Pertencimento e história radical: uma mulher periférica encontra bell hooks
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Por Paulo Silva Junior
Elefante na Sala
bell hooks e o Brasil é mais uma temporada especial do Elefante na Sala, o podcast da Editora Elefante; aqui na nossa estante temos 14 livros da autora, publicados desde 2019 — e tem muito mais para chegar em breve (Questões de classe: o lugar que ocupamos está em pré-venda). Esse podcast então conversa com pesquisadoras e pesquisadores cujo trabalho é influenciado por hooks, em diversas áreas.
Neste quinto e último episódio falamos com Gi del Fuoco, que é educadora, historiadora e comunicadora, tocando o perfil Historiadora Radical. Ela também media o curso Sexo-Gênero na Estrutura, onde trata da construção histórica da mulher, da divisão sexual do trabalho, da colonialidade, da linguagem, entre outros temas.
Começamos ouvindo a Gi sobre o impacto inicial de bell hooks em seu trabalho.
Em relação a bell hooks, assim como outras autoras, quando eu comecei a me comunicar, principalmente no meio digital, com o blog coletivo, eu sentia muita falta de escrita íntima, de se colocar ali na escrita. E foi lendo bell hooks, como outras mulheres da mesma escola, tipo Alice Walker, que eu percebi que se colocar na escrita, se colocar na comunicação, era uma forma de fazer esse íntimo se tornar político.
Eu tinha muito medo de entrar naquele lugar da subjetividade, tipo, “nossa, seus textos, a sua aparição na internet, a forma que você se comunica”. É muito subjetivo. Só que lendo bell hooks, principalmente quando ela fala da forma de você entender que a sua escrita, que você se colocar, que você narrar a sua própria história, é um posicionamento político. Eu fui me sentindo mais segura.
E como é que o território entra nessa história? Como é que alguém que está estudando gênero acaba tão tocada por essa ideia?
Acho que é muito difícil ser mulher, e ser mulher periférica, que é o meu caso, e não falar de território. Quando eu comecei a escrever sobre gênero, eu tentei fazer o que muitas mulheres fazem, que é recortar o gênero do território, da história, da geografia, e falar só de mulheres. Só que parecia que eu estava me traindo. Como eu era muito leitora de mulheres negras — e eu queria ter lido muito mais mulheres indígenas, por exemplo, inclusive a Bell Hooks também tem uma descendência ali —, eu não sentia que existia uma lealdade ao que eu queria passar.
E aí eu falei, bom, preciso ir mais fundo nisso, preciso falar mais disso, preciso mostrar que gênero é a forma que ele é construído, não é uma coisa universal, não uma coisa deslocada do território. E foi quando eu comecei a escrever sobre ser mulher periférica na Historiadora Radical. E aí, quando comecei a me colocar como mulher periférica, senti que a minha escrita foi contemplada. A forma em que eu me comunico foi contemplada.
Até cheguei a comentar várias vezes na Historiadora uma passagem do livro da bell hooks, Pertencimento. Esse livro caiu como uma luva para mim, para o meu trabalho, me acolheu muito: quando ela fala que o território mexe muito com a nossa sensibilidade. Foi quando eu percebi que, embora tivessem outras mulheres incríveis falando de gênero e sobre o que é ser mulher, falar de ser mulher dentro do território, por exemplo, da periferia, mexe muito com a forma que a gente entende esse gênero.
Uma menina que cresce na periferia não vai ter o mesmo comportamento de uma menina que cresceu no centro. O acesso à nossa estratégia de sobrevivência, à forma que a gente vai se colocar no mundo. E, trazendo bell hooks, a forma que a gente se sensibiliza com as coisas é diferente. Muitas mulheres, quando vão estudar gênero, não falam, por exemplo, das suas próprias experiências sobre violência policial. E é uma coisa que muitas mulheres da periferia sofrem e ouvem as pessoas ao seu redor sofrendo. O seu filho acabou sendo violentado, ou seu pai pode ser um presidiário por várias razões, a sua mãe pode ter sido violentada pela polícia, enfim. E isso vai mexendo muito com a nossa sensibilidade.
Durante muito tempo, achei que era meio que errado falar disso porque parecia que eu estava sendo menos feminista. Por quê? Porque vou falar de homens desse lugar, de que eles também sofrem algum tipo de violência, racismo, enfim. E quando li bell hooks, vi a forma com que o gênero vai se modificando na reprodução social, na sociedade, com que tudo isso vai formando a nossa identidade enquanto mulher periférica, enquanto mulher pobre. Entendi que o território vai mudando as percepções do que a gente vai colocando ali na luta do que é ser mulher.
E teve uma passagem em que ela falava de um caso de violência, acho que foi com um amigo dela, não lembro exatamente… Mas sofreu algum tipo de violência, e ela dedicou uma página inteira para ele. E eu tinha muito receio de falar que, quando eu tinha uns 16 anos, eu perdi um amigo para a violência policial, praticamente na minha frente. E aquilo mudou muito a forma que eu me entendia como mulher, de como eu tinha que reagir diante da sociedade. Quando eu li essa passagem, faz um tempinho já, eu falei: poxa, eu preciso falar mais vezes disso, de que isso muda a nossa sensibilidade, de que existem mulheres que têm outros sentidos em relação a isso.
