Autobiografias femininas: bell hooks e a experiência radical do ‘eu’

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Por Paulo Silva Junior
Elefante na Sala

bell hooks e o Brasil é mais uma temporada especial do Elefante na Sala, o podcast da Editora Elefante; aqui na nossa estante temos 14 livros da autora, publicados desde 2019 — e tem muito mais para chegar em breve. Esse podcast então conversa com pesquisadoras e pesquisadores cujo trabalho é influenciado por hooks, em diversas áreas.

Neste segundo episódio batemos um papo com Jussane Pavan, cujo doutorado em Letras na Universidade Mackenzie apresentou a tese A experiência do eu nas obras autobiográficas de Bell Hooks: Bone Black e Wounds of Passion. Esses dois livros citados estão na nossa fila de tradução e preparação, e chegarão em breve ao catálogo da Elefante. Ambos são livros de memórias do início da vida de bell hooks: Bone Black foi publicado em 1996 e fala da infância, enquanto Wounds of Passion, de 1997, pega a autora já na juventude, na faculdade, diante da escrita e da caminhada intelectual.

Jussane analisa o eu na obra de hooks e, portanto, se dedica principalmente a esses dois livros que aparecem como grande exemplo de como a escrita pessoal da autora, mergulhando em sua experiência de vida, surge como base de suas reflexões ao longo de dezenas de livros. Assim, bell hooks aparece como grande referência para se pensar um texto autobiográfico como potencial de reflexão e crítica tocadas por questões de classe, de raça e de gênero.

Jussane começa falando como foi seu caminho inicial até chegar em bell hooks.

Eu comecei a estudar autobiografias de autoria feminina. A primeira que eu fui atrás foi da Santa Teresa d’Ávila, que é uma religiosa, uma santa, e escreveu textos autobiográficos muito tempo atrás. O que é interessante é que depois a bell hooks vai falar sobre a Santa Teresa d’Ávila e a ideia das chagas da paixão, lá em Wounds of Passion, lá na frente.

Depois, eu fui atrás de uma outra escritora, também muito famosa, francesa, que se chama George Sand, que também escreveu um livro da vida dela. E só depois de ter passado por essas duas obras autobiográficas, eu cheguei na Angela Davis. Quando cheguei na autobiografia da Angela Davis, eu achei que juntava uma outra perspectiva com a escrita autobiográfica, que era um propósito de luta, de resistência e de uma reflexão através da vida das pessoas, através dessa escrita autobiográfica.

Foi nesse momento que eu lembrei de um livro que eu tinha lido um tempo atrás, da bell hooks, que foi Ensinando a transgredir. Foi o primeiro livro dela que li. Eu lembrei que ela falava, nesse livro, sobre a experiência da vida de escola dela, o que foi a vida numa escola que era num lugar segregado, onde não tinha contato com pessoas brancas, e depois, com a diferença de entrar para uma escola com pessoas brancas e o quanto era difícil estar num tipo de educação que ela via como bancária. E por isso que ela se conectou tanto com o Paulo Freire.

Quando eu estava estudando essas escritoras, e lembrei desse livro, achei muito interessante esse fato dela colocar uma história pessoal para poder falar sobre certos aspectos teóricos, de educação, de feminismo, de uma teoria antirracista. Achei isso muito interessante. E aí meio que fez um clique na minha cabeça, enquanto estava lendo Angela Davis, de que talvez a escrita autobiográfica não sirva somente para a ideia de relembrar o seu próprio passado ou relembrar as suas experiências, mas meio que refletir a realidade através das experiências que se teve. E por isso que eu fui atrás da bell hooks. Porque eu vi nesse Ensinando a transgredir um lampejo de alguma coisa que depois fui perceber que ela faz constantemente, que ela fez em todas as suas outras obras.

Ela se utiliza de experiências pessoais para poder refletir, questionar e talvez modificar o que ela acredita que deve ser diferente.

Agora, é também preciso dizer que vivemos num ambiente de possível desgaste dessa literatura autorreferenciada, em meio a tantos diários, relatos pessoais e histórias vividas encorpadas como literatura. O que teria bell hooks de diferente nisso, ou melhor, como é que ela consegue partir daí para algo que seja realmente um texto crítico, político, provocativo?

