A masmorra para Eike!
Ou um debate sério sobre o sistema prisional?

Eike Batista deve ir para a masmorra? Ou todos os presos têm direito a condições dignas? Ou, ainda melhor, temos condições de discutir a sério se a cadeia é o melhor caminho de se fazer justiça?

A recente prisão do ex-bilionário voltou a expor um mundo de pensamentos contraditórios que surge a cada vez que se fala sobre encarceramento. Mesmo pessoas e setores da sociedade considerados “progressistas” vibraram com a ideia de que Eike, investigado no âmbito da Operação Lava Jato, iria para uma cela comum de Bangu 9, submetendo-se, assim, às condições desumanas que diariamente são impostas aos detentos e às detentas brasileiras desprovidas de diploma universitário, fama, dinheiro, bons advogados… e tantas outras coisas.

É por essas e outras que decidimos lançar Desterros: histórias de um hospital-prisão. O livro da psiquiatra Natalia Timerman, que trabalha há cinco anos atendendo presidiários e presidiárias de todo o estado de São Paulo no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, na zona norte da capital, mostra como o absurdo segue sendo absurdo, mesmo que tenha se tornado banal. O violento segue sendo violento. São nossos olhos – ora surrados, ora sedentos de sangue – que tentam naturalizar o que em verdade é o horror. Não raro há quem queira piorar o que parece impiorável.

desterros_livro_3D_altaA Editora Elefante começa 2017 em sua paquidérmica toada, com paciência, desencavando aquilo que insistem em soterrar. “Se eu considerasse que todos os homens e mulheres presos são apenas criminosos, quase nada sobre eles poderia ser escrito”, escreve Natalia em seu livro de estreia. “Não digo que quase todos não tenham cometido crimes, mas me parece que, na maioria dos casos, esse é um acontecimento de sua história, muito determinante, mas que não os exclui da comunidade dos homens, como faz supor o estigma que recai sobre quem está ou já esteve preso.”

Para além do ineditismo de colocar atrás das grades um sujeito que até outro dia era “o homem mais rico do Brasil”, capa de revistas, rodeado de belas mulheres, exemplo para o mundo dos negócios e case de sucesso para executivos ávidos por dinheiro, o caso de Eike – e sua repercussão – escancara a visão de que a prisão é uma desgraça. Para muitos, porém, é uma desgraça apenas percebida quando quem tem de fazer suas necessidades num buraco e tomar banho num fiapo d’água é um bilionário; quando ele não pode receber visitas antes de cumprir uma imensa burocracia e é forçado a comer a lavagem que alguma empresa faz, recebendo para isso as verbas surgidas de um contrato suspeito.

Tente mentalizar a expressão “cela comum”: cheiro podre, comida de péssima qualidade, ratos, superlotação, dormir sobre o cimento gelado, riscos diversos ao corpo, violência de todos os lados. “Agora ele vai ver o que é bom tosse”, pensaram alguns – muitos. Os jornais informam que Eike divide um espaço de 15 metros quadrados com outros seis presos, o que não chega a ser o pior dos casos em nosso sistema carcerário. Isso não fará com que seja menos corrupto. Nem fará com que a corrupção seja extinta do território nacional.

De fato, nem Eike, nem ninguém deveria ter direito a privilégios. A prisão especial justamente para quem tem infinitas oportunidades na vida é uma dessas excrescências que não deveriam existir. O que tem, sim, de existir são boas condições para o cumprimento de pena para todos e para todas, sem exceções. Não porque os presos sejam dignos de regalias. Mas porque todo ser humano tem o direito de ser tratado como um ser humano. Isso é o básico do básico. Para além disso, precisamos debater se a prisão é a melhor forma que já inventaram para a punição daquilo que uma sociedade considera como crime. E achamos, honestamente, que Desterros coloca algumas contribuições nesse debate, problematizando o cárcere como panaceia.

Temos a terceira maior população carcerária do mundo. Ultrapassamos a Rússia. Ficamos atrás apenas de Estados Unidos e China. O Ministério da Justiça informa que temos 600 mil presos – e 370 mil vagas. A “solução” encontrada pelo governo golpista e ilegítimo de Michel Temer frente aos massacres ocorridos em janeiro foi liberar verba para construir mais e mais e mais unidades. Para quê? Pedro Abramovay, ex-secretário nacional de Justiça, e Oscar Vilhena, professor de Direito Constitucional da Fundação Getúlio Vargas, escreveram recentemente artigo para a Folha de S. Paulo no qual advogam que penas alternativas são muito mais eficientes se o que se busca é a chamada “ressocialização”.

