Progressismo latino-americano desarticulou a esquerda sem enfraquecer a direita

Por Gabriel Britto
Correio da Cidadania

 

A vitória de Jair Bolsonaro representa a afirmação do avanço conservador que, para muitos, colocou uma pá de cal na chamada “onda progressista sul-americana”. No entanto, tal ponto de vista parece não só limitado, mas condescendente. “Dizer que o PT não mudou o país por causa do ‘presidencialismo de coalizão’ é camuflar a densidade dos laços conservadores que sustentaram seus governos”, diz o historiador Fabio Luis Barbosa dos Santos, que acaba de lançar Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016) pela Editora Elefante.

Em linhas gerais, Fabio Luis afirma que os governos “progressistas” só mantiveram suas políticas de contentamento social enquanto puderam formar maiorias parlamentares, pois jamais cortaram privilégios e concessões às elites políticas e econômicas. “Os governos progressistas acreditaram que era possível resolver ou amenizar os problemas de seus países sem atacar suas causas estruturais. A estratégia foi conciliar os interesses dos de cima, que ganharam, como sempre, com pequenas concessões para os de baixo, o que resultou em relativa pacificação social”.

Fabio Luis reconhece o momento de fechamento democrático que se vive atualmente na América do Sul — praticamente uma condição sine qua non do modelo de capitalismo da região —, mas lembra que em diversos países oposições à esquerda ressurgem com força. No entanto, a complexidade do momento histórico não é de simples resposta, como mostra o caso mexicano, onde, em sua visão, a vitória de Andrés Manuel López Obrador não poderá resolver os grandes problemas sociais vividos pelo país — sobretudo no que se refere à violência produzida pela guerra às drogas.

Restará o acirramento das lutas de classes e de setores distintos da sociedade, nas quais o Brasil será um cenário “privilegiado”. “Há uma distância entre o que o governo de Jair Bolsonaro quer e o que conseguirá fazer. O fator mais importante não será o temperamento do presidente, sua base infiel, nem fictícios liberais democráticos, mas a reação popular. A pretensão de enfrentar os problemas do neoliberalismo com mais neoliberalismo certamente os agravará, assim como combater a violência com mais violência a piorará”.

Os dilemas históricos que em algum momento pareciam em vias de superação voltaram com força avassaladora. As incógnitas com que brindaremos o fim deste 2018 não serão menos presentes no ano que entra; estarão por tempo difícil de determinar. Tendo o Brasil como referência, Fabio Luis vaticina: “Será necessário superar o lulismo, que não é um antídoto ao fascismo, mas um entorpecente que dificulta a compreensão do que se passa”.

 

Seu novo livro, Uma história da onda progressista sul-americana, parece uma continuidade de Além do PT: a crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana. É isso mesmo, qual seria o avanço que se faz entre uma e outra obra?

Além do PT nasceu de uma urgência política: entender o impeachment de Dilma. Isso porque a narrativa petista, dizendo que o golpe veio porque o projeto “da direita” perdeu nas urnas, tem como horizonte a restituição da ordem petista. Quis contribuir para dissipar a fumaça da ideologia, analisando os governos petistas para entender o impeachment. Em suma, é um ensaio de intervenção política, cujo objetivo é libertar a esquerda da lâmpada mágica do lulismo.

Uma história da onda progressista sul-americana é fiel ao título: uma reconstituição da história de cada país sul-americano com ênfase no período recente. É fruto de seis anos de trabalho, envolvendo dez viagens e centenas de entrevistas. É resultado, portanto, de uma densa pesquisa. Minha intenção é oferecer uma obra de referência para quem quer entender a história da região e de cada país sul-americano — inclusive Colômbia, Peru e Chile — em uma perspectiva de esquerda. Por isso inclui um capítulo sobre Cuba. É um livro para o militante e para o acadêmico.

 

O novo livro começa a abordagem pela Venezuela. O que comentar do atual estágio social, político e econômico do país? Por que a crise e a recessão chegaram a patamares tão dramáticos, considerando a abundância de divisas que a renda petrolífera lhe garantira?

A crise venezuelana tem uma origem econômica. A combinação entre inflação, desajuste cambial (enorme diferença entre o câmbio oficial e o paralelo) e desabastecimento corroeu a popularidade do bolivarianismo. Isso ficou claro nas eleições de dezembro de 2015, quando o governo elegeu menos de 1/3 dos parlamentares.

