Um documento da falência moral de Israel
O massacre de Gaza, de Gideon Levy, é o novo livro de nossa Intifada Editorial, uma coleção de informação e denúncia sobre a violência e a colonização na Palestina. Trata-se de uma coleção de artigos que o jornalista escreveu ao longo de mais de uma década. Segue a orelha do livro:
Gideon Levy é uma voz incansável na tentativa de resgatar a consciência da sociedade israelense depois de mais de um século de guerras e colonização na Palestina. Seus artigos invocam os cidadãos do Estado judeu a “cair na real”, e não poupam nem o establishment político nem a imprensa nacionais. Para o jornalista, sionismo é sinônimo de fascismo, e um Estado de apartheid não pode ser chamado de “democracia”.
O colunista do Haaretz considera que o espírito do tempo em Israel, hoje, é encarnado na figura de Itamar Ben-Gvir, o facínora à frente do Ministério da Segurança Nacional. É Ben-Gvir quem controla o sistema penitenciário israelense, onde milhares de palestinos estão detidos sem julgamento e onde ocorrem horrendas sessões de tortura — que não raro terminam em amputações ou morte. Contudo, Levy recorda que mandados internacionais de prisão por crimes contra a humanidade não foram emitidos contra Ben-Gvir, mas contra representantes do centro político israelense, e ressalta que incitações ao genocídio se tornaram clichê no país.
Tanto que a oposição não consegue se diferenciar do governo: entre Benjamin Netanyahu e seus principais adversários não há nada mais que “cinquenta tons de direita”. Todos apoiam as políticas historicamente implementadas contra os palestinos, vocalizam “soluções finais” contra o povo de Gaza — como a imposição de fome e doenças — e endossam os bombardeios. E ninguém fala em direitos iguais. Muito menos em desocupação.
Os artigos reunidos neste livro, como o título sugere, tratam sobretudo da Faixa de Gaza, cujos acontecimentos Gideon Levy acompanha enquanto jornalista desde 1982. A partir de 2006, foi proibido por Israel de entrar no enclave, mas não deixou de relatar aos israelenses o que acontece com os palestinos, nem em Gaza, nem na Cisjordânia. E é na Cisjordânia que se revela da maneira mais cínica a limpeza étnica empreendida por Israel. Apesar da situação em Gaza ter se tornado apocalíptica depois de 7 de outubro de 2023, com pelo menos 72,5 mil mortos e 80% das edificações destruídas, a vida na Cisjordânia também se degradou de forma acelerada. Gideon Levy conta histórias desesperadoras de famílias palestinas aterrorizadas dia e noite — e expulsas de suas terras — por colonos judeus protegidos pelo exército.
Apesar do texto fluido, a leitura de O massacre de Gaza é politicamente complexa. Gideon Levy é um israelense que mora em Israel, convive com israelenses e escreve para israelenses. Seus artigos revelam a angústia de quem está testemunhando diariamente o esfacelamento do próprio país. Talvez por isso o autor abuse do termo “terroristas” para descrever os membros da resistência palestina. Contudo, não deixa de reconhecer que o mundo só se lembra dos palestinos quando disparam foguetes.
Gideon Levy ficou surpreso e abalado com os acontecimentos de 7 de outubro, e usa palavras duras para se referir ao que viu nos kibutzim atacados pelos combatentes do Hamas após romperem a cerca de Gaza. O episódio, porém, não desregulou sua bússola moral. Israel achou mesmo que podia confinar impunemente dois milhões de pessoas em uma estreita faixa territorial por dezessete anos?, pergunta. Se os israelenses estão sofrendo pela morte de 1,2 mil pessoas dentro de suas fronteiras, que imaginem o padecimento dos palestinos em Gaza, onde famílias inteiras foram dizimadas.
O livro que você tem em mãos é um riquíssimo documento da falência moral da sociedade judaica em Israel diante da aceleração do genocídio em Gaza e da limpeza étnica na Cisjordânia — uma demonstração em tempo real de como a colonização se volta contra o próprio colonizador, não apenas nas expressões de resistência do colonizado, mas na degradação da sociedade opressora.











