Cena do documentário "Marcha cega", de Gabriel Di Giacomo

Enxergar é preciso

Por Natalia Timerman

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Memória ocular: cenas de um Estado que cega
Sérgio Silva & Tadeu Breda
Elefante, 2018, 232 pp.
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O que fazer com a revolta que tem nos acompanhado cotidianamente, esse embrulho raivoso no estômago bipartido em paralisia e ânsia de socar? Em Memória ocular: cenas de um Estado que cega, a revolta vira palavra e imagem.

Começando pelas fotografias iniciais do livro, sequência impressionante clicada por Sérgio Silva minutos, segundos, milésimos antes de perder o olho para uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar em 13 de junho de 2013. Imagens que fotografam a própria cegueira de Sérgio — e também a nossa, o lado oposto da lente, a cara abismada e silenciosa de quem vê.

A falta do olho grita, mas incomoda também nos detalhes. É através deles que acompanhamos a trajetória dos autores na reconstrução instantânea e política do tiro e do que veio depois.

Tadeu Breda refaz o percurso de Sérgio desde que o olho se perdeu: a dor, os momentos iniciais, o socorro por um desconhecido, o caminho até o hospital, e acompanha as consequências da mutilação ao longo do tempo, como o medo, as marcas psicológicas de ter sido cegado e o desafio de superá-las.

Uma superação de muitas batalhas: primeiro, a batalha cotidiana de adaptação prática a ter de repente um olho só, que abrange desde a colher que esbarra na xícara até o trabalho como fotógrafo; depois, a batalha judicial, que, ao invés de remediar, atualiza e aumenta a revolta; e, enfim, a luta contra o estigma: esta principalmente contra si mesmo.

Sérgio vive a constante ambiguidade de se saber personagem e de buscar fugir de rótulos procurando outros apostos para si que não “aquele-fotógrafo-que-perdeu-o-olho”.

A divisão cronológica dos capítulos retoma o que se perdeu e o que ainda se tenta compreender e transformar, numa investigação minuciosa e cuidadosa. Como antídoto para a dificuldade de se contar uma narrativa ainda em curso, Tadeu Breda busca ouvir todos os lados, logrando uma visão acurada e o mais abrangente possível do que se faz história diante dos nossos olhos — mas não mais em um dos de Sérgio.

Mais que um olho, compreendemos ao ler, apagou-se a possibilidade de um olhar: olhar que o próprio livro tenta resgatar, remédio para o que nas mesmas páginas se problematiza.

Mas não espere o leitor que a revolta se apazigue com Memória ocular. Ela é revolvida e só aumenta na medida em que tomamos conhecimento da linha policial que impediu socorro imediato a Sérgio, dos soldados que vêm a câmera como arma de que se defender, das investigações sigilosas pelas próprias instituições investigadas e do absurdo périplo judicial que atualiza em Sérgio a condição de vítima.

O livro, além de pesquisa, é um diário que, como fotografia, retrata a transformação que a violência perpetra na vida de uma pessoa: a violência estatal, que conta com o agravante de ser originada do lugar de que deveríamos esperar proteção, multiplicando o desamparo causado por ela. Essa violência estatal que, lamentável mas não surpreendente, segue crescendo.

Memória ocular, em sua segunda edição, é a concretização do sonho do escritor de não ficção: continuar contando uma história que, afinal, ainda se constrói, abarcando até a repercussão do primeiro lançamento, num relato emocionante da noite festiva no mesmo lugar onde, três anos antes, se dava a tragédia de Sérgio — e a nossa.

O olho de Sérgio é o ponto cego detrás de que se abre sombra para a violência de Estado que se manifesta cotidianamente, nas leis que só funcionam para alguns, nas prisões arbitrárias (e nas condições das prisões), na matança de crianças e jovens. O pesadelo de Sérgio é o nosso, o que faz de Memória ocular um livro que não se fecha quando tentamos juntar uma capa à outra. O buraco da cegueira continua nos tragando, sua sombra continua incidindo sobre todos nós.

Memória ocular não foge tampouco à atual e necessária discussão sobre a culpabilização de vítimas pela violência sofrida, desvelando o Estado como agente desse perverso mecanismo. O Estado encobre o Estado e inviabiliza o registro da história vindoura: uma sentença judicial que responsabiliza repórteres por lesões sofridas na cobertura de conflitos é uma tentativa de apagar também as imagens futuras.

Como num fractal, a violência da repressão das manifestações de junho de 2013 se repete e confirma nas mais altas instituições do país. A revolta aumenta diante de cada derrota de Sérgio na justiça. É a violência de Estado ecoando em todos os seus meandros, estraçalhando o significado da justiça e das instituições que a deveriam representar.

O ferimento de Sérgio (e de Deborah, e Gustavo, e Juliana, e Vitor, também retratados no livro, e de tantos outros) nos pergunta: o que é que não podemos ver? Ao que parece, não querem que vejamos a escancarada violação de direitos constitucionais pelo próprio Estado que os deveria garantir.

É contra essa cegueira que vem a Memória ocular.

 

Natalia Timerman é autora de Desterros: histórias de um hospital-prisão (Elefante, 2017)

Com um olho e só

Por Antonio Mammi
Parágrafo Primeiro

 

Sérgio Silva não fazia mais que a obrigação quando foi à rua da Consolação em 13 de junho de 2013: fotojornalista freelancer, não podia negar serviço em terreno tão adubado. No dia mais violento das manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, o ponto de inflexão na série de protestos que vieram a ser conhecidos como as Jornadas de Junho, Silva teve que se ver com a mais grave sequela carregada pelos cerca de 150 feridos naquela noite. Vítima do que se repercutiu amplamente como uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar, perdeu o olho esquerdo.

