Memória Ocular em debate
sobre fotografia e política

Quando recebemos o convite da Fundação Rosa Luxemburgo, pestanejamos. Eles estavam organizando o lançamento do livro Cidade em jogo, com belíssimas fotografias das remoções forçadas, da violência do Estado e da resistência popular à gentrificação provocada no Rio de Janeiro durante a preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Cada clique uma denúncia poderosa.

As imagens foram produzidas por fotógrafos populares, que desenvolvem outro tipo de relação com as pessoas, as realidades e as comunidades que se propõem a retratar. Esse foi o tema central do debate “A fotografia como olhar político”, realizado na noite do dia 21 de julho para apresentar o livro na cidade de São Paulo.

O que a Editora Elefante tem a ver com isso? Há pouco mais de um mês, publicamos Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta a história de Sérgio Silva, fotógrafo dedicado à cobertura de movimentos sociais e autônomos que, devido ao seu trabalho nas ruas, foi atingido por uma bala de borracha da Polícia Militar e perdeu o olho esquerdo. Isso ocorreu em 13 de junho de 2013, dia da grande repressão às jornadas de junho em São Paulo.

Memória Ocular aborda a vida de Sérgio Silva e a violência policial contra manifestações a partir de sua perspectiva — a perspectiva de alguém que, ao mesmo tempo, é uma vítima do Estado e registra fotograficamente o drama de pessoas que, como ele, também são vítimas do Estado.

A Fundação Rosa Luxemburgo incluiu Sérgio Silva e Tadeu Breda na conversa com Luiz Baltar, um dos fotógrafos cariocas responsáveis por Cidade em jogo. O resultado foi o bate-papo que vai abaixo, na íntegra, com mediação de Verena Glass. A gravação é obra da Rádio Popular.

 

Há um ano, lançávamos ‘Corumbiara, caso enterrado’


Foi bom demais. Vieram novos e velhos amigos, gente que conhecíamos e gente que desconhecíamos, pessoas que confirmaram presença e pessoas que apareceram de surpresa. Há um ano, lançávamos Corumbiara, caso enterrado. O frio na pança logo deu lugar a uma grande alegria por reunir tantas e tantos interessad@s em trocar ideias.

Depois do evento em São Paulo, tivemos lançamentos em Osasco, em Brasília e em várias cidades de Rondônia – várias mesmo, um montão. Quando mandamos para a gráfica o primeiro livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, ocorrido exatamente vinte anos antes, não imaginávamos mobilizar tanta gente.

Um ano depois, quase todos os mil exemplares do trabalho de João Peres e Gerardo Lazzari já estão circulando por aí. Parece pouco, mas é muito para o mercado editorial brasileiro e, mais ainda, para uma editora independente que recém retomava suas atividades, após quase quatro anos de intervalo desde O Equador é verde, título que marcou nossa estreia.

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Retomamos fôlego e, felizes com o potencial de um trampo assim, de lá para cá colocamos no mundo mais três filhotes: Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira, uma HQ ácida que só; O Bem Viver, do equatoriano Alberto Acosta, concebido em parceria com a Autonomia Literária; e Memória Ocular, um livro-manifesto de Tadeu Breda sobre Sérgio Silva, o fotógrafo atingido no olho por uma bala de borracha durante as jornadas de junho de 2013.

Na época de lançamento de Corumbiara, caso enterrado, a fervura já andava alta nas rodas políticas e sociais da República. E a gente insistia com o velho lugar comum de que não conhecer a história nos leva a repetir nossos erros. Só não imaginávamos que o bagulho ficaria tão louco. Alguém conseguiria lembrar de 10% de tudo que rolou nestes doze meses? Impossível. Só sabemos que andamos vários passos para trás.

E sabemos também que o desaniversário de vinte anos de outro massacre, o de Eldorado do Carajás, no Pará, passou tão batido quanto as duas décadas do massacre de Corumbiara. Pudera: 17 de abril foi a data em que a Câmara dos Deputados realizou a bizonha sessão que culminou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nesse cenário fervilhante, fica difícil olhar para o passado e tentar refletir sobre as zoeiras erradas de nosso mundo. Mas insistimos que essa é uma necessidade muito, muito básica para ser deixada de lado. E continuamos a lançar títulos que tentem, do alto de sua limitação numérica e espacial, contribuir para este propósito. Vem aí Xondaro, uma HQ de autoria de Vitor Flynn, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, que retrata a luta dos guarani mbya de São Paulo pela demarcação de suas terras.

