Cuba na encruzilhada

A revolução cubana completou 60 anos no dia 1º de janeiro de 2019. Se fosse um ser humano, teria ingressado na faixa etária dos idosos. Quem diria. Desde a queda do bloco soviético, analistas de todos os matizes preveem o colapso do regime cubano. Há trinta anos o governo da ilha administra uma situação de fragilidade econômica, sem deixar esmorecer um sistema de direitos sociais que, ao fim e ao cabo, lhe angariou a estabilidade política.

Em 1999, Cuba se desafogou da maior crise da sua história devido à ajuda da Venezuela de Hugo Chávez, que lhe forneceu petróleo barato em troca de serviços de saúde e educação. Os governos progressistas latino-americano cumpriram um papel importante na subsistência cubana durante o século XXI. Mas, e agora? Como a recente guinada à direita da América Latina afeta o futuro da revolução cubana?

São dois grandes desafios. Primeiro, Cuba terá que preparar-se para a eventual necessidade de reorganizar seus fluxos de comércio exterior, ocupados 40% por países americanos — sendo 18% com a Venezuela, 5% com Canadá, 4% com Brasil e 3% com Argentina (ONE, 2016). O colapso do chavismo pode deteriorar parte das receitas cubanas e comprometer algumas conquistas sociais. O cenário mais provável é que Cuba crie uma rota de compensação externa com a China, que já representa 20% das suas trocas internacionais, além da amizade antiga.

O segundo desafio é como amortecer o choque das turbulências externas com reformas internas, que demonstrem permeabilidade, escuta e agilidade das direções partidárias com as novas demandas sociais. Em 24 de fevereiro, a cidadania cubana irá às urnas aprovar sua nova Constituição, produzida pela Assembleia Nacional do Poder Popular. No novo texto, o caráter socialista do sistema é declarado irrevogável, ao mesmo tempo que se oficializa a propriedade privada de alguns meios de produção em setores minoritários.

O desafio interno é combinar a gratuidade dos direitos sociais, a proteção aos trabalhadores do setor público e privado e a democratização política da revolução, em um cenário repleto de restrições econômicas e tensionamentos ideológicos. Ultimamente, têm florescido na ilha novas pressões em defesa da maior diversidade dos meios de comunicação, especialmente entre setores favoráveis à revolução, mas críticos ao seu caráter centralista e monolítico. O oficialismo ainda desconfia da pluralidade e da polifonia das atuais redes de comunicação, mas aos poucos tateia caminhos para reconhecer novas subjetividades políticas.

O aniversário de 60 anos da revolução sinaliza que a capacidade de superar as crises cresce quanto mais seja bem cuidada sua representatividade social. A fortaleza externa é a fortaleza interna. É preciso que as direções políticas saibam repactuar permanentemente os valores da revolução com as novas gerações para, com elas, cruzar a tempestade.


Joana Salém Vasconcelosé autora do livro História agrária da revolução cubana (Alameda, 2016) e co-organizadora do livro Cuba no século XXI: dilemas da revolução (Elefante, 2017). Faz doutorado em História Econômica na USP.

Onda progressista, a mudança que não veio

Por Isabel Loureiro

 

Na América Latina, de tempos em tempos, somos invadidos pelo sentimento desesperador do eterno retorno do mesmo. A cada tentativa de integração civilizadora, nossas sociedades são tragadas pela voragem do atraso que as mantêm presas à desigualdade, à falta de liberdade e à injustiça. Por quê?

No intuito de responder a inquietações que retornaram com força depois do desmanche da “onda progressista”, Fabio Luis Barbosa dos Santos procura, a partir de rica pesquisa de campo e de entrevistas, além de amplo domínio da literatura especializada, sintetizar o que ocorreu nas últimas duas décadas.