A grande maioria das pessoas presas – e, sobretudo, das mulheres presas – responde por tráfico de drogas. Desses, novamente a maioria eram réus primários, sem ligação com facções criminosas, usuários “confundidos” com traficantes por uma polícia cujo modo de agir remonta ao século retrasado. “Os presídios servem, sobretudo, para arregimentar criminosos e transformar pessoas que nunca cometeram crime violento em massa de manobra para organizações criminosas altamente violentas”, escrevem Abramovay e Vilhena, repetindo uma cantilena demonstrada por todos os estudos, mas que nenhum governante até hoje dignou-se a implementar.

A julgar pelo ponto de vista evocado por setores da sociedade, o conceito de justiça por trás da prisão é um castigo que se torna tão mais efetivo à medida que se medievaliza: é vingança, e não justiça. Se Eike estivesse em uma cela com colchão individual, comida de boa qualidade, condições de vida minimamente humanas, muitas pessoas ficariam irritadas: “Isso é um hotel”. Um hotel, certamente, não é o caso do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário, onde a autora do livro Desterros trabalha desde 2012. O espaço é a única unidade para atendimento de saúde dos presidiários e presidiárias de todo o estado de São Paulo.

A partir da percepção dos próprios presos — de histórias que foi acumulando, digerindo, transformando —, Natalia reflete sobre as condições de quem está submetido ao cárcere. As já tradicionais mazelas do sistema penitenciário paulista, como a superlotação, os maus tratos e a ação de facções, estão todas presentes em Desterros. Ao longo do livro, porém, o leitor tem a chance de acompanhar a relação única que cada ser humano, detento ou funcionário, acaba desenvolvendo com o ambiente prisional.

É justamente o oposto do que buscam fazer o Estado e a sociedade, pasteurizando as histórias de todas e todos que cruzam a porta de uma prisão. “A perplexidade em que nos lança o olhar do terrível é algo que meu contar procurou manter quando percebi que minha dificuldade em simbolizar o horror não era minha: pertencia ao próprio horror. O indigesto deve permanecer indigesto”, conclui Natalia.

Sobre a autora

Natalia Timerman é médica psiquiatra pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mestre em psicologia clínica pela Universidade de São Paulo (USP) e psicoterapeuta em formação pela Associação Brasileira de Daseinsanalyse. Desde 2012 atende mulheres e homens no sistema carcerário do estado de São Paulo, quando estes adoecem e passam — ou ficam — no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário. Pós-graduanda em formação de escritores pelo Instituto Vera Cruz, no núcleo de ficção — embora este livro, infelizmente, não seja um livro de ficção.

Ficha técnica

Desterros — histórias de um hospital-prisão
Natalia Timerman
Posfácio: Bruno Zeni
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Capa: Karen Ka
192 páginas
Editora Elefante
Publicação: fevereiro de 2017
ISBN: 978-85-93115-02-8

Lançamento

14 de fevereiro, 19h

Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bela Vista – São Paulo – SP

Corumbiara, caso enterrado está entre os finalistas do Prêmio Jabuti

Na noite de 24 de novembro, nosso Elefante vai descer a Brigadeiro, pomposo que só, no seu passo lento e folgado, como bem entender, para chegar à cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti no Auditório do Ibirapuera. Avisa o novo prefeito João Trabalhador que, até lá, é melhor não privatizar o parque, porque a gente vai passar sem pagar pedágio. Bem, isso se tivermos um pouquinho mais de sorte.

Sim, amigas e amigos! Corumbiara, caso enterrado, livro-reportagem de João Peres e Gerardo Lazzari, está entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário. A premiação já vai na sua 58ª edição e é, sem dúvida, uma das mais importantes do cenário literário brasileiro. Os vencedores serão conhecidos em 11 de novembro. No ano passado, nosso Elefantinho cruzou os pampas para receber o segundo lugar do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil seção Rio Grande do Sul e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Nenhum dos nossos livros é lançado pensando nos prêmios. Mas, quando eles vêm, a gente não se queixa, não. Vamos em frente. Ainda mais neste ano-treta. Não é qualquer nota falar sobre latifúndio, ditadura e violação de direitos humanos no Brasil do presidente Fora Temer Golpista. A propósito, ao lançar o livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, em julho de 2015, fomos chatos ao ressaltar a importância do episódio ocorrido na localidade de Corumbiara, há vinte anos, como uma mostra de que não temos uma democracia consolidada.

Compre agora!

É claro que não imaginávamos que a desgraceira política pudesse chegar tão longe. Mas aí está ela, a cada dia, mostrando que estamos muito longe do horizonte que queremos. E isso só faz reforçar o sentido de trabalhos como o da Editora Elefante. Neste ano, chegaremos a onze títulos. É bastante para quem conta apenas com os trocados do bolso para fazer virar a bagaça. E temos orgulho de ver que nossos livros, por mais diferentes que sejam nas temáticas, têm uma linha em comum: remar contra a corrente, fazer da teimosia uma regra, trazer à tona os assuntos mais cabeludos.