Desde então, o governo Maduro desistiu da institucionalidade que os próprios bolivarianos construíram: só brincam de democracia quando ganham, o que tem sido cada vez mais raro. O argumento de seus apoiadores é controverso, e divide a esquerda: dizem que as alternativas colocadas são todas piores e, com isso, justificam a perpetuação no poder em condições cada vez mais críticas.

Duas perguntas de fundo se colocam: por que estes problemas econômicos explodiram?; e por que não despontaram alternativas à esquerda? São questões que exigem analisar a dinâmica e as contradições do bolivarianismo, um processo que evoluiu ao longo de seus vinte anos. Dois pontos são fundamentais, que detalho no livro: os obstáculos para superar a dependência petroleira (na raiz dos problemas econômicos) e as contradições da mudança a partir do Estado — ou “de cima para baixo” — o que está na raiz das limitações políticas.

 

Tentando colocar numa certa ordem de relevância, quais foram os outros processos políticos nacionais que mais se aproximaram de uma ruptura com o neoliberalismo e a construção de novos modelos de política e sociedade?

Entendo que o único país em que houve a intenção de superar o neoliberalismo foi na Venezuela, que retomarei adiante. Mas talvez as maiores expectativas fossem em torno de Argentina, Bolívia e Equador, que entraram na onda progressista em meio a sublevações populares, onde vários presidentes foram derrubados.

Dentre estes, destaca-se o caso boliviano: Morales venceu as eleições em 2005 e convocou uma constituinte, em que não conseguiu maioria absoluta.Os cambas de Santa Cruz de la Sierra conspiravam para dividir o país, os Estados Unidos mandaram para lá seu ex-embaixador no Kosovo, recém-separado da Sérvia, enquanto os indígenas ameaçavam descer do Altiplano e resolver na marra o que o vice García Linera chamou como “empate catastrófico”.

Afinal, chegaram-se a acordos, a nova constituição foi promulgada e, nas eleições seguintes, Evo Morales ganhou de lavada e fez maioria. A expectativa era que o processo se radicalizasse, mas ocorreu o seu contrário. Desde 2011, trata-se de um governo antipopular, que converteu o poder em um fim em si mesmo.

Como explicar? Para dizer em uma linha, os compromissos para pacificar o país, assumidos na constituinte, determinaram a linha conservadora adotada pelo governo, que persistiram quando teve maioria parlamentar. Maioria que também os Kirchner tiveram em algum momento, e que López Obrador tem agora no México.

Assim, dizer que o PT não mudou o país por causa do “presidencialismo de coalizão” é camuflar a densidade dos laços conservadores que sustentaram seus governos — reduzir um câncer a uma verruga, porque é o que se vê.

 

Um país de grande importância e sempre negligenciado na mídia brasileira é a Colômbia, que agora passa por um intrincado processo de pacificação nacional. Como analisa o desenvolvimento dos acordos de paz e o peso deste país no equilíbrio regional?

Após a eleição de Bolsonaro, os brasileiros têm melhores condições de entender a Colômbia: como um país há meio século em guerra civil conduz longas negociações que desaguam em um acordo de paz, e este acordo é rejeitado em consulta popular? E o principal argumento do “não” era que a paz abriria o caminho para o “castrochavismo” e para que as Farc assumissem o comando do país… Desde os anos 1990, o uribismo envenenou a cultura política colombiana ao mesmo tempo que militarizou o país, em um processo que tem muita semelhança com o modo de fazer política de Bolsonaro.

O atual presidente Duque é um uribista que tem descumprido cada aspecto do acordo de paz — o que aliás, já era a tônica do governo anterior. Em termos regionais, determinou a saída de seu país da Unasul, e trabalhou ativamente para que outros países o acompanhassem. No entanto, ficou só, pois os demais entenderam que era preciso esperar as eleições no Brasil para se posicionarem. Agora, a organização fenecerá — exceto se os Estados Unidos tiverem planos para a Unasul sob Bolsonaro.

 

Qual o peso do Brasil e, mais especialmente do lulismo em meio a todo esse cenário, para bem e para mal?