Junho de 2013, nossa memória diária

Por Tadeu Breda

Texto originalmente publicado no El País Brasil

Quando ouviu dezenas de soviéticos afetados pelo acidente nuclear de Tchernóbil, vinte anos após a explosão do reator, a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch questionou-se: “Sou testemunha do quê, do passado ou do futuro?” Ao olhar para as vítimas do Estado brasileiro, eu me faço cada vez mais a mesma pergunta. Suas histórias ficaram para trás? Ou continuarão ecoando?

Não saberia explicar com argumentos precisos o que me fez e me faz escrever sobre Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho esquerdo depois de receber o impacto de uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo em 13 de junho de 2013. Faz três anos – e eu continuo tentando descobrir. Ele também.

Escrevi Memória Ocular, lançado pela Editora Elefante nesta semana, para narrar a história de Sérgio Silva em três momentos: 2013, poucos meses após o ferimento; 2015, quando a mutilação completou dois anos; e 2016, às vésperas do terceiro aniversário. Ao ouvir seu testemunho – e de familiares, manifestantes, advogados, autoridades – tentei compreender o que significa ser uma vítima do Estado. Não consegui: não completamente.

É claro que Sérgio Silva não é o único cidadão que sofre graças à ação do aparato estatal brasileiro. Há uma infinidade de outras pessoas que padeceram – e continuam padecendo – violências ainda mais monstruosas que a extirpação de um olho. Qualquer defensor público poderia passar horas recitando casos de agressão, prisão, condenação e morte rotineiros nas periferias das grandes cidades.

Qualquer um de nós relaciona o número cento e onze com as mortes do presídio de Carandiru, em 1992. Qualquer um sabe dos quase seiscentos assassinatos perpetrados pela polícia em resposta aos ataques da facção criminosa, em 2006. Sem contar os incontáveis – porque escondidos – casos de tortura e desaparecimento durante a ditadura. Há ainda o martírio dos índios e camponeses, há as marcas da escravidão.

Mas não é possível classificá-los por alguma espécie de escala. Qual caso é mais grave? A extensão da violência se instala profundamente em quem sentiu o golpe do Estado – não importa com que arma tenha sido desferido ou qual sua extensão. Dores indizíveis proliferam ao som das viaturas, dos disparos das armas de chumbo ou de borracha, dos despachos assinados por juízes e desembargadores, dos pronunciamentos de governantes, secretários e ministros. Mas dificilmente chegam às manchetes.

Costumamos ater-nos às estatísticas, privilegiando as taxas mais impactantes e ignorando que a condição da vítima – seu sofrimento – transcende os números. Sérgio Silva é a vítima mais visível da repressão às jornadas de junho de 2013 em São Paulo, mas, tivesse a polícia matado alguém, poderia não ter sido. Ainda assim, teria perdido o olho. Em outras capitais, histórias parecidas se repetiram durante aquela onda de rebeldia popular. No Rio de Janeiro, Rafael Braga foi preso e condenado por porte de produtos de limpeza. Em Belo Horizonte, dois jovens morreram após despencarem de um viaduto. Em Belém, uma mulher também morreu, asfixiada pelo gás lacrimogêneo lançado pelas forças de segurança.

Eu escolhi escrever sobre Sérgio, talvez, pela proximidade. Não nos conhecíamos, mas como eu, ele é jornalista. Como eu, estava trabalhando na cobertura da manifestação que tomou o centro de São Paulo no quarto dia de protestos convocados pelo Movimento Passe Livre para exigir a revogação do aumento da tarifa de transporte público. Poderia ter sido eu, poderia ter sido qualquer um de nós que lá estávamos – manifestantes, transeuntes, repórteres – a pessoa a levar um tiro de bala de borracha no olho. A aleatoriedade da violência estatal é tão chocante quanto sua seletividade.

