Por Samuel Barbosa
Professor do Departamento de Filosofia e Teoria do Geral do Direito da USP e pesquisador do Cebrap

 

“Deixei o acampamento ainda atordoado pela cena do rapaz me estendendo o osso. Suas palavras ecoavam em mim: ‘Eu queria ir lá em Brasília me esclarecer: por que a gente passa massacre?’, ‘Será que o osso do meu irmão não presta?’”. O antropólogo e advogado Bruno Martins Morais ficou sem reação diante do jovem índio em um dos acampamentos no Mato Grosso do Sul.

A resposta veio no livro Do corpo ao pó, no qual autor apresenta os resultados de sua pesquisa entre os guarani kaiowá, que recebeu o prêmio de melhor dissertação de mestrado em ciências sociais de 2016 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Em uma edição primorosa, com várias fotografias impactantes, o livro apresenta a percepção dos índios sobre a violência nos conflitos fundiários e suas formas de resistência.

Acossados por verdadeiras milícias que agem impunemente à luz do dia, sabemos desses povos pelos números de homicídio e suicídio, por uma ou outra reportagem jornalística que desperta nossa atenção à distância.

O livro, no entanto, é uma oportunidade única para ganharmos proximidade e nos surpreendermos com a perspectiva dos guarani kaiowá. Em meio à extrema vulnerabilidade, eles cantam, rezam e narram a associação entre a ocupação da terra e seu sentido sagrado, as noções de pessoa e corpo, os ritos funerários e as concepções cosmológicas sobre o começo e o fim do mundo. Para eles, o mundo não acaba em fogo ou água, mas em cana.

Muito além de denúncia e protesto, o livro nos oferece a tradução dessa fina e densa interpretação indígena que nos dá o que pensar e fazer.

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