A onda progressista foi mais do que a soma de governos nacionais: as sinergias e ações conjuntas constituíram um aspecto decisivo, e talvez o maior potencial do processo. Neste sentido pode-se dizer que, se a Venezuela foi a vanguarda da onda progressista, o Brasil foi o seu motor. Recuperemos as origens: em 2002, Chávez respondeu às tentativas frustradas de derrubá-lo radicalizando suas posições, caso único no subcontinente. Neste mesmo ano, Lula foi eleito e, em seguida, assumiu Kirchner. A Venezuela se entusiasmou com a perspectiva de ter parceiros além de Cuba.

No entanto, logo ficou claro que o Brasil não militaria por um projeto contra-hegemônico, pois queria ser global player. Em outras palavras, seu interesse não era fazer um time, mas ser o líder regional; seu jogo não era a Alba, mas a Unasul. E esta é uma terceira dimensão importante para entender o que aconteceu na Venezuela: o papel regional do Brasil, que, na prática, atuou como um freio e não como um acelerador da onda progressista.

Em linhas gerais, as gestões petistas projetaram sua lógica interna para a política regional: em casa, pretenderam melhorar a situação dos de baixo, sem comprar briga com os de cima. No plano internacional, ambicionaram ampliar a soberania regional, sem enfrentar os Estados Unidos. Assim, as gestões petistas foram simpáticas a Chávez ou a Fidel — desde que seus países aceitassem a ordem proposta.

 

Saindo da América do Sul, como enxerga Cuba em meio a tudo isso?

Desde o fim da União Soviética, Cuba se tornou uma espécie de quilombo, lutando com dignidade para sustentar seu socialismo primitivo em um mundo hostil. A principal dificuldade é econômica: Cuba é um país pobre, que não tem como sustentar de forma isolada o padrão social que construiu com apoio soviético. Desde os anos 1990, sua sobrevivência ficou ainda mais difícil: o horizonte civilizatório deixou de ser o comunismo, reduzindo-se à manutenção das conquistas sociais e da soberania fundadas na revolução.

Neste quadro, a onda progressista proporcionou algum alento: a Venezuela propôs parceria e petróleo, enquanto o Brasil ofereceu negócios. Vinte anos depois, os limites do progressismo também afetam a ilha, que reescreve sua constituição eliminando a referência ao comunismo. O saldo do processo não poderia ser mais claro: a onda progressista, que começou reescrevendo constituições com a proposta de refundar nações (Venezuela, Bolívia, Equador), termina reescrevendo o que havia de nação e de esquerda na região.

 

Afinal, por que a onda dos governos progressistas encontrou um limite e parece agora viver um quase irresistível processo de reversão pela direita e até extrema-direita?

Os governos progressistas acreditaram que era possível resolver ou amenizar os problemas de seus países sem atacar suas causas estruturais. A estratégia foi conciliar os interesses dos de cima, que ganharam, como sempre, com pequenas concessões para os de baixo, o que resultou em relativa pacificação social. Entretanto, esta pacificação implicou formas de neutralizar e apassivar o campo popular. Quando as condições políticas, sociais e econômicas que favoreceram esta pacificação se modificaram — e então é preciso analisar cada país —, vemos que as classes dominantes encontram-se fortes como sempre, enquanto o campo popular está desmobilizado, e em alguns casos, desmoralizado.

Neste sentido, entendo a atual conjuntura mais como um desdobramento do que como uma reversão. Vejamos o caso brasileiro: o governo Temer foi sem dúvida mais truculento do que as gestões petistas, mas o sentido das suas políticas foi o mesmo.

Por exemplo: o congelamento dos gastos públicos por vinte anos radicalizou a lógica do ajuste estrutural, praticada regiamente pelas gestões petistas, enquanto a perseguição popular se escora na lei antiterrorista sancionada por Dilma às vésperas do seu afastamento. As continuidades são sintetizadas por Henrique Meirelles, que comandou o Banco Central sob Lula.

Portanto, o governo Temer deve ser visto como uma metástase das administrações petistas, uma vez que os interesses antipopulares que aquelas jamais enfrentaram logo se espalharam desimpedidos.

 

Acredita que essa direitização só pode se dar em termos mais radicalizados e até fascistizados na atual conjuntura do capitalismo da região? Autoritarismo e fórmulas disfarçadas de estados de exceção seriam a única via para a reprodução do neoliberalismo neste momento?

