Debate marca relançamento de 
Corumbiara, caso enterrado

O que já era ruim ficou muito pior. E ainda vai piorar.

Há dois anos, quando lançamos Corumbiara, caso enterrado, sabíamos que a situação de violência no campo brasileiro não estava resolvida. Muitas pessoas continuavam sendo assassinadas, o poder de resposta do Estado era baixo e enviesado, a bancada ruralista dava as cartas em Brasília. Mas não imaginávamos que grandes chacinas voltassem a ocorrer. Tampouco imaginássemos que haveria um golpe de Estado no Brasil do século 21. Subestimamos nossa capacidade de produzir barbárie.

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Aqui estamos, com 51 mortes no campo apenas nos seis primeiros meses de 2017, a caminho do recorde neste século. E agora? A recente chacina de Pau d’Arco, no Pará, nos remonta ao Brasil dos anos 1990, marcado pelos massacres de Corumbiara e de Eldorado do Carajás. Naquele momento, pelo menos, havia um governo com alguma legitimidade, e que podia ser cobrado por setores da população porque mantinha laços com o mundo real. Agora, não.

O Ministério da Justiça virou uma banca de advocacia do presidente golpista, alçado ao poder pela força ruralista e financista e lá mantido às custas de muita negociata à luz do dia. Não há um mísero setor da sociedade com interlocução com o governo, a menos que a gente considere que o mercado financeiro é a sociedade.

Nessa angústia, decidimos nos juntar ao De Olho nos Ruralistas na próxima segunda-feira em São Paulo para reunir uma turma de peso em busca de discutir as origens do problemas e suas possíveis soluções. E também para relançar Corumbiara, caso enterrado, de João Peres. O livro esgotou-se no começo deste ano, mas seu ciclo ainda não estava cumprido: a obra precisa continuar circulando para ampliar o debate sobre como o Brasil do presente é o Brasil do passado.

Nesses dois anos vertiginosos, o trabalho ganhou o segundo lugar no Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, em 2015, e foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2016. As láureas são importantes, claro, mas o mais importante para nós é a grande rede de solidariedade que se formou para discutir o tema e fazer com que o trabalho chegasse aos cantinhos de Rondônia, palco da tragédia de 1995.

Olha só o pessoal que vai debater a violência no campo:

Alceu Castilho, coordenador do De Olho nos Ruralistas e autor de Partido da terra.
Kátia Brasil, Amazônia Real (por Skype, direto de Manaus).
Carolina Motoki, Repórter Brasil.
Padre Antônio Naves, Comissão Pastoral da Terra.
Josineide Costa Sousa, Movimento dos Pequenos Agricultores.

Mediação:

João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado.

 

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Serviço:
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Debate: Os crimes no campo explodem novamente. E agora?
Data: 31 de julho de 2017
Horário: 19h
Local: Ateliê do Gervásio
Rua Conselheiro Ramalho, 945
Bixiga, São Paulo-SP
Entrada franca!

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Corumbiara, caso enterrado está entre os finalistas do Prêmio Jabuti

Na noite de 24 de novembro, nosso Elefante vai descer a Brigadeiro, pomposo que só, no seu passo lento e folgado, como bem entender, para chegar à cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti no Auditório do Ibirapuera. Avisa o novo prefeito João Trabalhador que, até lá, é melhor não privatizar o parque, porque a gente vai passar sem pagar pedágio. Bem, isso se tivermos um pouquinho mais de sorte.

Sim, amigas e amigos! Corumbiara, caso enterrado, livro-reportagem de João Peres e Gerardo Lazzari, está entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário. A premiação já vai na sua 58ª edição e é, sem dúvida, uma das mais importantes do cenário literário brasileiro. Os vencedores serão conhecidos em 11 de novembro. No ano passado, nosso Elefantinho cruzou os pampas para receber o segundo lugar do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil seção Rio Grande do Sul e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Nenhum dos nossos livros é lançado pensando nos prêmios. Mas, quando eles vêm, a gente não se queixa, não. Vamos em frente. Ainda mais neste ano-treta. Não é qualquer nota falar sobre latifúndio, ditadura e violação de direitos humanos no Brasil do presidente Fora Temer Golpista. A propósito, ao lançar o livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, em julho de 2015, fomos chatos ao ressaltar a importância do episódio ocorrido na localidade de Corumbiara, há vinte anos, como uma mostra de que não temos uma democracia consolidada.

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É claro que não imaginávamos que a desgraceira política pudesse chegar tão longe. Mas aí está ela, a cada dia, mostrando que estamos muito longe do horizonte que queremos. E isso só faz reforçar o sentido de trabalhos como o da Editora Elefante. Neste ano, chegaremos a onze títulos. É bastante para quem conta apenas com os trocados do bolso para fazer virar a bagaça. E temos orgulho de ver que nossos livros, por mais diferentes que sejam nas temáticas, têm uma linha em comum: remar contra a corrente, fazer da teimosia uma regra, trazer à tona os assuntos mais cabeludos.

Vamos torcer para que o Elefante ganhe um amigo Jabuti, claro. Mas o verdadeiro prêmio recebido por Corumbiara, caso enterrado foi a acolhida que tivemos em Vilhena, na casa do Newton Pandolpho e de sua família; em Colorado do Oeste, onde o Marcel Eméric Araújo lotou o auditório do IFRO (que, por sinal, foi ocupado pelos secundaristas em luta) pra receber nossa publicação; em Rolim de Moura, onde Carlos Trubiliano nos abriu as portas da UNIR; em Ji-Paraná e Ariquemes, graças às articulações das irmãs Renata e Juliana Nóbrega; e em Porto Velho, e aí é quando faltam palavras para agradecer a todo o apoio que tivemos da Laura Massunari.

João Peres, Gerardo Lazzari e Corumbiara, caso enterrado ganharam seu maior troféu quando sensibilizaram e moveram uma maré de solidariedade que envolveu todas essas pessoas — e muitas mais — em torno da necessidade de fazer memória das vítimas, das histórias e das injustiças brasileiras. Com certeza, os maiores louros que poderíamos colher com este trabalho, os colhemos durante o périplo rondoniense. Depois disso, o que mais vier é lucro. E tomara que venha. E se não vier, tubo bem. Seguiremos buscando novos incômodos.

Há um ano, lançávamos ‘Corumbiara, caso enterrado’


Foi bom demais. Vieram novos e velhos amigos, gente que conhecíamos e gente que desconhecíamos, pessoas que confirmaram presença e pessoas que apareceram de surpresa. Há um ano, lançávamos Corumbiara, caso enterrado. O frio na pança logo deu lugar a uma grande alegria por reunir tantas e tantos interessad@s em trocar ideias.

Depois do evento em São Paulo, tivemos lançamentos em Osasco, em Brasília e em várias cidades de Rondônia – várias mesmo, um montão. Quando mandamos para a gráfica o primeiro livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, ocorrido exatamente vinte anos antes, não imaginávamos mobilizar tanta gente.

