bell hooks quer saber por que falar de dinheiro é um tabu

Questões de classe: o lugar que ocupamos é o novo livro de bell hooks aqui no catálogo da Elefante, a 15ª publicação da autora em nossa estante. O trecho abaixo é o início do capítulo 6, chamado ‘Ter dinheiro’:

Falar abertamente sobre dinheiro permanece um tabu na sociedade bem-educada. Eu nunca conheci pessoas ricas que se referem a si mesmas como “ricas”. Com frequência, é através dos objetos materiais que pessoas abastadas exibem sua riqueza e o status que ela lhes confere — o bairro onde moram, a loja onde compram e o que possuem. Embora não falem sobre dinheiro, muitos indivíduos ricos pensam na própria fortun ao tempo todo. Por possuírem riquezas em uma cultura da ganância em que milhões não conseguem atender as necessidades básicas da vida, trabalham para manter o que têm e usam isso para ter mais. Proteger seus interesses de classe lhes toma tempo. Muita gente rica vive com medo de que pessoas de seu entorno queiram tirar seu dinheiro. Por isso, pensar sobre dinheiro acaba dominando suas relações interpessoais.

Grande parte das pessoas pobres e de classe trabalhadora não trabalha diretamente servindo gente rica nem conhece ninguém desse meio. Apesar de muita gente insistir que não há divisão de classes nos Estados Unidos, todo mundo sabe que as pessoas ricas vivem isoladas do restante de nós e que vivem de forma diferente. Por ter crescido nos anos 1950, eu estava rodeada por pessoas que queriam ter mais dinheiro para comprar o que desejavam. Eu era muito movida pelos anseios de mulheres adultas que se dedicavam a manter a casa, trabalhando fora e educando as crianças enquanto se preocupavam com as necessidades e os caprichos de homens dominantes. Seu desejo por uma casa boa e por eletrodomésticos que funcionassem fazia sentido para mim. Enquanto conversavam sobre isso, elas não ficavam sentadas esperando ser ricas.

Em nossas comunidades, aprendíamos com o pensamento religioso a acreditar que a riqueza era perigosa. Aprendíamos com a Bíblia que era difícil para as pessoas ricas entrarem no paraíso porque o fato de serem ricas as tornava mais suscetíveis à ganância, à acumulação. Nas vizinhanças pobres e de classe trabalhadora da minha infância, quase todo mundo acreditava que não dava para ter riqueza sem explorar ninguém. Embora fosse aceitável desejar ter mais dinheiro para viver bem, o desejo por riqueza era considerado perda de tempo e energia. Naquele mundo, nós não nos identificávamos com as pessoas ricas nem compartilhávamos de seus valores. Em um nível mais básico, simplesmente pressupúnhamos que a classe alta era inimiga da classe trabalhadora.

Mais do que qualquer outra mídia, a televisão alterou fundamentalmente as atitudes das pessoas pobres e da classe trabalhadora — e até mesmo daquelas mais privilegiadas — para com as pessoas ricas. Sobretudo por meio do marketing e da publicidade, a TV promoveu o mito da sociedade sem classes, oferecendo, por um lado, imagens de um sonho americano realizado, em que toda e qualquer pessoa poderia enriquecer, e, por outro, sugerindo que a experiência dessa falta de hierarquia de classes estava explicitada pelo nosso direito igualitário de adquirir qualquer coisa pela qual pudéssemos pagar. Gente rica passou a ser representada como heroica. Ao advogar pelo consumo hedonista e encorajar indivíduos de todas as classes a acreditarem que possuir determinado objeto mediaria as realidades de classe, a mídia de massa criou uma nova imagem da riqueza.

Na televisão e nas revistas, pessoas ricas eram e são representadas de forma fictícia como cuidadosas e generosas paracom as classes mais baixas, dispostas a cruzar as barreiras de classe e socializar com diversos grupos. Ao contrário da classe pobre “não merecedora” ou da classe média “desinformada”, essas imagens dizem que pessoas ricas não desejam estar apenas com quem é como elas, que elas são abertas, gentis e vulneráveis. E, mais importante, que elas “sofrem” tanto quanto qualquer outra pessoa. As novelas da tarde e as da noite exibem a vida das pessoas ricas como uma triste crise atrás da outra. Nas telas da TV, a vasta maioria das pessoas ricas trabalha por longas horas. Embora tenham empregadas domésticas, trabalham tanto quanto elas.

Essas imagens serviram e servem para camuflar a realidade de que a principal preocupação de quem tem muito dinheiro é promover seus interesses de classe, ainda que isso exija explorar outras pessoas. Nas telas, as pessoas ricas estão ocupadas demais lidando com a própria dor para causar dor às demais. De fato, a televisão geralmente constrói uma falsa imagem de uma sociedade sem classes, já que a vasta maioria das imagens exibidas sugere que quase todo mundo tem dinheiro e, se ainda não é rico, está no caminho para chegar lá. A mídia de massa nos diz que pessoas ricas são como todo mundo, tanto é que vivem para consumir. Portanto, os males da diferença de classes transcendem o consumismo. Em Global Obscenities, Zillah Eisenstein explica como isso funciona:

A cultura do consumidor e o consumismo são tecidos através de uma noção de individualismo que seduz todo mundo, tanto quem tem dinheiro quanto quem não tem. O consumismo é igualado à liberdade individual. As representações da mídia transnacional constroem a cultura consumista como democrática — aberta, livre, em que tudo é possível. A face oculta disso — pobreza, fome e desemprego — permanece desinteressante para a mídia tradicional.

A mídia de massa nunca celebra a vida de quem vive de modo simples; nunca reconhece de maneira festiva as pessoas pobres e desprivilegiadas que levam vidas felizes e significativas.

(…)

Também pode te interessar