Sem dúvida, esta é a tendência, mas não é a regra. Veja as eleições no México: López Obrador é visto como uma novidade política em um contexto de crise, fez uma campanha centrada na questão da corrupção, em que as redes sociais tiveram um papel determinante. As similaridades superficiais com Bolsonaro são surpreendentes. Como explicar? Esta contradança entre México e Brasil sugere que há uma variedade de formas para lidar com a crise na atualidade, dentre as quais se inclui o progressismo.

Veja o paradoxo: enquanto os países que atravessaram a onda progressista avançam para estados de criminalização da política e insulamento da economia, à moda colombiana, os países que não foram governados pelo progressismo evoluem na direção contrária: frentes de esquerda se destacaram nas eleições no Chile, Peru e Colômbia entre 2016 e 2017, enquanto López Obrador alcançou a presidência em 2018.

Esta ascensão pode ser interpretada não como um indício de mudança, mas como o seu contrário: vinte anos depois, constatada ao mesmo tempo a inofensividade do progressismo para ameaçar a ordem e sua relativa eficácia em geri-la, entreabre-se nos países em que as forças da mudança estiveram mais asfixiadas uma brecha, que seguramente cativará a ilusão de muitos e certamente não levará a mudança alguma. López Obrador será o primeiro atirado aos leões, encarando a monumental crise mexicana.

 

O que esperar do governo de Jair Bolsonaro, cuja equipe já está inteiramente nomeada e oferece pistas do que teremos? Que consequências suas políticas devem gerar no chão social?

De Bolsonaro, o povo só pode esperar o pior. A ambição geral da sua política é uma espécie de reformatação da sociedade brasileira, análoga à produzida pela ditadura de Pinochet no Chile — outra experiência que analiso no livro e que os brasileiros devem entender, para além da conhecida repressão. Ao final da ditadura, até a esquerda chilena estava desfigurada, e o Partido Socialista de Salvador Allende transformou-se em um gestor da ordem legada.

Porém, há uma distância entre o que o governo Bolsonaro quer e o que conseguirá fazer. O fator mais importante não será o temperamento do presidente, sua base infiel, nem fictícios liberais democráticos — mas a reação popular. A pretensão de enfrentar os problemas do neoliberalismo com mais neoliberalismo certamente os agravará, assim como combater a violência com mais violência a piorará. Em um primeiro momento, é provável que Bolsonaro ofereça sangue petista para aplacar a turba iludida que o elegeu.

Mas em seguida, a realidade cobrará a fatura e o campo popular responderá. Portanto, será necessário superar o lulismo, que não é um antídoto ao fascismo, mas um entorpecente que dificulta a compreensão do que se passa. Só com luta os brasileiros escaparão da barbárie, não com morfina.

O terror que se aproxima

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente na Revista Cult
26 out. 2018

 

O desprezo de Jair Bolsonaro e sua família pelas instituições republicanas e sua ignóbil admiração, tantas vezes proclamada, pelo abjeto torturador Carlos Ustra, indicam que o risco de um terrorismo de Estado paira novamente como ameaça real sobre a democracia brasileira. Muitos, porém, com grande otimismo ou cegueira, descartam essa ameaça como demasiado remota.

Se aceitarmos essa versão, que aposta na pouca fiabilidade do que diz o personagem bufão, não estaremos livres da ameaça de um terror cotidiano — como demonstram as dezenas de casos de violências contra minorias e opositores políticos registrados desde o primeiro turno da eleição. Gostaria de fazer uma breve reflexão sobre essa questão, com base em análises que fiz do terrorismo na Europa, e que compõem ensaio recentemente publicado.

O terrorismo contemporâneo, tal qual demonstram os casos recentes de ataques terroristas nos países do hemisfério norte, tem se caracterizado por algo que chamei de “terrorismo faça você mesmo”. No estudo que fiz sobre o problema do terrorismo na França, chamou atenção o caráter difuso do novo terrorismo, impulsionado por uma sociedade na qual os elos sociais se estabelecem prioritariamente por mediações virtuais e não mais por formas diretas de relações humanas.

Diferentemente do que ocorria no passado, hoje não é mais necessária a existência de grupos com organizações centralizadas que forneçam as condições materiais e estratégicas para a ação terrorista. As ações podem ser frutos de indivíduos que se identificam imaginariamente com os símbolos e valores de grupos maiores. Assim, parte dos atentados atribuídos ao Estado Islâmico na Europa foram cometidos por indivíduos nascidos no continente e que nunca haviam abandonado seu país de nascença, ou seja, que jamais tinham tido contato direto com a organização no Oriente Médio. Sua relação se dava pelas redes sociais de pró-jihadistas e seus atos eram impulsionados pela certeza de que seriam recompensados pela admiração nessas mesmas redes.