Sérgio não portava armas nem estava colocando a vida de ninguém em risco. Tinha uma câmera nas mãos. Eu tinha um caderno. Havia quem tivesse flores. As pessoas queriam apenas marchar até a Avenida Paulista. Mas o Estado preferiu atender o pedido dos grandes jornais da cidade, dos canais de rádio e televisão, que exigiam um basta: chega de fechar nosso “cartão postal” com reivindicações absurdas. Então, a polícia interditou a Paulista para evitar que os manifestantes interditassem a Paulista. Lançou pelo menos 938 bombas de gás lacrimogêneo e disparou 506 balas de borracha. Uma delas, bem…

O dia 13 de junho de 2013 foi repleto de pequenos grandes absurdos, que, caso a democracia pudesse ser medida pelo tamanho do desrespeito às suas regras, não se comparariam aos escândalos registrados diariamente nas periferias de São Paulo, mas que, talvez pela primeira vez em anos, trouxeram para o centro da cidade uma pequena mostra do funcionamento da corporação.

Então, houve clamor, houve uma profunda crítica aos desmandos policiais. Pouco tempo depois, as “jornadas de junho” seriam alvo de uma intensa disputa simbólica. Por enquanto, as forças mais conservadoras estão vencendo a peleja por seu legado. As grandes manifestações têm sido usadas para impor retrocessos, como se os protestos ocorridos em 2013 já tivessem começado com as cores da bandeira nacional…

Quem estava lá sabe que não foi assim. E Sérgio Silva traz no rosto o que todos nós trazemos na lembrança. Somos milhares de memórias oculares. Sérgio é uma única evidência ambulante. O olho que não tem grita ruidosa e claramente. Basta querer ouvir.

Depois de junho, ao contrário do que queríamos, o Estado continuou reprimindo. Fomos tolos ao acreditar que, após o espetáculo de violência policial daquele dia 13, com cerca de cento e cinquenta feridos e mais de duzentos presos, a Polícia Militar finalmente revisaria seus métodos de ação em manifestações. Fomos ingênuos ao pensar que uma das heranças da ditadura incrustada na corporação seria finalmente eliminada.

Os protestos contra a tarifa terminaram vitoriosos: os governantes obrigaram-se a reduzir o valor bilhete de R$ 3,20 para o preço anterior: R$ 3. Hoje, porém, paga-se R$ 3,80 para tomar ônibus, trem ou metrô em São Paulo. A polícia aprendeu a respeitar a liberdade de expressão e manifestação da cidadania paulistana, mas resolveu aplicar esse aprendizado apenas parcialmente. Alguns movimentos podem ocupar a avenida que bem entenderem, no momento que quiserem, sem pedir autorização ao poder público. Outros, não. Brasileiros indignados, em verde-amarelo, podem montar barracas na rua para pedir impeachment. Estudantes secundaristas não podem colocar carteiras em cruzamentos para protestar contra o fechamento de noventa escolas.

Desde aquele junho, multiplicam-se os exemplos da politização explícita da Polícia Militar. Multiplicam-se também as vítimas. Em janeiro, durante nova mobilização do Passe Livre, um professor recebeu um tiro de bala de borracha na testa: por apenas dois centímetros, salvou-se da escuridão que se abateu sobre o olho esquerdo de Sérgio Silva. O fotógrafo, que, num esforço de superação, estava lá para cobrir o novo protesto, não hesita ao dizer: “A repressão de janeiro foi mais violenta que a que me cegou.”

Ao mergulhar em sua história, Memória Ocular também conta a história das novas vítimas do Estado. O lançamento do livro ocorreu na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antonia, encruzilhada em que o fotógrafo foi atingido. Três anos depois, rodeado de solidariedade, Sérgio recebeu duas visitas repletas de simbologia: a dos secundaristas, entre eles sua filha, vieram em marcha para fazer parte da celebração. E a de Douglas Santana, menino de doze anos que perdeu o olho em abril passado, também vítima de bala de borracha durante repressão da PM a um baile funk na rua. Douglas chegou acompanhado pela mãe, Vanessa, que não quer ver a história do filho entrando para o quilométrico o rol das injustiças esquecidas.

Passado e presente se juntaram em lágrimas e promessas de superação. O futuro, porém, não guarda tantas esperanças. Infelizmente, essa história ainda não tem ponto final. Oxalá eu pudesse responder à pergunta de Svetlana Aleksiévitch e afirmar que sou uma testemunha do passado – e só do passado. Mas, como, se o passado teima em se repetir, não pela memória, e sim pela violência? Como esquecer o que acontece todos os dias?