A comoção, contudo, não foi reforçada por tintas oficiais. Em duas instâncias, o Judiciário paulista lhe negou indenização de R$ 1,2 milhão por danos estéticos, morais e materiais, bem como uma pensão mensal de R$ 2,3 mil a ser paga pela Fazenda Pública.

Do périplo judicial de Silva, resultou a segunda edição de Memória ocular: cenas de um Estado que cega, escrito com o jornalista Tadeu Breda e concebido após o último insucesso do fotógrafo nas cortes.

“Não estou inventando essa história nem usando uma prótese falsa no lugar do meu globo ocular”, diz Silva à Parágrafo Primeiro. “Todo mundo sabe o que aconteceu. Eles mesmos sabem”.

Narrado por Breda — que também cobria o protesto do dia 13 — e ilustrado pelas fotos de Silva, o livro também inclui relatos de outras vítimas de violência policial ao longo de junho e foi lançado na data do quinto aniversário do disparo. “Eu estava na mesma esquina que o Sérgio quando ele foi atingido, mas só fui saber no dia seguinte. Fiquei bastante espantado”, conta o co-autor.

No primeiro grau, o juiz Olavo Zampol Jr. dispensou as testemunhas. O Estado não deveria ressarcir Silva nem que se provasse que ele havia sido ferido por bala disparada pela polícia, sentenciou. A culpa era exclusiva da vítima, por ter permanecido “em linha de tiro para fotografar, colocando-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer”.

Argumentação que se aplica a coberturas de guerra, é verdade, embora a reprovação à postura belicista da polícia tenha encorpado as manifestações subsequentes e posto em xeque a defesa do uso de força excepcional. A julgar pelas primeiras imagens do livro (“as últimas fotos que Sérgio produziu quando ainda tinha dois olhos”, nas palavras dos autores), nem a alegação da linha de tiro parece prosperar —nelas, ele busca abrigo atrás de uma tropa posicionada no cruzamento da Consolação com a rua Caio Prado.

“Eu queria saber o nome disso que ele fez, porque não consigo nem definir”, afirma Silva. “Já que sou leigo em Direito, vou chamar de ato violento. E no meu caso é o segundo: o primeiro veio do tiro do policial, o segundo da caneta do juiz”.

Em novembro último, a 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo dirimiu Silva de culpa, mas nem por isso decidiu que fosse reparado pela órbita vazia. Paramentado com um tapa-olho, ele assistiu ao desembargador relator Rebouças de Carvalho fundamentar seu voto com base em um laudo médico, segundo o qual o fotógrafo pode ter sido atingido por “pau, pedra, mão, cabeça, bolas de gude, bola de futebol, bola de borracha, projéteis de paintball, coronhadas de armas de fogo”.

No momento, o processo está nos escaninhos da corte paulista, enquanto não se decide se ele será remetido para os tribunais superiores.

Silva, por sua vez, teve que se adaptar à nova condição — hoje, a maior parte da sua renda provém da produção e edição de vídeos, algo mais estático do que a correria dashard news. Diz que não vai desistir do processo. “O que importa é que o Estado reconheça o erro que cometeu em 2013 e o repare de alguma forma, qualquer que seja”.

Por enquanto, morrem com ele os R$ 3.894 gastos em hospital privado à época dos fatos.

‘Um caso alarmante para a
liberdade de expressão no Brasil’

Por Camila Marques
ONG Artigo 19

 

O caso de Sérgio Silva é alarmante para a luta pela liberdade de expressão no Brasil. Primeiramente, porque a violência sofrida por Sérgio é um forte atestado do uso abusivo de armamento menos letal pela polícia em protestos, prática que teve em junho de 2013 um expoente.

Na ocasião, e nos anos que passaram desde então, comunicadores foram atingidos pelo uso indiscriminado deste tipo de instrumento e, em certos casos, foram alvos diretos da violência policial, com o objetivo de coibir a cobertura de protestos e a disseminação da informação para a sociedade.

Os desdobramentos do caso, da mesma forma, são muito emblemáticos, pois demonstram uma segunda faceta da restrição ao direito de protesto e ao trabalho dos comunicadores — a falta de responsabilização. Ao negar qualquer tipo de reparação a Sérgio pelos graves danos sofridos devido à atuação abusiva do Estado, o caso revela a omissão das instâncias de controle da atividade policial, que contribui diretamente para a continuidade deste ciclo de violações.

Por fim, o caso também aponta uma tendência preocupante de culpabilização explícita das vítimas, responsabilizando os comunicadores pelos eventuais prejuízos (físicos ou de outra natureza) que possam sofrer ao realizar seu trabalho na cobertura de manifestações.

A fundamentação da sentença que negou a indenização a Sérgio é direta ao afirmar que o fotógrafo ”assumiu a responsabilidade” de se ferir ao se colocar ”na linha do tiro”, o que, a um só tempo, demonstra a naturalização do cenário de violência em protestos sociais e contribui para a criminalização da atividade do comunicador, colocando a própria democracia em cheque.

 

LANÇAMENTO
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Na rua!
13 de junho de 2018, às 18h
Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia
São Paulo-SP
Evento no Facebook

Sarau com
Roberta Estrela D’Alva, Emerson Alcalde, Patrícia Meira, Deusa Poetisa, Natasha Felix, Cleyton Mendes, Caetano Romão, Felipe Marinho, Victor Rodrigues, Luiza Romão & Daniel Minchoni

Microfone aberto com
Conselho Nacional de Direitos Humanos, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Repórteres sem fronteiras, Anistia Internacional Brasil, Instituto Vladimir Herzog &tc.