Portanto, a forma atual do terrorismo é justamente a de atos violentos isolados que não são diretamente ordenados pelas lideranças. Tudo que essas lideranças têm de fazer é fornecer um conjunto simbólico que justifique a violência, que a torne socialmente reconhecida, mesmo que no interior de uma coletividade delimitada. No caso do terrorismo islâmico, os valores reivindicados pelo fundamentalismo muçulmano em oposição àquilo que veem como um Ocidente degenerado tornam-se justificativas suficientes para que indivíduos disparem a esmo contra multidões ou joguem veículos sobre transeuntes. Ações que poderíamos nomear simples atos de loucura, e que não deixam de sê-lo, mas que aparecem como dotados de racionalidade para aqueles que se acreditam em uma espécie de “guerra santa”. A linha que separa o ato de loucura do ato de terrorismo tornou-se demasiado tênue, e por consequência tornou-se igualmente tênue a linha que separa o ato isolado do projeto coletivo.

Erich Fromm fazia uma distinção entre patologias e defeitos socialmente moldados, isto é, traços de caráter que não são mais percebidos como patológicos em dadas condições sociais. O que pode parecer como pura loucura em uma coletividade pode ter uma legitimidade em outra, e isso vale sobretudo para as manifestações de violência. O termo amok, que identificava uma prática ritual de violência cega em povos malásios, é usado hoje para designar os casos de violência incompreensíveis para a racionalidade ocidental, casos como o dos chamados “atiradores loucos”, que em explosões de raiva disparam a esmo sobre a multidão. Agora, parte desses atiradores loucos – ou em alguns casos, atropeladores loucos – são simplesmente designados como terroristas. A vazão de sua violência encontrou uma forma simbólica, que é fornecida pelo fundamentalismo, e que, portanto, não é mais descartada como simples loucura.

Se um líder político apregoa o uso livre da violência e nomeia insistentemente grupos que valem menos, está autorizando com falas e ações que indivíduos descarreguem sua raiva sobre esses mesmos grupos. É interessante notar aqui a semelhança que há nos alvos escolhidos pelo fundamentalismo islâmico e pelo fundamentalismo bolsonarista. Em ambos os casos, existe a veiculação de uma moral religiosa que condena a diversidade sexual e que se volta contra os setores progressistas da sociedade.

Quando dos ataques de novembro de 2015 em Paris, muitos se perguntaram por que um de seus alvos foi a região do Canal Saint Martin, frequentada por pessoas tolerantes à diversidade religiosa e comumente defensores da imigração, em vez de se voltar contra alvos associados ao Front National, partido conhecidamente xenófobo e anti-muçulmano. Acontece que tanto os correligionários do Front National quanto os partidários do Estado Islâmico manifestam incompreensão e ressentimento para com sociedades plurais e fundadas na diversidade, e veem como principais inimigos aqueles que lutam pela defesa de uma sociedade plural.

Algo semelhante ocorre hoje no Brasil, onde os meios culturais, artísticos e universitários estão entre os alvos prioritários do ressentimento bolsonarista, um ressentimento fundado em mentiras e desconhecimento, mas também na identificação correta de que esses espaços permanecem bastiões de luta contra qualquer fundamentalismo. Diversas universidades têm sido pichadas com ameaças e suásticas nas últimas semanas. Para ficar apenas no exemplo que me está mais próximo, na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, os dizeres associavam nazismo e school shooting, as suásticas sendo acompanhadas da ameaça “vai ter Columbine” (em referência ao histórico massacre escolar de 1999). O autor, já identificado, é mentalmente instável. Mas não deixa de ser relevante que tenha percebido uma articulação possível entre uma simbolização política e um gesto violento codificado e identificado com o ambiente de ensino.

A ausência de controle sobre os correligionários, que Bolsonaro evoca em sua defesa, não o isenta de responsabilidade sobre atos que tornam reais as ameaças contidas em suas falas. Se olharmos para o terrorismo contemporâneo, veremos que a falta de um controle em nada reduz os riscos da violência, a anuência simbólica sendo mais do que suficiente para dar aval ao terror. E lembremos que, caso Bolsonaro seja eleito, esta é apenas a perspectiva otimista.