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (Editora Elefante, 2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (Editora Elefante, 2011)

Não esquecemos nem esqueceremos

Demorou, mas, três dias depois, nossa adrenalina finalmente baixou. Agora, com as sensações um pouco mais digeridas, conseguimos rabiscar algumas palavras de agradecimento.

Muito trabalho e muita solidariedade antecederam o grande momento da noite de segunda-feira, 13 de junho, quando Sérgio Silva pegou o microfone na esquina da Consolação com a Maria Antonia, no centro de São Paulo, e fez os olhos de todo mundo transbordar com suas palavras de paz, memória e resistência.

Pelo terceiro ano consecutivo, Sérgio lembrou a dor indizível que sentiu ao ter o globo ocular destruído por uma bala de borracha da Polícia Militar naquela mesma encruzilhada. Agradeceu o professor Severino Honorato, que o socorreu nos segundos em que tudo era desespero. E declarou seu amor à filha Elis, em quem tanto pensou para conseguir superar a tortuosa caminhada até o hospital.

Sérgio também recebeu nos braços a mais nova vítima das armas menos letais da PM paulista: Douglas Santana, doze anos, que perdeu a visão do olho esquerdo no último mês de abril. Passado e presente se reencontraram quando o olho de um mirou o olho de outro. E também quando um grupo de secundaristas chegou em passeata – e a polícia quase deu início a uma nova repressão.

Nas empenas dos prédios, projeções das imagens daquela jornada truculenta e mensagens que tão bem ecoavam as rimas declamadas no asfalto, logo abaixo. A camaradagem tomou conta da esquina e afastou as baixas temperaturas do dia mais frio do ano na cidade cinza. Construímos nossa zona utópica temporária. Vencemos mais uma batalha.

Mas nada teria acontecido, claro, sem o protagonista da noite, Sérgio Silva, seus amigos e familiares. Sem Douglas Santana e sua mãe, Vanessa, que vieram da zona sul pra mostrar que a bala de borracha, mesmo sem calar, continua cegando. Sem Thaís Nunes e Flávia Prado, que descobriram a história do menino ferido pela polícia e o trouxeram para o meio da roda.

Sem a ajuda do Coletivo Arrua, sobretudo do Ramon Szermeta, que emprestou e montou a aparelhagem de som. Sem o grande “Caio”, que cedeu sua janela para apoiarmos os projetores: um emprestado pelo Coletivo Vie La En Close e outro, pela Ligia Alonso e pelo Dan Aqua. Sem Edgar Bueno, da Bueno Filmes, e Karen Ka, que organizaram as projeções. Sem a técnica refinada do Edu Zal, que coloriu os prédios da região com suas programações animadas.

Sem Priscila Melo, que trouxe para a roda a poesia sertaneja do grande Lira. Sem o Slam Resistência, que fez as vezes de mestre de cerimônias e segurou o evento no gogó. Sem o spray de Sergio Rossi e seu estêncil. Sem a simpatia dos donos do bar da esquina. Sem @s repórteres, fotógraf@s e videastas que registraram o ato.

Sem a Meli-Melo Press, que imprimiu os belos exemplares do livro Memória Ocular, projeto gráfico assinado pela Denise Matsumoto. Sem Vitor Flynn, Breno Ferreira, Mateus Acioli, Carolina Ito e João Ricardo Moreira, que ilustraram as cem páginas da publicação. Sem João Peres, que revisou o texto. Enfim, sem cada uma das pessoas que ocuparam aquele pedaço de história…

No meio da miséria política, a Editora Elefante consegue esboçar sorrisos de esperança: em cinco anos, nunca havíamos conseguido juntar uma manada tão grande e empenhada. E é assim que queremos continuar avançando: devagar e coletivamente, estabelecendo laços e caminhando de mãos dadas.

Que mais dizer? Muito obrigad@!

13 de junho: 3 anos depois: Resistimos

Não é novidade pra ninguém que os sentidos e o legado das jornadas de junho estão em disputa – e que estamos perdendo feio. Os grandes protestos de rua, desde então, têm sido usados para impulsionar retrocessos. Todos sabemos, porém, que os dias iniciais de junho de 2013 estiveram povoados por pautas, movimentos e manifestantes totalmente identificados com a esquerda — e com a renovação da esquerda. Além disso, houve uma série de vítimas do Estado. Suas feridas não cicatrizaram.