Ao analisar as contradições e os dilemas dos governos progressistas, o autor mostra que, apesar das particularidades de cada país, há características comuns: os presidentes não romperam com o legado macroeconômico das ditaduras; com pequenos piparotes na desigualdade, fortaleceram o capitalismo, deixando de cumprir promessas de integração social substantiva; levados ao poder pela insatisfação do campo popular com as políticas de ajuste neoliberais, canalizaram a revolta para demandas institucionais de pequeno resultado; e, por fim, se aproveitaram da acumulação por espoliação, surfando no consenso das commodities sem atentar para a predação socioambiental daí decorrente.

Em suma, enfraqueceram o campo popular e incrementaram a inserção subordinada e passiva de seus países no mercado mundial, em nome de uma política de esquerda. É fácil entender que a volta da direita ao poder não é um raio em céu azul.

Fabio Luis conclui que a derrocada da onda progressista atesta mais uma vez que, dado o caráter antinacional, antipopular, antidemocrático e predatório das classes dominantes no continente, a única alternativa civilizatória para a América Latina é o socialismo. Não por acaso, o último país analisado neste livro é Cuba. Seus dilemas são os dilemas do socialismo hoje.

Ao mapear o debate público aberto em 2016 sobre os rumos da revolução, o autor mostra sem preconceitos nem idealizações os problemas enfrentados pela ilha, isolada no oceano do capitalismo global, assim como os limites da Revolução Cubana.

Das reflexões de Fabio resta uma advertência: a alternativa civilizatória para Nossa América, que vá além do canto de sereia do consumo, está num projeto socialista humanista fundado em valores como igualdade, liberdade e participação popular, combinando direitos universais com relações mercantis disciplinadas por um Estado soberano.

Mas é sabido que mesmo uma proposta reformista tão modesta continua tabu absoluto para os donos do poder. Só resta concluir com Fabio Luis que, diante da contrarrevolução permanente, reforma é revolução.

Um pouco do que acabamos de perder

Este é o texto mais triste que já enviamos a nossos leitores e leitoras. Na quarta-feira, 14 de novembro, Havana anunciou que, até o final do ano, retirará do Brasil os profissionais de saúde cubanos que trabalham no Programa Mais Médicos, lançado em 2013.

A decisão foi tomada após declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que decidiu impor condições à permanência dos médicos cubanos no país: revalidar seus diplomas, ter o direito de trazer as famílias e receber integralmente seus salários, ao invés de destiná-los majoritariamente ao governo da ilha.

As mudanças ferem o acordo assinado entre Brasil, Cuba e a Organização Pan-Americana de Saúde, que desde o início do Mais Médicos trouxe profissionais cubanos para atender as pessoas mais carentes do país, nos rincões mais desassistidos de nosso território, onde os médicos brasileiros não querem estar.

O anúncio de Havana culmina uma experiência humanista inédita por aqui, que, apesar de todos os seus aspectos positivos, enfrentou a resistência das elites políticas e econômicas brasileiras desde o começo. Basta lembrar da intensa campanha das entidades médicas contra o programa, e da vergonhosa recepção que os doutores cubanos receberam nos aeroportos.

As redes sociais fervilharam com mentiras de todo tipo: desde denúncias de que o PT estava trazendo guerrilheiros cubanos disfarçados de médicos para dar início a uma revolução comunista, até preocupações hipócritas sobre a exploração dos doutores pela horrenda ditadura castrista — “são escravos”, dizia-se, enquanto fechava-se os olhos para a escravidão que realmente acontece em oficinas de costura, canteiros de obras e fazendas do país.

Em meados de 2017, quando o Mais Médicos completava quatro anos, publicamos Branco vivo, de Antonio Lino, escritor que havia pegado a estrada para conferir os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados pelos profissionais contratados pelo programa. O livro é resultado de seu olhar aguçado para nove localidades desse gigantesco território, complementado pelas fotografias do renomado intérprete do Brasil, Araquém Alcântara.

Na época, consideramos Branco vivo “uma ode à humanidade em tempos sombrios”. Só não podíamos imaginar que as sombras assumiriam formas tão nefastas, a ponto de, agora, impedirem a presença dos profissionais que viabilizaram o programa no Brasil — já que, sem os cubanos, o Mais Médicos dificilmente teria decolado.