Um ano depois, quase todos os mil exemplares do trabalho de João Peres e Gerardo Lazzari já estão circulando por aí. Parece pouco, mas é muito para o mercado editorial brasileiro e, mais ainda, para uma editora independente que recém retomava suas atividades, após quase quatro anos de intervalo desde O Equador é verde, título que marcou nossa estreia.

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Retomamos fôlego e, felizes com o potencial de um trampo assim, de lá para cá colocamos no mundo mais três filhotes: Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira, uma HQ ácida que só; O Bem Viver, do equatoriano Alberto Acosta, concebido em parceria com a Autonomia Literária; e Memória Ocular, um livro-manifesto de Tadeu Breda sobre Sérgio Silva, o fotógrafo atingido no olho por uma bala de borracha durante as jornadas de junho de 2013.

Na época de lançamento de Corumbiara, caso enterrado, a fervura já andava alta nas rodas políticas e sociais da República. E a gente insistia com o velho lugar comum de que não conhecer a história nos leva a repetir nossos erros. Só não imaginávamos que o bagulho ficaria tão louco. Alguém conseguiria lembrar de 10% de tudo que rolou nestes doze meses? Impossível. Só sabemos que andamos vários passos para trás.

E sabemos também que o desaniversário de vinte anos de outro massacre, o de Eldorado do Carajás, no Pará, passou tão batido quanto as duas décadas do massacre de Corumbiara. Pudera: 17 de abril foi a data em que a Câmara dos Deputados realizou a bizonha sessão que culminou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nesse cenário fervilhante, fica difícil olhar para o passado e tentar refletir sobre as zoeiras erradas de nosso mundo. Mas insistimos que essa é uma necessidade muito, muito básica para ser deixada de lado. E continuamos a lançar títulos que tentem, do alto de sua limitação numérica e espacial, contribuir para este propósito. Vem aí Xondaro, uma HQ de autoria de Vitor Flynn, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, que retrata a luta dos guarani mbya de São Paulo pela demarcação de suas terras.

Esse dia foi trilôko! Editora Elefante recebe primeiro prêmio

O vento minuano não impediu que nosso Elefante atravessasse os pampas para receber sua primeira condecoração. Quem esteve na última quinta-feira, 10 de dezembro, no auditório da OAB gaúcha, em Porto Alegre, jura de pés juntos que nosso paquiderme vestia bombacha. Alguns informes dão conta de que ele até arriscou uns pitos no palheiro do Gaudério, mas, pacifista que é, recusou duelos de facas. Melhor sentar-se em roda e beber um bom chimarrão.

Esse dia foi trilôko! A Editora Elefante recebeu das mãos da secretária-geral adjunta da OAB-RS, Maria Cristina Carrion Vidal de Oliveira, o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo. Corumbiara, caso enterrado, que lançamos em julho, ficou em segundo lugar na categoria Grandes Reportagens, na companhia de Lucas Castro Figueiredo, vencedor com Lugar nenhum: militares e civis na ocultação dos arquivos da ditadura (Companhia das Letras), e de Renato Antonio Dias Batista, terceiro lugar com O menino que a ditadura matou (RD).

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Na 32ª edição, o prêmio é um dos mais importantes do país nesta seara. É organizado desde os últimos anos da ditadura pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que conta com a parceria da OAB e da Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio Grande do Sul. A cerimônia foi comandada por Jair Krischke, que manja muito do tema e há décadas denuncia as violações cometidas pelo Estado.

O autor do livro, João Peres, viajou a Porto Alegre no lombo de nosso estimado mascote. No auditório da OAB, ele recordou que o caso de Corumbiara, ocorrido em 1995, é um herdeiro direto do regime autoritário. Foram os militares que garantiram uma insana distribuição de terras na Amazônia, armando a bomba-relógio que há vinte anos estourou, deixando ao menos doze mortos durante reintegração de posse na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia.

O jornalista afirmou que as instituições do pós-ditadura continuaram a dar guarida a violações de direitos humanos, levando a uma apuração inconclusa e a um estranho julgamento ocorrido em 2000 em Porto Velho, com a condenação de três policiais e dois sem-terra. Por fim, ele recordou que este é o primeiro prêmio de uma editora sem fins lucrativos, totalmente independente e bancada na raça, com dependência do carinho e da divulgação de seus leitores.

João recebeu também o primeiro prêmio na categoria Online, ao lado de Thiago Domenici e Moriti Neto, da Agência Página Três. A turma foi agraciada pela série de reportagens Como se absolve um policial, feita para a Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

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Já nosso Elefante, como bom respeitador das tradições locais, retirou-se ao final da noite, mateou e deitou-se no chão do galpão para apreciar umas horas de sono antes de empreender o regresso a São Paulo. Lentamente, como sempre, e com a esperança de cruzar os pampas outras vezes para receber novos agrados.

Há vinte anos, bispo foi interrogado após denunciar falhas em apuração sobre massacre

Ossos humanos ou de animais? Uma das muitas dúvidas em torno do caso conhecido como “massacre de Corumbiara” segue em aberto, vinte anos depois do episódio ocorrido na fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia. À época, o bispo de Guajará-Mirim, dom Geraldo Verdier, teve de responder a um inquérito na Polícia Civil, que queria mais informações sobre os restos retirados da cena do crime.

Ao visitar o local, nos dias seguintes às mortes registradas durante reintegração de posse, dom Geraldo encontrou objetos calcinados que se assemelhavam a ossos. Separou-os em duas amostras. Uma, mais numerosa, foi encaminhada às autoridades rondonienses, que encomendaram uma análise ao Departamento de Medicina Legal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista. E outra, menor, enviada ao perito Michel Durigon, professor da Faculdade de Medicina de Paris.

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“Vi a longa fila do pessoal que estava sendo atendido pelos médicos, constatei evidentemente o massacre. Acompanhei as famílias que queriam enterrar seus filhos e não puderam porque levaram para Vilhena e enterraram lá. Não houve nenhum respeito aos direitos humanos”, recordou o bispo, hoje com 78 anos, em conversa com o jornalista João Peres, autor de Corumbiara, caso enterrado, primeiro livro-reportagem sobre a história, lançado em julho pela Editora Elefante.

Ao deixar o acampamento, há vinte anos, dom Geraldo deu uma entrevista a repórteres locais manifestando espanto pela cena que havia presenciado. “A perícia vai dizer o que é. Se são ossos humanos ou de animais. Um sinal de barbárie total.” O resultado pericial era importante porque o grupo de sem-terras que ocupou a Santa Elina duvidava dos números oficiais de mortes – doze, sendo nove posseiros, dois policiais e um rapaz não identificado.

Os resultados vindos da Unicamp disseram que, das amostras analisadas, todas eram de bois e porcos. Já Durigon assegurou que “duas das amostras examinadas são com toda certeza de origem humana”.

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A cúpula da segurança pública de Rondônia ficou muito irritada pelo fato de existir numa análise paralela à da Unicamp, mas não se comoveu com a informação de que poderia haver um erro grave no trabalho. Em 28 de novembro, o delegado Raimundo Mendes determinou que o bispo fosse interrogado. Uma quinzena antes, dom Geraldo havia escrito uma carta na qual afirmava que sua intenção não fora desmerecer a universidade paulista, de cuja competência não duvidava.