Vamos torcer para que o Elefante ganhe um amigo Jabuti, claro. Mas o verdadeiro prêmio recebido por Corumbiara, caso enterrado foi a acolhida que tivemos em Vilhena, na casa do Newton Pandolpho e de sua família; em Colorado do Oeste, onde o Marcel Eméric Araújo lotou o auditório do IFRO (que, por sinal, foi ocupado pelos secundaristas em luta) pra receber nossa publicação; em Rolim de Moura, onde Carlos Trubiliano nos abriu as portas da UNIR; em Ji-Paraná e Ariquemes, graças às articulações das irmãs Renata e Juliana Nóbrega; e em Porto Velho, e aí é quando faltam palavras para agradecer a todo o apoio que tivemos da Laura Massunari.

João Peres, Gerardo Lazzari e Corumbiara, caso enterrado ganharam seu maior troféu quando sensibilizaram e moveram uma maré de solidariedade que envolveu todas essas pessoas — e muitas mais — em torno da necessidade de fazer memória das vítimas, das histórias e das injustiças brasileiras. Com certeza, os maiores louros que poderíamos colher com este trabalho, os colhemos durante o périplo rondoniense. Depois disso, o que mais vier é lucro. E tomara que venha. E se não vier, tubo bem. Seguiremos buscando novos incômodos.

Memória Ocular em debate
sobre fotografia e política

Quando recebemos o convite da Fundação Rosa Luxemburgo, pestanejamos. Eles estavam organizando o lançamento do livro Cidade em jogo, com belíssimas fotografias das remoções forçadas, da violência do Estado e da resistência popular à gentrificação provocada no Rio de Janeiro durante a preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Cada clique uma denúncia poderosa.

As imagens foram produzidas por fotógrafos populares, que desenvolvem outro tipo de relação com as pessoas, as realidades e as comunidades que se propõem a retratar. Esse foi o tema central do debate “A fotografia como olhar político”, realizado na noite do dia 21 de julho para apresentar o livro na cidade de São Paulo.

O que a Editora Elefante tem a ver com isso? Há pouco mais de um mês, publicamos Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta a história de Sérgio Silva, fotógrafo dedicado à cobertura de movimentos sociais e autônomos que, devido ao seu trabalho nas ruas, foi atingido por uma bala de borracha da Polícia Militar e perdeu o olho esquerdo. Isso ocorreu em 13 de junho de 2013, dia da grande repressão às jornadas de junho em São Paulo.

Memória Ocular aborda a vida de Sérgio Silva e a violência policial contra manifestações a partir de sua perspectiva — a perspectiva de alguém que, ao mesmo tempo, é uma vítima do Estado e registra fotograficamente o drama de pessoas que, como ele, também são vítimas do Estado.

A Fundação Rosa Luxemburgo incluiu Sérgio Silva e Tadeu Breda na conversa com Luiz Baltar, um dos fotógrafos cariocas responsáveis por Cidade em jogo. O resultado foi o bate-papo que vai abaixo, na íntegra, com mediação de Verena Glass. A gravação é obra da Rádio Popular.

 

Há um ano, lançávamos ‘Corumbiara, caso enterrado’


Foi bom demais. Vieram novos e velhos amigos, gente que conhecíamos e gente que desconhecíamos, pessoas que confirmaram presença e pessoas que apareceram de surpresa. Há um ano, lançávamos Corumbiara, caso enterrado. O frio na pança logo deu lugar a uma grande alegria por reunir tantas e tantos interessad@s em trocar ideias.

Depois do evento em São Paulo, tivemos lançamentos em Osasco, em Brasília e em várias cidades de Rondônia – várias mesmo, um montão. Quando mandamos para a gráfica o primeiro livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, ocorrido exatamente vinte anos antes, não imaginávamos mobilizar tanta gente.

Um ano depois, quase todos os mil exemplares do trabalho de João Peres e Gerardo Lazzari já estão circulando por aí. Parece pouco, mas é muito para o mercado editorial brasileiro e, mais ainda, para uma editora independente que recém retomava suas atividades, após quase quatro anos de intervalo desde O Equador é verde, título que marcou nossa estreia.

Compre agora!

Retomamos fôlego e, felizes com o potencial de um trampo assim, de lá para cá colocamos no mundo mais três filhotes: Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira, uma HQ ácida que só; O Bem Viver, do equatoriano Alberto Acosta, concebido em parceria com a Autonomia Literária; e Memória Ocular, um livro-manifesto de Tadeu Breda sobre Sérgio Silva, o fotógrafo atingido no olho por uma bala de borracha durante as jornadas de junho de 2013.