Dia 13 de junho, agora, faz três anos. Há pouco o que comemorar, mas muito – muitíssimo – o que recordar. Em São Paulo, 13 de junho foi o dia da grande repressão policial que pegou todo mundo de surpresa; foi quando os grandes jornais pediram sangue; foi quando a “opinião pública” virou a favor dos protestos; foi quando a Rua Maria Antonia voltou a assistir abusos policiais de toda ordem… Entre mais de 200 presos e 150 feridos, um deles perdeu o olho esquerdo: a vítima mais grave das jornadas de junho na cidade. Não é apenas uma estatística. É uma história.

No próximo 13 de junho, uma segunda-feira, voltaremos à esquina da Rua Maria Antonia com a Rua da Consolação para um ato político-cultural de memória: não só do caso do fotógrafo Sérgio Silva, mutilado pela PM, mas de todos nós que lá estávamos. As vítimas são coletivas, mas também individuais. Todos sofremos com aquele episódio. Ainda dói. Porém dói ainda mais nos que tiveram a vida marcada de maneira indelével pelas balas de borracha e gases lacrimogêneos da polícia. Queremos todos e todas conosco.

Na ocasião, iremos lançar o livro Memória Ocular com três textos contando junho de 2013 — e a brutalidade que veio depois — sobre a ótica do fotógrafo Sérgio Silva. Cada um deles foi escrito em épocas distintas: 2014, 2015 e 2016, tentando, assim, demonstrar que a violência do Estado perdura — não apenas na pele e nos pensamentos das vítimas, mas também no recrudescimento da repressão aos movimentos sociais e autonomistas. E isso produz novas vítimas, num círculo de violência institucionalizada que não cessa.

Além do livro, que será vendido pelo peço de custo, haverá sarau, poesia, intervenções, projeções naquele prédio imenso que fica ali do lado, memória e microfone aberto pra quem quiser fazer uso da palavra. Vamos nos juntar e mostrar que estamos vivos: que não esquecemos, que não nos conformamos e que sentimos na alma tudo o que está acontecendo. Bora?

Livro aborda repressão pela ótica de fotógrafo que perdeu o olho em 2013

“A violência do Estado marca pra sempre: recordá-la não é olhar para o passado, mas para o futuro: falar sobre ela não é remoer o que já ocorreu, mas alertar sobre o que ainda pode acontecer — sobretudo na vida das vítimas”, considera Tadeu Breda, autor dos textos que compõem o livro Memória Ocular. A publicação traz ainda ilustrações de cinco desenhistas paulistanos.

O livro — um “manifesto narrativo”, segundo o autor — acompanha três fases da vida do fotógrafo Sérgio Silva depois de ter sido atingido por uma das 506 balas de borracha disparadas pela Polícia Militar em 13 de junho de 2013. São três textos, cada um escrito em um dos três anos que transcorreram desde o dia em que o rapaz teve o olho esquerdo destruído.

Sérgio Silva não foi o único ferido no dia mais violento da repressão às jornadas de junho. Mais de 150 pessoas foram atingidas pela brutalidade policial. Outras 200 foram detidas. A violência do Estado foi condenada pelo conjunto da sociedade — mesmo pelos grandes meios de comunicação que, até então, chancelavam e estimulavam a brutalidade da PM. A opinião pública virou a favor dos manifestantes, e os protestos se espalharam pelo país, atingindo mais de 120 cidades.

memoria_ocular_sergio_3dInfelizmente, porém, os protestos foram desvirtuados em suas reivindicações iniciais. A partir de então, as grandes manifestações de rua foram usadas para impulsionar retrocessos, como o impeachment. Desde então, os sentidos e o legado das jornadas de junho estão em disputa. No meio dessa batalha, as vítimas do Estado acabam esquecidas. E suas feridas continuam expostas.

O principal objetivo de Memória Ocular é relembrar as cicatrizes abertas pela repressão policial — não só em junho de 2013, mas em protestos que ocorreram antes e também nos que vêm ocorrendo desde então. A violencia policial não arrefeceu. Pelo contrário, intensificou-se. “A PM foi mais violenta contra o protesto do Passe Livre em janeiro de 2016 do que naquela manifestação em que perdi o olho”, afirma Sérgio Silva. Além disso, a repressão politizou-se explicitamente: a polícia passou a tratar as manifestações de maneira distinta, dependendo de suas bandeiras.