“Por esta razão estou estranhando que em quatro saquinhos contendo a grande maioria das amostras ósseas recolhidas na fazenda Santa Elina se achasse apenas restos de um animal suíno e outro bovino. É muita coincidência o fato de, em apenas nove pedacinhos, eu ter recolhido justamente dois ossos que são de seres humanos e três que podem ser, enquanto não há rastro disso nas amostras muito mais numerosas enviadas à Unicamp”, alfinetou.

Em 30 de novembro, o responsável pelas análises feitas em São Paulo, Fortunato Badan Palhares, escreveu uma carta ao secretário estadual de Segurança Pública de Rondônia, Wanderley Martins Mosini, questionando como era possível que uma amostra não oficial de ossos houvesse saído da fazenda Santa Elina e do país. Ele se queixou de que o caso arranhava a credibilidade de sua universidade.

Em 14 de dezembro, dom Geraldo prestou depoimento à Polícia Civil basicamente com a reiteração do que havia sido dito por escrito. Nem a ideia de puni-lo, nem o pedido por um terceiro exame das ossadas acabariam levados adiante, deixando em aberto mais um capítulo da história. O passar dos anos não foi suficiente para dirimir dúvidas e impor uma versão final dos fatos.

Corumbiara, caso enterrado é lançado em e-book no Kindle

O livro-reportagem Corumbiara, caso enterrado chegou ao formato digital. Agora, o lançamento da Editora Elefante pode ser baixado no Kindle, da Amazon, pelo valor de R$ 24,99 (ou US$ 7,18). É uma bela vantagem em termos de preço e, especialmente, de distância, já que se pode fazer o download em qualquer parte do mundo e iniciar a leitura de imediato.

O trabalho do jornalista João Peres passa a limpo a história do massacre de Corumbiara, ocorrido há vinte anos no sul de Rondônia. Em julho de 1995, famílias sem-terra ocuparam um pedaço da fazenda Santa Elina, de 18 mil hectares, localizada entre Corumbiara e Chupinguaia, em Rondônia. Durante operação de reintegração de posse iniciada na madrugada de 9 de agosto, doze pessoas morreram – nove posseiros, dois policiais e uma pessoa não identificada. Cinco anos mais tarde, foram condenados três PMs e dois líderes da ocupação.

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Essas são as informações que resumem a história. Mas não a respondem. A questão central do livro reside em entender como inúmeros fatores se cruzaram até redundar na tragédia de 1995 e, dali por diante, numa investigação inconclusa, num contestado julgamento, em comportamentos estranhos. Os motivos para o caso ter ficado praticamente esquecido nos últimos anos também são abordados. Corumbiara, caso enterrado é uma nova chance para resgatar a história de uma página importante do Brasil pós-ditadura. E entender por que ela é tão atual.

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Agora, nosso lançamento está disponível para todos os interessados, em qualquer parte. Infelizmente, devido a restrições de um dos programas ligados ao Kindle, as fotos de Gerardo Lazzari ficaram de fora desta primeira versão. O belíssimo trabalho pode ser conferido na versão impressa, que segue à venda pela internet, com envio a preço fixo para qualquer lugar do Brasil. Se você mora no exterior e não dispõe de um leitor digital, não se chateie: mande e-mail para editoraelefante@gmail.com que resolvemos seu problema.

Sobre as novas tentativas de deslegitimar Corumbiara, caso enterrado

Partiu de um movimento social o ataque mais feroz e sem fundamentos contra Corumbiara, caso enterrado, seu autor, João Peres, e a Editora Elefante. Não chega a surpreender: enquanto redigíamos e editávamos o livro, sabíamos do incômodo que surgiria entre os que procuram uma leitura de fácil digestão, polarizada entre heróis e vilões, ao estilo das telenovelas.

As tentativas de deslegitimar nosso trabalho apareceram exatamente no primeiro e no último dias da turnê rondoniense de lançamentos e debates sobre a obra: 10 e 21 de setembro. Ambas tentaram vincular o autor do livro ao PT e à CUT como estratégia para desacreditar uma investigação jornalística profunda, ampla e plural que se traduziu no mais completo trabalho já publicado sobre a história e os desdobramentos do chamado “massacre de Corumbiara”.

A primeira onda de mentiras foi trazida à tona por veículos da imprensa de Rondônia: Rondônia Atualidades, News Rondônia e Folha de Vilhena. As novas acusações são igualmente inverídicas ao tentar conectar o autor do livro, João Peres, ao Partido dos Trabalhadores. O texto, porém, não é apócrifo: está assinado por uma organização chamada Liga dos Camponeses Pobres.

Tomamos conhecimento da existência do panfleto ao entrar no auditório do campus central da Universidade Federal de Rondônia (Unir), em Porto Velho, palco de nosso último evento no estado, após duas semanas de conversas frutíferas e respeitosas sobre o livro-reportagem, com participação e intervenção de vários segmentos da sociedade: estudantes, professores, indígenas, militantes, camponeses, religiosos etc.

Como confiamos na inteligência e no discernimento de nossos leitores, reproduzimos, aqui, como fizemos da primeira vez, mais esse ataque. Abaixo, rebatemos ponto a ponto as inverdades trazidas pelo panfleto. Lembramos que críticas a Corumbiara, caso enterrado são mais que bem-vindas. Tentativas de diminuir nosso trabalho com ofensas e mentiras serão sempre – e devidamente – repelidas.

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O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Crítica ao livro Corumbiara, caso enterrado, de João Peres/PT

O que dizemos:

O texto se refere quatro vezes ao autor de Corumbiara, caso enterrado como “João Peres/PT”, inclusive no título. Não existe qualquer relação ou vínculo de qualquer natureza entre o autor de Corumbiara, caso enterrado e o Partido dos Trabalhadores. Tampouco há qualquer relação ou vínculo de qualquer natureza entre a Editora Elefante, que publicou o livro-reportagem, com a sigla petista. Trata-se de uma obra e uma editora autônomas e independentes, viabilizadas por recursos próprios, obtidos com muita dedicação. Desafiamos a Liga dos Camponeses Pobres a comprovar nosso pertencimento ao PT ou a qualquer outro partido, movimento social ou central sindical.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

O livro Corumbiara, caso enterrado está sendo lançado em todo o Brasil com ampla cobertura dos monopólios da imprensa.

