Agricultura sustentável não é suficiente para resolver problemas da Amazônia

Por Clara Balbi
Publicado na Quatro Cinco Um
Cobertura d’A Feira do Livro 2026, em mesa com a presença de Ricardo Abramovay

Resolver os problemas da Amazônia é um desafio complexo — e mesmo práticas de agricultura sustentável, como a bioeconomia e a agroecologia, não são suficientes para solucioná-los. A visão é compartilhada pelo economista Ricardo Abramovay e pelo ambientalista Luiz Villares, que participaram de uma mesa no Auditório do Museu do Futebol, mediada pela jornalista Alexandra Ozorio de Almeida na sexta-feira (5/jun), n’A Feira do Livro.

Os autores dos livros Infraestrutura para o desenvolvimento sustentável da Amazônia (Elefante, 2022) e Ecos do Antropoceno (Casa Matinas,2026), respectivamente, descreveram as muitas ameaças que pairam hoje sobre o bioma, sendo a economia e a política as mais importantes. A economia porque, segundo Abramovay, as maiores beneficiárias da destruição da floresta são as grandes corporações.

“Desmatar é um negócio muito caro”, disse o economista, explicando que a remoção da cobertura florestal exige máquinas especializadas, em geral obtidas por meios ilícitos, e manter essas áreas em geral significa estabelecer uma pecuária de baixo rendimento. Nesse sentido, a medida mais efetiva para combater o desmatamento seria impedir que os frigoríficos comprassem gado das áreas ocupadas.

O economista acrescentou que a classe política de estados como Acre, Amazonas e Rondônia também é especialmente problemática, uma vez que costuma associar o desmatamento ao crescimento econômico, mesmo que os dados apontem o contrário.

“A política é o que define o presente e o futuro, e a política da Amazônia é bastante retrógrada”, acrescentou Villares, segundo o qual o bolsonarismo só fez reforçar esse atraso nos últimos anos. “Precisamos ocupar mais a política. E isso não significa que precisamos nos tornar políticos, mas entender a força dela. Ela move o mundo.”

Bioeconomia e agroecologia

Os autores não se mostraram completamente desesperançosos no que se refere ao futuro da Amazônia. Eles argumentaram, porém, que algumas soluções que vêm sendo apontadas com entusiasmo não dão conta da dimensão das questões que o bioma enfrenta.

Grande defensor da bioeconomia, que busca substituir os recursos fósseis por renováveis, Abramovay afirmou que o modelo até tem potencial para aplicação regional, mas não resolveria os desafios sociais que afligem a população, como a violência e a pobreza.

O mesmo ocorreria com a agroecologia, tipo de agricultura sustentável que busca produzir alimentos sem agrotóxicos, respeitando o meio ambiente. “Imaginar que a nossa agricultura vai transitar para algo semelhante ao que fazem os ribeirinhos, os indígenas, os quilombolas é um equívoco. O que pode beneficiar o Brasil é baseado numa genética de altíssimo nível”, disse.

Por outro lado, tanto o economista quanto Villares disseram acreditar no potencial da criação de mecanismos que remunerem os habitantes para que eles permaneçam em seus territórios, garantindo a preservação. “É necessário ter um modelo de renda garantida, de pagamento de serviço ambiental. É assim que reconhecemos o valor da natureza em pé”, afirmou Villares.

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Foto: Nilton Fukuda/Terebi/A Feira do Livro

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