Negar a fome em Gaza não é menos grave do que negar o Holocausto

O massacre de Gaza, de Gideon Levy, é o mais recente lançamento de nossa Intifada Editorial, uma coleção de informação e denúncia sobre a violência e a colonização na Palestina. O livro apresenta uma coleção de artigos que o jornalista escreveu ao longo de mais de uma década na imprensa de Israel. Segue o texto de um ano atrás, julho de 2025.

Negar a fome em Gaza não é menos grave do que negar o Holocausto

27 JUL. 2025

Há poucos fenômenos tão mesquinhos quanto a negação do Holocausto judeu. Negacionistas dizem que o Holocausto nunca aconteceu e que, se aconteceu, o número de vítimas foi muito menor, ou que as execuções não ocorreram em câmaras de gás. Alegam que dados respaldam essas conclusões, e que Holocausto teria sido uma conspiração para extorquir do mundo piedade e compensações em benefício dos judeus.

A negação do Holocausto tem sido criminalizada em muitos países. Os negacionistas foram considerados antissemitas. O historiador britânico David Irving, por exemplo, foi preso na Áustria e depois ostracizado. Levantar dúvidas sobre o 7 de outubro de 2023 é um gesto condenado em Israel. Qualquer um que se atreva a fazê-lo é rotulado de antissemita. Quando Roger Waters alegou que não havia evidência de estupro [cometido por palestinos contra mulheres israelenses] e que a história de bebês judeus queimados em fornos era uma mentira de Israel, ele foi intensamente atacado, assim como muitos outros que pontuaram os exageros da narrativa israelense sobre o ocorrido.

Nas últimas semanas, uma nova e desprezível onda de negacionismo se espalhou por todos os cantos do país. Esse negacionismo, hegemônico entre a maioria da população israelense, é compartilhado em praticamente todos os meios de comunicação. Nós temos tentado ignorar, ocultar e desviar o olhar, culpar o Hamas, dizer que guerras são assim mesmo, reivindicar que não há inocentes em Gaza. Mas os inúmeros crimes cometidos por Israel na Faixa de Gaza estão inundando o país.

Depois que Israel impôs a morte deliberada de palestinos em Gaza pela fome, não restou alternativa para os israelenses a não ser optar pelo negacionismo — que não é menos repugnante que o negacionismo do Holocausto. O atual negacionismo da fome inclui o negacionismo da tentativa de genocídio e limpeza étnica em Gaza. Tais negacionismos são todos legitimados em Israel. Estão dentro do que é considerado politicamente correto no país. Não há fome em Gaza! Portanto, ninguém será responsabilizado ou punido por causá-la. Dizer que Israel está provocando deliberadamente a fome em Gaza é um ato de conspiração antissemita. Se há fome na Faixa, fale com o Hamas.

É isso que acontece quando se esgotam as desculpas, as invencionices e a propaganda; quando você se torna tão moralmente deformado a ponto de dizer que não há fome em Gaza mesmo quando as cenas da fome em Gaza estão diante dos seus olhos. Que direito têm os israelenses de dizer uma coisa dessas? Existem cinquenta tons de negacionismo em Israel e todos são igualmente desprezíveis. As reações vão desde desviar os olhos até revirá-los, passando por distorcer a realidade, esconder informações e mentir para si mesmo. Todos esses gestos têm o mesmo objetivo: evitar a culpa e continuar posando de vítimas, enquanto somos condescendentes uns com os outros.

O negacionismo provém de todas as classes sociais israelenses. Isso inclui os pesquisadores que escreveram um ensaio intitulado “So-called genocide in the Swords of Iron war” [Suposto genocídio na Operação Espadas de Ferro], rebatido pelo historiador do Holocausto Daniel Blatman e pelo jornalista do Haaretz Nir Hasson. Inclui também a mulher que distribui o jornal gratuito Israel Hayom nas ruas de Tel Avive que outro dia me disse com certeza absoluta que as fotos de palestinos famintos em Gaza eram produzidas com inteligência artificial no Iêmen. Também engrossam a fila dos negacionistas a hipócrita apresentadora Moriah Asraf, do Canal 13, que silenciou com repugnante arrogância a jornalista independente Emmanuelle Elbaz-Phelps [quando ela insistiu em falar sobre o sofrimento que Israel está provocando em Gaza], e todos os editores de telejornais que acobertam o que acontece na Faixa.

O negacionismo é uma velha tradição em Israel. Nasceu entre nós na primeira Nakba, em 1948 — que nunca aconteceu e que existe apenas na imaginação de quem odeia os judeus —, e vicejou ao longo de todos esses anos de ocupação e apartheid. Não há outra sociedade no planeta que viva em tamanha negação, e a nossa imprensa livre tem uma grande responsabilidade nisso. Contudo, o que tem acontecido nas últimas semanas está quebrando todos os recordes de baixeza.

Não há fome em Gaza. Afinal, há caminhões esperando na fronteira, os pais das crianças em pele e osso estão obesos, há vídeos de terroristas do Hamas comendo bananas nos túneis (uma foto tirada seis meses atrás, mas agora espalhada pelo chefe disseminador das mentiras propagandísticas em Israel, o porta-voz das IDF). Mais desprezível do que elaborar estratégias narrativas para evadir-se da responsabilidade é o desdém pela vítima, pela criança agonizando nos braços da mãe, que a carrega, chorando. Dizer a essa mãe que não há fome em Gaza é ridicularizá-la em sua dor.

Durante anos suspeitei que os israelenses se recusariam a enxergar a verdade mesmo que lhes fossem apresentadas todas as mais horrendas evidências. A prova está aqui. Imagens da fome palestina em Gaza estão inundando as telas da TV e os jornais no mundo inteiro, e os israelenses continuam a negá-las. Sequer ruborizam ao gritar que as imagens são falsas, que não há palestinos morrendo de fome, que há bananas, que oitenta caminhões com alimentos entram diariamente em Gaza.

É exatamente o que fez o professor francês Robert Faurisson: baseado no que considerou a impossibilidade técnica da existência das câmaras de gás junto aos crematórios na Alemanha, ele concluiu que o Holocausto nunca aconteceu.

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Foto: Gaza em 2025 / Crédito: ONU

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