“A ideia foi contar em profundidade a história de uma única vítima do Estado, na intenção de que, assim, fosse possível retratar a extensão da agressão policial na vida da vítima e de seu entorno afetivo e familiar”, explica o autor, lembrando que as vítimas da PM não são uma mera estatística. “É como diz uma das personagens do livro: a violência do Estado não deixa apenas lesões no corpo: ela machuca na alma. E as consequências desses ferimentos se prolongam pelo resto da vida.”

Memória Ocular
Autor: Tadeu Breda
Ilustrações: Breno Ferreira, Carolina Ito, Mateus Acioli, Vitor Flynn e João Ricardo Moreira
Projeto gráfico: Denise Matsumoto
Editora Elefante
Impressão em risografia: Meli Melo Press

13 de Junho: 3 anos depois: Resistimos
O quê: Ato político-cultural e lançamento de Memória Ocular, três anos da repressão mais violenta às jornadas de junho de 2013, três anos que o fotógrafo Sérgio Silva perdeu o olho esquerdo após ser atingido por bala de borracha
Quando: 13 de junho de 2016, às 19h
Onde: Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia, centro de São Paulo
Que mais: Microfone aberto, sarau, projeções, breja e livro a preço de custo
Facebook: https://www.facebook.com/events/647095235440527/

Boaventura: Bem Viver rompe com subdesenvolvimento político e ideológico

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos considera que a incorporação do Bem Viver na Constituição do Equador fez com que o país deixasse a “jaula da dependência e do subdesenvolvimento político e ideológico”. O professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra redigiu a orelha da edição brasileira de O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos.

O autor do trabalho, o equatoriano Alberto Acosta, foi presidente da Assembleia Nacional que justamente colocou os Direitos da Natureza e o Buen Vivir na Constituição, feito inédito no mundo. Acosta foi ministro de Energia e Minas de Rafael Correa, com quem rompeu ao notar que se distanciava dos princípios fundadores do Alianza País, que desde 2007 ocupa a presidência da nação sul-americana.

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Para Boaventura, o lançamento da Editora Elefante e da Autonomia Literária tem o mérito de ser didático sobre um princípio fundamental do século 21, baseado no evidente esgotamento da natureza pelo “desenvolvimento” capitalista.

Confira a íntegra do texto.

O livro de Alberto Acosta tem um objetivo didático: explicar as principais características do Bem Viver, conceito que nasce da visão de mundo dos povos indígenas, mas vai muito além. É um princípio característico do século 21, quando os limites ecológicos do desenvolvimento capitalista entraram com força na agenda global. Ao incorporar o Buen Vivir à sua Constituição, o Equador saiu da jaula da dependência e do subdesenvolvimento político e ideológico: afirmou-se como uma nação em pé de igualdade com as demais, decidida a compartilhar as causas pelas quais vale a pena lutar caso realmente haja futuro. A complexidade do Bem Viver atravessa todo o livro, e Acosta analisa suas propostas sob vários ângulos: como uma alternativa ao desenvolvimento; como uma dimensão dos Direitos da Natureza; como a matriz de uma nova economia solidária e plural de vocação pós-extrativista e pós-capitalista; e como uma semente que só germinará em um novo tipo de Estado, o Estado plurinacional, que é construído com a participação dos cidadãos, dos povos e das nacionalidades, por meio de diferentes formas de democracia – o que eu chamo “demodiversidade”. Acosta mostra ainda que o Bem Viver não é uma entidade exótica ou sem precedentes. Pelo contrário, é parte de uma problemática muito mais ampla, de uma conversa da Humanidade, em que estão participando intelectuais e movimentos sociais de Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente. São questões controversas, que podem ser objeto de um debate muito enriquecedor. Aliás, o melhor que pode acontecer com este livro é justamente estimular discussões veementes e democráticas.

O que é ser de esquerda no século 21?

A Fundação Rosa Luxemburgo acaba de lançar um vídeo muy bem-sucedido na tarefa de resumir o pensamento do economista equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso mais recente lançamento. Em cinco preciosos minutos, editados a partir do debate realizado no mês passado em São Paulo, Acosta desfia as principais ideias que você encontra nas páginas de O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos, da Editora Elefante e da Autonomia Literária, com apoio da fundação.