Então acho que é isso, né? A gente quando fala de gênero é desse comportamento, do que é ser mulher de uma forma diferenciada, dependendo do território que ela está. Mulheres periféricas vão ter outras agendas, diferente de mulheres que não vivem na periferia. Outro tipo de escrita, outros tipos de raiva, outros tipos de emoções, de sentimentos, né? Nisso eu acho que a bell hooks foi uma boa professora, para mim e para outras mulheres.
Agora, ao mesmo tempo que bell hooks puxa toda uma conversa que estrutura então um pensamento sobre gênero, raça e território, ela demonstra muita abertura, até um otimismo, na possibilidade de mudança dos homens — inclusive sabendo que isso vai contra o que algumas mulheres pensam dentro do movimento feminista. Como isso se dá nesse ambiente de pensamento e de atuação da nossa entrevistada?
Muitas mulheres até hoje, quando vão ler bell hooks — e ela sempre trouxe a questão do homem junto, acho que nunca foi descolado do trabalho dela —, ficam contrárias ao pensamento dela em relação ao homem.
Mas a forma que eu enxergo, principalmente olhando todo o trabalho, é que ela entende a ação conjunta. Um feminismo, ainda mais partindo do lugar que ela parte, em que você não vai ter muita distinção de espaços, “ah, isso é espaço de mulher, isso é coisa de mulher, isso é coisa de homem”. Isso vai sendo muito mais estruturado pelo capitalismo, por exemplo, nas grandes cidades. Mas ela veio do interior que, embora tenha muito conservadorismo, ela veio de uma família que foi escravizada, e que o trabalho manual, por exemplo, não teve essa divisão, ambos foram ali colocados na colheita de algodão, homem e mulher.
Acho que quando ela traz o homem para perto da escrita dela, do trabalho dela, e ela passa isso para frente. Traz justamente a proposta de que entender a questão das mulheres na História, principalmente quando é para os homens, é saber que não vem de um lugar de conciliação. Porque embora ela fale muito da conciliação, ela usa essa palavra, por exemplo, Tudo sobre o amor, acho que vem do lugar de que a gente precisa entender que a gente tem que largar a mão do poder. Acho que ela tem essa proposta. As mulheres não devem buscar essa questão do poder, porque isso pode dar ruim. Essa questão de dominar já deu ruim na história. E os homens também são ensinados a dominar, a explorar, a deter, a viver ali nesse lugar de sempre querer mais. Eles têm que largar a mão disso.
Então acho que quando ela propõe isso para a gente não é exatamente falando, “olha, mulheres, vamos lá passar a mão na cabeça dos homens”. Porque a gente vê várias mulheres falando isso. Eu não acho que é isso, acho que é muito mais de uma construção coletiva, porque quando a gente vai fazer trabalho de base e a gente chega em alguns lugares como uma escola pública, não tem como eu chegar lá e falar, “olha, as mulheres vêm aqui comigo, e os homens vão para lá, os meninos vão para lá”. Eu acho que é muito mais nessa forma conjunta, de chegar numa espécie de diálogo com esses meninos, com esses homens, e falar “olha, gente, tudo isso que vocês estão sendo socializados (porque os homens são socializados também), tudo isso que vocês estão vivenciando, tudo isso que estão ensinando para vocês, corresponde a uma lógica de poder, de dominação. E por isso que vocês devem largar a mão disso, e as mulheres também”. Juntos, homens e mulheres, em prol de uma liberdade muito maior. A gente consegue conversar e fazer com que os homens possam vir construir um mundo onde as mulheres não precisem, não possam, não devam mais ser dominadas. E aí acho que é isso que entra em conflito com as feministas.
Isso me lembrou um caso que eu entrei em um debate muito grande com uma mulher, dentro de uma escola também, aqui de São Paulo. Ela falou que a bell hooks trabalhava muito com o duplo pensar, que uma hora ela falava que era a favor das mulheres, e outra hora falava que era muito a favor dos homens. E aquilo me irritou muito, muito, porque quando a gente faz trabalho de base, quando a gente está em territórios que são 100% dominados, a gente não faz distinção de quem vai estar com a gente na luta ou não, a gente só precisa de que estejam na luta. Embora eu me considere extremamente feminista em alguns pontos, mas uma feminista periférica, eu nunca consegui desconsiderar a atuação dos homens no trabalho de base.
Porque assim como as mulheres são socializadas, os homens também são. Só que a responsabilidade deles é muito maior em cima disso, porque são eles que estão dominando, e as mulheres sem dominar. Eu acho que esse projeto de educação que a bell hooks propõe é simplesmente dizer: ninguém precisa mais ficar nessa disputa por poder, vamos juntos, aqui, homens, mulheres e crianças, de alguma forma, sentar, conversar, entender o que cada um pode fazer para colaborar dentro desse pertencimento, dentro dessa coletividade. Eu enxergo dessa forma. Ainda é um debate que tem muita discordância, mas eu acho que ela está certa nesse ponto.