Diante da conjuntura, é com muito pesar que disponibilizamos o pdf de Branco vivo para que as crônicas de Antonio Lino — finalistas do Prêmio Jabuti 2018 — possam chegar a quem deseja conhecê-las, seja pelas telas de celulares, computadores ou tablets, ou por xerox e impressões.

Não, o livro não está esgotado. Continua à venda — e continua lindíssimo. Mas acreditamos que facilitar o acesso à obra, neste momento, é um imperativo ético e político contra o avanço do ódio, além de uma maneira de agradecer o trabalho de profissionais que deixam casa e família para colocar um estetoscópio no peito dos moradores dos maiores cafundós do mundo.

Um olhar ‘equilibrado’ sobre Cuba

Na segunda-feira, 16 de outubro, a Editora Elefante lança seu décimo-sexto título retornando ao tema da América Latina, que marcou o início de suas publicações. Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessoti, traz 22 artigos que procuram responder a perguntas-chave sobre a vida, a política, a economia e a sociedade cubanas, motivos de intensos debates quando se trata da ilha:

Por que a Revolução Cubana não caiu depois da ruína da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu? Como a juventude se relaciona com a revolução? Cuba é uma democracia? Há censura na ilha? Os cubanos têm acesso e podem navegar livremente pela internet? Há machismo, homofobia e racismo no úncio país socialista das Américas? O empreendedorismo está crescendo em Cuba? Para onde levará as tentativas de reaproximação com os Estados Unidos? Há desemprego na ilha?

Trata-se de um livro escrito por pesquisadores que simpatizam com as conquistas do movimento liderado por Fidel Castro em 1959, mas que nem por isso fecham os olhos para os problemas do processo. “Este é o melhor texto sobre Cuba ao alcance do leitor brasileiro na virada dos anos 2017-2018”, escreve Frei Betto, no prefácio, “leitura obrigatória para quem, frente a Cuba, reage com equilíbrio, sem o reacionarismo anticomunista dos que veneram o capitalismo nem o esquerdismo infantil e dogmático de quem considera a Revolução Cubana o paraíso na Terra.”

Cuba no século XXI: dilemas da revolução é resultado de uma parceria entre Editora Elefante e o projeto de extensão “Realidade Latino-Americana” da Universidade Federal de São Paulo, que reuniu 33 investigadores de várias universidades brasileiras (Unifesp, USP, Unicamp, Unirio, UFRR e Unila) e de diferentes áreas do conhecimento (Relações Internacionais, História, Economia) em estudos coletivos, leituras e palestras, ocorridas no Memorial da América Latina, em São Paulo, ao longo de 2016. A jornada culminou com uma viagem à ilha em dezembro de 2016, para pesquisas de campo e entrevistas com pesquisadores, movimentos, dirigentes políticos e instituições especializadas.

Os autores formam um grupo politicamente diverso, mas que encontra pontos em comum na defesa do pensamento crítico, no compromisso com a transformação social e na rejeição aos dogmatismos. A partir desta perspectiva, entregam ao leitor um material de formação política e histórica, visando estimular o debate e a reflexão fraterna, em sintonia com quem encontra na experiência cubana um ponto inescapável para o estudo da América Latina. Não pretendem apresentar a Revolução Cubana como “modelo” ou “contra-modelo”, mas sim analisar as lições que sua história pode nos oferecer para o presente e o futuro.

CUBA NO SÉCULO XXI
Organização: Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém & Fabiana Dessotti
Fotos: Matheus Paschoal & Ellen Elsie
Prefácio: Frei Betto
Capa: Ana Carolina Soman
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Editora Elefante
Páginas: 256
Publicação: Outubro de 2017
Dimensões: 13,7 x 21​ cm

LANÇAMENTO
Dia 16/10, às 19h
Debate com Frei Betto
Memorial da América Latina
Auditório da Biblioteca
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
Barra Funda
São Paulo-SP
Entrada franca