13 de junho,
cinco anos de injustiça

Em 13 de junho de 2013, enquanto cobria um protesto pela redução da tarifa do transporte público no centro de São Paulo, o fotógrafo Sérgio Silva foi alvejado no olho esquerdo por uma das mais de quinhentas balas de borracha disparadas pela Polícia Militar naquela noite. Perdeu a visão na mesma hora. No hospital, passaria por uma cirurgia para extração do órgão. Algumas semanas mais tarde, outra operação: desta vez, para implantar uma prótese.

Cinco anos depois, Sérgio coleciona momentos de superação e depressão. Reinventou-se profissionalmente como cinegrafista, e segue a vida, mas o pedido de indenização que moveu na justiça já foi negado em primeira e segunda instâncias. Além disso, as bombas e os projéteis da PM alcançaram a vista de pelo menos mais cinco pessoas durante manifestações nas ruas da cidade. Uma das vítimas foi uma criança de apenas 12 anos.

Em edição revista, ampliada e atualizada, Memória ocular: cenas de um Estado que cega acompanha a trajetória do fotógrafo em cinco textos, escritos a cada ano de sua recuperação, e aborda também o drama de outros cidadãos cegados — ou quase — pela polícia paulista, como Vitor Araújo e Deborah Fabri, que perderam a visão graças a estilhaços de bomba.

O livro traz ainda fotos inéditas de Sérgio Silva — inclusive as últimas imagens que produziu antes de perder a capacidade de enxergar com os dois olhos, e que comprovam onde estava quando foi atingido pelo tiro da PM, contrariando as decisões altamente politizadas de juízes e desembargadores.

Trata-se de uma tentativa de entender em profundidade como a violência se expressa e se multiplica na vida de quem foi atingido pelas armas oficiais, abrindo cicatrizes psicológicas que aumentam ainda mais a dor das marcas que permanecem no corpo. Afinal, o que significa ser uma vítima do Estado hoje, depois de mais de trinta anos de “redemocratização”?

 

LANÇAMENTO
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Na rua!
13 de junho de 2018, às 18h
Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia
São Paulo-SP
Evento no Facebook

Sarau com
Roberta Estrela D’Alva, Emerson Alcalde, Patrícia Meira, Deusa Poetisa, Natasha Felix, Cleyton Mendes, Caetano Romão, Felipe Marinho, Victor Rodrigues, Luiza Romão & Daniel Minchoni

Microfone aberto com
Conselho Nacional de Direitos Humanos, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Repórteres sem fronteiras, Anistia Internacional Brasil, Instituto Vladimir Herzog &tc.

Mais um 13 de junho,
mais um ano sem justiça

São Paulo, 13 de junho de 2017. Faz quatro anos que milhares de manifestantes marcharam pelo centro pedindo a redução da tarifa de transporte público na cidade. Era a quarta manifestação seguida convocada pelo Movimento Passe Livre contra mais um aumento abusivo das tarifas de ônibus e metrô, articulado pela prefeitura e pelo governo do estado em prejuízo da população trabalhadora e em benefício dos barões instalados dentro e fora dos palácios.

Faz quatro anos que sofremos uma repressão absurda, injustificável, inexplicável, descontrolada e violenta na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antônia. Mais de duzentos presos. Mais de cento e cinquenta feridos. Dois olhos alvejados e um globo ocular explodido por uma das quinhentas e seis balas de borracha que a Polícia Militar reconhece haver disparado naquela noite adentro.

Era uma vez a visão esquerda de Sérgio Silva…

BAIXE “MEMÓRIA OCULAR” EM PDF

Conforme o tempo passa, 13 de junho de 2013 vai mostrando seus desdobramentos. De lá pra cá, houve repressões ainda mais truculentas que aquela. Os brasileiros elegeram o Congresso mais conservador desde a redemocratização. Houve golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff. O prefeito de São Paulo naquele então, Fernando Haddad, do PT, foi trucidado nas urnas quando tentou mais quatro anos no poder. Seu algoz, João Doria, é o pupilo do governador Geraldo Alckmin, igualmente alvo daqueles protestos, mas que continua firme e forte no Palácio dos Bandeirantes, cotado para a Presidência da República.

E tantas outras coisas…

Não é possível dizer que essa chamada “onda conservadora” teve início naquele 13 de junho, e muito menos dá pra afirmar que o 13 de junho provocou a avalanche de retrocessos sociais a que estamos assistindo. Mas é fato que, entre gritos, revolta, bombas e multidões, alguma coisa começou a acontecer no Brasil há exatos quatro anos. Um tal “gigante” acordou. A direita saiu de casa vestindo verde e amarelo. A imprensa mostrou que ainda dá as cartas na política nacional. Enfim.

Há muitas análises sobre as jornadas de junho. E haverá muitas mais, porque aquele junho ainda não acabou — e nem acabará tão cedo. Mas as vítimas, bem, elas não precisam ser analisadas. Precisam ser lembradas. Até porque a violência policial — pra não falar sobre o genocídio que acontece nas periferisa — continua mutilando manifestantes.