 

Imagem: Andy Warhol, “Guns”, 1982.

Um pouco do que acabamos de perder

Este é o texto mais triste que já enviamos a nossos leitores e leitoras. Na quarta-feira, 14 de novembro, Havana anunciou que, até o final do ano, retirará do Brasil os profissionais de saúde cubanos que trabalham no Programa Mais Médicos, lançado em 2013.

A decisão foi tomada após declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro, que decidiu impor condições à permanência dos médicos cubanos no país: revalidar seus diplomas, ter o direito de trazer as famílias e receber integralmente seus salários, ao invés de destiná-los majoritariamente ao governo da ilha.

As mudanças ferem o acordo assinado entre Brasil, Cuba e a Organização Pan-Americana de Saúde, que desde o início do Mais Médicos trouxe profissionais cubanos para atender as pessoas mais carentes do país, nos rincões mais desassistidos de nosso território, onde os médicos brasileiros não querem estar.

O anúncio de Havana culmina uma experiência humanista inédita por aqui, que, apesar de todos os seus aspectos positivos, enfrentou a resistência das elites políticas e econômicas brasileiras desde o começo. Basta lembrar da intensa campanha das entidades médicas contra o programa, e da vergonhosa recepção que os doutores cubanos receberam nos aeroportos.

As redes sociais fervilharam com mentiras de todo tipo: desde denúncias de que o PT estava trazendo guerrilheiros cubanos disfarçados de médicos para dar início a uma revolução comunista, até preocupações hipócritas sobre a exploração dos doutores pela horrenda ditadura castrista — “são escravos”, dizia-se, enquanto fechava-se os olhos para a escravidão que realmente acontece em oficinas de costura, canteiros de obras e fazendas do país.

Em meados de 2017, quando o Mais Médicos completava quatro anos, publicamos Branco vivo, de Antonio Lino, escritor que havia pegado a estrada para conferir os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados pelos profissionais contratados pelo programa. O livro é resultado de seu olhar aguçado para nove localidades desse gigantesco território, complementado pelas fotografias do renomado intérprete do Brasil, Araquém Alcântara.

Na época, consideramos Branco vivo “uma ode à humanidade em tempos sombrios”. Só não podíamos imaginar que as sombras assumiriam formas tão nefastas, a ponto de, agora, impedirem a presença dos profissionais que viabilizaram o programa no Brasil — já que, sem os cubanos, o Mais Médicos dificilmente teria decolado.

Diante da conjuntura, é com muito pesar que disponibilizamos o pdf de Branco vivo para que as crônicas de Antonio Lino — finalistas do Prêmio Jabuti 2018 — possam chegar a quem deseja conhecê-las, seja pelas telas de celulares, computadores ou tablets, ou por xerox e impressões.

Não, o livro não está esgotado. Continua à venda — e continua lindíssimo. Mas acreditamos que facilitar o acesso à obra, neste momento, é um imperativo ético e político contra o avanço do ódio, além de uma maneira de agradecer o trabalho de profissionais que deixam casa e família para colocar um estetoscópio no peito dos moradores dos maiores cafundós do mundo.

A vitória de Bolsonaro é um alerta à esquerda latino-americana

Por Alberto Acosta e Eduardo Gudynas

 

A América Latina ainda está assimilando a vitória de Jair Bolsonaro e a derrota do Partido dos Trabalhadores nas últimas eleições brasileiras. Mas é preciso analisar urgentemente o que ocorreu no país, sem recorrer a análises simplistas e privilegiando um olhar latino-americano que busque compreender as conquências do episódio para as esquerdas da região: uma tarefa urgente, ainda mais quando muitos creem na inevitabilidade do retorno das direitas ao poder.

Não acreditamos nisso. Pelo contrário, vemos que esta crise pode semear uma nova esquerda latino-americana que não repita os erros da “onda progressista”, voltando a apresentar-se como uma alternativa de mudança. Em outras palavras, apostamos que as esquerdas podem evitar a chegada de outros Bolsonaros nos países vizinhos. Para isso, porém, é preciso fazer um diagnóstico rigoroso sobre o que houve no Brasil.

