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No final do caminho dirão:
 E tu, viveste? Amaste?
E eu, sem dizer nada,
Abrirei o coração cheio de nomes.

Dom Pedro Casaldáliga

 

Então seu caminho chegou ao fim. Pedro abriu o coração cheio de nomes no triste 8 de agosto último. Sabemos, foi recebido por seus pais e toda a luz em que acreditava. O bispo de São Félix do Araguaia se foi e segue um gigante na defesa da floresta e de seus povos.

Catalão, mudou-se para a floresta amazônica em 1968. Cofundou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), duas entidades que cresceram no seio da Teologia da Libertação e demonstram, cristalinas, o papel que a igreja de Roma pode ter ao se colocar na linha de frente em defesa da vida. Pode e deve, diga-se.

Outros, porém, não tem essa opção. Nasceram ali, pertencem à linha de frente e não sairão. Aritana Yawalapiti foi um desses homens feitos de madeira nobre, a vida inteira sem envergar, reto em seu propósito.

Diplomata e guerreiro, grande representante dos povos do Xingu, morreu três dias antes de Casaldáliga. Consta que nunca perdeu uma luta de huka-huka. Tampouco deixou de enfrentar madeireiros e poluidores em suas terras.

De moleque, não tinha nem dez anos, conheceu os irmãos Villas-Bôas durante os anos de luta que levaram à criação da Terra Indígena do Xingu, a maior do mundo. É lá que moram os Yawalapiti e outros quinze povos.

“As lembranças que eu guardo de Aritana são as melhores possíveis. Ele era uma figura imponente, extremamente digna, o rosto grande, anguloso, corpo de lutador e do qual saíam as palavras mais doces, mais acolhedoras, mais tranquilas, sem qualquer sombra de raiva, de afobação, como é próprio dos grandes chefes do Alto Xingu”, relembra o antropólogo Carlos Fausto ao Instituto SocioAmbiental.

 

Mundos que se vão

Pedro morreu aos 92, agravado pelo mal de Parkinson, cercado pelos melhores cuidados da Santa Casa de Batatais, no interior de São Paulo. Aritana morreu aos 71, de covid-19 e descaso do sistema público de saúde.

O branco catalão morreu de velho, o indígena yawalapiti morreu de doença respiratória evitável. E a história do mundo prossegue.

Horacio Machado Aráoz coloca o dedo nessa ferida, mais precisamente em Potosí, na Bolívia, cidade de onde veio 80% de toda a prata do planeta — a Wikipedia garante. A tese de seu Mineração, genealogia do desastre, publicado por nós em abril, é que foi este súbito e farto acúmulo de metais preciosos que acendeu a fagulha do capitalismo. Escreve o autor:

“A primeira urbanização moderna não se deu em Manchester, mas em Potosí. O espírito do capitalismo não foi calvinista, mas católico. O protótipo desse espírito não foi Benjamin Franklin, mas Colombo, Cortés, Pizarro e outros aventureiros especialistas na arte da guerra.”

Esqueça o tear mecânico, a lógica do capital foi fundada na prata do genocídio ameríndio, sua mão de obra escrava, farta e matável. A tragédia de Potosí é também ponto de partida do clássico As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, onde desfia diferentes empresas que pilharam nosso continente, primeiro ibéricas, depois britânicas e finalmente ianques — gentílico que, em inglês, pode se traduzir para united statian ou USian.

Outro autor que se dá à tarefa de desnudar o capitalismo é Ricardo Abramovay, em Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, que rodamos no final do ano passado. Ali, prova como a floresta em pé pode oferecer lucratividade dezenas de vezes maiores do que essa pecuária ecocida e preguiçosa.

Baseado em práticas que já ocorrem na Amazônia, seu texto apresenta experiências capazes de mudar a situação, reverter o quadro negativo, valorizar a experiência e a vida dos povos tradicionais, combinar a sua cultura com os avanços da ciência e da tecnologia, apoiar e ampliar as unidades de conservação.

Porque, é claro, nós humanos continuamos lutando. Fiquem tranquilos porque no mundo todo temos e teremos colegas de trincheira. Frei Xavier Plassat sabe disso. Ele é o tradutor e organizador de Apaixonado por justiça, título de abril de 2018 que apresenta a trajetória de Frei Henri Burin des Roziers.

Francês, veio lutar pela vida no sul do Pará. Chegou em 1978 e viveu até 2017. Lutou também na arena jurídica, batalhando contra o trabalho em condições análogas à escravidão em tribunais. Por isso, viu a própria cabeça ir a prêmio. Um homem da mesma linhagem de Pedro Casaldáliga.

Xavier é seu amigo de décadas, outro religioso europeu que vive há décadas nas bordas da floresta amazônica, um homem doce que se emociona: “O gesto fabuloso de Pedro, querer ser sepultado na terra dos peões abandonados, na beira do Araguaia. Henri morreu na França, suas cinzas estão na terra do acampamento sem-terra que leva seu nome, no Pará. Os dois elegeram uma fidelidade impressionante pela opção de se enraizar”.

Foi Xavier quem trouxe as cinzas de Henri de volta para a Amazônia. “A dimensão de revelação destes homens está colocada. A pergunta agora é: o que faremos com ela? E minha grande angústia, e se isso servir pra nada?”

Então chegamos ao livro Direitos da Natureza, do sociólogo uruguaio Eduardo Gudynas, publicado em setembro de 2019. A obra desenvolve as experiências ecológicas institucionais ocorridas no Equador e na Bolívia. O primeiro colocou os direitos da Natureza na Constituição e o segundo aprovou leis de proteção da Mãe Terra.

Ainda que para um indígena a formalização de direitos para a natureza possa parecer supérflua, para um Estado nacional capitalista não é. De fato, Equador e Bolívia são pioneiros no reconhecimento da natureza como sujeito, colocando em questão as formas de se exercer o lucro, a política, a justiça e a cidadania.

São direitos universais e valem para todos, inclusive espécies feias, como as baratas, ou que comem suas galinha, como lobos-guarás e onças.

Gudynas mantém sua análise crítica sobre a experiência real destes e de outros países latino-americanos. A obra colabora para a construção de uma nova ética de convívio entre seres humanos e o mundo natural, que não passa pelo romantismo de ecossistemas puros e intocados, mas pelo respeito a seus ciclos, a suas capacidades e povos originários. Advoga, com razão, pelo abandono das métricas economicistas de crescimento infinito.

A floresta segue aí, aberta e porosa, sujeita ao desejo de crescimento irrefreável de homens que moram em lugares com ar-condicionado. Enquanto isso, alegremente queimamos biodiversidade para plantar grama e fazer crescer carne moída de segunda.

Alguém do alto de uma mesa de bar argumentou certa feita: houvéssemos criado a Biobrás, estaríamos melhor. Que petróleo o quê. Imagine uma empresa pública para catalogar e disponibilizar todas as substâncias e proteínas, polímeros e que tais existentes na floresta, todo lucro utilizado para acabar com a vulnerabilidade dos ecossistemas e de seus povos.

Uma revolução biogenética nos espera, se conseguirmos impedir o fogo.

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