Ajeum mi’u: prosa, café e farinha; roças, quintais e terreiros
A Elefante está lançando Ajeum mi’u: confluências negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil, de Inara Nascimento & Rute Costa, uma publicação com o apoio do Instituto Ibirapitanga. Trata-se de um texto que, a partir da comida, demarca territórios de conhecimento e pensa o corpo, o espírito, o encontro, a partilha, o cuidado e a ancestralidade, percorrendo os ensinamentos de mestras e mestres desde a roça e o terreiro. Um livro cujo propósito é produzir reflexões sobre os sistemas alimentares no Brasil a partir de perspectivas indígenas e afro-brasileiras. Publicamos abaixo o primeiro capítulo:
Prosa, café e farinha
Nosso desejo é que estas letras te alcancem como um convite à prosa. Nesta mesa, além da nossa companhia, temos café e farinha.
A farinha d’água, da baguda — uma farinha de mandioca de maior granulação —, bota pra descansar na água, com um pouquinho de sal. A farinha toma água, cresce, vira massa. Pega a porção de massa de farinha, molda nas mãos, frita em óleo ou gordura, em imersão. Deixa dourar até ficar com cor de fim de tarde quente, alaranjada. Fritinhos de farinha d’água com café. Eu, Inara Nascimento, compartilho aqui a receita de Naná, minha mãe.
Para acompanhar, café com garapa. Eu, Rute Costa, compartilho a receita que aprendi com a Dona Preta, mestra quilombola de Machadinha, Quissamã (RJ): caldo de cana vai ao fogo até ferver. Despeja o líquido flamejante no pó de café, acomodado em coador de pano. É uma bebida que se aprecia gole a gole, enquanto se observa a moda do povo pela janela da cozinha. A receita e os conselhos pertencem à saudosa cozinheira.
Apresentamos esta escrita feita por corpos-mulheres racializados, negros e indígenas. Em nossos corpos estão inscritos nossos territórios, as marcas das opressões que nos atravessam, nossa ancestralidade, nossas resistências e nossas lutas. Com nossos corpos também escrevemos as ciências, os movimentos e as sapiências que produzimos, e, com os pés no chão, também nos posicionamos.
Marcar nosso lugar de enunciação como mulheres negra e indígena é afirmar também o ponto de partida de nossa produção de conhecimento: nosso modo de saber entra em conflito com o paradigma cartesiano, científico, moderno, ocidental, branco, patriarcal e capitalista.
Nossa tessitura dos comuns — dos saberes, fazeres e tecnologias tradicionais — dá contorno e sentido às memórias de nossa ancestralidade e de nossas comunidades. As nossas sabenças insurgentes, as aprendemos com as nossas mais velhas. E as nossas práticas de cuidado — conosco, com as nossas e com o território — se configuram como transgressões, práxis políticas, elementos imprescindíveis para a organização e a luta comunitária.
Na língua portuguesa, a comida quase sempre precisa ser adjetivada para se tornar compreensível: comida industrializada, comida tradicional, comida congelada, comida de boteco, comida de santo. Essa forma de nomear mostra de onde ela vem e o que representa, mas também revela como a língua busca enquadrar e categorizar o alimento. A nomeação, nesse sentido, pode ser um ato colonial, pois tenta classificar, conter e reduzir algo que, em nossas vivências, é muito mais amplo e profundo.
Quando dizemos ajeum, em iorubá, ou mi’u, no idioma sateré-mawé, não estamos apenas falando de comida; estamos demarcando territórios de conhecimento a partir de nossas línguas, e isso é um gesto de contracolonização. Por meio dessas palavras, o alimento não se restringe ao prato; envolve território, corpo e espírito; é encontro, partilha, cuidado e ancestralidade. Assim afirmamos nossa maneira de existir, sentir e alimentar, recusando a lógica que busca nos limitar e insistindo que a comida é, antes de tudo, vida em movimento.
Aconchegadas em nossa cozinha, compartilhamos esta publicação, cujo propósito é produzir reflexões sobre os sistemas alimentares no Brasil a partir de perspectivas indígenas e afro-brasileiras, evidenciando os debates mais atuais e elencando as principais questões e os principais conceitos, atores e confluências.
Ao longo das próximas páginas, nossas memórias se misturam com algumas ideias essenciais para a orientação do debate sobre alimentação, apresentadas a partir das nossas perspectivas negra e indígena. Convidamos quem nos lê a entender alguns fundamentos básicos, sempre com base nas narrativas de nossas mestras e nossos mestres e em referências acadêmicas, apoiando reflexões críticas sobre os processos alimentares.
No fim desta publicação, tecemos, com fios de encontro, uma tapeçaria viva de conexões que envolvem gentes comprometidas com um mundo cultivado na esperança. É uma roda de tramas em processo, que nasce do mapeamento de saberes e fazeres de povos indígenas e negros que florescem no terreno fértil dos sistemas alimentares.
Venha confluir conosco, em nossas cozinhas e roças, nossos quintais e terreiros!
Inara Nascimento & Rute Costa
Roraima e Rio de Janeiro, verão de 2025-2026
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Ilustrações do livro: Yacunã Tuxá / Acervo Ibirapitanga