Na época de lançamento de Corumbiara, caso enterrado, a fervura já andava alta nas rodas políticas e sociais da República. E a gente insistia com o velho lugar comum de que não conhecer a história nos leva a repetir nossos erros. Só não imaginávamos que o bagulho ficaria tão louco. Alguém conseguiria lembrar de 10% de tudo que rolou nestes doze meses? Impossível. Só sabemos que andamos vários passos para trás.

E sabemos também que o desaniversário de vinte anos de outro massacre, o de Eldorado do Carajás, no Pará, passou tão batido quanto as duas décadas do massacre de Corumbiara. Pudera: 17 de abril foi a data em que a Câmara dos Deputados realizou a bizonha sessão que culminou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nesse cenário fervilhante, fica difícil olhar para o passado e tentar refletir sobre as zoeiras erradas de nosso mundo. Mas insistimos que essa é uma necessidade muito, muito básica para ser deixada de lado. E continuamos a lançar títulos que tentem, do alto de sua limitação numérica e espacial, contribuir para este propósito. Vem aí Xondaro, uma HQ de autoria de Vitor Flynn, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, que retrata a luta dos guarani mbya de São Paulo pela demarcação de suas terras.

Junho de 2013, nossa memória diária

Por Tadeu Breda

Texto originalmente publicado no El País Brasil

Quando ouviu dezenas de soviéticos afetados pelo acidente nuclear de Tchernóbil, vinte anos após a explosão do reator, a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch questionou-se: “Sou testemunha do quê, do passado ou do futuro?” Ao olhar para as vítimas do Estado brasileiro, eu me faço cada vez mais a mesma pergunta. Suas histórias ficaram para trás? Ou continuarão ecoando?

Não saberia explicar com argumentos precisos o que me fez e me faz escrever sobre Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho esquerdo depois de receber o impacto de uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo em 13 de junho de 2013. Faz três anos – e eu continuo tentando descobrir. Ele também.

Escrevi Memória Ocular, lançado pela Editora Elefante nesta semana, para narrar a história de Sérgio Silva em três momentos: 2013, poucos meses após o ferimento; 2015, quando a mutilação completou dois anos; e 2016, às vésperas do terceiro aniversário. Ao ouvir seu testemunho – e de familiares, manifestantes, advogados, autoridades – tentei compreender o que significa ser uma vítima do Estado. Não consegui: não completamente.

É claro que Sérgio Silva não é o único cidadão que sofre graças à ação do aparato estatal brasileiro. Há uma infinidade de outras pessoas que padeceram – e continuam padecendo – violências ainda mais monstruosas que a extirpação de um olho. Qualquer defensor público poderia passar horas recitando casos de agressão, prisão, condenação e morte rotineiros nas periferias das grandes cidades.

Qualquer um de nós relaciona o número cento e onze com as mortes do presídio de Carandiru, em 1992. Qualquer um sabe dos quase seiscentos assassinatos perpetrados pela polícia em resposta aos ataques da facção criminosa, em 2006. Sem contar os incontáveis – porque escondidos – casos de tortura e desaparecimento durante a ditadura. Há ainda o martírio dos índios e camponeses, há as marcas da escravidão.

Mas não é possível classificá-los por alguma espécie de escala. Qual caso é mais grave? A extensão da violência se instala profundamente em quem sentiu o golpe do Estado – não importa com que arma tenha sido desferido ou qual sua extensão. Dores indizíveis proliferam ao som das viaturas, dos disparos das armas de chumbo ou de borracha, dos despachos assinados por juízes e desembargadores, dos pronunciamentos de governantes, secretários e ministros. Mas dificilmente chegam às manchetes.

Costumamos ater-nos às estatísticas, privilegiando as taxas mais impactantes e ignorando que a condição da vítima – seu sofrimento – transcende os números. Sérgio Silva é a vítima mais visível da repressão às jornadas de junho de 2013 em São Paulo, mas, tivesse a polícia matado alguém, poderia não ter sido. Ainda assim, teria perdido o olho. Em outras capitais, histórias parecidas se repetiram durante aquela onda de rebeldia popular. No Rio de Janeiro, Rafael Braga foi preso e condenado por porte de produtos de limpeza. Em Belo Horizonte, dois jovens morreram após despencarem de um viaduto. Em Belém, uma mulher também morreu, asfixiada pelo gás lacrimogêneo lançado pelas forças de segurança.

Eu escolhi escrever sobre Sérgio, talvez, pela proximidade. Não nos conhecíamos, mas como eu, ele é jornalista. Como eu, estava trabalhando na cobertura da manifestação que tomou o centro de São Paulo no quarto dia de protestos convocados pelo Movimento Passe Livre para exigir a revogação do aumento da tarifa de transporte público. Poderia ter sido eu, poderia ter sido qualquer um de nós que lá estávamos – manifestantes, transeuntes, repórteres – a pessoa a levar um tiro de bala de borracha no olho. A aleatoriedade da violência estatal é tão chocante quanto sua seletividade.

