O pesadelo interminável de Gaza

Por Miguel Araujo
Publicado em O Povo
Texto sobre Quero estar acordado quando morrer, de Atef Abu Saif

Em 7 de outubro de 2023, o escritor e então ministro da Cultura da Palestina Abu Atef Saif estava em Gaza cumprindo uma agenda de trabalho quando o grupo político e militar extremista palestino Hamas realizou série de ataques ao território de Israel, deixando mais de 1.100 mortos.

O país respondeu com intensa campanha de bombardeios e invadiu a Faixa de Gaza para “destruir o Hamas e libertar reféns” capturados. Desde então, o que se viu foi uma violenta ofensiva militar do Estado de Israel que resultou na destruição em massa de cidades, deslocamento de quase toda a população local e, até a publicação deste texto, mais de 73 mil palestinos mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

Por quase 90 dias Abu Atef Saif esteve inserido nos locais dos ataques, encurralado na estreita faixa territorial sob intenso bombardeio junto com seu fi lho, parentes e outros 2,3 milhões de compatriotas. Ele registrou suas vivências todos os dias até conseguir sair de Gaza três meses depois.

Os escritos se transformaram no livro Quero estar acordado quando morrer, publicado no Brasil em 2024. Autor de romances e ensaios políticos, ele põe na obra depoimentos sobre os horrores da guerra e as consequências que ultrapassam as imagens exibidas internacionalmente. Corpos mutilados, jornalistas mortos, fome, desamparo e um cenário de destruição são captados por Atef em relatos dilacerantes que mostram uma realidade inimaginável para brasileiros.

Nascido em 1973 no campo de refugiados de Jabalia, em Gaza, Atef Abu Saif passou a viver em meio a guerras desde os primeiros meses de vida. O autor cita conflitos anteriores no território em seus diários, como a Primeira Intifada (1987-1993), levante palestino contra a ocupação israelense.

As memórias do escritor também remontam à guerra de 2014, a mais citada na obra e tema de outro livro seu, “O Drone Almoça Comigo”. As ações do exército israelense em outras épocas se acumulam em lembranças inesgotáveis não só para o autor, mas para milhares de palestinos.

Há, porém, características mais marcantes nesse novo período em relação aos outros. Em 2014, Abu Atef Saif resistiu a 51 dias de ataques, enquanto em 2023 seu diário chegou a mais de 80 dias – sem mencionar que a guerra persiste até hoje. Outros aspectos são a ocupação terrestre prolongada do exército israelense e da própria forma como o autor se refere ao conflito atual – em vez de “guerra”, ele usa o termo “genocídio”.

(…)

Texto completo no site do jornal O Povo (para assinantes)

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Foto: Crianças brincando em Gaza | Crédito: Hosny Salah / Pexels

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