A gente realmente está vivendo uma época em que se fala muito de si, mas acho que tem uma diferença entre só falar de si e colocar essas experiências pessoais como reflexão sobre a realidade. Como um lugar de fala, como um lugar de onde se vem e se tem propriedade para se dizer certas coisas, ou questionar certas coisas.

Ela vai trazendo esses elementos da vida pessoal dela não só para contar um caso. É lógico que esse caso que ela conta faz com que a gente se aproxime muito dela. Parece, quando a gente está lendo os livros, que a gente está conversando com alguém. Ela faz com que essas teorias fiquem muito próximas do nosso dia a dia ou que a gente consiga se identificar muito com essas experiências ou com essas vivências.

Mas eu acho que ela coloca essas experiências como ponto de partida para refletir certas coisas. Ela vai contar esse caso: ter tido uma escola segregada em que tinha professores negros que ajudavam ela a entender a sua própria realidade e a lutar por um lugar; e quando ela vai para uma escola com outras pessoas brancas, ela vê um esvaziamento de sentido na educação que ela está tendo. E aí ela vai fazer a conexão dessa experiência que ela tem com a teoria do Paulo Freire e com a ideia de uma educação libertadora.

E é interessante porque o processo de pensamento, desse entendimento do macro, ela também não deixa de colocar nas suas obras. Ela vai refletindo sobre esse ponto específico até chegar na teoria. Então por isso que me identifiquei como leitora — me apaixonei tanto por bell hooks porque consigo entender um raciocínio.

Então, quando ela fala sobre relacionamento, e ela fala bastante isso no Wounds of Passion, que é o segundo livro mais autobiográfico dela, ela não fica só contando a experiência do relacionamento que ela teve. Ela desenvolve isso e depois toda essa ideia de amor vai estar no livro Tudo sobre amor. Desenvolve a experiência micro que ela teve através de uma reflexão, através da realidade em que vivemos, e chega numa teoria.

Jussane separa um trecho na introdução que é bem interessante, da bell hooks falando sobre o processo de escrita de Erguer a voz: “a explicação para meu incômodo, minha relutância. Tem a ver com revelar o pessoal. Tem a ver com a escrita — com o que significa dizer coisas no papel. Tem a ver com punição — com todos aqueles anos da infância em diante, quando me machucaram por eu dizer verdades, por falar do ultrajante, falar do meu jeito chocante, indomável e sagaz, ou com ‘temos que ir tão fundo assim?’, como às vezes questionam os amigos”

No livro Bone Black, em que ela fala mais da infância e da relação com a família, a gente consegue perceber que era uma menina de uma família pobre, de um lugar segregado. A mãe dela era uma empregada doméstica, o pai dela também era faxineiro, e ela tinha vários irmãos. E uma certa maneira que deveria seguir. Ela fala isso muitas vezes, até no Erguer a voz, de uma hierarquia a se seguir na hora de você falar.

Ela não teria tanto direito a falar quanto as outras pessoas, e vai questionar isso. E questionando isso, ao invés de permanecer no lugar onde era o lugar em que deveria ficar, ela se pergunta por que ela não pode falar.

Vai encontrar, enquanto é criança, muita ajuda de outros escritores e poetas que ela lê e decora sozinha. Apesar de muitos irmãos e muitos familiares, ela passa uma infância bem solitária. E vai encontrar ajuda nos livros.

Acho que isso é bem interessante nessa maneira como a bell hooks escreve. A experiência da vida dela não permite que ela se torne aquilo que ela deveria ter se tornado, de acordo com a mentalidade da família naquela época. Ela depois se tornou professora, escritora e tudo mais.

Mas todos eles, por ela gostar muito de ler e escrever, achavam que ela deveria ser somente uma professora local. E ela foi atrás de outras coisas.

Não é só furar a bolha, sabe? Mas tentar questionar essas experiências e, a partir desse questionamento, conseguir encontrar uma voz. Eu acho que é mais ou menos isso que ela faz. Ela não vai tentar sair do lugar ou negar o lugar de onde ela veio, ou negar as suas próprias experiências.

Ela faz o oposto. Usa isso para que a voz dela seja mais alta em relação às incoerências que ela via que existiam na realidade dela. Que existiram durante toda a vida, né? Não só pequena, vivendo com aquela família, uma família muito tradicional, um tanto quanto violenta, religiosa.