Direita sem dissimulação e progressismo que dissimula

Bolsonaro e seus apoiadores expressam uma ultradireita que não dissimula nem esconde suas posições: veiculam um discurso homofóbico, atacam indígenas e negros, ironizam com o fuzilamento de militantes de esquerda, defendem a tortura e a ditadura. Mas não estão sozinhos. O racismo e o autoritarismo são respaldados por amplos setores da população brasileira, e os contrapesos da cidadania e da política se mostraram insuficientes em detê-los. Isso revela uma sociedade muito mais conservadora do que supunha a retórica petista.

Uma das velhas propostas do PT era democratizar a sociedade brasileira, incrementando a institucionalidade política. Uma vez no governo, porém, o desempenho foi muito limitado, pois agravou a dispersão partidária; usou-se de subornos entre legisladores (recordemos o primeiro governo Lula com o mensalão); persistiu-se no verticalismo partidário; e paulatinamente se debilitou a participação cidadã. Esses e outros fatores talvez expliquem as limitações de um “triunfalismo facilista” ante uma sociedade brasileira que não era tão esquerdista como parecia.

É evidente que uma renovação das esquerdas deve aprender com essa dinâmica e que não pode renunciar à democratização da sociedade e de suas próprias estruturas. Deixar de fazê-lo facilita o surgimento de oportunistas. As estruturas políticas de esquerda devem, de uma vez por todas, tornar-se dignas representações de suas bases — e não meros trampolins usados por indivíduos com claros traços caudilhistas.

O “medo de perder a próxima eleição” tem definido atuação dos partidos de esquerda. Na Argentina, o sucessor designado do kirchnerismo perdeu a eleição para o novo conservadorismo de Mauricio Macri justamente por fazer algo parecido ao que agora ocorreu com o PT: rejeitar os chamados de mudança, se fechar e se imobilizar em um núcleo duro. Esse mesmo temor é evidente hoje no governo de Evo Morales, na Bolívia, e parece chegar à Frente Amplia no Uruguai.

Desenvolvimento nada novo, e sim senil

O caso brasileiro confirma a grande importância das estratégias de desenvolvimento — chave para diferenciar “progressismo” e “esquerda”. O caminho seguido pelo governo Lula, o “neodesenvolvimentismo”, baseou-se nas exportações primárias e na captação de investimento estrangeiro, afastando-se de muitas reivindicações da esquerda. Isso demonstra que progressismo e esquerda são duas correntes políticas diferentes.

Com efeito, durante os anos do PT, o Brasil se tornou o maior extrativista mineral e agropecuário do continente. Isso só é possível quando se aceita uma inserção subordinada no comércio global e uma ação limitada do Estado — justamente o contrário das aspirações da esquerda.

As limitações dessas estratégias foram disfarçadas pelos vultosos excedentes financeiros possibilidados pelos altos preços das commodities. Além da assistência social, alvo de intensa propaganda, a bonança se concentrou no consumismo popular, nos subsídios e assistências empresariais e no apoio a algumas grandes corporações (as chamadas “campeãs nacionais”).

Isso explica por que o “neodesenvolvimentismo” recebeu o apoio tanto dos trabalhadores — que desfrutavam de créditos acessíveis — como pela elite empresarial — que conseguia dinheiro estatal para se internacionalizar. Por razões muito distintas, Lula era aplaudido tanto nas favelas como no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Essa situação começou a se desvanecer com a queda de preços das matérias-primas, revelando que os subsídios mensais, como o Bolsa Família, são importantes, mas não tiram de fato as pessoas da pobreza. A concentração de riqueza persistiu, e parte do financiamento às corporações se perdeu em redes de corrupção. Não se transformaram as essências das estratégias de desenvolvimento.

Aprofundou-se a dependência de matérias-primas, agora redirecionadas sobretudo ao mercado chinês, fazendo com que o Brasil tivesse a pior balança comercial física do continente. Produziu-se desindustrialização e fragilidade econômica e financeira. Esse “neodesenvolvimentismo” progressista é tão velho como nossas próprias colônias — época em que se iniciou o extrativismo.

Não se quis entender que tais estratégias obrigavam o uso de certos instrumentos econômicos e políticos contrários às políticas e aos valores da esquerda. Os progressismos nos países vizinhos seguem o mesmo caminho, alimentando crises políticas que não conseguem resolver pela esquerda, ao passo que se retomam velhas receitas, como o endividamento, os controles sobre a mobilização cidadã ou flexibilização das leis ambientais e trabalhistas para atrair investidores. Como resultado, preparou-se o terreno para uma restauração conservadora.