A gente não vai conseguir alavancar muito as coisas se a gente se fechar. É claro que mulheres têm lugares que são exclusivos delas, grupos de estudo, grupos de leitura, uma sala que elas alugam, e isso é muito importante, para que a gente possa ter nossas estratégias para a sobrevivência, porque o patriarcado é um sistema gigante. Mas, às vezes, a gente precisa sair desse lugar e ver o mundo real com as coisas, e se unir aos homens para desmantelar um sistema que é milenar. Eu acho que é isso que a bell hooks está propondo.
Vamos fechar retomando a ideia de comunidade: como isso se relaciona com a pesquisa da Gi, e como isso provoca e nos convida a pensar nesses termos, principalmente diante desse ponto de partida que é ser uma pensadora, uma historiadora, uma intelectual, a partir da periferia de São Paulo.
Essa parte de pertencimento é o que mais me toca na bell hooks. Essa questão de território, de pertencimento, porque eu sempre tentei muito me encaixar em lugares. Eu sempre vivi muito afastada, sou do Capão Redondo, e quando fui crescendo, eu não tinha noção de que eu era tão afastada do meio intelectual, do meio acadêmico. Embora hoje seja superdescolado escutar Racionais, seja superdescolado ler Racionais, ou Facção Central… Nos anos 1990, não era. Eu tinha medo, vergonha, de falar que eu morava no Capão Redondo, falava que eu morava no Santo Amaro.
E aí, quando eu fui entrando nos espaços intelectuais, fui vendo que muitas pessoas achavam um modo de comunidade periférico, de pertencimento, de comunhão, muito interessante… E eu falei: tem alguma coisa estranha que eu não consegui identificar. Então fiz História na academia, fiz ali uma pós, fui para a área da comunicação, estudei e comecei a entender que muito do que eu entendi sobre comunidade, muito do que eu entendi sobre comunhão, veio muito antes dos livros, pela vivência periférica. De você precisar que uma vizinha cuide da sua prima porque a mãe dela, ou sua mãe, teve que trabalhar.
Eu entendi que muito da minha vivência veio disso, desse cuidado comunitário, mas quem me ajudou a organizar isso e dar nome, e também desnomear as coisas, foi a bell hooks, quando ela fala dessa questão de território. O livro que vocês publicaram, Pertencimento, para mim, na minha vida, nessa trajetória, esse é um dos livros mais importantes, porque ali ela vai dizer que as respostas que a gente busca (e parece um clichê) estão no território que a gente veio.
Quando eu penso na questão de comunidade, e sendo uma mulher que veio desse lugar mais de aldeamento — minha família não é de São Paulo, meus pais vieram para o Capão para poder trabalhar, e aí foi tudo muito complicado, voltar e vir, voltar e vir —, era nessa busca de pertencimento. Por mais que a gente não seja o Estado, por mais que a gente não seja uma ONG, e esteja muito longe disso, eu acredito nisso que a bell hooks traz. De você ter esse pertencimento e fazerd esse território, da comunidade que você está construindo, um lugar seguro e um lugar de criação.
Eu acho que isso foi fundamental para a Historiadora estar aí até hoje. Porque é muito difícil trabalhar nisso, é um projeto 100% autônomo, mas eu consegui entrar em vários lugares do Capão que eu nunca imaginei que eu conseguiria entrar. E também poder falar para as mulheres o que é uma vivência periférica, o que é uma vivência de mulher pobre. Por mais que a maioria das mulheres do Capão estejam longe de uma bell hooks, quando a gente traz bell hooks, elas falam: “cara, então é isso, isso que está sendo organizado, é isso que as mulheres do feminismo negro estão dizendo!”.
Acho que precisa ser muito respeitado o território de onde as mulheres vêm. Por exemplo, pensando nas pessoas indígenas, o território representa muito do que eles são, a gente sabe disso, a gente vê tudo que está acontecendo no Brasil em relação às pessoas indígenas e não tem essa separação. Então para as pessoas periféricas também não vai ter essa separação. Por mais que você entre na academia, por mais que você circule em outros espaços que disseram que não são para você, não vai ter a separação, porque tudo que você aprendeu sobre pertencimento, sobre afeto (e também desafeto, de uma forma geral, porque é um lugar muito duro de viver na maioria das vezes), veio dali também.
Então eu aprendi, por exemplo, que muitas das raivas que eu sentia sobre não estar pertencendo não tinham muito a ver com aquele lugar, por exemplo. Tinha muita raiva da academia quando eu estava estudando na USP, mas por quê? Porque demorava muito para chegar do Capão Redondo até a USP, não tem ônibus direto para lá, e eu sentia muita raiva. Por quê? Porque eu estava cansada, era basicamente isso. E aí eu fui entendendo. A bell hooks e outras mulheres foram me situando do que é isso, do que é esse pertencimento. Então quando falo para as pessoas leram bell hooks, eu sempre vou indicar esse livro, Pertencimento, porque a partir daí elas conseguem entender como muitas mulheres montaram o seu modo de viver, montaram a sua sensibilidade.