Aqui na Editora Elefante, contamos a história de Sérgio Silva, fotógrafo, jornalista, ser humano que perdeu a visão do olho esquerdo após ser alvejado pela bolinha de elastômero supostamente não letal das forças de segurança pública. De lá pra cá, tivemos pelo menos mais três vítimas oculares da PM na cidade de São Paulo.

Vitor Araújo, de 17 anos, perdeu o olho em um protesto ocorrido em 7 de setembro de 2013, logo depois das jornadas de junho, mas que se dirigia aos desmandos governamentais ocorridos por ocasião da Copa do Mundo. Douglas Santana, de apenas 12 anos, deixou de enxergar com um dos olhos em 23 de abril de 2016, após a repressão policial a um baile funk. E Débora Fabbri, de 19 anos, foi atingida por um estilhaço enquanto se manifestava conta a farsa do impeachment e a ascensão do golpista Michel Temer em 31 de agosto de 2016.

A justiça está cega, surda e muda para todos eles. A maior prova disso é que nenhum policial militar ou governante foi responsabilizado pelos acontecimentos. Nem será. E, pior, Sérgio Silva, que entrou com pedido de indenização contra o Estado pela violência que sofreu em 2013, ainda teve que ouvir de um juiz que é o único culpado pelo olho que perdeu. Cabe recurso da decisão, como sempre. Mas o tempo vai passando. A vida segue. São quatro anos.

Cultivar a memória é o mínimo que podemos e devemos fazer. Por isso lançamos Memória ocular, um livro que conta a história dos três anos da violência sofrida por Sérgio Silva em 13 de junho de 2013. O lançamento ocorreu em 13 de junho de 2016, há um ano, exatamente na esquina em que a infeliz bala de borracha mutilou o fotógrafo. Muita gente voltou ao cruzamento para descomemorar a data ao lado de Sérgio.

Agora, disponibilizamos o livro em PDF para quem quiser baixá-lo. É nossa maneira de marcar mais um aniversário da dor. E de manifestar nossa solidariedade, que é e será infinita. Força, Sérgio — e Vitor, e Douglas, e Débora. Força!

Quantas vezes o sistema político tem de morrer antes de ser enterrado?

O presidente da República é flagrado em negociações escusas com um empresário que comprou praticamente toda a alta casta governista e opositora de Brasília. O quase-vencedor das eleições de 2014 pede propina a esse mesmo empresário, que nadou de braçadas nos treze anos de governos dos oponentes do quase-vencedor. A lista de promiscuidade entre público e privado é imensa — e só cresce. Quantas vezes o sistema político precisa morrer antes de ser enterrado?

Se há um consenso entre as pessoas sérias de direita e de esquerda no Brasil, esse consenso diz respeito à falência total do sistema representativo. Diante do diagnóstico comum, uns defendem a ditadura como saída, enquanto outros advogam que só uma democracia de fato poderá nos tirar dessa. A primeira corrente já teve sua chance. E sabemos no que deu. Então, que tal tentar a segunda alternativa, que jamais foi testada em nossas judiadas terras?

visite nossa lojinha

De uma hora para outra, os maiores grupos de comunicação do país — que em tempos de instabilidade costumavam agir em coordenação absoluta, como no golpe militar de 1964 e no golpe contra Dilma Rousseff — começam uma briga pública que tem no centro da balança o Palácio do Planalto. Empurram de um lado e de outro para ver quem derruba ou salva Michel Temer. Suas razões permanecem tão obscuras quanto as razões pelas quais o golpista ainda não renunciou.

Parlamentares da extrema-direita sobem às tribunas do Congresso para defender Diretas Já, enquanto o mercado se dá ao despeito de dizer quando Temer cairá e quem ficará em seu lugar. O ministro da Fazenda — que foi alto funcionário da empresa corrupta que agora denuncia deus e o mundo — toma a licença de declarar que continua no cargo, independente de cortarem o pescoço do presidente, em um sinal renovado, límpido e desesperador de que, definitivamente, não somos nós, cidadãos, quem não dá as cartas.

O cenário cada vez mais caótico é marcado pela presença de analistas aos montes. Há um para cada centímetro quadrado de Facebook. Nós, humildemente, admitimos que nada sabemos. E, talvez menos humildemente, nos damos ao direito de achar que quem diz que entende o que está acontecendo é gênio ou está mentindo.

Nem por isso achamos que o caminho é desencanar de tentar entender. E, justamente por isso, na Editora Elefante seguimos na labuta diária para lançar livros que podem não ter grande apelo comercial, mas nos parecem abordar assuntos fundamentais para o exercício da reflexão. Tentamos enxergar para além das estruturas, para além dos fulanos e sicranos que, hoje, estão a protagonizar a encenação do absurdo, mas, amanhã, sairão de cena enquanto a lona do teatro seguirá em pé, acolhendo novos atores capazes de manter o status quo.

livros_elefante_3D_72dpi_5“Com velhas ferramentas não se constrói o novo”, decreta o pensador equatoriano Alberto Acosta, autor de nosso querido O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos (2016). Nele, o ex-presidente da Assembleia Constituinte do país sul-americano propõe uma ruptura radical com a ideia de desenvolvimento, que dominou o mundo ao longo do século passado, a tudo homogeneizando em nome de um suposto propósito comum de bem-estar.