Sérgio não portava armas nem estava colocando a vida de ninguém em risco. Tinha uma câmera nas mãos. Eu tinha um caderno. Havia quem tivesse flores. As pessoas queriam apenas marchar até a Avenida Paulista. Mas o Estado preferiu atender o pedido dos grandes jornais da cidade, dos canais de rádio e televisão, que exigiam um basta: chega de fechar nosso “cartão postal” com reivindicações absurdas. Então, a polícia interditou a Paulista para evitar que os manifestantes interditassem a Paulista. Lançou pelo menos 938 bombas de gás lacrimogêneo e disparou 506 balas de borracha. Uma delas, bem…

O dia 13 de junho de 2013 foi repleto de pequenos grandes absurdos, que, caso a democracia pudesse ser medida pelo tamanho do desrespeito às suas regras, não se comparariam aos escândalos registrados diariamente nas periferias de São Paulo, mas que, talvez pela primeira vez em anos, trouxeram para o centro da cidade uma pequena mostra do funcionamento da corporação.

Então, houve clamor, houve uma profunda crítica aos desmandos policiais. Pouco tempo depois, as “jornadas de junho” seriam alvo de uma intensa disputa simbólica. Por enquanto, as forças mais conservadoras estão vencendo a peleja por seu legado. As grandes manifestações têm sido usadas para impor retrocessos, como se os protestos ocorridos em 2013 já tivessem começado com as cores da bandeira nacional…

Quem estava lá sabe que não foi assim. E Sérgio Silva traz no rosto o que todos nós trazemos na lembrança. Somos milhares de memórias oculares. Sérgio é uma única evidência ambulante. O olho que não tem grita ruidosa e claramente. Basta querer ouvir.

Depois de junho, ao contrário do que queríamos, o Estado continuou reprimindo. Fomos tolos ao acreditar que, após o espetáculo de violência policial daquele dia 13, com cerca de cento e cinquenta feridos e mais de duzentos presos, a Polícia Militar finalmente revisaria seus métodos de ação em manifestações. Fomos ingênuos ao pensar que uma das heranças da ditadura incrustada na corporação seria finalmente eliminada.

Os protestos contra a tarifa terminaram vitoriosos: os governantes obrigaram-se a reduzir o valor bilhete de R$ 3,20 para o preço anterior: R$ 3. Hoje, porém, paga-se R$ 3,80 para tomar ônibus, trem ou metrô em São Paulo. A polícia aprendeu a respeitar a liberdade de expressão e manifestação da cidadania paulistana, mas resolveu aplicar esse aprendizado apenas parcialmente. Alguns movimentos podem ocupar a avenida que bem entenderem, no momento que quiserem, sem pedir autorização ao poder público. Outros, não. Brasileiros indignados, em verde-amarelo, podem montar barracas na rua para pedir impeachment. Estudantes secundaristas não podem colocar carteiras em cruzamentos para protestar contra o fechamento de noventa escolas.

Desde aquele junho, multiplicam-se os exemplos da politização explícita da Polícia Militar. Multiplicam-se também as vítimas. Em janeiro, durante nova mobilização do Passe Livre, um professor recebeu um tiro de bala de borracha na testa: por apenas dois centímetros, salvou-se da escuridão que se abateu sobre o olho esquerdo de Sérgio Silva. O fotógrafo, que, num esforço de superação, estava lá para cobrir o novo protesto, não hesita ao dizer: “A repressão de janeiro foi mais violenta que a que me cegou.”

Ao mergulhar em sua história, Memória Ocular também conta a história das novas vítimas do Estado. O lançamento do livro ocorreu na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antonia, encruzilhada em que o fotógrafo foi atingido. Três anos depois, rodeado de solidariedade, Sérgio recebeu duas visitas repletas de simbologia: a dos secundaristas, entre eles sua filha, vieram em marcha para fazer parte da celebração. E a de Douglas Santana, menino de doze anos que perdeu o olho em abril passado, também vítima de bala de borracha durante repressão da PM a um baile funk na rua. Douglas chegou acompanhado pela mãe, Vanessa, que não quer ver a história do filho entrando para o quilométrico o rol das injustiças esquecidas.

Passado e presente se juntaram em lágrimas e promessas de superação. O futuro, porém, não guarda tantas esperanças. Infelizmente, essa história ainda não tem ponto final. Oxalá eu pudesse responder à pergunta de Svetlana Aleksiévitch e afirmar que sou uma testemunha do passado – e só do passado. Mas, como, se o passado teima em se repetir, não pela memória, e sim pela violência? Como esquecer o que acontece todos os dias?