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“Não pode haver crescimento econômico permanente em um mundo com limites finitos. Isso é uma irracionalidade”, diz na lata o equatoriano, que foi ministro de Energia e Minas do governo Rafael Correa e presidente da Assembleia Constituinte que colocou os Direitos da Natureza na Constituição nacional, feito inédito no mundo. Rompido com o presidente, Acosta considera que nem Correa, nem os demais representantes dos governos chamados “progressistas” pode ser classificado de esquerda. Todos, sem exceção, seguem a perseguir o crescimento infinito, a balança comercial positiva baseada em extrativismo e o fantasma do desenvolvimento, que há muitos séculos guia a civilização ocidental em direção ao suicídio coletivo.

 

Acosta apresenta uma pergunta, um convite à reflexão: “O que significa ser de esquerda no século 21?” A resposta depende de cada um. Os elementos para ajudar a cuca a pensar a respeito estão nas páginas de O Bem Viver. E, de lambuja, damos uma dica: esqueça as fórmulas óbvias e já testadas.

“Não existe mineração sustentável”

Como parte da turnê de lançamento de O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos, o pensador equatoriano Alberto Acosta visitou a cidade mineira de Mariana em 28 de janeiro. Lá, participou de debate sobre o alto custo do extrativismo na América Latina com Andrea Zhouri, professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Isabela Corby, advogada popular do Coletivo Margarida Alves, Sammer Siman, liderança das Brigadas Populares, e Letícia Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens.

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Em meio ao trauma causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco, Acosta apresentou as ideias de seu livro, lançado no Brasil pela Editora Elefante e Autonomia Literária, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Depois, visitou a localidade de Bento Rodrigues, vilarejo que submergiu quase completamente ao tsunami de lama tóxica.

A destruição causada pela subsidiária das megacorporações Vale (brasileira) e BHP Billiton (australiana) marcou profundamente Acosta, que há alguns anos percorre o mundo espalhando os princípios do Bem Viver – uma alternativa ao desenvolvimento e ao extrativismo, que causam destruição e pobreza para muitos enquanto concentram renda nas mãos de grandes empresas.

É difícil saber o que senti. Foram momentos de grande vazio, enorme frustração, impotência e muita raiva. A destruição é incontestável. Sequer é possível escondê-la. As traves de futebol enterradas, uma estante sumersa no lodo, com os livros destroçados, são cenas desoladoras. Os telhados das casas que aparecem por cima da lama são como um grito para que a Humanidade mude de rumo. Quais são os significados de tamanha destruição? É tudo tão terrível…

Me chateou muito saber que as pessoas que moravam em Bento Rodrigues, ou seja, as vítimas da mineração, não são mais tratadas como vítimas: na linguagem do governo e das empresas, são “beneficiárias”, porque irão receber uma compensação pelas perdas que tiveram. São pessoas que viviam com medo: sabiam que isso poderia acontecer algum dia.

Nesses lugares, que antes da mineração eram tão bonitos, mas que agora estão destruídos e permanentemente ameaçados por novas tragédias, não há maneira de construir o Bem Viver. Como é que pode haver alguém que diga que foi um mero acidente? Que isso não deveria acontecer? Que existe tecnologia de ponta para evitar situações como essa? É pura falta de vergonha na cara. A mineração é uma roleta russa. Quem morre participando de uma roleta russa não morre por acidente.

A mineração em Mariana destruiu um rio inteiro, com impactos sobre sociedades e ecossistemas que chegaram até o litoral do Espírito Santo. O governo e algumas prefeituras mineiras divulgaram um relatório contabilizando perdas de R$ 1,2 bilhão provocadas pela ruptura da barragem da Samarco. O governo federal tenta responsabilizar a empresa com um pedido de R$ 20 bilhões em indenizações. É suficiente? Quanto dinheiro poderia recompensar tamanha devastação?