Acosta enxerga a morte do atual sistema político, que, dominado por interesses financeiros, não consegue qualquer grau de conexão com o mundo real. E, frente a isso, propõe a construção de novos sistemas de mundo, que saibam incorporar o melhor do conhecimento das populações tradicionais e aquilo que as novas ferramentas nos oferecem. “Se a luta é de toda a sociedade, já não há espaço para grupos vanguardistas que assumam uma posição de liderança privilegiada. Tampouco é uma tarefa que se resolve no espaço nacional”, afirma o ex-ministro de Rafael Correa, com quem rompeu ainda nos primeiros anos de governo.

livros_elefante_capa_72dpi_1Correa, aliás, despede-se da presidência equatoriana sob um legado dúbio, marca comum dos integrantes do chamado “ciclo progressista” latino-americano. O governo dele é analisado em nosso primeiro livro, O Equador é verde (2011), de Tadeu Breda. A obra já está esgotada, mas pode ser baixada gratuitamente.

Os governos progressistas são também um eixo central de nosso Descolonizar o Imaginário (2016), uma potente coletânea de textos sobre os maiores pensadores latino-americanos do Bem Viver. É um livro denso, muito necessário para refletir sobre os caminhos que tomamos ao longo do boom do ciclo de commodities, na década passada, e como esses rumos nos desviaram de outros, muito mais promissores, para os quais ainda podemos retornar.

“É necessário, e também urgente, empreender uma alternativa pós-extrativista”, escreve o uruguaio Eduardo Gudynas, pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social e um dos autores que marcam presença. “Os países que primeiro começarem a discutir essas questões estarão melhor preparados para lidar com um futuro próximo que certamente será pós-extrativista.”

livros_elefante_capa_72dpi_7Olhando para o caso brasileiro, vemos, de novo, como o atual sistema político é incapaz de nos representar. Não há nenhuma voz expressiva, entre os homens que controlam o poder, que pense em um novo ciclo. Pelo contrário, o extrativismo e a depredação dele consequente, que já eram marcas dos governos petistas, ganharam impulso ainda maior sob Temer. Se há uma vantagem no governo golpista, é a de haver deixado de lado certas encenações. As coisas estão sendo feitas por uma elite que quer lucrar ainda mais. E ponto. Muitos já não se dão ao engodo de usar o povo para dar vazão a certos absurdos, ainda que outros sigam a se valer de um discurso tão falso quanto o Congresso que habitam.

Nesse sentido, entre as poucas certezas a que nos damos direito está a de que não é seguindo o PT que vamos sair dessa. Certos líderes petistas caíram como luva no papel de opositores: fazem discursos em altos brados, dizem-se de esquerda, declamam a revolução em verso e prosa, e chegam até a vestir cocares em plena Esplanada, ignorando que há poucos meses mandavam atropelar os direitos indígenas para defender os direitos das megaempreiteiras. Mas, enquanto a encenação pública se desenrola, noticia-se, por exemplo, que nos bastidores Lula negocia pacto com FHC para uma eleição indireta que poderia levar ao comando da República Nelson Jobim, ex-ministro de ambos os governos e sujeito que chegou a se gabar de ter adulterado artigos da Constituição.

alem do pt nova 3D“Vista em perspectiva de longa duração, a transformação do PT em braço esquerdo do partido da ordem será integrada como mais um capítulo da contrarrevolução permanente, que caracteriza a história brasileira contemporânea”, escreve Fabio Luis Barbosa dos Santos, autor de Além do PT (2016). O professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo analisa o governo petista sob a égide do ciclo progressista latino-americano, e conclui que, a exemplo de outros, os mandatos de Lula e Dilma tiveram como saldo uma profunda desmobilização popular que acaba por ditar as dificuldades de rearticulação da esquerda em meio a uma conjuntura terrível. Valendo-se dos versos de Emicida, ele diz que é preciso deixar o conforto do telhado petista para aventurar-se a ver as estrelas e descobrir o que há de promissor no céu.

Enquanto não nos rearticulamos, assistimos ao avanço do autoritarismo sobre nossas vidas. Indígenas e antropólogos indiciados em uma CPI da Funai dominada por ruralistas que são réus em ações diversas. As Forças Armadas sendo chamadas a ocupar a Esplanada dos Ministérios para acudir um presidente bambo. Um novo massacre de trabalhadores rurais, impensável até há pouco tempo, levando-nos a 26 mortes em conflitos no campo em menos de cinco meses completos e passando a impressão de superaremos o sinistro recorde obtido em 2016, com 61 assassinatos. Tudo isso em menos de uma semana.

2013 não acabou. O significado e os destinos das Jornadas de Junho estão em aberto. Certo é que, de lá para cá, diante de um poder público titubeante ou aplausivo, polícias e milícias sentiram-se cada vez mais encorajadas a agir. O caso do fotógrafo Sérgio Silva, atingido no olho por uma bala de borracha em meio às manifestações daquele ano, parece pouco, frente à desgraça que a cada dia se renova e se incrementa. Mas é, em verdade, uma oportunidade de reflexão profunda sobre um caso individual que toma proporção coletiva nas páginas de Memória Ocular (2016).

livros_elefante_3D_72dpi_3Também entre o passado mal-resolvido e o futuro repetivivo, Corumbiara, caso enterrado (2015) fala sobre a morte de camponeses e policiais durante uma reintegração de posse no sul de Rondônia, em 1995. Passando o caso a limpo, o autor, João Peres, alerta que os pilares que levaram à tragédia não foram removidos, o que poderia nos levar a novos episódios sangrentos. Como, de fato, nos levaram. E continuam levando: enquanto Temer periga cair em Brasília e João Doria demole prédios com gente dentro na região de São Paulo conhecida como Cracolândia, uma reintegração de posse no Pará vitima dez agricultores sem-terra. Até quando a história se repetirá contra nós?

