Por Giovana Madalosso
Publicado na Folha de S.Paulo

 

Tenho fascínio por livros que mudam para sempre a minha maneira de ver as coisas. O desafio poliamoroso, de Brigitte Vasallo, é um desses. Nunca tinha percebido que a monogamia, longe de ser uma condição natural, é mais uma entre tantas construções culturais, bem urdida e arraigada a ponto de eu ter vivido 47 anos sem questionar a sua prevalência.

Olhe ao redor e veja para quantos o mundo é feito. A cama de casal. Os bancos do motorista e do passageiro. A conta conjunta. Os filmes com histórias de Romeus e Julietas. Quando esse modelo é expandido, é para a família dessa mesma dupla. Nunca para um, três ou quantos o sentimento colocar na mesa.

Nada contra a vida a dois, eu mesma sou praticante, mas contra a crença de que só podemos nos realizar com uma cara-metade. A propósito, que termo mais infeliz, decepando-nos sem constrangimento ao meio. Somos inteiros, mas também frágeis, e é justamente essa fragilidade que nos deixa tão vulneráveis ao canto do amor monogâmico. Como diz Vasallo, “a fidelidade é imprescindível para uma sociedade que acredita ser composta de indivíduos sozinhos e, obviamente, aterrorizados diante dessa solidão”.

Não me leve a mal, um dia também quero jogar conversa fora com alguém que conheça o mapa das minhas rugas, mas como foi bom entender que isso não precisa vir de um só parceiro. Ou de um na gaiola.

Às vezes me pergunto: se lá nos idos do meu colágeno abundante eu não tivesse sido doutrinada pela Turma da Cinderela & do Cavalo Branco, será que eu teria me tornado hetero e monogâmica? Talvez, mas como teria sido tesudo fazer com consciência essas escolhas.

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