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (Editora Elefante, 2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (Editora Elefante, 2011)

Não esquecemos nem esqueceremos

Demorou, mas, três dias depois, nossa adrenalina finalmente baixou. Agora, com as sensações um pouco mais digeridas, conseguimos rabiscar algumas palavras de agradecimento.

Muito trabalho e muita solidariedade antecederam o grande momento da noite de segunda-feira, 13 de junho, quando Sérgio Silva pegou o microfone na esquina da Consolação com a Maria Antonia, no centro de São Paulo, e fez os olhos de todo mundo transbordar com suas palavras de paz, memória e resistência.

Pelo terceiro ano consecutivo, Sérgio lembrou a dor indizível que sentiu ao ter o globo ocular destruído por uma bala de borracha da Polícia Militar naquela mesma encruzilhada. Agradeceu o professor Severino Honorato, que o socorreu nos segundos em que tudo era desespero. E declarou seu amor à filha Elis, em quem tanto pensou para conseguir superar a tortuosa caminhada até o hospital.

Sérgio também recebeu nos braços a mais nova vítima das armas menos letais da PM paulista: Douglas Santana, doze anos, que perdeu a visão do olho esquerdo no último mês de abril. Passado e presente se reencontraram quando o olho de um mirou o olho de outro. E também quando um grupo de secundaristas chegou em passeata – e a polícia quase deu início a uma nova repressão.

Nas empenas dos prédios, projeções das imagens daquela jornada truculenta e mensagens que tão bem ecoavam as rimas declamadas no asfalto, logo abaixo. A camaradagem tomou conta da esquina e afastou as baixas temperaturas do dia mais frio do ano na cidade cinza. Construímos nossa zona utópica temporária. Vencemos mais uma batalha.

Mas nada teria acontecido, claro, sem o protagonista da noite, Sérgio Silva, seus amigos e familiares. Sem Douglas Santana e sua mãe, Vanessa, que vieram da zona sul pra mostrar que a bala de borracha, mesmo sem calar, continua cegando. Sem Thaís Nunes e Flávia Prado, que descobriram a história do menino ferido pela polícia e o trouxeram para o meio da roda.

Sem a ajuda do Coletivo Arrua, sobretudo do Ramon Szermeta, que emprestou e montou a aparelhagem de som. Sem o grande “Caio”, que cedeu sua janela para apoiarmos os projetores: um emprestado pelo Coletivo Vie La En Close e outro, pela Ligia Alonso e pelo Dan Aqua. Sem Edgar Bueno, da Bueno Filmes, e Karen Ka, que organizaram as projeções. Sem a técnica refinada do Edu Zal, que coloriu os prédios da região com suas programações animadas.

Sem Priscila Melo, que trouxe para a roda a poesia sertaneja do grande Lira. Sem o Slam Resistência, que fez as vezes de mestre de cerimônias e segurou o evento no gogó. Sem o spray de Sergio Rossi e seu estêncil. Sem a simpatia dos donos do bar da esquina. Sem @s repórteres, fotógraf@s e videastas que registraram o ato.

Sem a Meli-Melo Press, que imprimiu os belos exemplares do livro Memória Ocular, projeto gráfico assinado pela Denise Matsumoto. Sem Vitor Flynn, Breno Ferreira, Mateus Acioli, Carolina Ito e João Ricardo Moreira, que ilustraram as cem páginas da publicação. Sem João Peres, que revisou o texto. Enfim, sem cada uma das pessoas que ocuparam aquele pedaço de história…

No meio da miséria política, a Editora Elefante consegue esboçar sorrisos de esperança: em cinco anos, nunca havíamos conseguido juntar uma manada tão grande e empenhada. E é assim que queremos continuar avançando: devagar e coletivamente, estabelecendo laços e caminhando de mãos dadas.

Que mais dizer? Muito obrigad@!

13 de junho: 3 anos depois: Resistimos

Não é novidade pra ninguém que os sentidos e o legado das jornadas de junho estão em disputa – e que estamos perdendo feio. Os grandes protestos de rua, desde então, têm sido usados para impulsionar retrocessos. Todos sabemos, porém, que os dias iniciais de junho de 2013 estiveram povoados por pautas, movimentos e manifestantes totalmente identificados com a esquerda — e com a renovação da esquerda. Além disso, houve uma série de vítimas do Estado. Suas feridas não cicatrizaram.