No Rio de Janeiro, debates sobre O Bem Viver
derreteram as noções de desenvolvimento

Fazia um belo dia de sol e calor bravo no Rio de Janeiro na manhã do último dia 27, quando desembarcamos. Do aeroporto tomamos um táxi. Uma rápida passadinha no hotel. Um suco naquelas lanchonetes de esquina decoradas com um monte de frutas, tão tradicionais na cidade. Almoço ligeiro. Pouco depois das 15h já estávamos no auditório da Escola de Serviço Social da UFRJ, na Praia Vermelha, para o ciclo de debates de lançamento do livro O Bem Viver – Uma oportunidade para imaginar outros mundos. Não conseguimos nem vislumbrar o mar…

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O pessoal do Rio de Janeiro – e aqui nossos agradecimentos a Bruno Cava – preparou três debates para receber o pensador equatoriano Alberto Acosta, autor do livro que a Editora Elefante e a Autonomia Literária trouxeram ao Brasil com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Acosta dividiu a mesa principal da noite, às 19h, com o ativista boliviano Oscar Vega Camacho e com a socióloga brasileira Camila Moreno. Os três discutiram as novas alternativas ao sul depois do ciclo progressista, que mostra inequívocos sinais de esgotamento. E não pouparam críticas aos governos da chamada “esquerda” latino-americana.

Acosta apresentou O Bem Viver e fez um breve resumo das ideias defendidas no livro. Falou sobre como os presidentes que espalharam esperança pelo continente no início do século 21 continuaram enxergando a proteção do meio ambiente e os direitos dos povos indígenas como sinônimos de atraso. E explicou como esses mesmos presidentes, prometendo grandes mudanças, romperam apenas parcialmente com o ciclo neoliberal – sem no entanto abrir mão do desenvolvimento.

Pelo contrário, atestou, afundaram seus países nas ideias desenvolvimentistas, intensificando a dependência do agronegócio, do petróleo, da mineração e de outras atividades primário-exportadoras que podem trazer crescimento econômico, mas não trazem desenvolvimento. “Sabem por quê? Porque o desenvolvimento não existe”, atestou. “As pessoas não acreditam em fantasmas, mas acreditam no desenvolvimento. Só que o desenvolvimento é um fantasma.”

Nesse sentido, Oscar Camacho propôs uma reflexão sobre o uso do termo “progressistas” para classificar os governos latino-americanos – de Hugo Chávez a Lula, passando por Evo Morales, Rafael Correa, Dilma Rousseff e os Kirchner, entre outros. As ideias de desenvolvimento andam de mãos dadas com as de progresso, explorando os recursos naturais à exaustão, criando desigualdades globais e ocidentalizando culturas e modos de vida ao redor do mundo. “Temos governos que se definem de esquerda, mas que possuem métodos de direita”, opinou Camacho. “Isso porque propostas de mudanças radicais sempre serão combatidas pelo poder.”

O boliviano argumentou que os partidos de esquerda latino-americanos têm enfrentado grandes dificuldades para compreender a necessidade e a urgência da descolonialidade – não apenas em relação às potências ocidentais, mas também internamente. “A descolonialidade está intimamente ligada à pluralidade”, pontou, citando uma das ideias defendidas pelo Bem Viver: o Estado plurinacional. “Nossas esquerdas devem ser as primeiras a serem descolonizadas.”

Em sua intervenção, Camila Moreno falou sobre a transcendência global de lutas locais que ocorrem em países da região. Como exemplo, lembrou da resistência de povos indígenas na Amazônia brasileira, como os munduruku, que se opõem à construção de hidrovias e hidrelétricas no rio Tapajós. “São obras intimamente relacionadas à exportação de commodities”, disse, lembrando que o peso do agronegócio brasileiro conferiu ao país o direito de presidir espaços internacionais como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Apesar do baixo valor agregado das commodities, Camila recordou que não pode haver extrativismo a grande escala nas nações latino-americanas sem a tecnologia de ponta que se desenvolve, via de regra, nos países centrais do capitalismo. De acordo com a socióloga, essa interdependência reforça ainda mais o papel subalterno do Sul em relação ao Norte global.

“O Bem Viver se contrapõe a uma racionalidade que não se sustenta mais”, expressou. “Toda a corrupção que estamos vendo todos os dias nos jornais não se compara à destruição socioambiental causada por grandes obras de desenvolvimento na Amazônia, como as hidrelétrica de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, além das tragédias provocadas pelo extrativismo, como em Mariana. Essa não é uma discussão sobre peixes ameaçados de extinção, como querem nos fazer acreditar. É uma discussão sobre todo um sistema geopolítico.”

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