O que dizemos:

Infelizmente, Corumbiara, caso enterrado não está sendo lançado em todo o Brasil. Tampouco recebeu ampla cobertura dos monopólios de imprensa. Houve, até agora, lançamentos em apenas três estados: São Paulo, Distrito Federal e Rondônia. Tanto o autor como a Editora Elefante têm muito interesse em apresentar o livro-reportagem pelos quatro cantos do país. Contudo, os exemplares estão prestes a se esgotar. E, mesmo que não estivessem, não temos recursos para bancar tamanha turnê. Dependemos de convites institucionais, como ocorreu em Rondônia, onde recebemos apoio do Instituto Federal de Rondonia (Ifro) de Colorado do Oeste para as passagens aéreas e de uma ampla e desinteressada rede de solidariedade que viabilizou nosso alojamento nas cidades por onde passamos. Coincidências também podem viabilizar o lançamento do livro em outros estados, como ocorreu em Brasília, quando o autor aproveitou uma viagem a trabalho e articulou, com apoio de amigos e colegas de profissão, um pequeno evento na capital federal. Estamos abertos a propostas para espalhar Corumbiara, caso enterrado por outros cantos do país. Temos conversações em andamento para participar de debates sobre o livro em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Quanto à cobertura midiática, conseguimos, com grande esforço de divulgação, fazer com que Corumbiara, caso enterrado recebesse a atenção de vários veículos de imprensa, em sua maioria, de circulação regional. Nenhum deles, porém, pode ser considerado parte dos monopólios de imprensa. Os grandes meios de comunicação ficaram sabendo do livro, porque os avisamos, mas não se interessaram em noticiá-lo. Tampouco se interessaram em noticiar o aniversário de vinte anos do “massacre de Corumbiara”. Pode-se encontrar no saite da Editora Elefante uma lista dos veículos de mídia que deram espaço ao livro – e também nossa crítica ao desinteresse dos grandes e dos pequenos meios de comunicação que em 9 de agosto de 2015 preferiram “esquecer” do conflito que deixou ao menos doze mortos na fazenda Santa Elina.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Já na contra capa, se auto proclama “uma nova chance de se conciliar com a realidade” e na página 15, promete honestidade e imparcialidade.

O que dizemos:

Em nenhum momento Corumbiara, caso enterrado promete imparcialidade. Promete, sim, honestidade com o leitor. Nem o autor nem a Editora Elefante acreditam no conceito de imparcialidade: uma abstração impossível, inalcançável, uma vez que qualquer escolha já denota, por si só, interesse, visão de mundo, subjetividade: parcialidade. A imparcialidade não existe porque o ser humano não é imparcial. Já a honestidade do autor se reflete na tentativa de ouvir representantes de todos os lados envolvidos na história e nos desdobramentos do chamado “massacre de Corumbiara”. Infelizmente, muitas pessoas e organizações se recusaram a conceder entrevistas. Uma delas foi a Liga dos Camponeses Pobres, que, apesar dos inúmeros pedidos do autor para que fosse recebido por dirigentes do movimento para uma conversa franca e aberta, preferiu manifestar-se por e-mail – o que prejudica enormemente a comunicação. Outros que se recusaram a conversar foram membros e comandantes da Polícia Militar de Rondônia, grandes proprietários de terra da região, o juiz Glodner Pauletto, que expediu o mandado de reintegração de posse da Santa Elina, o ex-governador Valdir Raupp, hoje senador, e seus colaboradores mais próximos à época dos fatos. Quem decidiu falar foi plenamente ouvido. Os entrevistados tiveram suas versões respeitadas, mas também foram expostos a contradições. Até agora, nenhum deles iniciou campanhas difamatórias contra o livro, como está fazendo a Liga dos Camponeses Pobres.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

As páginas escritas por João Peres, certamente com a supervisão de alguns quadros do PT, são tendenciosas.

O que dizemos:

Não houve qualquer supervisão de quadros petistas nem de nenhum outro partido, movimento social, central sindical ou grupo político durante todo o processo de apuração, escrita, edição e publicação do livro. Novamente, desafiamos a Liga dos Camponeses Pobres a comprovar tamanho delírio.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Apesar de criticar o latifúndio, o ex-governador Valdir Raupp (PMDB) e alguns oficiais das polícias, apresentando dados concretos, esmiuçando a farsa da investigação e julgamento, faz isso para confundir e esconder seu verdadeiro objetivo: atacar a luta camponesa combativa e defender o PT e o oportunismo.

O que dizemos:

O objetivo de Corumbiara, caso enterrado está expresso na Introdução do livro e nas diversas entrevistas, debates e palestras dos quais o autor, João Peres, participou ao longo dos últimos meses. “O que se pode oferecer é honestidade. Verdade, ao final destas páginas, cada um terá a sua”, expressa o primeiro capítulo do trabalho. Por mais que venha tentando – e conseguindo – buscar protagonismo nos desdobramentos do episódio ocorrido na Santa Elina em 1995, a Liga dos Camponeses Pobres é uma personagem bastante secundária tanto no chamado “massacre de Corumbiara” quanto no livro Corumbiara, caso enterrado. A organização sequer existia na época dos fatos. Reafirmamos que não há qualquer interesse em “atacar a luta camponesa combativa e defender o PT e o oportunismo”. É um tremendo egocentrismo do movimento acreditar que 304 páginas, com tiragem de mil exemplares, foram produzidas unicamente para atacar a Liga dos Camponeses Pobres. Fosse este o propósito, seria desnecessário realizar mais de 70 entrevistas, vasculhar milhares de páginas de documentos e investir centenas de horas em reflexão para entregar ao leitor uma narrativa clara e complexa. Bastariam poucos minutos para ter nas mãos um texto panfletário, repleto de mentiras e acusações sem fundamento, como outros meios de comunicação já fizeram com a organização.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

O PT tenta com este livro se mostrar apoiador da luta das famílias de Santa Elina e esconder a realidade: nos últimos 20 anos, 12 dos quais sob gerenciamento petista, melhorou a situação do latifúndio e piorou a situação dos camponeses, populações indígenas, ribeirinhos e quilombolas, especialmente de suas lideranças combativas.

O que dizemos:

Pode ser que o PT tente “se mostrar apoiador da luta das famílias de Santa Elina e esconder a realidade”. Mas, se o faz, não é por meio das páginas de Corumbiara, caso enterrado. O livro não tem nada a ver com o partido. Novamente, repetimos que tanto o autor como a Editora Elefante não possuem qualquer relação nem com o PT nem com nenhuma outra sigla.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Há anos, Rondônia divide com o Pará o posto de estado com mais mortes em conflitos por terra, mas para João Peres/PT isso não importa, pois “Rondônia adotou uma correção de rumos nas operações de reintegração de posse” (p. 22).

O que dizemos:

Obviamente, o autor não ignorou o vergonhoso posto de liderança ocupado por Rondônia na lista de mortes no campo elaborada anualmente pela Comissão Pastoral da Terra. Seria de uma inenarrável incompetência jornalística passar batido por tal informação. Na página 20 de Corumbiara, caso enterrado, pode-se ler o seguinte: “Em 2012, Rondônia se superou e roubou do Pará o topo da desonrosa lista de mortes no campo elaborada todos os anos pela Comissão Pastoral da Terra ”. Na página 32: “O histórico do estado é pouco alvissareiro para quem cobra reforma agrária: está sempre entre os primeiros da lista de assassinatos rurais elaborada todos os anos pela Comissão Pastoral da Terra”. É claro que a violência do campo rondoniense importa: é uma prova cabal de que o caso de Corumbiara é assustadoramente atual, não apenas para o estado, mas para todo Brasil – o que reforça a importância do livro. Quanto à “correção de rumos” da Polícia Militar de Rondônia no que se refere a operações de reintegração de posse, realmente houve uma mudança de postura das autoridades no momento de se desalojar fazendas tomadas por sem-terra. Isso não significa que as forças policiais tenham deixado de ser violentas, truculentas e defensoras do grande poder econômico contra os camponeses que lutam pela terra. Significa apenas que não há registro de que o conjunto de erros, açodamentos, ilegalidades e horrores cometidos em 9 de agosto de 1995 tenha voltado a ocorrer no estado — ao menos não nas mesmas proporções.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Não podíamos esperar tratamento diferente do PT, nós que sempre os desmascaramos como sendo farinha do mesmo saco, do PSDB, DEM, Pecedobê e todas as outras siglas do Partido Único.