Dia 13 de junho, agora, faz três anos. Há pouco o que comemorar, mas muito – muitíssimo – o que recordar. Em São Paulo, 13 de junho foi o dia da grande repressão policial que pegou todo mundo de surpresa; foi quando os grandes jornais pediram sangue; foi quando a “opinião pública” virou a favor dos protestos; foi quando a Rua Maria Antonia voltou a assistir abusos policiais de toda ordem… Entre mais de 200 presos e 150 feridos, um deles perdeu o olho esquerdo: a vítima mais grave das jornadas de junho na cidade. Não é apenas uma estatística. É uma história.

No próximo 13 de junho, uma segunda-feira, voltaremos à esquina da Rua Maria Antonia com a Rua da Consolação para um ato político-cultural de memória: não só do caso do fotógrafo Sérgio Silva, mutilado pela PM, mas de todos nós que lá estávamos. As vítimas são coletivas, mas também individuais. Todos sofremos com aquele episódio. Ainda dói. Porém dói ainda mais nos que tiveram a vida marcada de maneira indelével pelas balas de borracha e gases lacrimogêneos da polícia. Queremos todos e todas conosco.

Na ocasião, iremos lançar o livro Memória Ocular com três textos contando junho de 2013 — e a brutalidade que veio depois — sobre a ótica do fotógrafo Sérgio Silva. Cada um deles foi escrito em épocas distintas: 2014, 2015 e 2016, tentando, assim, demonstrar que a violência do Estado perdura — não apenas na pele e nos pensamentos das vítimas, mas também no recrudescimento da repressão aos movimentos sociais e autonomistas. E isso produz novas vítimas, num círculo de violência institucionalizada que não cessa.

Além do livro, que será vendido pelo peço de custo, haverá sarau, poesia, intervenções, projeções naquele prédio imenso que fica ali do lado, memória e microfone aberto pra quem quiser fazer uso da palavra. Vamos nos juntar e mostrar que estamos vivos: que não esquecemos, que não nos conformamos e que sentimos na alma tudo o que está acontecendo. Bora?

Livro aborda repressão pela ótica de fotógrafo que perdeu o olho em 2013

“A violência do Estado marca pra sempre: recordá-la não é olhar para o passado, mas para o futuro: falar sobre ela não é remoer o que já ocorreu, mas alertar sobre o que ainda pode acontecer — sobretudo na vida das vítimas”, considera Tadeu Breda, autor dos textos que compõem o livro Memória Ocular. A publicação traz ainda ilustrações de cinco desenhistas paulistanos.

O livro — um “manifesto narrativo”, segundo o autor — acompanha três fases da vida do fotógrafo Sérgio Silva depois de ter sido atingido por uma das 506 balas de borracha disparadas pela Polícia Militar em 13 de junho de 2013. São três textos, cada um escrito em um dos três anos que transcorreram desde o dia em que o rapaz teve o olho esquerdo destruído.

Sérgio Silva não foi o único ferido no dia mais violento da repressão às jornadas de junho. Mais de 150 pessoas foram atingidas pela brutalidade policial. Outras 200 foram detidas. A violência do Estado foi condenada pelo conjunto da sociedade — mesmo pelos grandes meios de comunicação que, até então, chancelavam e estimulavam a brutalidade da PM. A opinião pública virou a favor dos manifestantes, e os protestos se espalharam pelo país, atingindo mais de 120 cidades.

memoria_ocular_sergio_3dInfelizmente, porém, os protestos foram desvirtuados em suas reivindicações iniciais. A partir de então, as grandes manifestações de rua foram usadas para impulsionar retrocessos, como o impeachment. Desde então, os sentidos e o legado das jornadas de junho estão em disputa. No meio dessa batalha, as vítimas do Estado acabam esquecidas. E suas feridas continuam expostas.

O principal objetivo de Memória Ocular é relembrar as cicatrizes abertas pela repressão policial — não só em junho de 2013, mas em protestos que ocorreram antes e também nos que vêm ocorrendo desde então. A violencia policial não arrefeceu. Pelo contrário, intensificou-se. “A PM foi mais violenta contra o protesto do Passe Livre em janeiro de 2016 do que naquela manifestação em que perdi o olho”, afirma Sérgio Silva. Além disso, a repressão politizou-se explicitamente: a polícia passou a tratar as manifestações de maneira distinta, dependendo de suas bandeiras.

“A ideia foi contar em profundidade a história de uma única vítima do Estado, na intenção de que, assim, fosse possível retratar a extensão da agressão policial na vida da vítima e de seu entorno afetivo e familiar”, explica o autor, lembrando que as vítimas da PM não são uma mera estatística. “É como diz uma das personagens do livro: a violência do Estado não deixa apenas lesões no corpo: ela machuca na alma. E as consequências desses ferimentos se prolongam pelo resto da vida.”