Memória Ocular em debate
sobre fotografia e política

Quando recebemos o convite da Fundação Rosa Luxemburgo, pestanejamos. Eles estavam organizando o lançamento do livro Cidade em jogo, com belíssimas fotografias das remoções forçadas, da violência do Estado e da resistência popular à gentrificação provocada no Rio de Janeiro durante a preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Cada clique uma denúncia poderosa.

As imagens foram produzidas por fotógrafos populares, que desenvolvem outro tipo de relação com as pessoas, as realidades e as comunidades que se propõem a retratar. Esse foi o tema central do debate “A fotografia como olhar político”, realizado na noite do dia 21 de julho para apresentar o livro na cidade de São Paulo.

O que a Editora Elefante tem a ver com isso? Há pouco mais de um mês, publicamos Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta a história de Sérgio Silva, fotógrafo dedicado à cobertura de movimentos sociais e autônomos que, devido ao seu trabalho nas ruas, foi atingido por uma bala de borracha da Polícia Militar e perdeu o olho esquerdo. Isso ocorreu em 13 de junho de 2013, dia da grande repressão às jornadas de junho em São Paulo.

Memória Ocular aborda a vida de Sérgio Silva e a violência policial contra manifestações a partir de sua perspectiva — a perspectiva de alguém que, ao mesmo tempo, é uma vítima do Estado e registra fotograficamente o drama de pessoas que, como ele, também são vítimas do Estado.

A Fundação Rosa Luxemburgo incluiu Sérgio Silva e Tadeu Breda na conversa com Luiz Baltar, um dos fotógrafos cariocas responsáveis por Cidade em jogo. O resultado foi o bate-papo que vai abaixo, na íntegra, com mediação de Verena Glass. A gravação é obra da Rádio Popular.

 

Junho de 2013, nossa memória diária

Por Tadeu Breda

Texto originalmente publicado no El País Brasil

Quando ouviu dezenas de soviéticos afetados pelo acidente nuclear de Tchernóbil, vinte anos após a explosão do reator, a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch questionou-se: “Sou testemunha do quê, do passado ou do futuro?” Ao olhar para as vítimas do Estado brasileiro, eu me faço cada vez mais a mesma pergunta. Suas histórias ficaram para trás? Ou continuarão ecoando?

Não saberia explicar com argumentos precisos o que me fez e me faz escrever sobre Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho esquerdo depois de receber o impacto de uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo em 13 de junho de 2013. Faz três anos – e eu continuo tentando descobrir. Ele também.

Escrevi Memória Ocular, lançado pela Editora Elefante nesta semana, para narrar a história de Sérgio Silva em três momentos: 2013, poucos meses após o ferimento; 2015, quando a mutilação completou dois anos; e 2016, às vésperas do terceiro aniversário. Ao ouvir seu testemunho – e de familiares, manifestantes, advogados, autoridades – tentei compreender o que significa ser uma vítima do Estado. Não consegui: não completamente.

É claro que Sérgio Silva não é o único cidadão que sofre graças à ação do aparato estatal brasileiro. Há uma infinidade de outras pessoas que padeceram – e continuam padecendo – violências ainda mais monstruosas que a extirpação de um olho. Qualquer defensor público poderia passar horas recitando casos de agressão, prisão, condenação e morte rotineiros nas periferias das grandes cidades.

Qualquer um de nós relaciona o número cento e onze com as mortes do presídio de Carandiru, em 1992. Qualquer um sabe dos quase seiscentos assassinatos perpetrados pela polícia em resposta aos ataques da facção criminosa, em 2006. Sem contar os incontáveis – porque escondidos – casos de tortura e desaparecimento durante a ditadura. Há ainda o martírio dos índios e camponeses, há as marcas da escravidão.

Mas não é possível classificá-los por alguma espécie de escala. Qual caso é mais grave? A extensão da violência se instala profundamente em quem sentiu o golpe do Estado – não importa com que arma tenha sido desferido ou qual sua extensão. Dores indizíveis proliferam ao som das viaturas, dos disparos das armas de chumbo ou de borracha, dos despachos assinados por juízes e desembargadores, dos pronunciamentos de governantes, secretários e ministros. Mas dificilmente chegam às manchetes.

Costumamos ater-nos às estatísticas, privilegiando as taxas mais impactantes e ignorando que a condição da vítima – seu sofrimento – transcende os números. Sérgio Silva é a vítima mais visível da repressão às jornadas de junho de 2013 em São Paulo, mas, tivesse a polícia matado alguém, poderia não ter sido. Ainda assim, teria perdido o olho. Em outras capitais, histórias parecidas se repetiram durante aquela onda de rebeldia popular. No Rio de Janeiro, Rafael Braga foi preso e condenado por porte de produtos de limpeza. Em Belo Horizonte, dois jovens morreram após despencarem de um viaduto. Em Belém, uma mulher também morreu, asfixiada pelo gás lacrimogêneo lançado pelas forças de segurança.

Eu escolhi escrever sobre Sérgio, talvez, pela proximidade. Não nos conhecíamos, mas como eu, ele é jornalista. Como eu, estava trabalhando na cobertura da manifestação que tomou o centro de São Paulo no quarto dia de protestos convocados pelo Movimento Passe Livre para exigir a revogação do aumento da tarifa de transporte público. Poderia ter sido eu, poderia ter sido qualquer um de nós que lá estávamos – manifestantes, transeuntes, repórteres – a pessoa a levar um tiro de bala de borracha no olho. A aleatoriedade da violência estatal é tão chocante quanto sua seletividade.