O que dizemos:

Novamente: não temos vínculo com o PT nem com nenhum outro partido…

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Não deixaremos que este lixo produzido pelo PT manche a memória dos bravos combatentes, dos homens, mulheres e crianças que deram suas vidas em 1995 lutando pelo sonho de um pedacinho de terra, nem as organizações populares, democráticas, revolucionárias que seguem lutando, enfrentando toda sorte de violências, ameaças, difamações, prisões, desaparecimentos, torturas e assassinatos, assim como os povos indígenas Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, dispostos a lutar até a morte por suas terras.

O que dizemos:

A Liga dos Camponeses Pobres tem todo o direito de considerar Corumbiara, caso enterrado um “lixo”. Só não pode sair por aí afirmando que se trata de um “lixo produzido pelo PT”. Conforme já afirmamos cinco vezes, e ainda afirmaremos algumas mais, nem o autor nem a Editora Elefante possuem relação com o PT ou com qualquer outro partido. Nenhuma sigla, quadro, liderança ou verba partidária esteve envolvida no processo de produção do livro.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

A política agrária pró-latifúndio do PT não aparece no livro.

O que dizemos:

Críticas ao quadro atual da reforma agrária são formuladas em várias partes do livro. Desnecessário pinçar uma à guisa de comprovar a ideia. Não bastasse isso, o tema foi recorrentemente tratado pelo autor durante os eventos em Rondônia. Em alguns deles, membros da Liga dos Camponeses Pobres e seus apoiadores estavam presentes.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Posteriormente, fruto dessa luta, ocorreu uma “reunião” em Ji-Paraná com Paulo Vannuci (sic), então secretário de direitos humanos do governo federal (coincidentemente João Peres já trabalhou para essa secretaria de gerenciamento do PT)

O que dizemos:

O autor foi um dos profissionais que trabalharam como freelancer para um livro publicado em 2010 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Na ocasião, dirigiu-se a Porto Velho para formular um relatório sobre a situação do presídio de Urso Branco, alvo de denúncias na Comissão Interamericana de Direitos Humanos – mesma instituição que em 2004 criticou o Brasil pelas deficiências na investigação e no julgamento dos responsáveis pelo caso Corumbiara. Tenta-se conectar o ex-ministro Paulo Vannuchi ao livro. João Peres só conheceu Vannuchi em 2012, quando o ex-ministro passou a assessorar politicamente os veículos da Rede Brasil Atual, onde trabalhou entre 2010 e 2014. O que havia era uma relação profissional, geralmente tensa, sem qualquer aproximação pessoal ou convergência ideológica.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

João Peres/PT mente descaradamente sobre a ocupação em Brasília na página 270: afirmando que Codevise, Fetagro e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara organizaram esta luta e omitindo as divergências políticas que a LCP tem com a Fetagro, insinuando que a LCP estava interessada apenas no dinheiro do projeto.

O que dizemos:

Simplesmente transcrevemos o que está à página 270: “Em agosto de 2007, aos doze anos de ‘aniversário’ do caso, essa soma de forças contraditórias foi a Brasília reivindicar um pacote de medidas que tinha como ponto central a concessão de indenização às famílias. O acampamento de 19 dias na Esplanada dos Ministérios resultou na assinatura de um convênio entre a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e a Fetagro. Os R$ 98 mil liberados para a assessoria jurídica na busca de reparação financeira logo desembocariam em novo motivo para acusações.”

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

No livro todo, o PT aparece como um apoiador da causa dos camponeses de Corumbiara, coisa que, de fato, nunca foi.

O que dizemos:

Não conseguimos entender de onde a Liga dos Camponeses Pobres extraiu essa acusação. Procuramos pelas 304 páginas e não achamos referência que permita aferir essa ideia.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Na página 114, o autor cita uma fala de Lula defendendo a indenização, mas em nenhum momento questiona o fato dela não ter saído ainda.

O que dizemos:

A contestação ao fato de a indenização não ter sido concedida é tema da porção final do livro. Ocorre que, pela distribuição constitucional de poderes, cabe ao Tribunal de Justiça de Rondônia deliberar e decidir pela reparação às vítimas. De todo modo, o autor deixa claro, no livro e nos debates de que participou, que entende que o governo Lula poderia ter feito mais não apenas por essa questão, mas pela população rural de baixa renda como um todo.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Sob a direção do PT, o Incra diminuiu o tamanho dos lotes, distribuiu mal as fontes de água, deixando mais parcelas secas, mudou o sentido dos lotes fazendo perder as estradas, casas e roças que os camponeses construíram com tanto esforço. Novamente, João Peres não viu nada disto em seus dias de viagem, pesquisa e entrevistas? Ele deve ter sido acometido de cegueira e surdez seletivas, quem sabe?

O que dizemos:

A surdez e a cegueira seletivas a que se refere a Liga dos Camponeses Pobres dizem respeito às mudanças feitas pelo Incra na divisão de lotes da fazenda Santa Elina. A organização defende que o corte popular feito por ela era muito melhor em termos de distribuição de água e de tamanho da área. De fato, o autor não conheceu a divisão promovida pela entidade porque visitou a fazenda quando a repartição organizada pelo Incra já estava em curso. Porém, nada impedia que a Liga dos Camponeses Pobres apresentasse a João Peres sua versão sobre a história. Quando teve a oportunidade de fazê-lo, no entanto, abriu mão. Como já dissemos, o movimento prefiriu responder perguntas por e-mail.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

No livro não são economizados adjetivos negativos sobre a LCP: manipuladora, faz “do coletivo uma voz em uníssono em que impressões pessoais desaparecem” (p. 253) e inventa o oportunismo de outros movimentos só para criar sua imagem de revolucionária (p. 256); igual aos latifundiários, ameaça Claudemir de morte e impede seu retorno à Rondônia (p. 199, 248, 288); alimenta a vaidade das lideranças (p. 197) e tenta comprá-las com tratamento de saúde (p. 136), ao contrário da CUT, que quando faz o mesmo é considerado solidariedade!

