias, as que são sempre pior pagas e as que têm por sua vez uma carga moral em termos de mandatos de gênero de responsabilidade familiar, por exemplo, especialmente nos momentos de crise.

Então creio que o feminismo se tornou uma forma de pedagogia sobre os efeitos concretos do neoliberalismo. Nisso tem sido muito interessante também o que ele propôs a nível dos cuidados, da organização de trabalho, da privatização dos serviços públicos, que faz com que recaia mais trabalho não remunerado sobre certos corpos, da luta anti extrativista como uma perna necessária do neoliberalismo contemporâneo.

A propósito da sua fala. Porque diria que é necessário agregar esse fator econômico e global à análise da reprodução?

O neoliberalismo está produzindo cada vez mais uma sensação generalizada de insegurança, de como vamos nos reproduzir. Essa insegurança se traduz em como não sabemos quanto vamos ganhar, se vamos poder comprar os medicamentos que necessitamos, se vamos poder pagar as dívidas que tivemos que assumir porque nossa renda não é suficiente. Creio que o neoliberalismo é uma grande máquina de produção de insegurança e há uma disputa muito grande em como ler essa insegurança. Por isso têm tanto efeito os discursos da direita que falam de uma insegurança e que tentam dar uma resposta securitista e autoritária a essa sensação compartilhada de que realmente estamos vivendo em condições muito inseguras, e que há uma agressão constante e sistemática às nossas condições de vida.

Por isso me parece que a discussão sobre a reprodução social é grave, e por isso me parece que devemos  trabalhar em que sentido o neoliberalismo realmente está agredindo, a nível cotidiano, a possibilidade de reprodução e em que sentido há uma experiência da insegurança e da fragilidade que está em disputa.

Na palestra, você apontou que “o endividamento doméstico é um enxame sobre a reprodução social”. De que forma?

A partir do slogan que temos trabalhado muito na Argentina, de como a dívida tem se convertido em uma maneira de completar recursos que são cada mais mais insuficientes, e como hoje a dívida é dívida para viver, nem sequer é para um consumo extraordinário, nem sequer é para enfrentar alguma situação excepcional ou de emergência. É uma dívida para sobreviver.

Como isso se expressa?

Vemos muito concretamente nas maneiras em que se contrai dívidas para pagar alimentos, medicamentos, questões de saúde, educação, a casa para não ser despejada. Creio que os dispositivos financeiros, por meio da dívida, têm uma grande capacidade de se enraizarem, de se capilarizarem, mas também conseguem aparecer como uma solução diante da pobreza e da precariedade.

A dívida se apresenta como um dispositivo de salvamento frente à precariedade, à fragilidade e à insegurança. Daí a importância que tem também em termos subjetivos. Há também uma interpelação moral muito forte de responsabilizar, especialmente às mulheres e às mães responsáveis por suas casas, especialmente se tem filhas, que depende somente de seu esforço individual pagar essas dívidas, responder a essa obrigação financeira que contraíram e esforçar-se, como uma maneira também muito valiosa de levar adiante suas próprias vidas pessoais e familiares em contextos de muitíssimas adversidades. A dívida sabe ler essa situação tão crítica em que muitas pessoas estão hoje.

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