Mas ela tem mais dúvidas do que certezas. E essas dúvidas fazem com que essas experiências sejam colocadas em xeque e que ela consiga, acho que de alguma maneira, transmitir uma dúvida que talvez não era só dela. Essas dúvidas vão ficando tão fortes, tão fortes, que vão passando para ideias ou talvez sugestões de uma nova realidade.

Ela também acreditava muito no compartilhamento de experiências e na reunião de mulheres que estariam juntas conversando sobre as suas diferentes vidas. E que a partir dessas conversas, dessas dúvidas, desses questionamentos, elas fossem chegando num grupo. Que se apoiaria, que estaria junto para tentar modificar certas realidades que eram presentes na maioria da vida dessas mulheres. Eu acho que isso é que dá força para que as experiências ruins não tomem toda a perspectiva.

Dentro dessa conversa, a gente precisa citar a ideia do pseudônimo, no caso, de significado bastante próprio, porque mergulha exatamente na sua vida pessoal, ao contrário da ideia de se separar da instância privada.

O nome de batismo dela é Gloria Jean Watkins, e ela escolheu bell hooks por causa da avó dela, que é Bell Blair Hooks. A ideia era exatamente o oposto de se esconder ou de estar por trás de um pseudônimo que ninguém conhecesse. A ideia era que ela celebrasse essa história. Então, pegou como exemplo a avó, que era uma mulher respeitada na família, respeitada pelo que falava, que trazia uma sabedoria popular e uma sabedoria familiar muito grande. E ela pegou esse nome emprestado, por isso que ela usa sempre com letras minúsculas, porque quer que a palavra que ela escreve seja mais forte que esse nome que ela criou.

Mas esse nome traz essa ancestralidade da Gloria Jean Watkins, da bell hooks, em relação ao lugar e à família que ela veio. E acho que tem tudo a ver com a maneira como ela escreve e com os livros que ela escreveu durante a vida. Celebrar, sim, o próprio passado, as próprias experiências; e que a voz dela, como escritora, tenha relação direta com essa origem, com essa origem familiar.

Por fim, Jussane comenta um pouquinho mais esses dois livros que estão para chegar: Bone Black, que volta à infância da autora, e Wounds of Passion, que tem ela como jovem escritora. Afinal, o que esse percurso ao passado nos revela nessa trajetória autobiográfica de bell hooks?

Os dois livros, tanto Bone Black como Wounds of Passion, são livros menos teóricos. É como se fosse uma arca do tesouro para a bell hooks. É de onde vai emanar a teoria, o questionamento. Então, são dois livros autobiográficos bem experimentais.

Eu gosto muito da maneira radical como ela escreve esses dois livros. Ela tem misturas entre a primeira pessoa e a terceira pessoa falando sobre a mesma personagem, que é ela. Às vezes utiliza a primeira pessoa para se aproximar dessa personagem. E às vezes a terceira pessoa, principalmente quando são relatos de situações mais violentas e mais difíceis, para se afastar um pouco dessa realidade.

Então, no primeiro, Bone Black, ela vai passar por toda a experiência de infância, desde o momento em que ela ainda não sabia direito o que era ser mulher, ser menina, ser negra, ser pobre. Então, ela vai falando sobre como ela descobre essas situações sociais a partir de experiências de relacionamento com os irmãos, com a mãe, com o pai, com os avós também, que são bem importantes. Vai falando como ela vai descobrindo essas realidades do mundo sendo uma criança. E passa por situações muito bonitas, poéticas, superbelas de ler e, ao mesmo tempo, por situações muito tristes, perigosas e violentas.

Já no Wounds of Passion ela já está na faculdade, já é uma jovem, e vai falar sobre a dificuldade entre o relacionamento amoroso e a construção de uma vida profissional. Também vai, a partir daí, tentando entender o que é ser uma escritora, o que dizem que é ser uma escritora, e como que ela, de fato, acha que tem que ser — ou como vai tentar ser.

E também o que dizem de um relacionamento, de um casamento, pelo que ela passa… Ela começa a questionar essas ideias em relação a um relacionamento amoroso.

É interessante ver os dois como uma sequência porque acho que é a partir dessas experiências que ela vai construindo todos os outros livros dela. 

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