O que dizemos:

Em duas das três páginas apontadas pela Liga, 199 e 248, o que há é a visão do próprio Claudemir de que sua divergência com a organização resulta em risco concreto de morte. Na terceira das páginas, 288, não há qualquer menção à Liga dos Camponeses Pobres. Apesar disso, recordemos que um manifesto da entidade literalmente diz: “quem são os culpados e aqueles que hoje tentam escondê-los da nossa fúria serão esmagados da mesma forma”. Tampouco dissemos, à página 136, que a Liga dos Camponeses Pobres tentou comprar lideranças oferecendo tratamento de saúde. Apenas relatamos que a organização ajudou Claudemir no tratamento de saúde, do mesmo modo que fizemos com a CUT. O mesmo vale para a acusação de que se alimenta a vaidade das lideranças. De novo, apela-se à paranoia na tentativa de enxergar como diferente aquilo que é igual.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

O livro foi encomendado numa boa hora, em que operários de Jirau, metalúrgicos do Rio de Janeiro e professores do Rio Grande do Norte colocaram pelegos da CUT para correr

O que dizemos:

De novo, quantas vezes será necessário?, negamos vínculo com a CUT. E desafiamos a Liga dos Camponeses Pobres a comprovar que o livro foi encomendado por esta ou quaisquer outras organizações. Note-se o esforço do movimento em atrelar Corumbiara, caso enterrado ao petismo. Por quê? Qual é o objetivo de repetir e repetir e repetir uma mentira?

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

João Peres insinua nas páginas 254 e 255 que a LCP teria laços com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o Sendero Luminoso no Peru e entidades camponesas mexicanas. Na verdade isso não passa do velho e ensebado discurso repetido inúmeras vezes pelas viúvas do regime militar e pelos monopólios de comunicação.

O que dizemos:

Corumbiara, caso enterrado não insinua que a Liga dos Camponeses Pobres tem ligação com organizações paraestatais colombianas, peruanos e mexicanas. O livro apenas diz: “Seria, porém, coerente que um grupo que desconhece o Estado como ator legítimo buscasse ajuda e troca com agremiações similares de realidades similares. Pessoas me relataram ter participado de encontros da Liga em que estavam presentes integrantes de algumas dessas organizações latino-americanas.”

Pode-se negar a acusação de que a Liga tenha relação com as Farc e Sendero Luminoso, mas não se pode negar que essa acusação existe. E o autor registra esse fato sem qualquer juizo de valor. O “discurso repetido inúmeras vezes pelas viúvas do regime militar” não é reproduzido em Corumbiara, caso enterrado porque o tratamento e a intenção do livro são radicalmente diferentes de tudo que foi publicado pela imprensa até então. Logo, não há condenação ou criminalização do movimento. O trecho em questão apenas diz que seria legítimo que uma organização que entende que o Estado não a representa procurasse intercâmbio com entidades de ideias convergentes de outros países.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Tentam com isso criminalizar nossa luta para confundir a opinião pública, nos isolar e justificar suas campanhas de perseguição, repressão e assassinatos. O que João Peres faz é reforçar esse discurso ao reproduzir o que lhe sopram nos ouvidos. Para alguém que pretende se promover como jornalista honesto e imparcial, isso é no mínimo vergonhoso.

O que dizemos:

De novo, a Liga dos Camponeses Pobres está desafiada a apontar quem sopra nos ouvidos do autor de Corumbiara, caso enterrado. Aquilo que está nas páginas do livro é fruto de apuração rigorosa e independente, promovida com o cruzamento de fontes e documentos de diversas origens.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Temos uma sede com endereço e telefone na cidade de Jaru.

O que dizemos:

Como já dissemos, a Liga dos Camponeses Pobres foi procurada inúmeras vezes. Só com muita insistência aceitou responder a uma entrevista, ainda assim por e-mail, sem que se pudesse conversar pessoalmente com seus líderes, seja em Jaru, seja no Cone Sul ou em qualquer outra parte de Rondônia.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

João Peres diz que o PT se empenhou muito em desapropriar a Santa Elina.

O que dizemos:

O livro expressa que a desapropriação da fazenda era um “produto disponível e imperecível na prateleira da redistribuição fundiária”. Talvez a Liga dos Camponeses Pobres tenha tido um problema de compreensão textual: o que se está a dizer é que a questão da Santa Elina representava um poderoso objeto de ganho político para algum quadro do Incra, e não que o PT se empenhou nessa questão.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

A Liga Operária e a LCP não são o monstro autoritário, representantes “dos coveiros de Corumbiara” (p. 288), que resolve na bala suas divergências políticas, que ameaça Claudemir (p. 199, 288) e até João Peres por manter “relação violenta com a imprensa” (p. 287).

O que dizemos:

De novo, a Liga dos Camponeses Pobres toma para si acusações que não lhe dizem respeito. Jamais um movimento que promove atos para recordar o caso de Corumbiara mereceria ser incluído no grupo dos “coveiros”. Seria ilógico aproximar uma organização que se esforça para manter viva a memória do massacre aos interesses que desejam enterrá-la para sempre. A afirmação da relação violenta da organização com a imprensa não é feita pelo autor, que busca simplesmente refletir um temor expresso por Claudemir Gilberto Ramos quando da primeira ida ao Cone Sul para o processo de apuração do livro. Aliás, em nenhum momento, nem no livro, nem nos debates realizados em São Paulo e Rondônia, o autor disse que foi ameaçado pela Liga dos Camponeses Pobres.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

Durante o lançamento do livro em Colorado D’Oeste, um representante da LCP pediu esclarecimentos a João Peres sobre a insinuação de que a LCP poderia ser culpada pelo assassinato de Adelino Ramos. Como bagre ensaboado que é, desconversou – método do PT e de todo o oportunismo para tratar divergências ideológicas políticas.

O que dizemos:

Deixando de lado a ofensa do “bagre ensaboado”, que não merece resposta, deve-se recordar que o autor respondeu com clareza, durante o evento em Colorado do Oeste, ao representante da Liga dos Camponeses Pobres, que se apresentou com o nome de Tiago. Não há no livro qualquer conexão entre a morte de Adelino Ramos e a organização, que de novo toma para si o que se refere a outrem. Corumbiara, caso enterrado deixa claro que a hipótese oficial para o assassinato do líder diz respeito a uma disputa com madeireiros. Ah, e outra vez: não temos qualquer ligação nem sabemos do que se trata esse tal “método do PT”.

O que diz a Liga dos Camponeses Pobres:

O autor diz que “governo Lula foi freado por interesses financeiros” (p. 31) e ainda conseguiu avanços sociais, através de programas como Luz para Todos, bolsa família, Prouni, Minha casa, minha vida (p. 197 e 109).

O que dizemos:

Mais uma vez, falta à Liga dos Camponeses Pobres empreender um esforço para separar o que é dito pelo autor daquilo que foi dito pelas fontes. O trecho em questão deixa claro que essa era uma ideia de Claudemir Gilberto Ramos quando da primeira entrevista, em 2011: “À medida que fala, revela certo grau de formação política. Critica o capitalismo e a burguesia pelos problemas do país, avalia que o governo Lula foi freado por interesses financeiros, defende a terra como um direito e vê Jesus Cristo e Che Guevara como exemplos revolucionários.” Todos os programas federais em questão não são apresentados como avanços do governo Lula, tema que foi longamente debatido com representantes da organização em várias ocasiões durante os eventos em Rondônia: o que se fez foi mencionar ProUni, Bolsa Família e Luz para Todos ao apresentar o caso de uma sobrevivente da Santa Elina que hoje é beneficiária destes projetos.