Ruralidades conservadoras

O desenvolvimentismo senil requer o velho autoritarismo, e por isso diferentes setores, como o ruralismo ultraconservador, festejam o discurso de Bolsonaro contra indígenas, camponeses e sem-terra. Bolsonaro conta com o apoio da bancada ruralista, setor que já havia chegado ao anterior governo, quando Dilma colocou uma de suas líderes — Kátia Abreu — no Ministério da Agricultura. Esse exemplo deve alertar a esquerda, pois diferentes atores conservadores e ultraconservadores aproveitam-se dos progressismos para se associarem a tais governos.

Além do mais, os progressismos não garantiram a reforma agrária nem transformaram a essência do desenvolvimento agropecuário. Recordemos que, sob o primeiro governo de Lula, se difundiu a soja transgênica no Brasil, e um similar processo de sojização ocorreu no Uruguai, iniciado com José Mujica. Os progressismos não conseguiram explorar alternativas para o mundo rural, insistindo no simplismo dos monocultivos de exportação, sustentação de empresários do campo e, quando há dinheiro, distribuição de assistência financeira a pequenos e médios produtores.

As esquerdas devem inovar em uma nova ruralidade, abordando a sério tanto a posse como os usos da terra, além do papel dos provedores de alimentos não só para o comércio global, mas, sobretudo, para o próprio país.

Pobreza e justiça

O PT aproveitou diferentes circunstâncias e conseguiu reduzir a pobreza. Também aumentou o valor do salário mínimo, a formalização do emprego e o atendimento de saúde — o que deve ser aplaudido. Mas muito desse esforço reforçou a mercantilização da sociedade e da natureza. A bancarização e o crédito explodiram: o crédito privado subiu de 22% do PIB em 2001 para 60% em 2017. O consumismo se confundiu com melhoras na qualidade de vida.

O progressismo esqueceu da meta da esquerda de desmercantilizar a vida como reação ao neoliberalismo do século passado. A ideia de justiça se reduziu a enfatizar alguns instrumentos de redistribuição econômica, enquanto os direitos cidadãos seguiam frágeis.

A esquerda latino-americana não pode se fazer de distraída ante o fato de que o Brasil está na liderança no número de assassinatos de ecologistas no mundo (57 mortes em 2017, segundo a Global Witness) e a violência urbana não retrocedeu. As esquerdas não deveriam se enredar em reducionismos. A justiça social é muito mais que a redistribuição, assim como a qualidade de vida é muito mais que crescimento econômico.

Há futuros possíveis

O PT, assim como outras expressões progressistas latino-americanas, não só ignorou advertências sobre este “neodesenvolvimentismo” primarizado, mas ativamente combateu os debates e ensaios de alternativas ao desenvolvimento. Diferentes atores, tanto nacionais como estrangeiros, aplaudiam de forma complacente, sem escutar vozes de alerta, com o pretexto perverso de não “fazer o jogo da direita”.

Apesar de tudo, no Brasil e no resto do continente há múltiplas resistências e alternativas que se constroem cotidianamente. Elas oferecem inspirações para uma recuperação da esquerda, a partir da crítica ao desenvolvimentismo, dos ensaios para abandonar a dependência extrativista ou da salvaguarda dos direitos civis e cidadãos. Aqui estão os insumos para a construção de uma nova esquerda, comprometida com os horizontes emancipatórios.

A renovação das esquerdas deve assumir a crítica e a autocrítica, custe o que custar, para aprender e desaprender certas experiências recentes. Mantêm-se atuais desafios, e se somam novas urgências. A esquerda latino-americana deve avançar em alternativas ao desenvolvimento, deve ser ambientalista, em respeito à natureza, e feminista, para enfrentar o patriarcado; deve persistir no compromisso socialista como superação da iniquidade social, e deve ser descolonial para superar o racismo e a exclusão. Tudo isso exige cada vez mais democracia.

 

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Alberto Acosta
é autor de O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos (Elefante & Autonomia Literária, 2016).

Eduardo Gudynas é mestre em Ecologia Social e pesquisador no Centro Latino-Americano de Ecologia Social (Claes), Montevidéu, Uruguai.