Memória Ocular
Autor: Tadeu Breda
Ilustrações: Breno Ferreira, Carolina Ito, Mateus Acioli, Vitor Flynn e João Ricardo Moreira
Projeto gráfico: Denise Matsumoto
Editora Elefante
Impressão em risografia: Meli Melo Press

13 de Junho: 3 anos depois: Resistimos
O quê: Ato político-cultural e lançamento de Memória Ocular, três anos da repressão mais violenta às jornadas de junho de 2013, três anos que o fotógrafo Sérgio Silva perdeu o olho esquerdo após ser atingido por bala de borracha
Quando: 13 de junho de 2016, às 19h
Onde: Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia, centro de São Paulo
Que mais: Microfone aberto, sarau, projeções, breja e livro a preço de custo
Facebook: https://www.facebook.com/events/647095235440527/

Boaventura: Bem Viver rompe com subdesenvolvimento político e ideológico

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos considera que a incorporação do Bem Viver na Constituição do Equador fez com que o país deixasse a “jaula da dependência e do subdesenvolvimento político e ideológico”. O professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra redigiu a orelha da edição brasileira de O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos.

O autor do trabalho, o equatoriano Alberto Acosta, foi presidente da Assembleia Nacional que justamente colocou os Direitos da Natureza e o Buen Vivir na Constituição, feito inédito no mundo. Acosta foi ministro de Energia e Minas de Rafael Correa, com quem rompeu ao notar que se distanciava dos princípios fundadores do Alianza País, que desde 2007 ocupa a presidência da nação sul-americana.

Compre agora!

Para Boaventura, o lançamento da Editora Elefante e da Autonomia Literária tem o mérito de ser didático sobre um princípio fundamental do século 21, baseado no evidente esgotamento da natureza pelo “desenvolvimento” capitalista.

Confira a íntegra do texto.

O livro de Alberto Acosta tem um objetivo didático: explicar as principais características do Bem Viver, conceito que nasce da visão de mundo dos povos indígenas, mas vai muito além. É um princípio característico do século 21, quando os limites ecológicos do desenvolvimento capitalista entraram com força na agenda global. Ao incorporar o Buen Vivir à sua Constituição, o Equador saiu da jaula da dependência e do subdesenvolvimento político e ideológico: afirmou-se como uma nação em pé de igualdade com as demais, decidida a compartilhar as causas pelas quais vale a pena lutar caso realmente haja futuro. A complexidade do Bem Viver atravessa todo o livro, e Acosta analisa suas propostas sob vários ângulos: como uma alternativa ao desenvolvimento; como uma dimensão dos Direitos da Natureza; como a matriz de uma nova economia solidária e plural de vocação pós-extrativista e pós-capitalista; e como uma semente que só germinará em um novo tipo de Estado, o Estado plurinacional, que é construído com a participação dos cidadãos, dos povos e das nacionalidades, por meio de diferentes formas de democracia – o que eu chamo “demodiversidade”. Acosta mostra ainda que o Bem Viver não é uma entidade exótica ou sem precedentes. Pelo contrário, é parte de uma problemática muito mais ampla, de uma conversa da Humanidade, em que estão participando intelectuais e movimentos sociais de Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente. São questões controversas, que podem ser objeto de um debate muito enriquecedor. Aliás, o melhor que pode acontecer com este livro é justamente estimular discussões veementes e democráticas.

O que é ser de esquerda no século 21?

A Fundação Rosa Luxemburgo acaba de lançar um vídeo muy bem-sucedido na tarefa de resumir o pensamento do economista equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso mais recente lançamento. Em cinco preciosos minutos, editados a partir do debate realizado no mês passado em São Paulo, Acosta desfia as principais ideias que você encontra nas páginas de O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos, da Editora Elefante e da Autonomia Literária, com apoio da fundação.

Compre agora!

“Não pode haver crescimento econômico permanente em um mundo com limites finitos. Isso é uma irracionalidade”, diz na lata o equatoriano, que foi ministro de Energia e Minas do governo Rafael Correa e presidente da Assembleia Constituinte que colocou os Direitos da Natureza na Constituição nacional, feito inédito no mundo. Rompido com o presidente, Acosta considera que nem Correa, nem os demais representantes dos governos chamados “progressistas” pode ser classificado de esquerda. Todos, sem exceção, seguem a perseguir o crescimento infinito, a balança comercial positiva baseada em extrativismo e o fantasma do desenvolvimento, que há muitos séculos guia a civilização ocidental em direção ao suicídio coletivo.

 

Acosta apresenta uma pergunta, um convite à reflexão: “O que significa ser de esquerda no século 21?” A resposta depende de cada um. Os elementos para ajudar a cuca a pensar a respeito estão nas páginas de O Bem Viver. E, de lambuja, damos uma dica: esqueça as fórmulas óbvias e já testadas.

Página 2 de 812345...Última »