***

O autor e a Editora Elefante desejam o fim das campanhas difamatórias, mas não confiam no bom senso de seus interlocutores, que parecem demasiadamente atrelados a determinados interesses (quais?) para se dedicar a uma apreciação isenta e honesta do conteúdo de Corumbiara, caso enterrado. Confiamos, porém, em nossos leitores – aos quais deixamos, mais uma vez, o poder de decidir sobre o lugar da razão em toda esta inútil troca de cartas.

Aproveitamos para reafirmar nosso compromisso: continuaremos contando histórias que precisam ser contadas, a despeito da vontade e dos humores de partidos, movimentos, grupos e grupelhos que ou pretendem enterrá-las no terreno estéril do esquecimento ou creem deter o monopólio sobre uma memória que, como a terra, pertence a todos e todas.

Ei, Rondônia, obrigadaço!
Um abraçaço e um beijaço!

Ei, Rondônia, hoje mandamos um abraçaço! Nem em nossos melhores sonhos poderíamos imaginar tanto estardalhaço durante nossa passagem por esse estadaço, onde ajudamos a promover um desenterraço de um caso esquecidaço pelos poderosaços. Quinze dias depois, não sem algum cansaço, deixamos nosso obrigadaço!

Foi demais, né? Tudo começou meses atrás. Enquanto quebrávamos a cabeça para saber como faríamos para divulgar Corumbiara, caso enterrado na terra onde tudo começou, foram brotando amizades que desanuviaram tudinho. Em Colorado do Oeste, o professor Marcel Emeric Araújo, do Instituto Federal de Rondônia (Ifro), enfrentou a burocra-nossa-de-cada-dia para conseguir passagens aéreas que nos levassem ao Cone Sul.

Qual não foi nossa surpresa quando chegamos ao local, em 10 de setembro, e vimos um auditório lotadíssimo de estudantes, docentes e funcionários dispostos a encarar um dia todo de debates! Um começo e tanto: começaço. Muitos já tinham ouvido histórias sobre o chamado “massacre de Corumbiara”, uma reintegração de posse ocorrida na fazenda Santa Elina, e queriam compartilhá-las ao longo da prosa, que fluiu bem demais.

A estadia em Vilhena foi garantida pelos incansáveis Newton e Fraula Soares Pandolpho, que abriram as portas de casa de maneira cordial e sempre gentil. A disposição para a contação de causos e para ajudar com tudo o que fosse preciso tornou a passagem pela cidade muito agradável. Não queríamos ir embora tão cedo.

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E não fomos. O convite para participar do 1º Encontro de Comunicadores da Região Sul de Rondônia, promovido pela Câmara Municipal em 11 de setembro, possibilitou uma frutífera troca de ideias com jornalistas que vivem o cotidiano local. No mesmo dia, debatemos Corumbiara, caso enterrado com alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (Unir). A turma tem pensado em uma ampla reforma curricular – e não perdemos a chance de dar uns pitacos sobre mídia independente em meio à prosa com dois sobreviventes do caso de Corumbiara que carregam no corpo e na memória as marcas da violência.

Rumamos para o centro do estado. Em Rolim de Moura, encontramos a hospitalidade e o entusiasmo de Carlos Alexandre Trubiliano, professor de História na Unir com quem vínhamos trocando figurinhas ao longo das últimas semanas. Tivemos a honra de encerrar a aula inaugural do curso de Licenciatura em Educação no Campo, voltado a formar integrantes de movimentos sociais para que atuem como professores em suas próprias comunidades.

Mais cedo, demos um pulo em Cacoal, onde conversamos com alunos do Ifro e da Escola Estadual Josino Brito. O interessante foi notar como a maioria da plateia, com cerca de duzentas pessoas, não conhecia a história ocorrida em Corumbiara, o que tornou o evento ainda mais relevante: nosso livro-reportagem tem o propósito de ajudar a fazer com que o caso seja tirado do esquecimento.

Cumprida essa etapa, subimos um cadinho até Ji-Paraná, segunda maior cidade de Rondônia. Já nos esperavam as irmãs Renata e Juliana Nóbrega, que articularam muita gente para garantir que o livro pudesse ser amplamente debatido, e a Renata Garcia, que convidou veículos de imprensa para conversar com o autor de Corumbiara, caso enterrado.

Na noite de 15 de setembro, cerca de 250 pessoas foram ao auditório da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) para um dos encontros mais produtivos durante toda nossa passagem por Rondônia. Dirigentes sindicais, integrantes de movimentos sociais, universitários, funcionários do Incra, advogados e indígenas fizeram uso da palavra e enriqueceram o evento com suas experiências e pontos de vista sobre a violência no campo.

Na Unir, na quarta-feira, 16 de setembro, os alunos da licenciatura intercultural se reuniram com o autor do livro, João Peres, para uma conversa sobre as relações entre a violência contra sem-terra e indígenas. O curso reúne representantes de mais de vinte nações indígenas de Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, e tem como objetivo a formação de professores habilitados a atender às demandas educacionais de seus povos.

No dia seguinte, Ouro Preto do Oeste foi o palco escolhido para uma conversa sobre a questão agrária no país. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais recebeu um público formado por professores e alunos da rede pública e integrantes de movimentos sociais. Numa noite das mais agradáveis, discutiu-se a relação entre o caso de Corumbiara e a situação atual de Rondônia — depois, claro, de belos ponteios na viola caipira.

Em 18 de setembro, Ariquemes, cidade que vem experimentando crescimento rápido e preocupantes casos de violência, reuniu estudantes da rede pública estadual e do Ifro no Núcleo de Desenvolvimento Territorial do Vale do Jamari. O autor afirmou que o alto índice de homicídios do país, em especial entre os jovens e com frequência cada vez maior no interior, está relacionado a uma cultura de violência que permite o esquecimento de casos como o de Corumbiara. Nossos agradecimentos à professora Lara Cristina, da Unir, pela receptividade.

Depois de muitas andanças, foi hora de chegar a Porto Velho, quente como sempre, nas ideias e no termômetro, para sermos recebidos pela amiga Laura Massunari, que nos ciceroneou durante a estada na capital. A turma de Jornalismo da União das Escolas Superiores de Rondônia (Uniron), que vinha debatendo o livro desde que foi lançado, em 20 de julho, estava afiadíssima para uma conversa sobre os bastidores da grande reportagem e as características das iniciativas de mídia independente. A mesa-redonda montada pelos professores garantiu uma dinâmica muito bacana ao evento, arquitetado com muita antecedência pela professora Cristiane Paião.

Ufa! Chegamos a um primeiro fim de semana de descanso depois de uma jornada de poucas horas de sono e muitos debates profundos. Tomamos um banho de rio para recarregar as energias e enfrentar o dia derradeiro de conversas. Ou de não conversas. Infelizmente, uma parcela diminuta do movimento estudantil buscou inviabilizar os debates realizados na segunda-feira, 21 de setembro, no Ifro Zona Norte e no auditório da Unir Centro.