Sérgio não portava armas nem estava colocando a vida de ninguém em risco. Tinha uma câmera nas mãos. Eu tinha um caderno. Havia quem tivesse flores. As pessoas queriam apenas marchar até a Avenida Paulista. Mas o Estado preferiu atender o pedido dos grandes jornais da cidade, dos canais de rádio e televisão, que exigiam um basta: chega de fechar nosso “cartão postal” com reivindicações absurdas. Então, a polícia interditou a Paulista para evitar que os manifestantes interditassem a Paulista. Lançou pelo menos 938 bombas de gás lacrimogêneo e disparou 506 balas de borracha. Uma delas, bem…

O dia 13 de junho de 2013 foi repleto de pequenos grandes absurdos, que, caso a democracia pudesse ser medida pelo tamanho do desrespeito às suas regras, não se comparariam aos escândalos registrados diariamente nas periferias de São Paulo, mas que, talvez pela primeira vez em anos, trouxeram para o centro da cidade uma pequena mostra do funcionamento da corporação.

Então, houve clamor, houve uma profunda crítica aos desmandos policiais. Pouco tempo depois, as “jornadas de junho” seriam alvo de uma intensa disputa simbólica. Por enquanto, as forças mais conservadoras estão vencendo a peleja por seu legado. As grandes manifestações têm sido usadas para impor retrocessos, como se os protestos ocorridos em 2013 já tivessem começado com as cores da bandeira nacional…

Quem estava lá sabe que não foi assim. E Sérgio Silva traz no rosto o que todos nós trazemos na lembrança. Somos milhares de memórias oculares. Sérgio é uma única evidência ambulante. O olho que não tem grita ruidosa e claramente. Basta querer ouvir.

Depois de junho, ao contrário do que queríamos, o Estado continuou reprimindo. Fomos tolos ao acreditar que, após o espetáculo de violência policial daquele dia 13, com cerca de cento e cinquenta feridos e mais de duzentos presos, a Polícia Militar finalmente revisaria seus métodos de ação em manifestações. Fomos ingênuos ao pensar que uma das heranças da ditadura incrustada na corporação seria finalmente eliminada.

Os protestos contra a tarifa terminaram vitoriosos: os governantes obrigaram-se a reduzir o valor bilhete de R$ 3,20 para o preço anterior: R$ 3. Hoje, porém, paga-se R$ 3,80 para tomar ônibus, trem ou metrô em São Paulo. A polícia aprendeu a respeitar a liberdade de expressão e manifestação da cidadania paulistana, mas resolveu aplicar esse aprendizado apenas parcialmente. Alguns movimentos podem ocupar a avenida que bem entenderem, no momento que quiserem, sem pedir autorização ao poder público. Outros, não. Brasileiros indignados, em verde-amarelo, podem montar barracas na rua para pedir impeachment. Estudantes secundaristas não podem colocar carteiras em cruzamentos para protestar contra o fechamento de noventa escolas.

Desde aquele junho, multiplicam-se os exemplos da politização explícita da Polícia Militar. Multiplicam-se também as vítimas. Em janeiro, durante nova mobilização do Passe Livre, um professor recebeu um tiro de bala de borracha na testa: por apenas dois centímetros, salvou-se da escuridão que se abateu sobre o olho esquerdo de Sérgio Silva. O fotógrafo, que, num esforço de superação, estava lá para cobrir o novo protesto, não hesita ao dizer: “A repressão de janeiro foi mais violenta que a que me cegou.”

Ao mergulhar em sua história, Memória Ocular também conta a história das novas vítimas do Estado. O lançamento do livro ocorreu na esquina da Rua da Consolação com a Rua Maria Antonia, encruzilhada em que o fotógrafo foi atingido. Três anos depois, rodeado de solidariedade, Sérgio recebeu duas visitas repletas de simbologia: a dos secundaristas, entre eles sua filha, vieram em marcha para fazer parte da celebração. E a de Douglas Santana, menino de doze anos que perdeu o olho em abril passado, também vítima de bala de borracha durante repressão da PM a um baile funk na rua. Douglas chegou acompanhado pela mãe, Vanessa, que não quer ver a história do filho entrando para o quilométrico o rol das injustiças esquecidas.

Passado e presente se juntaram em lágrimas e promessas de superação. O futuro, porém, não guarda tantas esperanças. Infelizmente, essa história ainda não tem ponto final. Oxalá eu pudesse responder à pergunta de Svetlana Aleksiévitch e afirmar que sou uma testemunha do passado – e só do passado. Mas, como, se o passado teima em se repetir, não pela memória, e sim pela violência? Como esquecer o que acontece todos os dias?

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (Editora Elefante, 2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (Editora Elefante, 2011)

Não esquecemos nem esqueceremos

Demorou, mas, três dias depois, nossa adrenalina finalmente baixou. Agora, com as sensações um pouco mais digeridas, conseguimos rabiscar algumas palavras de agradecimento.

Muito trabalho e muita solidariedade antecederam o grande momento da noite de segunda-feira, 13 de junho, quando Sérgio Silva pegou o microfone na esquina da Consolação com a Maria Antonia, no centro de São Paulo, e fez os olhos de todo mundo transbordar com suas palavras de paz, memória e resistência.

Pelo terceiro ano consecutivo, Sérgio lembrou a dor indizível que sentiu ao ter o globo ocular destruído por uma bala de borracha da Polícia Militar naquela mesma encruzilhada. Agradeceu o professor Severino Honorato, que o socorreu nos segundos em que tudo era desespero. E declarou seu amor à filha Elis, em quem tanto pensou para conseguir superar a tortuosa caminhada até o hospital.