Nada que tenha manchado nossa passagem por Rondônia, dominada por debates sérios, respeitosos e construtivos, nos quais se reuniram mais de 1.500 pessoas. Com a solidariedade e o engajamento de muita gente, cumprimos o propósito de incomodar, tirar do fundo do baú, promover a memória de pessoas que merecem ser recordadas todos os anos como vítimas de um sistema injusto e desigual por essência.

Além de apresentar Corumbiara, caso enterrado aos rondonienses, fizemos questão de doar exemplares a bibliotecas locais. Assim, o livro ficará disponível para leitura a quem não conseguiu adquiri-lo.

Obrigadaço, Rondônia. Um beijaço! E nos vemos na próxima.

Movimentos tentam inviabilizar debates sobre Corumbiara, caso enterrado em Porto Velho

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Um setor reduzido do movimento estudantil rondoniense tentou inviabilizar os dois debates sobre Corumbiara, caso enterrado realizados na segunda-feira, 21 de setembro, nos campi do Instituto Federal de Rondônia (Ifro), na zona norte de Porto Velho, e da Universidade Federal de Rondônia (Unir), no centro da capital.

Com bandeiras, gritos de guerra e um arsenal bem ensaiado de certezas, os militantes – munidos da crença dogmática de que o livro-reportagem fora encomendado pelo PT para atacar uma organização que apoiam, a Liga dos Camponeses Pobres – interditaram qualquer discussão séria e aprofundada sobre o conteúdo da obra e passaram para o ataque direto contra seu autor, João Peres, tido como marionete do governo federal.

A estratégia dos jovens do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) contou com a conivência e participação de alguns professores do Ifro e da Unir, que ou ajudaram a entoar os vários mantras ideológicos que constrageram a plateia ou os aprovavam, quando não diretamente, com desbragados sorrisos e fotografias.

Os momentos mais embaraçosos puderam ser observados na Unir Centro. No Ifro, pouco antes, uma mesa de debates mais plural, com um repesentante do Ministério do Desenvolvimento Agrário e um professor de Geografia Agrária, além de uma tropa de choque estudantil reduzida, diluiu a algazarra. Na Unir, porém, o que deveria ter sido mais um lançamento de Corumbiara, caso enterrado promovido pela seção rondoniense da Associação Nacional de História (ANPUH) se transformou num ato de desagravo à Liga dos Camponeses Pobres.

Os exemplares ficaram esmagados num cantinho do auditório tomado por jornais e bandeiras da organização — cujos membros, movidos por sabe-se lá quais interesses, se veem alucinadamente como personagens centrais do livro e vítimas de uma campanha de criminalização conduzida por seu autor. Durante o evento, foram distribuídas cópias de um panfleto intitulado Crítica ao livro “Corumbiara caso enterrado” de João Peres/PT, que merecerá resposta específica da Editora Elefante.

Além de João Peres, a mesa de debates foi formada apenas por ativistas da organização, que fizeram uma tabelinha com a claque estudantil ao longo de três horas na tentativa de deslegitimar o livro não pelo seu conteúdo – uma vez que alguns confessaram sequer tê-lo lido – mas pelo que acreditam que ele representa: um delírio.

As perguntas repetitivas, que desconsideravam totalmente as respostas do autor, emulam uma desgastada tática do movimento estudantil bastante comum em assembleias universitárias: quando uma organização política toma a palavra e martela uma certeza até convencer a plateia – pelo grito e pelo cansaço, não pelos argumentos – com o objetivo de vencer a votação no final. É um roteiro bastante conhecido.

Não houve, porém, contabilização de votos. E a oportunidade de discutir com profundidade e pluralidade política a história e os desdobramentos do caso Corumbiara, a violência no campo, as relações promíscuas entre os poderes político e econômico e a transição incompleta do Brasil à democracia perdeu-se numa falsa, barulhenta, desgastante, inútil e pouco racional dicotomia entre mocinhos e bandidos que o livro tanto condena.

Autor de Corumbiara, caso enterrado
é recebido pelo bispo emérito de Ji-Paraná

dom antonio

Um dos pontos altos de nossa passagem por Porto Velho foi o breve — porém intenso — encontro que tivemos na manhã de segunda-feira, 21 de setembro, com o bispo emérito de Ji-Paraná, Dom Antonio Possamai, de 86 anos, reconhecido defensor dos direitos humanos e apoiador dos trabalhadores na luta pela terra na região central de Rondônia.

Dom Antonio nos recebeu com carinho e interesse numa arejada residência no centro da capital, onde vive desde que se aposentou como líder da igreja ji-paranaense. Em agradecimento pela prosa, o autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, presenteou o religioso com um exemplar do livro-reportagem que conta a história e os desdobramentos do conflito que deixou ao menos doze mortes no sul do estado em 1995.

É um tema que Dom Antonio conhece desde seus antecedentes. “Quando vim pra Rondônia, predominava a floresta. Chegavam caminhões carregados de migrantes. O Incra prometia muito, mas cumpria pouco. O povo teve necessidade de se organizar, mas o latifúndio avançou. Virou tudo pasto e o gado se instalou.”

À frente da diocese de Ji-Paraná entre 1983 e 2007, Dom Antonio se lembra claramente de quando as tensões sociais que predominavam no campo rondoniense desembocaram nas mortes de Corumbiara. “Condenamos o massacre dentro e fora da Igreja. Houve comunhão e apoio em toda a comunidade”, relatou. “Muita gente se dirigiu até lá para prestar sua solidariedade às vítimas.”

O bispo lamentou, porém, a lentidão do Estado em prestar assistência aos sobreviventes. “Até hoje o povo está na pior. Muitos dos que foram assentados em Theobroma, que faz parte da diocese de Ji-Paraná, precisavam de tratamento psicológico.”

Vinte anos depois do ocorrido, Dom Antonio analisa que a realidade rural rondoniense continua violenta. Para além dos números da Comissão Pastoral da Terra, que colocam Rondônia entre os estados com mais mortes no campo, atrás apenas do Pará, o religioso não nutre ilusões.

“Essa violência toda não parou e não vai parar, porque o povo não se conforma com tanta injustiça na distribuição de terras e os fazendeiros estão prontos para o conflito, com seus pistoleiros”, pontua. “O capital brasileiro é selvagem — e conta com a proteção do poder político. À medida que o povo cria a consciência de que tem direito à vida e à terra, passa a não aceitar que alguns poucos tenham tanta terra enquanto tantas pessoas não têm nada.”

Parte da responsabilidade pelo fortalecimento dos movimentos camponeses em Rondônia se deve ao trabalho pastoral de Dom Antonio, que desembarcou em Ji-Paraná depois de servir em Santa Catarina e no Recife. “Não tínhamos nenhuma orientação prévia da Igreja. Fomos aprendendo com o povo, cujo sofrimento nos fez criativos. Passamos a apoiar suas reivindicações”, recordou. “Não adianta ter fé se você não combate a injustiça e a violência, se você não se posiciona a favor da luta dos sem-terra.”

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