Sérgio também recebeu nos braços a mais nova vítima das armas menos letais da PM paulista: Douglas Santana, doze anos, que perdeu a visão do olho esquerdo no último mês de abril. Passado e presente se reencontraram quando o olho de um mirou o olho de outro. E também quando um grupo de secundaristas chegou em passeata – e a polícia quase deu início a uma nova repressão.

Nas empenas dos prédios, projeções das imagens daquela jornada truculenta e mensagens que tão bem ecoavam as rimas declamadas no asfalto, logo abaixo. A camaradagem tomou conta da esquina e afastou as baixas temperaturas do dia mais frio do ano na cidade cinza. Construímos nossa zona utópica temporária. Vencemos mais uma batalha.

Mas nada teria acontecido, claro, sem o protagonista da noite, Sérgio Silva, seus amigos e familiares. Sem Douglas Santana e sua mãe, Vanessa, que vieram da zona sul pra mostrar que a bala de borracha, mesmo sem calar, continua cegando. Sem Thaís Nunes e Flávia Prado, que descobriram a história do menino ferido pela polícia e o trouxeram para o meio da roda.

Sem a ajuda do Coletivo Arrua, sobretudo do Ramon Szermeta, que emprestou e montou a aparelhagem de som. Sem o grande “Caio”, que cedeu sua janela para apoiarmos os projetores: um emprestado pelo Coletivo Vie La En Close e outro, pela Ligia Alonso e pelo Dan Aqua. Sem Edgar Bueno, da Bueno Filmes, e Karen Ka, que organizaram as projeções. Sem a técnica refinada do Edu Zal, que coloriu os prédios da região com suas programações animadas.

Sem Priscila Melo, que trouxe para a roda a poesia sertaneja do grande Lira. Sem o Slam Resistência, que fez as vezes de mestre de cerimônias e segurou o evento no gogó. Sem o spray de Sergio Rossi e seu estêncil. Sem a simpatia dos donos do bar da esquina. Sem @s repórteres, fotógraf@s e videastas que registraram o ato.

Sem a Meli-Melo Press, que imprimiu os belos exemplares do livro Memória Ocular, projeto gráfico assinado pela Denise Matsumoto. Sem Vitor Flynn, Breno Ferreira, Mateus Acioli, Carolina Ito e João Ricardo Moreira, que ilustraram as cem páginas da publicação. Sem João Peres, que revisou o texto. Enfim, sem cada uma das pessoas que ocuparam aquele pedaço de história…

No meio da miséria política, a Editora Elefante consegue esboçar sorrisos de esperança: em cinco anos, nunca havíamos conseguido juntar uma manada tão grande e empenhada. E é assim que queremos continuar avançando: devagar e coletivamente, estabelecendo laços e caminhando de mãos dadas.

Que mais dizer? Muito obrigad@!

13 de junho: 3 anos depois: Resistimos

Não é novidade pra ninguém que os sentidos e o legado das jornadas de junho estão em disputa – e que estamos perdendo feio. Os grandes protestos de rua, desde então, têm sido usados para impulsionar retrocessos. Todos sabemos, porém, que os dias iniciais de junho de 2013 estiveram povoados por pautas, movimentos e manifestantes totalmente identificados com a esquerda — e com a renovação da esquerda. Além disso, houve uma série de vítimas do Estado. Suas feridas não cicatrizaram.

Dia 13 de junho, agora, faz três anos. Há pouco o que comemorar, mas muito – muitíssimo – o que recordar. Em São Paulo, 13 de junho foi o dia da grande repressão policial que pegou todo mundo de surpresa; foi quando os grandes jornais pediram sangue; foi quando a “opinião pública” virou a favor dos protestos; foi quando a Rua Maria Antonia voltou a assistir abusos policiais de toda ordem… Entre mais de 200 presos e 150 feridos, um deles perdeu o olho esquerdo: a vítima mais grave das jornadas de junho na cidade. Não é apenas uma estatística. É uma história.

No próximo 13 de junho, uma segunda-feira, voltaremos à esquina da Rua Maria Antonia com a Rua da Consolação para um ato político-cultural de memória: não só do caso do fotógrafo Sérgio Silva, mutilado pela PM, mas de todos nós que lá estávamos. As vítimas são coletivas, mas também individuais. Todos sofremos com aquele episódio. Ainda dói. Porém dói ainda mais nos que tiveram a vida marcada de maneira indelével pelas balas de borracha e gases lacrimogêneos da polícia. Queremos todos e todas conosco.

Na ocasião, iremos lançar o livro Memória Ocular com três textos contando junho de 2013 — e a brutalidade que veio depois — sobre a ótica do fotógrafo Sérgio Silva. Cada um deles foi escrito em épocas distintas: 2014, 2015 e 2016, tentando, assim, demonstrar que a violência do Estado perdura — não apenas na pele e nos pensamentos das vítimas, mas também no recrudescimento da repressão aos movimentos sociais e autonomistas. E isso produz novas vítimas, num círculo de violência institucionalizada que não cessa.

Além do livro, que será vendido pelo peço de custo, haverá sarau, poesia, intervenções, projeções naquele prédio imenso que fica ali do lado, memória e microfone aberto pra quem quiser fazer uso da palavra. Vamos nos juntar e mostrar que estamos vivos: que não esquecemos, que não nos conformamos e que sentimos na alma tudo o que está acontecendo. Bora?

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